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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Esquerda, Volver: 26) Talento vs. ideologia

Engraçado, o velho Cazuza dizia que queria uma ideologia pra viver, mas atualmente tenho visto muito artistas terem seu talento espinafrado justamente por ter uma. E isso acontece dos dois lados. Do lado de lá, por exemplo, já li muita gente recomendar que parassem de ouvir Chico Buarque, porque ele é um petralha e tal. Da mesma forma, os de esquerda costumam relativizar o talento de gente como Fagner e Roberto Carlos (pra não falar em Lobão, Roger & cia.). Acho isso um perigo, além de ser desrespeitoso com a obra da pessoa criticada. Vejamos: por que Carlos Vereza é um lixo e Osmar Prado é um gênio da raça? Por causa de seu pensamento político? E se invertêssemos os sinais? Daí o primeiro é que seria gênio e o segundo, lixo? Percebem a cilada em que caímos?

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Os Manos e as Minas: 30) O Jekyll e o Hyde de Jerry Lewis

Dizem por aí que a arte em si é inútil, não serve pra absolutamente nada! Não mata a fome; não aquece no frio; não refresca no calor; não leva a gente pra nenhum lugar; não nos acolhe quando temos sono; não nos possibilita comprar algo de que necessitamos; enfim, não passa de lero-lero, enrolation, coisa de vagabundo cumunixta que se escora na Lei Rouanet. Possa ser, mas aí eu paro, penso e reflito: como é poderoso esse Raulzito... Brincadeira; eu penso que, se isso é verdade, eu sou um inútil profissional, porque algumas das coisas que me são mais importantes na vida vêm da arte. Acho que se me tirassem, entre outras coisas, a literatura, a música e o cinema, eu enlouqueceria (se é que já não estou louco e não percebi).

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Crônicas Desclassificadas: 187) Confissões de um homem preso fora do artista

Adoro crônicas, e, de tanto gostar delas, acabei me tornando também um cronista, embora menor. E, se hoje escrevinho com regularidade, tenho que admitir que em grande parte devo isso a Carlos Heitor Cony, cuja coluna diária na Folha de S.Paulo acompanhei durante anos. O fato de ele ter envelhecido mal e ter ficado gagá, transformando sua fina ironia em mero cinismo azedo, não conseguiu destruir a estima e a gratidão que tenho por sua obra. Inclusive, é necessário que eu acrescente, ele também é um excepcional ficcionista. Comecei citando-o porque o li certa vez admitir que a felicidade depõe contra a criação. Durante os cerca de 20 anos em que esteve casado, foi feliz e, portanto, não teve ganas de escrever nada que ultrapassasse suas obrigações de jornalista.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Esquerda, Volver: 13) O micro e o macro

Recentemente, Kana, minha parceira músico-matrimonial, fez um belíssimo show (sou suspeito, claro) no aconchegante Espaço Parlapatões, bem em frente à paulistana e boêmia Pça. Franklin Roosevelt. Pois bem, a entrada era gratuita, mas a casa permitia que a produção do evento passasse um chapéu pedindo ao público que contribuísse com o que quisesse. Kana levou ao parlapatônico palco oito músicos, sendo quatro saxofonistas, e gastou muito tempo pra fazer os arranjos pra essa banda. Até aí, tudo bem, toda profissão tem seus riscos (e enroscos); o detalhe que gerou este texto foi que bem em frente ao palco havia uma mesa de jovens que bebiam alegremente e, nos intervalos de seu êxtase, assistiam ao show. Já na segunda canção, eu, que estava logo atrás, ouvi de uma garota dessa mesa um "Não tem nenhuma música conhecida!". Duas canções depois, porém, todos eles estavam mexendo seus respectivos esqueletos ao som das tais canções desconhecidas.

sábado, 28 de novembro de 2015

Crônicas Desclassificadas: 168) A (in)utilidade da arte e outras belezas

Paweł Kuczyński
Meu amigo Erico Baymma está preparando uma matéria sobre a utilidade da arte e me convidou a escrever umas palavrinhas a respeito do tema, tendo como base uma frase de Oscar Wilde que aparece no prefácio de seu romance O retrato de Dorian Gray.  A bendita frase diz que "all art is quite useless". Erico me diz ainda que viu, em duas editoras diferentes, duas traduções distintas: 1) "Toda arte é essencialmente inútil" e 2) "Toda arte é basicamente inútil", fato que lhe chamou a atenção por revelar diferenças, se não essenciais, ao menos básicas. Pra complicar mais ainda a coisa, indo ao tradutor do Google me deparo com terceira tradução, "toda arte é completamente inútil". Confesso que deveras fiquei completamente pasmado com a gama de possibilidades dessa inutilidade.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Crônicas Desclassificadas: 166) Os incendiários da arte

Escrever é, entre outras coisas, também um exercício de estilo. Não é apenas o que se quer contar, mas a forma utilizada pra fazê-lo. Claro, estou me referindo à literatura, mas podemos aplicar o mesmo raciocínio a outras artes, como, por exemplo, o cinema, a música etc. Ao vermos um filme, percebemos quando tem a "digital" de seu diretor por alguns detalhes, como a forma de manejar a câmera, a opção por sequências longas ou cortes rápidos, a utilização de cores berrantes (tão ao gosto de Almodóvar) ou desbotadas, ou ainda o preto e branco. Já quando ouvimos uma canção de João Bosco, por exemplo, logo nos primeiros acordes reconhecemos seu violão único; ou, se é de Chico, suas rimas sufocantes chamam a atenção, assim como suas aliterações e metáforas.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Crônicas Desclassificadas: 156) A questão não é ser ou não ser Charlie

Por Mario Alberto
Eu escrevo. Escrever é minha arma. Ou pode ser meu carma. Quem sabe, meu trevo. O fato é que escrever me dá prazer. Claro, às vezes masoquista. Mas quem não é, sendo artista? Escrevo o que quero, o que me á na telha; às vezes lero-lero, às vezes só groselha. Mas vez em quando desando, e a centelha incendeia, veia adentro, verbo afora. Nessa hora, periferia vira centro, e o que me feria... unguento. E posso ir mais longe, aguento. Só estou em paz quando me atormento. É por isso que escrevo. Porque devo, e é assim que pago: causando estrago, entre um e outro trago. Sem dar trégua, pra mais de légua! A inspiração é fértil, farta. Pode ser em rima, pode ser em carta. Pode ser em cima, embaixo, até sem clima me encaixo, caibo. A palavra é meu caibro, minha clave. Escrever: eis minha palavra-chave.