quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Crônicas Desclassificadas: 165) Uma barata chamada Franz

Quando certa manhã Franz acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se numa cama que não era a sua. Achou aquilo esquisito e puxou pela mente, tentando recordar os acontecimentos da noite anterior. Em vão; não conseguia se lembrar de nada. Pensou que podia ter bebido demais, saído com uma garota qualquer e passado a noite na casa dela, mas, 1, não estava de ressaca; 2, não havia mais ninguém naquela casa; e 3, não sabia em absoluto o que acrescentar na frente desse número. Como estava nu, e reparou no espelho da porta do guarda-roupa que não tinha se transformado numa barata, resolveu tomar um banho. Feita a higiene matinal (usou uma escova de dentes que decididamente não era a dele), voltou ao quarto, abriu o guarda-roupa e vestiu o que encontrou à mão ali.

Saiu sem trancar a porta, caminhou lentamente por um corredor que jamais havia visto na vida e parou em frente ao elevador em cuja porta estava escrito "Aviso aos passageiros: antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar". Não pôde conter um riso irônico ao perceber, quando a porta se abriu, que o mesmo não se encontrava ali, e sim o elevador. Estava no 13º andar de um prédio desconhecido. No quinto andar, a porta se abriu novamente e uma senhora idosa, ao entrar, cumprimentou-o com um "Bom dia, Ulisses". Ele, atônito, sem saber o que dizer, respondeu, inadvertidamente, "Bom dia, dona Berenice", ao que ela lhe sorriu, satisfeita. Nunca havia visto a mulher na vida, disse "Berenice" apenas pra rimar com "Ulisses", mas o que achou mesmo estranho foi o fato de ela ter aceitado o cumprimento.

No térreo, antes de sair do elevador, deixou que a senhora Berenice saísse primeiro, mas logo a ultrapassou, pra não ter que ficar de papo furado com a velha. Desceu quase correndo os três degraus e, ao ver o porteiro, notou que este repetiu o cumprimento da senhora, acrescentando um "seu" antes do "Ulisses", ao que ele respondeu com um "Bom dia, José", mas só porque achou que o sujeito tinha cara de José. O tal do José, ou fosse lá quem fosse, acenou respeitosamente antes de abrir o portão eletrônico. Franz andou até a esquina, onde leu os nomes das duas ruas, mas não reconheceu nenhum deles. Como avistou um pouco mais à frente um ponto de ônibus, resolveu ir até lá e pegar o primeiro que passasse. Não demorou muito, logo veio um, no qual ele entrou ligeiro, apesar de desconhecer seu itinerário.

Meia hora depois, fosse por instinto ou por cansaço, resolveu descer. Em frente ao ponto onde desceu, havia uma padaria. Deu-se conta de que estava faminto e entrou. Do outro lado do balcão, um rapaz simpático e sorridente, ao vê-lo, emendou um "Bom dia, seu Ulisses! O que vai querer, o de sempre?". Franz arregalou os olhos e se ouviu dizendo um "Bom dia pra você também, Osório. Claro, o de sempre". Puta que o pariu! Osório? De onde ele tinha tirado esse nome? E o mais incrível foi que o outro se virou cantarolando um pagode com naturalidade, como se realmente se chamasse Osório. Poucos instantes depois, voltou com um pão com manteiga na chapa, um suco de laranja e um café com leite no copo. Passados 15 minutos, Franz saía dali mais perdido do que quando entrara.

Caminhou a esmo, assoviando uma melodia que desconhecia, quando, do nada, desabou uma tempestade. Como estava sem guarda-chuva, correu pra se proteger e entrou no primeiro prédio que viu, esbarrando num rapaz, que lhe disse "Calma, Ulisses! Tem medo de água, é?". Ulisses, aliás, Franz, já indignado, gritou um "Não me enche o saco, Mané!". O outro, apaziguador, deu-lhe um tapinha nas costas, dizendo "Tô brincando, meu velho. Tá nervoso porque seu time perdeu ontem, né? Te conheço". Franz já ia dizer que não, ele não o conhecia, quando o moço mui amistosamente agarrou-o pelo braço e o conduziu até o elevador. Quando ele pensou que não, já estava dentro do mesmo, ops, do elevador, que parou no 13º andar.

Lá chegando, foi cumprimentado por várias pessoas que o chamavam de Ulisses, levou uma infinidade de tapinhas nas costas, ouviu muitas piadas sobre a derrota do time que não era o dele e, quando deu por si, estava sentado atrás de uma mesa sobre a qual jazia um computador desligado. Olhou pra um lado e pro outro e deixou escapar um "Que porra que eu tô fazendo aqui?". Mané, que estava sentado a sua direita, piscou-lhe e, condescendente, disse um "É o que eu me pergunto todo dia" seguido de uma estrondosa gargalhada. Lembrando-se de um provérbio chinês que dizia "fodido, fodido e meio", Franz viu-se ligando o computador, respondendo e-mails, atendendo telefonemas, carimbando papéis e fazendo mais uma série de coisas ilógicas, até chegar a hora do almoço.

Foi levado então pelos rapazes (que seguiam chamando-o de Ulisses) até um imenso refeitório que ficava no mezanino. Almoçou, ouviu o blá-blá-blá desinteressante de seus companheiros, vez ou outra, pra não dar na vista, soltava um riso amarelo ou fazia um sinal afirmativo com a cabeça, e assim os ponteiros de um relógio de pulso que ele usava (mas que não era dele) deram as 13h, e ele, ainda escoltado por aqueles homens igualmente vestidos, voltou ao trabalho (que também não era dele). À tarde, repetiu a cantilena da manhã, agora com um pouco mais de desenvoltura, dada a aborrecida repetição. No entanto, mais depressa do que ele imaginou chegou a hora de ir embora. Seus amigos (já quase os podia chamar assim) insistiram pra que ele os acompanhasse numa cervejinha, mas, alegando uma urgência qualquer, desvencilhou-se deles e tomou o primeiro ônibus que apareceu.

Pagou a passagem, passou pela catraca, sentou-se e, exausto, cochilou. Foi despertado por uma freada brusca ao mesmo tempo que ouvia o motorista soltar um "filha da puta!". Assustado, sem saber quanto tempo tinha dormido, deu sinal e desceu no ponto seguinte. E não é que se viu defronte ao mesmo prédio onde havia acordado de manhã? Decidido a dar um basta naquela kafkiana situação, resolveu subir até o apartamento do 13º andar e tirar tudo a limpo. Lá chegando, encontrou a porta encostada, como a havia deixado, e, ao entrar, gritou "Olá! Tem alguém aí? Olá!" etc. e tal. Percorreu todos os cômodos, mas, não, não havia ninguém. Vencido, sentindo-se preso dentro de um pesadelo, atirou-se à cama onde havia dormido na noite anterior e chorou até pegar no sono.

Na manhã seguinte, ao acordar de sonhos intranquilos, Franz (Ulisses ou fosse lá quem diabos fosse) encontrou-se numa cama que não era sua metamorfoseado num inseto monstruoso.


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