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terça-feira, 23 de agosto de 2016

A Palavra É: 19) Gol

Parecia que seriam favas contadas. Começo do primeiro tempo, gol de falta (e de placa!) de Neymar, o time jogando bem, confiante, por um momento deu até a impressão de que o placar podia ser elástico. Não um 7 a 1, obviamente, mas um 3 a 0 não era de todo impossível naquele momento. Sonhar é permitido (pelo menos até agora, enquanto não privatizam). Corta! Começo do segundo tempo, gol da Alemanha – putz!!! Tensão, autoestima descendo dentro de um elevador desgovernado ao mesmo tempo que esquecidos traumas vinham à tona: complexo de vira-lata, crise, golpe, desemprego, falta de expectativa, nervos à flor murcha da epiderme, nós baratas tontas embaixo da pata de um paquiderme...

domingo, 14 de agosto de 2016

Crônicas Desclassificadas: 177) O traje do defunto

Foi apenas de relance. Mais um pouco e lhe teria passado despercebido. Contudo, a imagem ficou fixada em sua mente e passou a visitá-la com frequência, como um fantasma inofensivo, mas inconveniente. Chegou mesmo a sonhar com ela, que, mais que uma imagem, já era meio que uma visão do além, o que lhe gerava inúmeras indagações. Como o traje do defunto marido tinha ido parar no corpo esquálido daquele mendigo? E logo depois do sacrifício que tinha sido se desfazer de tudo o que pertencera ao esposo pra finalmente tentar viver sua vida em paz, sem tralhas do passado que levar a tiracolo na alma. Sim, amara-o com todas as suas forças e até com a justa abnegação de uma esposa de respeito, mas abrira mão de muitos sonhos, muitos projetos, e ainda era razoavelmente jovem pra ir atrás deles agora.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Entrevistando: 11) Max Gonzaga (por Adolar Marin)

É com um baita orgulho que mais uma vez abro as portas desta minha humilde casa pra meu mano Adolar Marin e sua, digamos, casa irmã: seu programa Na Minha Casa. Aliás, pode-se dizer que esta coluna Entrevistando já virou a casa dele, tão recorrentes são suas aparições por aqui, sempre trazendo gente que tem (e dá) o que falar. Sem falar que o autoencargo de anfitrião caiu bem em Adolar, que tem se mostrado a cada novo programa cada vez mais à vontade como tal. E tanto é verdade, que trouxe como exemplo o mais novo programa da temporada 2016, que, em minha modesta opinião, resultou numa das melhores entrevistas até agora do Na Minha Casa, o que gera muita expectativa quanto aos programas futuros, visto que vem seguindo numa escala ascendente.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A Palavra É: 18) Brisa

De Vladimir Kush
Assisti com prazer a Observar e Absorver, documentário tão necessário de Júnior SQL que me arrepiou a pele e me impeliu a jogar palavras mil na parede imaginária da rede. Mas, pra ser sincero, o que deu ímpeto ao lero foi um detalhe quase besta que me garantiu o talhe pra esculpir esta. Mas, antes, preciso não ser conciso pra explicar a grama em que piso, aliás, pisei, pra chegar aonde ainda não cheguei. Epa rei! E é até engraçado que o entrevistado desse documentário, um sujeito que de otário não tem nada e que se enquadra feito círculo num quadrado, tenha sido batizado com o nome de Eduardo, sobrenome Marinho, o mesmo dos donos daquela organização que tem a satisfação de rimar globo com fazer o polvo de lobo.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Esquerda Volver: 9) O legado de Stalin

Foto: Paulo Pires/GES
Ao longo das não poucas décadas que carrego no lombo (e na alma) – mais de resistência que de existência –, a literatura tem sido uma de minhas fontes preferidas de aprendizado de (não só) história, pois é um modo de eu estudar, se não brincando, ao menos me divertindo. E considero este o mais eficaz (e ainda pouco utilizado) método de aprendizado. Por isso, celebro o fim da leitura do talvez mais importante (e interessante) romance deste século que ainda não atingiu sua maioridade: O homem que amava os cachorros, do escritor e jornalista cubano Leonardo (tinha que ser!) Padura, que conta, de modo romanceado (obviamente, visto que é um romance), as histórias de Leon Trotski, seu assassino e, de quebra, grande parte do século XX.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Os Manos e as Minas: 23) Dodô e eu, eu e Dodô

Por Fernando Freitas
Gratidão. Essa palavra anda tão na moda hoje em dia, que muitas pessoas trocaram o bom e velho "obrigado" por ela. Antigamente, a gente dizia "obrigado/a", com esse o/a variando de acordo com o sexo, obviamente. Hoje, resolvemos o problema de gênero: tascamos um "gratidão", e tá tudo certo, seja homem, mulher ou como se autodefina. Mas, falando sério, gratidão é o que sinto por meu mano velho Adolar Marin. E por uma série de fatores, tantos que nem sei se o espaço aqui vai dar conta de abarcá-los se eu os começar a enumerar. Porém, independente do cabimento, resolvi que era hora de tratar dele. Aliás, dele não, de nossa relação. Já faz algum tempo que vinha querendo escrever a respeito dela, e acontecimentos recentes me fizeram bater o martelo.

sábado, 16 de julho de 2016

Crônicas Desclassificadas: 176) Eu, invasor de corpo ou A infância roubada

Sinto uma legítima inveja quando vejo algum barbado (refiro-me a um adulto; a barba aqui no caso é pura retórica) contar com riqueza de detalhes sobre períodos ou passagens de sua infância. Eu não vivi minha infância. Melhor dizendo, eu não me lembro de ABSOLUTAMENTE NADA de minha infância. Quando revejo velhas fotos, fico deveras assombrado ao ver aquele moleque que, dizem, eu fui em situações e locais acerca dos quais não me vem a mais vaga lembrança. Pior, muitas vezes me autoengano, sugestionado por parentes que contam sobre esse ou aquele fato, e com tamanha familiaridade, tanta proximidade, como se tais fatos tivessem ocorrido ontem, que chego mesmo a acreditar que me lembro deles(!).

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Crônicas Desclassificadas: 175) Pra quem o escritor escreve?

Há alguns dias, deparei-me, sem querer querendo, com réplica de Bernardo Carvalho (colunista da Folha de S.Paulo) a João Pereira Coutinho (outro colunista da mesma Folha). Pra resumir, a história era a seguinte: Carvalho, durante um debate na Flip do qual participou, a certa altura se saiu com este polêmico comentário: "Não me interessa se o leitor lê ou não lê; eu quero que se foda. O que eu quero é fazer minha literatura." E então o português Coutinho dedicou sua coluna seguinte a espinafrar o colega. Antes de continuar, um aparte: quando Coutinho chegou à Folha, há alguns anos, deslumbrei-me com ele, cheguei até a lhe dedicar uma crônica (esta); depois, cansei-me um pouco dele, e não por seu explícito posicionamento político à direita, mas porque percebi que seu fôlego era curto.

sábado, 9 de julho de 2016

O X do Poema – 6 anos de teimosia

Neste 9 de julho novinho em folha, O X do Poema completa 6 anos de teimosia pura, ou pura teimosia; como prefiram. Quando comecei, vendo tantos blogues baldios por este quarteirão virtual, não sabia realmente por quanto tempo ia ter fôlego pra me dedicar a esse gratuito (porém prazeroso) ofício; mas os textos foram nascendo espontaneamente (em sua maioria), colunas foram sendo criadas, leitores, colaboradores e divulgadores foram dando o ar da graça, e assim o bloguinho chega a seu sexto ano de resistência muito bem, obrigado! Durante esse período, fui vendo também o ir e vir de leitores, o surgimento de desafetos (é, a sinceridade tem seu preço), a sempre bem-vinda chegada de novos parceiros... E posso também me gabar de não ter fugido de temas espinhosos; a nova coluna Esquerda, Volver tá aí e não me deixa mentir.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Cançonetas (7) + Trinca de Copas (36): Fernando Cavallieri, Marcio Policastro e Pedro Moreno


1) CIDADE ABERTA

Há algum tempo, pensando em minha relação de amor e ódio com a cidade de São Paulo, compus um soneto duplo batizado de Soneto Paulistano, que acabou ficando engavetado por falta de parceiro afim. Só que, há algumas semanas, quando fiquei sabendo que o usurpador Michel Temer era o primeiro presidente paulista em 110 anos, resolvi, num dos tantos encontros da MPB Universitária no Garagem Vinil, recitar o bendito double soneto e "dedicá-lo" ao Temerário. Fernando Cavallieri, que estava presente no dia, gostou do poeminha e me pediu autorização pra musicá-lo. Poucos dias depois, já rebatizada de Cidade Aberta, nasceu a canção que ora divulgo em primeira mão: