sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Eu Não Vi, Mas Me Contaram...: 6) E aí, doido?

Rapaz, hoje eu sosseguei, tô aqui tranquilo no meu canto, os fi tá tudo criado, tenho meu terrenim, minhas plantação, minhas galinha, minha apusentaduria... Quem me vê com a cabeça toda branca nem imagina que eu já fui um cabra véi munto do desmantelado. Se eu lhe contar as presepada que eu já passei, você não acredita. Eu tenho uma conta grande pra acertar com o barbudo lá de cima. Porque se inda tô vivo é só por Deus, porque, se fosse por mim mesmo, já tinha batido as bota faz é tempo. Mas ó, se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que, quando o cabra tá lascado, tem mais é que dar uma de doido. Porque, por inzemplo, se você baixar a cabeça, aí os outro pinta e borda, lhe faz de gato e sapato. É sério!

Vou lhe contar uma, só uma, pra não tomar muito o seu tempo nem o meu. Você sabe que eu morei muntos ano em São Paulo, não sabe? Cheguei lá era o ano de 1969, soltêro e farrista. Escute essa: eu ia munto na Praça da Moça, em Diadema. Lá sempre tinha uns show bom e ficava lotado de caboca. Pois então. Teve uma noite que nós fumo ver um show de forró lá, eu e o finado Mundim. Ele era novo de São Paulo, sabe como é? Inda mei matuto, desconfiado... Pois então. Nós fumo com um opalão vermei que eu tinha. Rapaz, era uma máquina! É sério! Eu inda butava um oleozim na gasolina, que era pra ele ficar envenenado, e o bicho saía roncano que só, sabe como é? Era proibido, mas aí é que era bom.

Pois então. Nós cheguemo lá e já se abufelemo com duas caboca mei escurinha e larguemo o pau a dançar. E dancemo arrochado, até o show acabar. Aí deu uma sede, e nós arrastemo as caboca prum buteco que tinha por ali nas redondeza; e tome cerveja. E tome cachaça, que eu quando bebia era chegado em molhar o bico com uma pinguinha. Hoje não, que eu já me apusentei dessas fulerage, tomo só uma cerveja de vez em nunca, só nas festa, e quando a muié se distrai; mas na época eu só saía dos lugar onde eu entrava quando tivesse trincano. É sério! Pois então. Naquela noite, minha intenção era arrastar as caboca pralgum canto e sentar a vara. O finado Mundim era mei divagar, mas tano comigo até cego inxerga. É sério!

Pois deixe que, na hora de nós arrastar as caboca, uma delas deu fé que já tinha passado da mea-noite e não tinha mais condução, daí o jeito foi nós levar elas. Hoje eu não sei como é que é, mas, naquela épuca, dava mea-noite e não tinha mais condução era nenhuma. Se o cabra  se distraísse, passava a noite na rua. Eu, ave-maria!, passei munta madrugada em buteco, esperano o dia raiar. Mas foi antes de comprar meu opalão. Depois eu virei pleibói. Pois então. Voltano pra prosa; eu inda tentei aplicar pra cima delas, mas elas tava firme na intenção de voltar pra casa. Foi aí que eu fiquei cismado, e pisquei pro finado Mundim como quem diz “aí tem”. Mas o cabra, quando tá no inferno, o jeito é enfrentar o capeta.

Rapaz, nós entremo numas quebrada feia, pirigosa! E eu com meu opalão vermei roncano feito os seiscento, quebrano às esquerda, quebrano às direita... Perto de Diadema, já em São Paulo, depois da divisa, tem o bairro de Americanópolis, uma quebrada feia que só. É sério! E não é que nós fumo parar numa rua sem saída, ali pegadim com a Imigrantes? A Imigrantes é uma rodovia que vai dar em Santos. Pois deixe que, na hora que eu dobrei às esquerda, uma caboca disse “é aqui” e as duas já pularam do carro e se sumiram no mundo, que eu não dei nem fé de onde elas se meteram. Parecia uns fantasma. E foi aí que eu reparei que tinha um buteco na esquina lotado duns negão, que já foram saíno pra fora pra espiar o movimento. Rapaz, e era tudo uns armário. E chei dos cano, que dava pra ver o brilho de longe!

Aí foi que eu pensei “é agora”... As caboca devia de ser muié dos negão. O finado Mundim ficou numa tremedeira só e quis pular do carro e sair correno no mei dos mato, mas eu gritei “Fique queto, rapaz! E faça só o que eu fizer! Deixe comigo!”. Aí é o que eu digo: quando o cabra tá mei lascado, o jeito é ficar lascado e mei. Se eu acelerasse o opalão e ganhasse o mundo, os negão mandava era pipoco em nós. O jeito era dar uma de doido. É sério! Pois então. E sabe o que eu fiz? Dei uma ré, que ficou as marca dos pneu no chão, acelerei que nem os seiscento e enfiei o opalão com os dois pneu da frente na calçada de frente pro bar. E saí botano moral, com a mão na cintura representano que eu tava com um cano. Tava nada... Os cara deve ter pensado esse aí, ou é doido ou tá garantido.

Pois então. Não dei nem tempo pra seu ninguém dar um pio. Cumprimentei a negada toda, apertano a mão de cada um forte mesmo e olhano no oi de cada um. Eu dizia assim e aí, doido?”. É, chamava logo era de doido, pra eles ver que o doido era eu. Atrás de mim, o finado Mundim, todo se tremeno, me imitava. Pois deixe que eu bati a mão no balcão e disse pro dono do bar “e aí, doido? Me vê um conhaque”. O cabra, se tremeno mais do que o finado Mundim,  butou uma merdinha num copo e eu joguei foi no chão. Daí eu olhei pra ele bem sério e disse “macho, acabou o seu conhaque? Eu quero é a garrafa! Bote uma garrafa aqui, ligêro!”. Daí ele trôxe, eu pedi uns copo e enchi pra todo mundo, e derramano no balcão inda por cima. E disse “pode tomar, meu povo, que aqui não tem miséria, não!”.

Daí me virei pro dono do bar e disse pra ele trazer umas cerveja e servir todo mundo. E eu piscava pro finado Mundim e fazia de conta que tava bebeno o conhaque, mas deixe que eu só tava era representano, sabe como é? Daí eu comecei a olhar o relojão que eu tinha, e olhava e olhava, então virei e disse “Mundim, vamo simbora, que eu inda tenho um assunto pra resolver hoje”; depois virei pro dono do bar, pedi mais umas cerveja, perguntei quanto era, butei uma nota graúda no balcão e disse “pode ficar com o troco”. Cumprimentei todo mundo, com o finado Mundim atrás de mim me imitando, entrei no carro, dei um cavalo de pau e saí virado nos seiscento. Dei uma olhada pelo retrovisor e só vi foi os cabra me acenano. Tinham esquecido até das caboca. Por isso que eu digo: nesse mundo, de vez em quando o cabra só sai das presepada dando uma de doido.

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O conto acima é livremente inspirado em fatos reais. Estive recentemente em minha cidade natal, no interior do Ceará, visitando parentes, e ouvi de um deles a história que relatei, com a liberdade de que a literatura necessita. Ver eu não vi, mas quem me contou deu fé, e eu acredito. No mais, quem conta um conto...



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6 comentários:

  1. Querido Léo, senpre sensivel e inteligente. O que provei interessante é que vemos que esses " doidos' habitam periferias,não é? Grato pelo carinho.

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    1. É verdade, Camalle. Periferia esta de onde ambos viemos também, acrescente-se.

      Abração,
      Léo.

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  2. Muito Boooom, Léozinho! Transformando história contada em conto registrado.
    Esse tio, aí, heim! Deve ter muita coisa pra ser contada...
    Adorei!

    beijo e sucesso.

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  3. Muito bom primo! Sempre inspirado...

    Abçs de todos aqui.

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    1. Valeu, primo!

      Abraço pro povo todo aí também!
      Léo.

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