terça-feira, 8 de março de 2016

Crônicas Desclassificadas: 173) Sentido e sincero

Home, por Lilim/
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As lágrimas em seu rosto mais jorravam que caíam, era como se seus olhos fossem as janelas do último andar de um arranha-céu em chamas e as salgadas gotas fossem suicidas, atirando-se no vão, impelidas por uma força superior. Ele, no entanto, permanecia em silêncio, imóvel, meio como que hipnotizado, olhando-a fixamente. Era um pranto sentido e sincero, mas de felicidade, embora houvesse nele também um quê de horror. Chorava porque chegara à conclusão de que aquele era o momento mais feliz de sua vida, e sabia que não ia durar, não tinha como durar. Observava cada detalhe do corpo dela, tentando decorá-lo pra que, quando ela se fosse, ainda a conseguisse reter por inteiro na memória. Ela era perfeita, e seu sono também era perfeito. Admirando-a assim como a um quadro, sentia que era ele quem não cabia naquela obra de arte.

Sua respiração era graciosa, regular como a de uma criança (aliás, devia ter idade pra ser sua neta). Dormia o que costumamos chamar de o sono dos justos. Esparramada completamente nua sobre o leito onde horas antes haviam feito amor, ronronava tranquilamente, como quem se sente acima do bem e do mal, protegida de todas as vilanias da vida humana. O sol que a penetrava pela janela entreaberta injetava em sua pele bronzeada um delicioso e mágico contraste. As luzes lhe dançavam nos pelos escuros, tingindo-os de um dourado que chegava a cegar. Ele a via como se visse uma miragem, pois a pele dela, reluzente embora seca, parecia estar repleta de gotículas de umidade. Era como uma longa e majestosa estrada que nos dá a impressão de reter em determinados desníveis de sua superfície a água de uma chuva que não caiu. 

Não se conteve. Largou sobre a mesinha ao lado da qual passara a noite em claro o copo com uísque e foi se aproximando dela sorrateiramente, pé ante pé, tentando não produzir nenhum barulho que a pudesse despertar desse momento restaurador. Ajoelhou-se a sua frente, em verdadeira adoração, e, ainda com as lágrimas escorrendo por seu sulcado rosto, começou a lenta e laboriosa tarefa de mapeá-la inteira com a boca. Menos a beijava que a fotografava com os lábios, molhando-a de quando em quando com o sal de seu pranto. Esquadrinhou montes, reentrâncias, bifurcações, depressões, aclives, florestas e desertos; foi de vila em vila, de cidade em cidade, bebeu de seus rios, perdeu-se em suas matas, alucinado pela riqueza da geografia... Percorreu sem pressa aquela imensidão, como um beduíno que desfruta da jornada.

Até que, cada vez mais enlouquecido, com os olhos lhe querendo saltar das órbitas, conteve um gemido dilacerante, o que lhe fez aumentar ainda mais o pranto. Fincou as unhas que não tinha nos amarfanhados lençóis enquanto percebia o fatal intumescimento de sua outonal virilidade, que não teve forças (nem vontade) de combater. Controlou os gestos bruscos, selvagens, e invadiu uma vez mais a paradisíaca caverna; bandeirante... Cavalgou-a lenta e suavemente, enquanto ela jazia inerme e soltava aqui e acolá um grunhido paradoxal de fastio e prazer. A cavalgada, no entanto – fosse pela ansiedade do cavaleiro, fosse por sua triste figura já um tanto carcomida –, não durou mais do que dura um abjeto pensamento numa mente pura. Exaurido, aproximou suas mãos de dedos ossudos daquele pescoço de anjo. Chegou mesmo a apertá-lo por alguns segundos, mas algo o deteve. Soltou-o, enquanto lágrimas quentes caíam sobre o sêmen que banhava as costas da musa... que, se despertou, fingiu que não.

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Mirou o estranho no espelho. Fazia anos que deixara de reconhecê-lo. Nunca fora exatamente bonito, mas como chegara a se tornar aquele... aquilo... era-lhe simplesmente incompreensível. Os ralos fiapos de cabelos brancos; o nariz que fora inchando com os anos; as rugas que lhe invadiam cada centímetro do rosto; os olhos, outrora azuis, que agora possuíam um desbotado tom acinzentado; o corpo alto, encurvado e magérrimo, que não ganhara carne nem mesmo quando uma obtusa banha foi principiando a irromper ao redor do umbigo... Não, definitivamente aquele não era ele. Pensou em tomar uma ducha fria pra acalmar os ânimos, mas mudou de ideia, pois queria continuar impregnado do cheiro dela em seu corpo.

Voltou pro quarto, sentou-se na mesma poltrona onde passara a noite, bebericou mais um pouco de uísque, vagarosamente. Deixou que o líquido quente lhe anestesiasse a língua antes de engoli-lo. Só então se pôs a fitar o sol durante um tempo que lhe pareceu uma eternidade, até o astro-rei se resumir a uma longa mancha escura. Fechou os olhos e ficou contemplando seu negativo, entorpecido. Abriu-os abruptamente. Teria cochilado? Teria sonhado? Uma tímida luz de lua clareava o quarto escuro, lançando seus tênues raios sobre uma cama intacta, com seus lençóis e travesseiros arrumados... vazia. Virou de um gole o resto de uísque do copo e deixou que as lágrimas suicidas saltassem de seus olhos farta e copiosamente. Era um pranto sentido e sincero. De tristeza.

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Inspirado pelo romance A brincadeira favorita, de Leonard Cohen, dedico a ele este conto.

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Originalmente publicado aqui.

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