terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Grafite na Agulha: 43) Nos trilhos da Estação Felicidade

Chegou! Chegou ao Japão a Estação Felicidade, primeiro — e já clássico — disco de Augusto Teixeira! E chegou também às plataformas digitais. Com cerca de dois anos de atraso, mas por um justo motivo. E eu, até com certo orgulho, venho por esta confessar que fui um dos culpados por esse atraso. Explico: há alguns meses, Augusto estava já com o disco terminado e em vias de mandá-lo pra fábrica quando, depois de um encontro em que ele me mostrou algumas faixas, tasquei à queima-roupa: "Cara, bem que cairia como uma luva a voz do Zeca (Baleiro) n'A Luz de Luzia, hem?" Na hora, vi seus olhinhos brilharem e em seguida ele respondeu: "Tá em tempo ainda. Tem o dom de falar com ele? Eu tinha já pensado nisso, mas fiquei com vergonha de pedir..."

sábado, 6 de janeiro de 2018

A Palavra É: 35) Silêncio

Meu querido amigo Paulo Mayr Cerqueira, jornalista, blogueiro (leia seu blogue aqui), frasista merecedor de calorosos aplausos nos tantos saraus nos quais participa pelos palcos paulistanos, microcontista e grande apreciador da boa culinária e de bons tragos (não exatamente nessa ordem), ao me saber neomorador de terras nipônicas teve a feliz ideia de me sugerir um texto em que o tema fosse o tão importante... silêncio. Claro, ele, como intelectual que é, e ao mesmo tempo morador do centro paulistano, ali pelos arredores do Baixo Augusta, sabe dos pesos e das medidas de ser quem é morando onde mora. E eu, que fui praticamente seu vizinho durante o tempo em que morei no bom e velho bairro do Bixiga, venho por esta tentar, de forma humilde e caótica, atender a seus apelos.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Grafite na Agulha: 42) Mercedes Sosa, cantando como la cigarra

Assim como quando no Brasil é dia é noite no Japão, quando na ex-Ilha de Vera Cruz começa o verão na Terra do Sol Nascente tem início o inverno. Só que aqui o frio começa já em novembro e vai até meados de março (lá em cima, no norte, é pior ainda). Isso me lembrou que quando visitei pela primeira vez o país de Kurosawa começava o inverno e passei Natal e réveillon por estas bandas. Terminava o ano de 2002 e eu tinha visto neve pela primeira vez em Hokkaido — o que me inspirara a escrever a letra de uma de minhas canções mais bacanas (né, Zé Edu?), Hiroshima, parceria com Clarisse Grova (veja o vídeo aqui). Aliás, nesse período, que durou três meses, compus muito, e, pelo fato de estar tão desenraizado como me via, a inspiração pululava feito milho de pipoca na panela ao fogo.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 12) De Natal e terremoto

O tempo vai passando e a gente vai se moldando ao panorama, vai se acomodando. Assim, tenho sido um tanto relapso na narração dos acontecimentos, que vou tentar resumir nesta missiva. Segunda-feira, dia 18/12, um amigo japonês que mora no Brasil, Yuji san, em passagem por Tóquio reuniu uns amigos num bar pra comemorarmos o fim de ano. Dei uma passada lá com Kana, pois tinha que dar aula um pouco mais tarde. Foi triste sair enquanto todos chegavam, mas tive meu momento de emoção em seguida, pois, como Kana ficou na confraternização, pela primeira vez peguei o trem sozinho. Só quem já estreou por aqui essa emoção sabe. Já os relatos sobre a aula, que gerou até um conto, contei na edição anterior.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 11) Minha mulata que foi morar debaixo da terra

Nós, os escritores, 
fazendo pose de escritores
E não é que o velho Noel Rosa (São Noel! — como diria Vinicius, a bênção, Noel!) tem me auxiliado por aqui? Eu, que sempre fugi de dar aulas como o diabo foge da cruz (dizem), começo a achar um novo caminho em terras nipônicas... e justamente dando aulas. As segundas-feiras no Aparecida têm sido pra mim tão agradáveis que nem parece que tô trabalhando — o que me leva a crer que, em se tratando dos alunos, a recíproca deva ser verdadeira. A experiência adquirida em tantos anos de aprofundamento não só na língua portuguesa, mas também na música popular brasileira, agora começam a me valer e, obviamente, tenho tirado partido disso.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 10) Noel no Aparecida, Kana no Cooljojo etc.

Segunda-feira, 11/12, completaram-se 107 anos do nascimento de Noel Rosa, pra mim não o melhor, mas o mais importante compositor popular brasileiro, aquele que revolucionou e transcendeu (não só) o samba e cuja obra ainda hoje é atual. E o que mais assombra em Noel é que, tendo morrido com 26 anos, deixou uma obra de mais de 300 canções, a maioria obras-primas. Em certa ocasião, participei de uma palestra sobre Noel Rosa, e o palestrante, cujo nome me escapou, disse em determinado momento que não sabia se era Noel que era moderno ou se o Brasil que permanecia arcaico, visto que canções que o compositor compôs entre as décadas de 1920 e 1930 continuam com um frescor absoluto, como se tivessem sido compostas ontem.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A Palavra É: 34) Solidão

("Solidão é lava que cobre tudo, amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo. Solidão palavra cravada no coração resignado e mudo no compasso da desilusão [...]") Minha amiga Isabella Montagnana, bem na fase pós-inferno astral que antecedeu seu aniversário, desabafou no facebook sobre "a sensação de estar sozinha, de não poder contar, de fato, com ninguém", independente de estar rodeada por várias pessoas. E sentenciou: "O mundo é cheio de gente, mas no fim você vai estar sozinho." Discordei dela, em termos, e lhe prometi um texto — como presente de aniversário? Pensei nisso agora, e pode ser que seja. Ainda mais sendo ela sagitariana como eu e, portanto, já por isso dona de sensibilidade ímpar.

domingo, 10 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 9) Repeteco no Aparecida + um pulinho no Strings

Terça, 6/12, voltamos ao Barzinho Aparecida pra despedida de Renato Braz. Foi uma festa bem bonita, com casa cheia e muita música. Renato presenteou com parte de seu vasto repertório o público, que parecia nem respirar pra ouvi-lo. Houve muitas participações dos músicos presentes, e Kana também deu seu recado, emocionando a todos com uma inspirada interpretação de nossa Cacto, que, pelo visto, agradou também ao mano Braz. De quebra, ela aproveitou pra convidar os presentes a assistirem a uma aula que darei no mesmo local semana que vem. Lá também reencontramos uma velha amiga, Kei, que ainda me deu de presente uma carteira com a bandeira do Brasil adaptada feita a mão por ela mesma.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 8) De jazz, cigarros e reconstruções

Se eu fosse resumir numa só palavra, eu tascaria "tesão". Era isso que a energia dos caras no palco me passava. O bairro era Suginami; a cidade, Tóquio; mas se eu fechasse os olhos bem que podia achar que estava num inferninho de Nova York. Os quatro cavaleiros do apocalipse tocavam jazz, mas havia umas pitadas de rock'n'roll ali; muitas, aliás. Em determinado momento, pensei estar ouvindo mesmo um frevo, como se o guitarrista fosse ninguém menos que Robertinho do Recife. O nome do bar, Clop Clop; o da banda, MAD-KAB AT AshGate. A formação era guitarra, trombone, baixo e bateria, e todas as músicas eram do guitarrista, cujo nome me escapou e que Kana chamou de gênio. Confesso que cheguei lá com sono, havia até dado umas cochiladas no carro durante a ida, mas o show não permitiu que o sono me vencesse.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 7) Japonices (2)

Dia 1/12, acordei às 9h. Kana já estava de pé. Durante o café da manhã, tevê ligada na NHK, eu, que não prestava muita atenção à programação, reparo que está passando um surpreendente e detalhado documentário que cobre a primeira e a segunda guerra mundiais, e com riqueza de detalhes e com direito a várias imagens originais de Rússia, Itália, Alemanha, Inglaterra, França etc., incluindo closes de Eva Brau — a primeira-dama nazista — bem de perto, gargalhando e fazendo poses em momentos de descontração. Um documentário termina e começa outro sobre John F. Kennedy, com direito a Marilyn Monroe lhe cantando Parabéns pra Você. Agora, enquanto escrevo, vejo imagens de Mao Tsé-Tung e penso no abismo que há em relação à programação tupiniquim...

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 6) Aparecendo no Aparecida — de Gonzaga a Braz

Sabe aquelas noites em que você sai de casa sem esperar grande coisa e de repente a mágica se faz? Hoje foi assim (começo este relato exatamente às 23h59 — horário de Tóquio — de 30/11). Kana tinha combinado comigo de irmos visitar o Barzinho Aparecida (curta a página no facebook aqui), bar brasuca do amigo japonês Willie Whopper (tô pensando em entrevistá-lo pro blogue futuramente, e uma das perguntas vai ser o motivo da escolha de seu "nome artístico"), onde farei dentro de uns dias um "piloto" de aula de português pra uma turma seletiva de japoneses. Antes, claro, fizemos uma siesta de cerca de duas horas, visto que o (con)fuso ainda não nos abandonou; acordamos por volta das 18h, arrumamo-nos e saímos pra enfrentar o friozinho crescente.