segunda-feira, 9 de abril de 2018

Esquerda, Volver: 18) Lula, uma ideia

Por Francisco Proner Ramos
"Nunca antes se roubou tanto neste país" é a frase que mais ouvimos sair da boca dos inocentes úteis. Como se roubar no Brasil fosse uma novidade petista, ou melhor, petralha. O que esses inocentes não sabem é que antes do governo petista nenhum presidente deixava ir em frente qualquer investigação que ousasse chegar a seus calcanhares. Não à toa, o procurador-geral do governo FHC foi apelidado de "engavetador-geral". A História, todos sabemos, é contada pelo viés dos vencedores. Fernando Henrique Cardoso, no entanto, a menina dos olhos dos intelectuais, sociólogo, professor universitário, escritor etc., quando virou presidente pediu pra que esquecessem o que ele escrevera. Ou seja, abandonou as convicções e se deixou engolir pelo poder. Tanto, que não fez seu sucessor...

sexta-feira, 30 de março de 2018

De Sampa a Tóquio: 14) De terremotos e outros tremores

Fazia tempo que não voltava a esta coluna, e devo satisfações à leitora interessada e ao leitor estressado. Quando cheguei aqui, tinha a intenção de escrever regularmente a respeito de minhas experiências — a saga do cearense em Tóquio —, mas os afazeres do dia a dia foram me afastando do intuito. Explico: nos primeiros dias, tudo era novidade — claro, já tinha vindo outras vezes, mas nunca pra morar. No entanto, com o passar do tempo o que era novidade deixou de o ser e a preguiça foi tomando conta de mim. Até porque sempre quis que os relatos fossem interessantes, e escrever por escrever, geralmente coisas sem importância do cotidiano, pareceu-me uma perda de tempo tanto pra mim quanto pra quem lesse.

sábado, 24 de março de 2018

A Palavra É: 41) Logradouro

Não lembro exatamente o ano — quando muito, posso afirmar que foi num dos primeiros depois da virada do século —, o que, sim, lembro bem é o embasbacamento pelo qual fui tomado quando ouvi pela primeira vez a canção Logradouro. Já conhecia seus autores e era razoavelmente próximo deles: Rafael Alterio, pra mim, um dos maiores melodistas que o Brasilzão ainda não teve o privilégio de conhecer, e Kleber Albuquerque, também ótimo melodista e um dos letristas mais originais que surgiram nas últimas décadas. Outra coisa que me vem à memória quando penso nessa canção é a inveja que senti. Falar disso requer novo parágrafo.

terça-feira, 20 de março de 2018

Os Manos e as Minas: 33) A morte e as mortes de Marielle Franco

O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco — que, pra informação a quem não mora neste planeta, era negra, lésbica, mãe, nascida e crescida no Complexo da Maré, graduada em Ciências Sociais e eleita na mais recente eleição municipal vereadora pelo Psol, tendo sido a quinta mais votada em sua cidade —, além de gerar comoção Brasil afora, tem servido também pra que desocupados mal-intencionados propaguem suas baboseiras. Entre aqueles que não compartilham dos ideais de Marielle, li alguns relativizarem sua morte e outros mesmo tentarem achar justificativas pra tragédia, ligando-a ao tráfico de drogas.

terça-feira, 13 de março de 2018

Crônicas desclassificadas: 191) Me chame pelos seus livros

Depois do turbilhão de emoções — umas boas, outras nem tanto — que ver este filme me causou, fiquei sem saber como começar esta prosa. Daí, resolvi dar o pontapé inicial tratando de um assunto que aparentemente não tem nada a ver com o tema. Seguinte: acabo de ler Mussum forévis, a biografia do trapalhão Mussum escrita por Juliano Barreto (recomendo, inclusive pra quem não gosta d'Os Trapalhões, porque além do mais mapeia grande parte de nossa música), que me fez fuçar vários vídeos no youtube e parar numa entrevista de Renato Aragão concedida a Jô Soares em que ele fala que não entendia a ferocidade da censura em relação a seu trabalho, visto que nada do que fazia tinha a ver com política, e ouve um comentário mordaz de , que lhe afirma que toda exposição de ideias é política.

terça-feira, 6 de março de 2018

Os Manos e as Minas: 32) Poetizando o olhar de Rob Gonsalves

O que vê o olhar do artista?
Nem te conto
Aponta pr'outro conto de vista
Ponto

Como parte de meu estudo da língua nipônica, Kana me levou a uma biblioteca e me fez ler inteirinho um livro infantil de uma autora chamada Sarah L. Thomsom — em japonês, もちろん. Ler, eu li; entender já é querer demais. No entanto, fiquei maravilhado com as ilustrações do livro e, chegando em casa, fui pesquisar a respeito do sujeito, um tal de Rob Gonsales (assim mesmo, com S), e descobri que ele foi um canadense reconhecido na arte de criar ilusões visuais, sendo considerado um mestre do realismo mágico, sob a ótica da ilustração. E, mais, descobri que eu já tinha usado uma pintura dele noutro texto, um em que, sob encomenda da amiga Vanessa Curci, escrevi sobre ponte (leia aqui). Mundo pequeno, não? Ah, e acabei achando o danado do livro em espanhol. Compartilho, pois, com vocês, abaixo.

domingo, 4 de março de 2018

Grafite na Agulha: 45) Vinicius & Toquinho e seu traçado de paixão e dor

"Como é que pode a gente ser menino/ Ter sua coragem, traçar seu destino/ Sem pular o muro, trepar no coqueiro/ Ir no quarto escuro, mãe me mete medo, mãe me mete medo, mãe me mete medo/ O bicho te pega, boi da cara preta/ Deus te castiga, medo de careta/ Boi da cara preta, mãe me mete medo, mãe me mete medo, mãe me mete medo/ Mas atravesse o escuro sem medo (3x)/ De repente a gente começa a crescer/ Quer uma mulher que não pode ser/ O pai quer matar, a mãe quer morrer/ Não dá pra ganhar, não dá pra perder/ Não dá/ A mulher se joga do alto do edifício/ Porque o mais fácil fica o mais difícil/ Fica o mais difícil/ Mas atravesse a vida sem medo (3x)...

quinta-feira, 1 de março de 2018

A Palavra É: 40) Vírgula



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"A lua é a boca na cara do céu/ O sol é quem acende o céu dessa boca/ Os sonhos são mais altos que arranha-céus/ Ideias são zumbidos de uma muriçoca/ Estrelas são, no breu, luminoso sorriso/ Montanhas são as esculturas dos lábios/ O pensamento é ave num voo indeciso/ O tempo são as páginas de um alfarrábio/ Os astros interpretam o firmamento/ O rio xaveca a terra, mas se casa com o mar/ Poetas são brisas que ouvem o vento/ A música é o som a um passo de gozar/ Paixão é torpedo que erra de destinatário/ Amor é vírus que se contrai pelo ar/ A vida é uma vírgula no calendário/ Se tudo isso é seu/ Me diga quem sou eu/ E o que mais posso te dar."

sábado, 24 de fevereiro de 2018

A Palavra É: 39) Gengibre

Minha "patroa", Kana, faz um karê dos deuses — pra quem não sabe, karê é a versão japonesa do indiano curry. Antes de nossa mudança pro Japão, fomos recebidos na casa de Sander Mecca & família pra um bota-fora, e, pra enriquecer ainda mais o cardápio preparado pelos anfitriões, Kana mais uma vez nos brindou com seu karê. Sander, maravilhado, perguntou-lhe qual seria o segredo de tão mágico sabor; e Kana lhe respondeu com simplicidade: "O segredo está no gengibre." Claro que eu já estava a par desse "segredo". Aliás, mais que isso; já tinha o costume de propagar o bendito gengibre pra cima e pra baixo, e não poucas vezes fora do contexto culinário.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Os Manos e as Minas: 31) Na ilha de Chico, no barco de Caetano

Tom Zé, nos primórdios, quando a Tropicália ascendia, ao ser questionado num programa de TV a respeito das diferenças estéticas entre eles (os tropicalistas) e Chico Buarque, tascou sem dó e com a fina ironia que sempre lhe foi característica que respeitava muito o autor d'A Banda, "pois ele é nosso avô". Claro, Tom Zé, que é oito anos mais velho que Chico, referia-se à música deste, que, segundo ele, parecia antiga se comparada com a que os baianos & agregados andavam fazendo. Já eu costumo dizer que a genialidade de Chico foi revolucionar a música brasileira sem violar sua estrutura, seguindo todos os padrões clássicos. A modernidade de Chico sempre esteve na qualidade do que fazia/faz. Creio mesmo que depois da morte de Noel Rosa o Brasil teve que esperar quase três décadas pra ver surgir alguém com a pena tão refinada.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A Palavra É: 38) Bunda

Aviso aos navegantes: 
Esta crônica foi encomendada por minha amiga Silvia Maria Ribeiro. Sou um blogueiro sério e costumo tratar de assuntos da mais alta relevência, mas, como bom covarde, não fujo a desafios... só por masoquismo.

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El baño — de Fernando Botero
Vinicius de Moraes em certa ocasião deixou escapar uma afirmação que dita hoje causaria furor na nova inquisição que são as redes sociais e, por que não?, o feminismo exacerbado que vê em cada flerte uma ameaça de assédio(/estupro?). Disse ele, sem medo de ser feliz: "Que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental." Levada ao pé da letra (sobretudo desta pequena letra que é o pensamento único das ditas correntes), a viniciana aberração levaria seu autor ao corredor da morte ou, na melhor das hipóteses, ao degredo a que são sujeitas as personas non gratas (Woody Allen?). Contudo, se dermos dois passos atrás pra vermos melhor esta chistosa pérola, perceberemos que Vinicius não tratava da beleza vã, mas da beleza como obra de arte.