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quinta-feira, 27 de junho de 2019

A Palavra É: 47) Fogueira

Havia dias que eu não escrevia quando resolvi encarar esta virtual folha de papel em branco e só abandoná-la quando a houvesse enchido de palavras, mesmo que carentes de significado. Algo ardia dentro de mim: a incendiária necessidade de escrever. Sou, mais que um homem de palavra, um de palavras. Só que, ao fixar esta folha sem saber o que nela viria a nascer, não me vinha nada. Resolvi usar de um subterfúgio: agarrei um dos poucos livros que trouxe pro Japão e pelo qual tenho muito apreço — Con buena letra, do espanhol Joaquín Sabina, que ganhei de meu querido amigo e parceiro Pedro Moreno, aliás, Edimundo Santos —, fechei os olhos, abri-o numa página aleatória e pus o dedo indicador sobre ela. Iria escrever sobre a palavra que meu dedo apontasse.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Joaquín Sabina en Portugués: 18) Pedro Moreno e a versão de "Y nos dieron las diez"

Esquerdas e direitas à parte, a música não pode parar. Afinal, aqui tratamos, sobretudo, dela. Aproveitei então pra sacar da manga a versão que fiz pra uma das canções mais populares de Joaquín Sabina. Em seus shows, quando ele começa o refrão dela, a plateia, em êxtase, canta junto com ele, a pleno gogó. Detalhe: é de um tempo em que Sabina ainda compunha a maior parte de suas canções só. Com o tempo, à formação de sua banda foram chegando músicos que, além de serem também bons compositores, de quebra eram grandes conhecedores de suas canções, como é o caso de Pancho Varona e Antonio García de Diego, que nos mais recentes discos de Sabina (à exceção dos que este gravou em parceria com Joan Manuel Serrat) têm sido responsáveis, juntos ou separadamente, pela coautoria da maior parte do repertório.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Joaquín Sabina en Portugués: 17) Denilson Santos e a versão de "La canción más hermosa del mundo"

O disco Dímelo en la calle, lançado em 2002, não correspondeu às expectativas dos fãs de Joaquín Sabina por um motivo muito injusto (fazer o quê, se a vida é injusta?): seu disco anterior, 19 días y 500 noches (1999), é considerado até hoje o melhor desse cantautor espanhol. Ok, Dímelo... não é um disco ruim, apenas nasceu depois do irmão gênio (não confundir com irmão gêmeo). E, quando um compositor dá o melhor de si num grande trabalho, dificilmente repete a proeza no seguinte.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Joaquín Sabina en Portugués: 16) Sonekka e a versão de "Siete crisantemos"

E eis que chegamos a setembro, este mês tão homenageado em nosso cancioneiro. E no feicebuque! Por ali tá um tal de setembro pra lá, setembro pra cá... um verdadeiro setembramento! Daí que, por falar em sete (sei, sei que o mês é o nono, mas não tenho culpa se se chama setembro), resolvi começar eu também o mês com o pé bom (que varia de pessoa pra pessoa), inaugurando a segunda leva das versões sabineiras com uma canção emblemática no que se refere a esse número. E, como foi Sonekka quem inaugurou a primeira leva, convidei-o pra puxar o bloco também desta (ele indo arrasta muito folião).

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Joaquín Sabina en Portugués: 15) Adolar Marin e a versão de "Que se llama soledad"

As coincidências, quando boas, são deliciosas. Meu grande parceiro Adolar Marin está de CD novo na praça, o ousado Epílogo, que nasce com uma baita responsabilidade, visto que sucede o Atemporal, disco anterior de Adolar e (de acordo com minha opinião, por supuesto) um dos melhores CDs dos últimos anos, e olha que incluo nessa lista não apenas os CDs daqui do baixo clero, mas também os dos buarques, caetanos, lenines... Mas Adolar não é daqueles que ficam deitados em berço esplêndido, mesmo porque seu berço não tem lá esse esplendor. Como diz o próprio numa canção, ele é o primeiro de seu clã. Daí que, em vez de repetir a fórmula do Atemporal, resolveu voltar às origens roqueiras neste Epílogo. Confesso que fiquei um tanto assustado com esse título. Estaria meu mano tirando o time de campo? Perguntei-lho, ao que ele me respondeu que, pra que uma nova história surja, a velha tem de acabar.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Joaquín Sabina en Portugués: 14) Ito Moreno e a versão de "Calle Melancolía"

Alguns amigos se preocuparam com as tintas carregadas de meus mais recentes textos. Escrevo pra tranquilizá-los. Está tudo bem, ninguém morreu, apenas resto eu cá com minhas contradições. Explico: adoro a liberdade que a solidão me proporciona; em contrapartida, às vezes a mesma liberdade me sufoca, pois tenho certo problema de foco. Quando há uma mulher a meu lado, sinto-me forte, traço metas, quero ir adiante. Já quando estou só, perco-me em fantasias, divagações, chamo a depressão pra dançar, e acabo tendo dificuldades de produzir. Sinto-me meio um peixe que quer viver em terra firme...

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Crônicas Desclassificadas: 54) O olho da rua

Saio às ruas, não sei se à procura de mim ou pra de mim me esconder. O fato é que saio às ruas. Penetro em pulgueiros, bares, drogarias, lupanares, mercados (negros), tomando todo o cuidado pra não penetrar naqueles templos onde todos gritam ao mesmo tempo palavras desencontradas. Quebro à esquerda, depois à direita, passeio pela transversal pisando em versos, com a boca seca e os dentes afiados. As ruas se multiplicam e eu me divido nelas, querendo abarcar todas. As ruas são o lar de meus pés, que, cegos, pisam devagarim, reconhecendo pelo tato, pela planta.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Joaquín Sabina en Portugués: 13) Tato Fischer e a versão de "Cristales de Bohemia"


Ofereço este texto (e sua respectiva canção) a todos aqueles que tiveram a coragem de, pra esquecer um amor, fugir ao lugar mais distante possível (mesmo que esse lugar fosse o boteco da esquina; afinal, depois de duas doses, até o boteco da esquina pode se tornar o lugar mais distante do mundo!). ¡Ay, Praga!

Fazia muuuito tempo que eu não vinha por estas plagas tratar de Joaquín Sabina. Sabina, que, aliás, anda feliz da vida, em turnê internacional com o grande Joan Manuel Serrat. Desta feita com repertório novinho em folha, todo composto a quatro mãos pelos dois muchachos, repertório esse que resultou num belíssimo CD (que, obviamente, não chegou - e, infelizmente, nem chegará - por aqui), o La Orquesta del Titanic.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Crônicas Desclassificadas: 37) Cordiais saudações

Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Deus é brasileiro. O Brasil é o país do futebol, do Carnaval, do futuro! Os estrangeiros vêm pra cá pra desfrutar um pouco dessa felicidade toda, dessa inexplicável alegria, que beira a euforia. Que coisa estranha... Contudo, tem certa lógica, pois deve fazer bem ao turismo vender esse sonho paradisíaco aos tristes endinheirados do mundo. Mas que tudo isso tem muito de folclore, ah isso tem. Caso contrário, sendo que a maioria dos brasileiros vive em condições precárias, o segredo da felicidade estaria em desfazer-se de posses pra atingir esse nirvana.


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ninguém me Conhece: 63) Pedro Guerra, el encantador de gentes

Ser letrista não é fácil. Imagine você, caro (e raro) leitor, a dificuldade que é tentar ser original, criativo, não se repetir e ainda emocionar(!), tudo isso em meio a uma infinidade de letras maravilhosas que o cancioneiro nacional nos deixou de legado... E, se pensarmos no que já foi escrito em inglês, espanhol, italiano, francês... Aí é que o rabo torce a porca! Daí recebemos uma melodia e lá vamos nós nos esmerar pra fazer o melhor possível, ou então caprichamos quando nos pedem uma letra pra musicarem, mas tem que ser AQUELA letra! E depois no-la devolvem dentro de uma melodia assim-assim...

terça-feira, 3 de abril de 2012

Joaquín Sabina en Portugués: 12) Dimi Zumquê e a versão de "Amor se llama el juego"


Dia desses estava eu mostrando a um amigo canção nova de um compositor que admiro, e ele encasquetou com uma palavra que, segundo ele, já encontrara em duas ou três canções do dito compositor. Meio desconcertado, respondi-lhe que em muitas mais canções encontramos a palavra "amor". E ele não teve como não concordar. Afinal, mais que uma palavra, o amor é uma incógnita. Quanto mais gastamos palavras, teses, livros, canções etc., a seu respeito, mais nos parece misterioso o tal do amor.

E quando tratamos acerca do amor quase sempre vem à baila o casamento. Essa é outra palavrinha não menos complexa; o casamento hoje é uma instituição que obedece a leis, muitas vezes envolve dinheiro, advogados, polícia...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Joaquín Sabina en Portugués: 11) Eduardo Santhana e a versão de "Pongamos que hablo de Madrid"

Em dezembro último passei uns dias na Espanha, de férias. Vinha preparando essa viagem fazia quase dois anos. Conhecia apenas Barcelona e morria de vontade de visitar outras cidades. Mas este não se propõe a ser um relato turístico. Apenas pretendo juntar os cabos, já que o assunto é pertinente.

Antes de mais nada, preciso prestar alguns esclarecimentos aos amigos/parceiros que entraram nessa empreitada "sabineira" comigo. Como a maioria sabe, tenho a intenção de transformar esse repertório num CD. Tanto ia ser bom pra mim, quanto pra Sabina e também pros demais participantes. Assim que aportei em Madri com o material na mala. CDs, um caderninho com as versões mais um texto no qual eu explicava meus propósitos.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Joaquín Sabina en Portugués: 10) Clarisse Grova e a versão de "Noches de boda"

Em meu texto anterior, escrito às vésperas do Natal, tratei de suicídio. Algumas pessoas mais sensíveis podem ter se sentido chocadas ou achado de mau gosto numa época tradicionalmente de esperança abordar tal tema. É, admito que peguei pesado, mas não consegui deixar passar batido o suicídio de uma pessoa que, se não era minha amiga, era ao menos bem próxima. No mais, mau gosto teve ela quando escolheu se matar nessa época, eu apenas optei pela "morte em literatura".

Desculpem, mas o Natal tem o poder de me deixar triste, deprimido mesmo algumas vezes. Em contrapartida, gosto do Ano-Novo. Por isso resolvi maneirar nas tintas e tratar de assunto mais leve.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Joaquín Sabina en Portugués: 9) Gabriel de Almeida Prado e a versão de "Corre, dijo la tortuga"

Este texto caberia tanto no Ninguém me Conhece quanto no Os Manos e as Minas, até mesmo no Trinca de Copas, mas calhou que o moço em questão topou participar deste meu projetinho e tascou sua (bela) interpretação de Corre, Dijo la Tortuga, assim que cá está ele no Joaquín Sabina en Portugués. Grande aquisição!

Trata-se do jovem... Sim, caros, os jovens também têm seu espaço neste espaço! Aliás, por falar nisso, tenho que admitir que Gabriel de Almeida Prado faz uma música de gente grande! E tenho que agradecer a Élio Camalle por ter me apresentado o moço.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Joaquín Sabina en Portugués: 8) Zebeto Corrêa e a versão de "A mis cuarenta y diez"

Recentemente escrevi uma crônica que deu o que falar, Música Não É Futebol, que tratava, do ponto de vista musical, da rejeição midiática a toda uma geração de artistas que andam por volta dos 40 anos. Falando nisso, este 2011 é justamente o ano em que completo quatro décadas de vida! Puxa, nem mesmo eu acredito! Ainda me vejo como um moleque (e não poucas vezes ajo como um). O interessante é que, quando converso com amigos de minha geração, vejo neles esse mesmo sentimento de juventude tardia, temporã, duradoura, ou sei lá o quê; diria mesmo certa sensação de angústia de quem se sente guiando numa estrada que não sabe onde vai dar...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Joaquín Sabina en Portugués: 7) Álvaro Cueva (e Leonardo Costa) e a versão de "Como un explorador"

A inveja é uma palavra forte. Sentimento depreciável. Porém, poucos no mundo podem dizer que nunca a sentiram. Também eu não atirarei a primeira pedra. Só que, no meu caso, a inveja não é direcionada a bens materiais. Estou pouco me lixando se fulano comprou um carro zero ou uma cobertura no Morumbi. Não tenho do que reclamar quanto a minhas conquistas. Mas, se quiser me ver me roendo de inveja, mostre-me uma canção que eu gostaria de ter composto. Felizmente, esse tipo de inveja me ocorre repetidas vezes. E, mais felizmente ainda, muitas dessas canções são de amigos e/ou parceiros. 

domingo, 21 de agosto de 2011

Joaquín Sabina en Portugués: 6) Daisy Cordeiro e a versão de "Jugar por jugar"



Seria cômico se não fosse trágico... Pensando bem, acho que o proparoxítono adjetivo que cabe melhor aqui é ridículo. Sim, chega a ser ridículo que em pleno século XXI ainda haja tanta intolerância no mundo. Não sei por que ainda é tão difícil viver e deixar viver... Na realidade, é mesmo um paradoxo, pois quem não vive passa os dias tendo inveja de quem vive, ao passo que muitos dos que vivem o fazem às custas dos que são obrigados a não viver...

Antigamente, quando as minorias (e nem estou me referindo às massas, que são outra qualidade de maioria; refiro-me às minorias étnicas e quetais) a tudo aguentavam sem reagir, tudo estava bem, mas bastou que se mobilizassem pra que a maioria passasse a reivindicar seus direitos de maioria.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Joaquín Sabina en Portugués: 5) Roney Giah e a versão de "Eva tomando el sol"


Minha admiração por Sabina não se deu à primeira audição. Eu já possuía seu CD Enemigos Íntimos (em parceria com Fito Páez), do qual até gostava, mas que não me chamara a atenção de um modo especial. Contudo, como alguns professores recorrentemente falavam dele de forma enfática, como se se tratasse de uma espécie de Chico Buarque espanhol, resolvi lhe dar uma segunda chance.

Aconteceu que eu havia me tornado sócio da biblioteca do Instituto Cervantes, que conta com um belo acervo de livros, DVDs e CDs em espanhol, e, certo dia, procurando não sabia exatamente o quê, deparei-me com uns sete ou oito CDs de Sabina. Resolvi, pois, sorvê-los em doses homeopáticas, e escolhi aleatoriamente um deles pra levar pra casa a título de empréstimo.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Ninguém me Conhece: 49) Fito Páez, al lado del camino

"Fito é um artista quimicamente puro. (...) É capaz de compor uma canção às 8h da manhã e à meia-noite tê-la gravado e mixado com uma orquestra sinfônica. Se isso não é ter empenho, valentia e talento, não sei o que é. (...) Suponho que Fito, acima de tudo o mais, é isso: artista!". O testemunho acima foi dado por Joaquín Sabina em sua biografia Sabina en Carne Viva, numa época em que ambos estavam de relações cortadas. Nesse livro Sabina dedica um capítulo inteiro a seu "enemigo íntimo". Claro que há nele tintas carregadas de ironia, mas uma coisa Sabina não põe em dúvida: o talento do parceiro/desafeto.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Joaquín Sabina en Portugués: 4) Pedro Moreno e a versão de "Contigo"


Joaquín Sabina é do time de Vinicius de Moraes: excepcional letrista, sonetista, mais intérprete que cantor, bom de copo, boêmio, notívago, cultivador de amizades, mulherengo e... dado a casamentos! Assim mesmo, no plural. Aliás, como foi Vinicius, é adepto do "que seja eterno enquanto dure", visto que não consegue viver ao lado de quem não ama.

No entanto, ao contrário de Vinicius, Sabina tem poucas canções derramadamente românticas. Em certa ocasião, uma amiga lhe pediu uma canção que falasse de amor, ao que ele lhe respondeu que era só a moça escolher uma de seus discos. Pra seu espanto, ela lhe disse que já havia procurado, mas sem sucesso.