quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Os Manos e as Minas: 31) Na ilha de Chico, no barco de Caetano

Tom Zé, nos primórdios, quando a Tropicália ascendia, ao ser questionado num programa de TV a respeito das diferenças estéticas entre eles (os tropicalistas) e Chico Buarque, tascou sem dó e com a fina ironia que sempre lhe foi característica que respeitava muito o autor d'A Banda, "pois ele é nosso avô". Claro, Tom Zé, que é oito anos mais velho que Chico, referia-se à música deste, que, segundo ele, parecia antiga se comparada com a que os baianos & agregados andavam fazendo. Já eu costumo dizer que a genialidade de Chico foi revolucionar a música brasileira sem violar sua estrutura, seguindo todos os padrões clássicos. A modernidade de Chico sempre esteve na qualidade do que fazia/faz. Creio mesmo que depois da morte de Noel Rosa o Brasil teve que esperar quase três décadas pra ver surgir alguém com a pena tão refinada.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A Palavra É: 38) Bunda

Aviso aos navegantes: 
Esta crônica foi encomendada por minha amiga Silvia Maria Ribeiro. Sou um blogueiro sério e costumo tratar de assuntos da mais alta relevência, mas, como bom covarde, não fujo a desafios... só por masoquismo.

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El baño — de Fernando Botero
Vinicius de Moraes em certa ocasião deixou escapar uma afirmação que dita hoje causaria furor na nova inquisição que são as redes sociais e, por que não?, o feminismo exacerbado que vê em cada flerte uma ameaça de assédio(/estupro?). Disse ele, sem medo de ser feliz: "Que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental." Levada ao pé da letra (sobretudo desta pequena letra que é o pensamento único das ditas correntes), a viniciana aberração levaria seu autor ao corredor da morte ou, na melhor das hipóteses, ao degredo a que são sujeitas as personas non gratas (Woody Allen?). Contudo, se dermos dois passos atrás pra vermos melhor esta chistosa pérola, perceberemos que Vinicius não tratava da beleza vã, mas da beleza como obra de arte.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Filho da preta! — na boca dos leitores (7)

Venho por esta avisar a quem interessar possa que dei o ponto final a meu segundo romance, A Confraria dos Mascarados, já faz algum tempo, porém ele não pôde ser lançado ainda porque minha mudança pro Japão veio modificar meu calendário. Espero que quando volte possa publicá-lo. Por ora, segue mais uma leva de depoimentos de leitores sobre o primeiro, Filho da preta!. E, desta feita, com um acréscimo importante. Um leitor mais sagaz terá percebido que meu livro foi dedicado a três pessoas; uma delas, no entanto, só agora, quase quatro anos depois do lançamento, encontrou tempo em sua ocupada agenda pra dedicar umas horinhas à leitura dessa minha humilde obra.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Grafite na Agulha: 44) Rica Soares falando dylanês em tempos de xablau

Vou começar a prosa dando um conselho. Como alguns de vocês sabem, estou morando no Japão, e por aqui 99,9% dos profissionais engravatados vestem Prad..., digo, preto — a cor da moda. É quase, como direi?, uma ditadura do preto. O preto sóbrio pra usar no frio, o preto charmoso pra flanar no verão, o leve preto-primavera, o digno preto-outono... Daí, eis que na contramão surge um japa (um china? um ceará???) trajando, sei lá, cor de abóbora. Vai por mim: cola nesse cara, que ele deve ter ideias diferentes na cachola! Tá, pode se tratar simplesmente de um esquisitão, mas o que é a vida sem risco? Agora, rebobinemos (desculpem pelo obsoleto verbo).

sábado, 27 de janeiro de 2018

A Palavra É: 37) Opressão

A opressão vem chegando de mansinho, devagar, sem pressa e sem pressão, sorrateira, rasteira como uma cobra e discreta como um cágado, e, quando de repente dá o bote e envolve o oprimido com seu abraço quebra-ossos, primeiro causa uma sensação de mal-estar, enjoo, comprime o peito do sujeito, asfixia-o e lhe propicia uma forte pressão no cérebro que corta imediatamente o fluxo sanguíneo do pobre, não permitindo que seu pensamento respire. Assim, sequestrado o o oxigênio, começa a vir em seguida uma leseira, quase um "barato", como uma droga que vai corroendo por dentro, uma solitária que vai crescendo dentro do bucho do desgraçado e que pede cada vez mais alimento, fazendo que tudo o que seu hospedeiro ingira vá parar na bocarra da imunda.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A Palavra É: 36) Neve

Deus, quando tá de bom humor, lá dos céus manda aos ateus provas de seu amor. E se faz pintor, como se sua janela fosse uma grande tela... e o mundo, uma aquarela. E se faz poeta — sua brincadeira predileta. Digamos que chuva seja prosa; e neve, poesia. Por quê? Porque chover chove todo dia. Já a neve Deus dosa. Versos não são pra qualquer estação. Tem que ser algo especial, grande ocasião, como se Sobral fosse ao Japão. Enfim, tudo isso porque enquanto o poeta escreve lá fora cai neve. E num canto de seu olho cai pranto. Tudo é encanto pra quem sabe lançar a cada paisagem um novo olhar. É assim que a miragem vira realidade; e a verdade, ficção. E quem pode afirmar o que é real e o que não? Na dúvida, vá visitar outra dimensão.

sábado, 20 de janeiro de 2018

De Sampa a Tóquio: 13) Praça 11 é um pouquinho de Brasil

Se você estiver perambulando por Tóquio e de repente bater aquela saudade doída do Brasil, recomendo dar um pulo no Praça 11, tradicional cantinho brasileiro no coração da capital japonesa. É aquele local onde você vai encontrar sempre uma boa caipirinha, um ou outro prato tupiniquim e, se tiver sorte, pode ainda assistir a um bom show de música brasileira. E se estiver REALMENTE com sorte pode ser que justo nesse dia estejam se apresentando por lá nomes tão variados quanto Paulinho Moska, Leila Pinheiro, Grupo Fundo de Quintal, Filó Machado, Arlindo Cruz, João Bosco, Nelson Sargento e muitos outros. E repare que citei apenas alguns entre tantos nomes que já marcaram presença por ali e deixaram sua assinatura na parede central da casa.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Grafite na Agulha: 43) Nos trilhos da Estação Felicidade

Chegou! Chegou ao Japão a Estação Felicidade, primeiro — e já clássico — disco de Augusto Teixeira! E chegou também às plataformas digitais. Com cerca de dois anos de atraso, mas por um justo motivo. E eu, até com certo orgulho, venho por esta confessar que fui um dos culpados por esse atraso. Explico: há alguns meses, Augusto estava já com o disco terminado e em vias de mandá-lo pra fábrica quando, depois de um encontro em que ele me mostrou algumas faixas, tasquei à queima-roupa: "Cara, bem que cairia como uma luva a voz do Zeca (Baleiro) n'A Luz de Luzia, hem?" Na hora, vi seus olhinhos brilharem e em seguida ele respondeu: "Tá em tempo ainda. Tem o dom de falar com ele? Eu tinha já pensado nisso, mas fiquei com vergonha de pedir..."

sábado, 6 de janeiro de 2018

A Palavra É: 35) Silêncio

Meu querido amigo Paulo Mayr Cerqueira, jornalista, blogueiro (leia seu blogue aqui), frasista merecedor de calorosos aplausos nos tantos saraus nos quais participa pelos palcos paulistanos, microcontista e grande apreciador da boa culinária e de bons tragos (não exatamente nessa ordem), ao me saber neomorador de terras nipônicas teve a feliz ideia de me sugerir um texto em que o tema fosse o tão importante... silêncio. Claro, ele, como intelectual que é, e ao mesmo tempo morador do centro paulistano, ali pelos arredores do Baixo Augusta, sabe dos pesos e das medidas de ser quem é morando onde mora. E eu, que fui praticamente seu vizinho durante o tempo em que morei no bom e velho bairro do Bixiga, venho por esta tentar, de forma humilde e caótica, atender a seus apelos.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Grafite na Agulha: 42) Mercedes Sosa, cantando como la cigarra

Assim como quando no Brasil é dia é noite no Japão, quando na ex-Ilha de Vera Cruz começa o verão na Terra do Sol Nascente tem início o inverno. Só que aqui o frio começa já em novembro e vai até meados de março (lá em cima, no norte, é pior ainda). Isso me lembrou que quando visitei pela primeira vez o país de Kurosawa começava o inverno e passei Natal e réveillon por estas bandas. Terminava o ano de 2002 e eu tinha visto neve pela primeira vez em Hokkaido — o que me inspirara a escrever a letra de uma de minhas canções mais bacanas (né, Zé Edu?), Hiroshima, parceria com Clarisse Grova (veja o vídeo aqui). Aliás, nesse período, que durou três meses, compus muito, e, pelo fato de estar tão desenraizado como me via, a inspiração pululava feito milho de pipoca na panela ao fogo.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 12) De Natal e terremoto

O tempo vai passando e a gente vai se moldando ao panorama, vai se acomodando. Assim, tenho sido um tanto relapso na narração dos acontecimentos, que vou tentar resumir nesta missiva. Segunda-feira, dia 18/12, um amigo japonês que mora no Brasil, Yuji san, em passagem por Tóquio reuniu uns amigos num bar pra comemorarmos o fim de ano. Dei uma passada lá com Kana, pois tinha que dar aula um pouco mais tarde. Foi triste sair enquanto todos chegavam, mas tive meu momento de emoção em seguida, pois, como Kana ficou na confraternização, pela primeira vez peguei o trem sozinho. Só quem já estreou por aqui essa emoção sabe. Já os relatos sobre a aula, que gerou até um conto, contei na edição anterior.