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domingo, 16 de julho de 2017

Os Manos e as Minas: 29) Eu e Teju Franco — Dois olhares (e uma canção) sobre a juventude


1) Síndrome de Benjamin Button

Pra mim, existem dois tipos de seres humanos: os que têm filhos e os que não têm. Eu, pertencente à segunda categoria, muitas vezes me flagro, com certa inveja e meio como se eu fosse um ET, observando (admirando) as relações entre pais e filhos. E dessas observações constatei uma coisa: a paternidade envelhece — ou amadurece; como queiram. É que, quando vejo um pai com um filho, noto que o senso de responsabilidade daquele faz que ele pareça mais velho do que realmente é, e o vejo como se ele fosse muito mais velho que eu, mesmo que se trate de um moleque. Mas, pensando bem, talvez o inverso é que seja a grande verdade: eu que, por não ter filho, às vezes ajo inconsequentemente, como se o moleque fosse eu. Não à toa, vira e mexe esqueço minha idade e gosto de imaginar que tenho ainda... mas, afinal, qual é minha idade mesmo?

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Crônicas Desclassificadas: 21) Música não é futebol

Um brilhante e querido parceiro em certa ocasião, em tom de desabafo, perguntou-me se íamos passar em brancas nuvens, ao que eu, sempre esperançoso e positivo, sem lhe dar tempo pra retrucar, respondi que música não é futebol. Se fôssemos aspirantes a craques da pelota, com nossas razoáveis décadas de semianonimato, poderíamos ser considerados velhos; porém, no ramo da música, estamos na flor da idade. Eu mesmo, às vésperas de me tornar um quarentão, sinto-me melhor que nunca, no auge de minha criação, afiado, crítico, sensível, vaidosamente humilde (ou seria humildemente vaidoso?), sem soberba, sem exageros... No ponto (e ao ponto?). Contudo, no entanto, não obstante, porém, todavia e blablablá, temos a mania de futebolizar a música, o que me parece... Não, não me parece... É, é um crime! A tendência atual é de que cheguemos a viver... sei lá, 90 anos? Assim, um camarada com 40 não viveu nem metade de sua vida. E, em se tratando de criação, então, é um menino! Falo de música porque é minha área, mas o que digo se aplica a todas as profissões.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Crônicas Desclassificadas: 9) Invasores de corpos

Sempre tive dificuldade em me adequar ao senso estético coletivo. Quando, vencido, cedia, sentia-me um alienígena dentro de uma roupa que não me traduzia. Na década de 80, por exemplo, voltou à moda o uso de cabelos compridos (esta é uma moda que sempre teima em ressuscitar), só que, desta feita, espelhando-se em Paulo Ricardo & cia ltda., o corte era aparadinho nas laterais e longo só atrás, meio que como um rabo de cavalo. Como todos os meus amigos aderissem, lá fui eu tentar o ridículo corte que em mim ficou ainda mais ridículo. Na tentativa de ficar parecido com o ex-RPM, fui traído por meus crespos cabelos, que, se rebelando, me deixaram mais parecido com um Amado Batista.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cordeiro em pele de lobo

Desde James Dean e Marlon Brando, passando por Elvis Presley, Jack Kerouac e Che Guevara, a rebeldia tem encantado gerações de jovens, que já tiveram o rock como instrumento, as drogas, a revolução sexual com o movimento hippie, o engajamento político e mesmo a literatura. No entanto, os anos se sucedem e a rebeldia vai amansando, amansando, até que, sem que se perceba, o rebelde, o lobo mau, tira sua máscara de lobo e revela sua verdadeira face, a de cordeiro. Quando se vê no espelho, “aquele garoto que ia mudar o mundo” não reconhece mais o cabeludo de ideias revolucionárias. A cabeleira deu lugar a uma digna calvície; o abdômen delineado expandiu-se até se transformar numa simpática barriguinha de chope; a velha calça jeans surrada foi aposentada, sendo rendida por um traje respeitoso envolto por um laço; a tão adorada guitarra foi escondida num porão, ou vendida, pra ajudar na prestação do apartamento; enfim, não restou nada daquela rebeldia. Com mulher e filhos que dependem de seu desempenho profissional, suas ideias chegam mesmo a se posicionar um tanto à direita, preza a tradição e os bons costumes, e, de quando em vez, expurga suas frustrações num balcão de bar ou no colo de uma amante.