sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Grafite na Agulha: 42) Mercedes Sosa, cantando como la cigarra

Assim como quando no Brasil é dia é noite no Japão, quando na ex-Ilha de Vera Cruz começa o verão na Terra do Sol Nascente tem início o inverno. Só que aqui o frio começa já em novembro e vai até meados de março (lá em cima, no norte, é pior ainda). Isso me lembrou que quando visitei pela primeira vez o país de Kurosawa começava o inverno e passei Natal e réveillon por estas bandas. Terminava o ano de 2002 e eu tinha visto neve pela primeira vez em Hokkaido — o que me inspirara a escrever a letra de uma de minhas canções mais bacanas (né, Zé Edu?), Hiroshima, parceria com Clarisse Grova (veja o vídeo aqui). Aliás, nesse período, que durou três meses, compus muito, e, pelo fato de estar tão desenraizado como me via, a inspiração pululava feito milho de pipoca na panela ao fogo.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 12) De Natal e terremoto

O tempo vai passando e a gente vai se moldando ao panorama, vai se acomodando. Assim, tenho sido um tanto relapso na narração dos acontecimentos, que vou tentar resumir nesta missiva. Segunda-feira, dia 18/12, um amigo japonês que mora no Brasil, Yuji san, em passagem por Tóquio reuniu uns amigos num bar pra comemorarmos o fim de ano. Dei uma passada lá com Kana, pois tinha que dar aula um pouco mais tarde. Foi triste sair enquanto todos chegavam, mas tive meu momento de emoção em seguida, pois, como Kana ficou na confraternização, pela primeira vez peguei o trem sozinho. Só quem já estreou por aqui essa emoção sabe. Já os relatos sobre a aula, que gerou até um conto, contei na edição anterior.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 11) Minha mulata que foi morar debaixo da terra

Nós, os escritores, 
fazendo pose de escritores
E não é que o velho Noel Rosa (São Noel! — como diria Vinicius, a bênção, Noel!) tem me auxiliado por aqui? Eu, que sempre fugi de dar aulas como o diabo foge da cruz (dizem), começo a achar um novo caminho em terras nipônicas... e justamente dando aulas. As segundas-feiras no Aparecida têm sido pra mim tão agradáveis que nem parece que tô trabalhando — o que me leva a crer que, em se tratando dos alunos, a recíproca deva ser verdadeira. A experiência adquirida em tantos anos de aprofundamento não só na língua portuguesa, mas também na música popular brasileira, agora começam a me valer e, obviamente, tenho tirado partido disso.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 10) Noel no Aparecida, Kana no Cooljojo etc.

Segunda-feira, 11/12, completaram-se 107 anos do nascimento de Noel Rosa, pra mim não o melhor, mas o mais importante compositor popular brasileiro, aquele que revolucionou e transcendeu (não só) o samba e cuja obra ainda hoje é atual. E o que mais assombra em Noel é que, tendo morrido com 26 anos, deixou uma obra de mais de 300 canções, a maioria obras-primas. Em certa ocasião, participei de uma palestra sobre Noel Rosa, e o palestrante, cujo nome me escapou, disse em determinado momento que não sabia se era Noel que era moderno ou se o Brasil que permanecia arcaico, visto que canções que o compositor compôs entre as décadas de 1920 e 1930 continuam com um frescor absoluto, como se tivessem sido compostas ontem.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A Palavra É: 34) Solidão

("Solidão é lava que cobre tudo, amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo. Solidão palavra cravada no coração resignado e mudo no compasso da desilusão [...]") Minha amiga Isabella Montagnana, bem na fase pós-inferno astral que antecedeu seu aniversário, desabafou no facebook sobre "a sensação de estar sozinha, de não poder contar, de fato, com ninguém", independente de estar rodeada por várias pessoas. E sentenciou: "O mundo é cheio de gente, mas no fim você vai estar sozinho." Discordei dela, em termos, e lhe prometi um texto — como presente de aniversário? Pensei nisso agora, e pode ser que seja. Ainda mais sendo ela sagitariana como eu e, portanto, já por isso dona de sensibilidade ímpar.

domingo, 10 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 9) Repeteco no Aparecida + um pulinho no Strings

Terça, 6/12, voltamos ao Barzinho Aparecida pra despedida de Renato Braz. Foi uma festa bem bonita, com casa cheia e muita música. Renato presenteou com parte de seu vasto repertório o público, que parecia nem respirar pra ouvi-lo. Houve muitas participações dos músicos presentes, e Kana também deu seu recado, emocionando a todos com uma inspirada interpretação de nossa Cacto, que, pelo visto, agradou também ao mano Braz. De quebra, ela aproveitou pra convidar os presentes a assistirem a uma aula que darei no mesmo local semana que vem. Lá também reencontramos uma velha amiga, Kei, que ainda me deu de presente uma carteira com a bandeira do Brasil adaptada feita a mão por ela mesma.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 8) De jazz, cigarros e reconstruções

Se eu fosse resumir numa só palavra, eu tascaria "tesão". Era isso que a energia dos caras no palco me passava. O bairro era Suginami; a cidade, Tóquio; mas se eu fechasse os olhos bem que podia achar que estava num inferninho de Nova York. Os quatro cavaleiros do apocalipse tocavam jazz, mas havia umas pitadas de rock'n'roll ali; muitas, aliás. Em determinado momento, pensei estar ouvindo mesmo um frevo, como se o guitarrista fosse ninguém menos que Robertinho do Recife. O nome do bar, Clop Clop; o da banda, MAD-KAB AT AshGate. A formação era guitarra, trombone, baixo e bateria, e todas as músicas eram do guitarrista, cujo nome me escapou e que Kana chamou de gênio. Confesso que cheguei lá com sono, havia até dado umas cochiladas no carro durante a ida, mas o show não permitiu que o sono me vencesse.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 7) Japonices (2)

Dia 1/12, acordei às 9h. Kana já estava de pé. Durante o café da manhã, tevê ligada na NHK, eu, que não prestava muita atenção à programação, reparo que está passando um surpreendente e detalhado documentário que cobre a primeira e a segunda guerra mundiais, e com riqueza de detalhes e com direito a várias imagens originais de Rússia, Itália, Alemanha, Inglaterra, França etc., incluindo closes de Eva Brau — a primeira-dama nazista — bem de perto, gargalhando e fazendo poses em momentos de descontração. Um documentário termina e começa outro sobre John F. Kennedy, com direito a Marilyn Monroe lhe cantando Parabéns pra Você. Agora, enquanto escrevo, vejo imagens de Mao Tsé-Tung e penso no abismo que há em relação à programação tupiniquim...

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 6) Aparecendo no Aparecida — de Gonzaga a Braz

Sabe aquelas noites em que você sai de casa sem esperar grande coisa e de repente a mágica se faz? Hoje foi assim (começo este relato exatamente às 23h59 — horário de Tóquio — de 30/11). Kana tinha combinado comigo de irmos visitar o Barzinho Aparecida (curta a página no facebook aqui), bar brasuca do amigo japonês Willie Whopper (tô pensando em entrevistá-lo pro blogue futuramente, e uma das perguntas vai ser o motivo da escolha de seu "nome artístico"), onde farei dentro de uns dias um "piloto" de aula de português pra uma turma seletiva de japoneses. Antes, claro, fizemos uma siesta de cerca de duas horas, visto que o (con)fuso ainda não nos abandonou; acordamos por volta das 18h, arrumamo-nos e saímos pra enfrentar o friozinho crescente.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 5) De corvos, cemitérios, templos e indigestão

Começo justo de onde parei na crônica anterior, lembram? Pois bem, às 4h de la matina (29/11; não percam as contas!), depois de quase oito bem-servidas horas de sono, olhei pra Kana, que olhou pra mim, e fizemos cara de "ué". Dormir de novo não valia a pena, visto que estávamos bem descansados. Fizemos uma hora, lemos um pouco, fuçamos na internet, e uma hora e pouco depois saímos pra tomar o café da manhã num restaurante que Kana disse estar aberto 24 horas. Depois de vê-la perder o caminho umas três vezes... Não, não vou humilhá-la. Esse comentário merece um parêntese. Abramo-lo: gente, os endereços aqui são complexos mesmo pra japoneses, imaginem pra estrangeiros. Eu, sinceramente, ainda não consegui entender como fecha essa equação. E olhem que já esta é minha quinta viagem ao Japão! Tenho cá pra mim que, se sair sozinho sem um desses aplicativos de mapas, nunca mais conseguirei me deparar com o prédio de meus sogros — fecha parêntese.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 4) "Brics family"

O programa do dia 28 de novembro foi ir a um jantar de celebração do casamento da sobrinha mais nova de Kana — que está chamando sua família de brics family, pois ela se casou com um brasileiro e a sobrinha em questão com um chinês (faltam só três iniciais pra completar a sigla). Todos estiveram muito agitados durante o dia, rolaram até umas farpas paralelas. E eu, à margem de tudo, só queria acertar o nó da gravata. Aproveito que ninguém tá lendo pra confessar um segredo: odeio gravatas! Inclusive, já havia escrito a respeito — aqui. E, embora já tenha usado gravata antes em não memoráveis situações, nunca aprendi a fazer o nó, de maneira que passei a manhã recorrendo ao youtube pra resolver essa minha falha grave. Depois de muito treino, cheguei a um resultado razoável — sem o traje que iria usar.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 3) Japonices (1)


O fim de semana passou depressa. Principalmente se levarmos em consideração o fato de o Japão estar 11 horas à frente do horário de Brasília. Domingo, 26/11, Kana me levou a Akihabara, que, pesquisando, descobri que ganhou há muito tempo o apelido de Denki Gai, ou seja, bairro dos eletrônicos. É um verdadeiro parque de diversões pros aficionados. Também é uma espécie de centro cultural dos otakus — termo no Japão usado pra designar os fãs de animes e mangás. No entanto, o adjetivo ganhou grandes proporções e hoje designa todos aqueles caras meio nerds que gostam de qualquer coisa em excesso. Há, inclusive, bares só pra otakus, em que as garçonetes usam roupas provocativas e tratam os clientes como se fossem suas criadas. Otakus à parte, no fim do dia saí de lá feliz da vida, com um celular novo, que Kana me deu de presente de aniversário antecipado (amigos, estou de volta ao século 21!).

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 2) Guarulhos, Doha, Narita, Tóquio etc.

O descanso do guerreiro das parolas
É um pássaro? É um avião? 
Não! É um trem 
do aeroporto de Doha!
O voo partiu quase às 4 de la matina do vigésimo terceiro dia do décimo primeiro mês do ano corrente, pra não deixar dúvidas de que nos iria pôr à prova. Eu já dormia a sono solto abraçado à bagagem de mão quando o alto-falante nos convocou. Voo é voo, quem voa sabe: os assentos nunca são do mesmo número de nosso desejo; a comida não deixa saudades, o encosto não inclina o suficiente pra ao menos fingir que é um parente distante da cama e os fones de ouvido pelos quais ouvimos o áudio dos filmes são do século 19. Fora isso, foi tudo em paz até a chegada a Doha, um espetáculo de aeroporto onde um trem de última geração nos levou ao terminal onde começaria a segunda parte de nossa viagem. Claro, depois de cerca de 14 horas de voo, ficar mais umas duas à espera de que começasse o segundo tempo foi fichinha.

sábado, 25 de novembro de 2017

De Sampa a Tóquio: 1) O mar não virará sertão graças às lágrimas

Na primeira vez que vim ao Japão, escrevi um diário. Não tinha um computador à mão ainda, então enchi quase dois cadernos — que não são os saramagueanos de Lanzarote, mas foram batizados por mim de Do Ceará ao Japão. Com o tempo, perderam-se, pra minha tristeza, pois meu HD-cachola, cheio até o talo, costuma expulsar sem minha autorização os arquivos/lembranças mais antigos. Por sorte, na (des)arrumação das vésperas da nova viagem, reencontrei-os, escondidos numa caixa, e pretendo digitalizá-los futuramente. Por ora, aproveito-me da tecnologia e do fato de ter hoje um computador (e um blogue) e começo novo diário, que não será diário — aviso já —, pois dependerá de vários fatores, mas pretendo que seja constante. Começo pelo último dia em Sampa.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Notícias de Sampa: 21) Bye Bye, Brasil

É com um misto de alegria e tristeza que venho por esta avisar aos amigos e leitores que eu e consorte estamos de malas prontas pra uma mudança que, sem sombra de dúvidas, é a maior e mais ousada de minha vida. Semana que vem, zarpamos pro outro lado do mundo, pra Terra do Sol Nascente, também conhecida como Japão — ou Nihon, pros íntimos. Os sentimentos que ora me tomam são todos avassaladoramente complexos e contraditórios. Eu, que vivi o período de ditadura militar em imberbe idade e vi meus ídolos se exilarem em países distantes, ora, na fase adulta, com um tiquinho de vaidade vã e muita frustração vejo chegar minha vez.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Crônicas Desclassificadas: 190) A morte (não anunciada) do e-mail

Se você for uma pessoa hipersensível, pare de ler este texto imediatamente. Bom, quer continuar? A partir de agora, está por sua conta e seu risco. Só não vá reclamar depois dizendo que eu não avisei. Seguinte: é com muito pesar — e não poucas lágrimas derramadas — que venho por esta comunicar um falecimento. Senhoras e senhores, o e-mail partiu desta pra melhor! E o pior não é que ninguém sabia; o pior é que ninguém quis nem saber! A coisa foi assim se dando aos poucos, que nem aconteceu comigo em relação à televisão. Explico: no começo, só o fato de eu estar em casa já era sinônimo de tevê ligada. Depois, o hábito foi diminuindo, diminuindo — e tanto que nunca cheguei nem mesmo a comprar uma de plasma — até que um dia, quando percebi, já não havia mais uma na sala. E... sinceridade? Nem me faz falta.

domingo, 29 de outubro de 2017

Trinca de Copas: 39) Homenagem a Marito Correa

Soube da morte de Marito num sábado, véspera de uma viagem que tinha agendado fazia tempos. As lágrimas me pegaram de jeito; dias depois, transformei-as na homenagem abaixo, num tempinho que encontrei durante essa viagem. Contudo, o tempo passou e perdi a oportunidade de publicá-la. Assim, optei por esperar que chegasse a data de seu aniversário pra fazê-lo. E eis que a data chegou e, cumprindo a promessa que fiz a mim mesmo, venho oferecer flores em morte ao mano Marito, com a consciência tranquila de quem tantas vezes lhe ofereceu também em vida. Feliz aniversário, don Maritón! A festa aí no céu dos compositores deve estar sendo de arromba!

*** 

A primeira vez que perdi um amigo pra pálida dama foi traumático. Eu era jovem, e morte era algo que não fazia parte de minha realidade. Eu não morria; meus amigos e parentes não morriam; morte era um acontecimento que passava a outros, e a maioria das vezes apenas no cinema. Creio que não fui o único. Jovens em geral têm essa ilusão de eternidade. Todos nos sentimos meio que vampiros de filmes pra adolescentes. Aí o tempo passa, a fase adulta chega como uma bigorna que caísse em nossas cabeças, e com ela chegam também os fracassos, as desilusões... e a morte.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Palavra É: 33) Cabral

Desde tempos imemorias, de guerra ou de paz (tanto faz), o concreto fato (do índio ao sem-teto) é que o pobre paga o pato; mas tenho cá pra mim que não foi sempre assim. No princípio (muito antes de protesto e comício), o índio, mais que cidadão, era tratado como pessoa, vivia numa boa e era levado em consideração. Claro, havia uma hierarquia, mas o da alta extremidade não tinha a leviandade de não dar bom-dia a quem quer que fosse, não fazia cu-doce nem se achava the best — e isso era inconteste. Todos eram iguais perante a lei — que, aliás, como direi? ... não havia. Mas uns não ficavam de barriga vazia nem outros tinham demais. O sexo não era tabu e até o nudismo era valorizado pra chuchu. Não havia catecismo e muito menos ateus — até porque, deuses, eles tinham os seus.

domingo, 22 de outubro de 2017

A Palavra É: 32) Vampiro

Hoje é sábado. Aliás, já é domingo — passou da meia-noite. Ouço o barulho da chuva lá fora. Nessas noites, quando escrevo, componho, leio, ouço música, vejo um filme, bebo etc. (e esse etc. pode ser o que você imaginar) — às vezes mais de uma coisa ao mesmo tempo — e me lembro de que preciso dormir... me dá uma inveja danada dos vampiros. Quisera ser um deles e aproveitar a noite toda — a eternidade toda? Ir do livro de poesia ao filme clássico em preto e branco, lapidar aquele verso manco, ouvir um bolero instrumental — como faço agora — ou simplesmente bebericar uma vodca — como faço agora. A vida não é justa. Trabalhamos muito mais tempo do que gostaríamos (e ganhamos, em geral, muito menos do que achamos que merecemos), e durante esse tempo as horas se arrastam...

domingo, 15 de outubro de 2017

Crônicas Classificadas: 46) As mulheres aladas de Oliverio Girondo

Por Michael Parkes
Há algum tempo, assisti a um sensacional filme argentino chamado El lado oscuro del corazón, que conta a história de um poeta que passa a vida procurando uma mulher que saiba voar — há uma continuação igualmente fatal! Ainda pretendo escrever sobre ele. Por ora, basta dizer que esse poeta costuma seduzir suas escolhidas recitando um fragmento do poema em prosa cuja primeira parte traduzi abaixo. A curiosidade foi tanta, que pesquisei até encontrar seu autor, o argentino Oliverio Girondo, baixei o livro (Espantapájaros — espantalho em português) onde se encontra esse poema e estou me deleitando (voando?) com a leitura. Ah, quanta gente genial há por aí de cuja obra não temos nem ideia... Mas deixemos de divagações e vamos ao voo:

domingo, 8 de outubro de 2017

A Palavra É: 31) Paralelepípedo

Tenho absoluta certeza de que num belo e ensolarado domingo (ou quiçá numa segunda chuvosa) vocês ainda me verão caminhando por aí, com aquele sorrisão de orelha a orelha, de bem com a vida, assoviando um samba antigo (que eu provavelmente terei acabado de inventar) e ostentando uma camiseta (talvez roubada da lojinha de Vlado Lima) onde poderão facilmente reconhecer um "I" em inglês seguido de um enorme coração e finalizando com um charmosérrimo "paralelepípedo" tingido de arco-íris em letras garrafais. Yes, people! I love paralelepípedo! Claro, a menos que eu esteja subindo uma rua de paralelepípedos dirigindo um fusca ano ____ (preencha a lacuna) amparado por quatro pneus carecas... Como tantas vezes soeu (e doeu) acontecer em meu passado.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A Palavra É: 30) Rede

Quando levei minha esposa (que é japonesa, pra quem não sabe) pra conhecer a cidade em que nasci (Senador Pompeu, sertão do Ceará), tive algumas surpresas em relação a seu comportamento: a primeira foi o fato de ela ter adorado o caldinho, que meus parentes ofereciam religiosamente após o farto almoço, quase como se fosse uma sobremesa, mas na verdade sendo um prato sobressalente, só pros fortes. Eu, fraco, geralmente passava. A segunda coisa foi que ela, acostumada a dormir em tatames em seu país, adorou dormir em redes. Já eu, cearense corrompido por décadas de garoa, optava pela velha e boa cama (detalhe extrarredial: lá pras bandas de meu rincão o que não rola é tempo ruim; as mesas são fartas e a recepção é sempre acolhedora. Alguns parentes ficaram, inclusive, chateados porque não deu tempo de visitarmos todos).

domingo, 1 de outubro de 2017

Grafite na Agulha: 41) A modernidade etérea de Fernando Cavallieri

Pra começar, preciso afirmar que Fernando Cavallieri é um de meus compositores favoritos e que sua discografia tem um peso na balança de meus sentimentos como poucas tiveram até hoje no decorrer de minhas quase cinco décadas de vida regadas ao amor à música. Isto posto, a informação seguinte, e mais importante que a anterior, é que a primavera de 2017 nos presenteia, depois de um triste hiato, com um disco novo de Fernando Cavallieri. Fosse o Brasil um país digno de seu povo e da cultura que aqui pulula, essa informação por si só seria capaz de gerar capas de revistas e matérias de página inteira nos melhores cadernos de cultura dos jornalões brasileiros.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crônicas Classificadas: 45) A peleja do homem da rua com a televisão

Aproveito meu momento de preguiça mental e resgato um texto que estava comigo havia muito e que eu não achava onde enfiar. Explico: convidei o amigo Carlos Machado, poeta, jornalista e editor do ótimo (recomendo!) Alguma Poesia (visite aqui), a escrever sobre algum disco pra coluna Grafite na Agulha. Ele topou, mas acabou me enviando um excelente estudo, mas sobre uma única canção(!). Nesse caso, não caberia na coluna, e, apesar de ótimo, ficou o texto guardado, esperando melhor ocasião. Hoje, por acaso, lembrei-me dele e pensei em trazê-lo pro Crônicas Classificadas. E por que não? Assim, senhoras e senhores, convido-os a se deliciarem com a bela prosa "machadiana" (esses Machados são afiados!) que trata de uma canção antiga, mas com um tema atual. Fosse composta hoje, talvez se chamasse O Computador. Deleitem-se:

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Crônicas Desclassificadas: 189) Preguiça de escrever

Tenho estado com uma baita preguiça de escrever... Só de olhar a página em branco, já me entram ganas de fazer mil outras coisas que não perder meu precioso (não em termos de $) tempo vomitando palavras... Em primeiro lugar, pela falta dele, o tempo. Ando numa fase de prestação de serviço em período integral, o que me afastou da boa vagabundagem criadora de frases e versos. Em segundo lugar, porque tô me sentindo que nem o governador de Sampa, o Geraldão, que quando disputou a presidência conseguiu a façanha de ter menos votos no segundo turno que no primeiro. Assim anda meu bloguinho. Depois de uma maré boa, entrou seu sétimo ano como eu, em crise. Só que ele, de leitores. Mas não venho por esta chorar as pitangas (nem as camilas). Afinal, leitores são artigo cada vez mais raro no mercado.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Palavra É: 29) Luz

No princípio, era o breu (antes ele do que eu), mas depois um deus poeta explodiu luz no universo, iluminando versos por linhas tortas (quem sabe até em horas mortas), fosse a Via Láctea não uma espiral no céu, mas sim um varal de galáxias de papel num caderno eterno onde cabe toda a poesia que passou a nascer de noite e de dia (da noite pro dia), a poesia do sol e da lua, a do farol quando o escuro se acentua, a das estrelas e a que brota dos olhos só de vê-las. E eis que a luz descobriu sua função: a de apagar a escuridão... e ainda hoje conduz, sem capuz, capaz de quase cegar, de tanto iluminar céu, terra e mar. A luz, aliás, fez mais, iniciou a onda (visto que a Terra é redonda) de contrastes (vós nisso já pensastes?). Sem querer, ela foi responsável pelo inenarrável "nós e eles" (pero no hay virgen en los burdeles).

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Os Manos e as Minas: 30) O Jekyll e o Hyde de Jerry Lewis

Dizem por aí que a arte em si é inútil, não serve pra absolutamente nada! Não mata a fome; não aquece no frio; não refresca no calor; não leva a gente pra nenhum lugar; não nos acolhe quando temos sono; não nos possibilita comprar algo de que necessitamos; enfim, não passa de lero-lero, enrolation, coisa de vagabundo cumunixta que se escora na Lei Rouanet. Possa ser, mas aí eu paro, penso e reflito: como é poderoso esse Raulzito... Brincadeira; eu penso que, se isso é verdade, eu sou um inútil profissional, porque algumas das coisas que me são mais importantes na vida vêm da arte. Acho que se me tirassem, entre outras coisas, a literatura, a música e o cinema, eu enlouqueceria (se é que já não estou louco e não percebi).

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Canções que Amo: 6) Agepê + Canário; Luiz Gonzaga + José Clementino; e Roberto Carlos + Erasmo Carlos


Esta coluna andava um tanto enferrujada, então a polêmica a respeito da nova canção de Chico Buarque me motivou a buscar na memória algumas canções que fizeram parte de minha vida e que, ouvidas hoje, fora do contexto, podiam ser igualmente criticadas. Antes de continuar, gostaria de acrescentar que uma canção — assim como um filme, um livro ou qualquer outra coisa a respeito do que tratemos — deve ser analisada levando em consideração o período em que foi feita. Uma criação costuma estar impregnada dos conceitos de sua época, seja em concordância, seja em tom de crítica, ou seja ainda simplesmente como um exemplo dos costumes daquele período. Pensando nisso, trouxe estas três, que, em outro momento de minha vida, já me deixaram rouco de tanto que eu me esgoelava desafinadamente tentando acompanhá-las a plenos pulmões durante seu girar em velhos vinis.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A Palavra É: 28) Ovo

Que me perdoem os amigos coxinhas, mas eu, particularmente, desprezo o prefeito João Doria e, mais que a ele, tudo o que ele representa. Esse papinho migué de gestor, de estado mínimo, essa vontade feladaputa de vender tudo o que é nosso à "iniciativa" privada, como se todo ladrão fosse socialista (e eu, vocês e o Aecinho sabemos muito bem que isso não é verdade), essa lorota de abrir mão do salário e, sobretudo, esse marquetingue de se vestir de gari e varrer uma ruazinha durante o tempo que leva pra sair bem na foto... Sorry, people... Nada disso me convence.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Eu Não Vi, Mas Me Contaram: 9) O enterro de Cinto-Muito

Naquele tempo, macho, o negoço era diferente, num era que nem hoje em dia, não. Por isso é que hoje o mundo tá perdido; se um pai levanta a mão prum fi, vai inté preso. É mais fácil um fi batê no pai. No meu tempo, arre-maria! Qualqué coisinha, o coro cumia. E ai de quem chorasse. Mãe dizia, "Ingole, o choro, muleque!", e nóis tinha que se aquietá, porque, se abrisse o berrêro, aí é que ela dava a lapada com gosto chega zuava. E num é dizê que era porque nóis era malino, não; se um fazia uma coisa errada e o ôtro tava perto, apanhava os dois, que era pro inucente sirvi de inzemplo pros ôtro.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A Palavra É: 27) Melodia

No princípio, tudo era breu, e eis que do breu se fez a luz (Luiz?). Naturalmente, nesse mesmo princípio tudo era silêncio. Um deus tirano e surdo não permitia o som. Até que uns anjos conspiradores começaram a se reunir em horas mortas em tavernas nas quebradas da periferia celestial pra beber vinho e conchavar contra o despotismo do silêncio. Eles não tinham ainda o domínio da palavra, e tudo eram sussurros, cochichos, grunhidos. Com o tempo, foram aperfeiçoando a técnica, até que um dia, reza a lenda, durante uma dessas bebedeiras, uma garrafa caiu no pé de um dos conspiradores, e este, com lágrimas nos olhos, soltou um dó maior.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Crônicas Desclassificadas: 188) O velho Chico e nossas(?) cantigas

Minha amiga Marina Tavares escreveu recentemente um texto sobre a nova canção de Chico Buarque (o melhor que li até agora — leia aqui) que me encheu de terror e admiração. Explico: 1) Terror: pensei, quem ela acha que é pra "problematizar" uma canção (no caso, uma letra; a melodia é do maravilhoso Cristóvão Bastos) de nosso ídolo maior, que, além do mais, já anda tomando tanta porrada gratuita dos coxas sem noção? 2) Admiração: e por que não? Gal Costa disse certa vez numa entrevista a Jô Soares, cheia de empáfia (digo isso com dor no coração e também com a ousadia de quem sabe que jamais será gravado por ela), que a geração dela é imbatível. Pra mim, ela foi de uma infelicidade ímpar e prestou um desserviço aos compositores que pertencemos a uma geração posterior à sua.

domingo, 30 de julho de 2017

A Palavra É: 26) Ponte

Por Rob Gonsalves
No princípio, havia o abismo entre duas extremidades, mas cada uma delas se sentia em paz, quiçá até feliz, pois não se dava conta de sua solidão. E solidão é como qualquer outro sentimento negativo: não nos afeta muito quando sempre fez parte de nossa vida. Um eremita, por exemplo, vive lá sossegadinho em seu canto, longe da muvuca que algum néscio batizou com o nome de civilização. Até que um dia, por um motivo qualquer, vê-se arrastado pro meio do convívio de outros seres humanos, depara-se com o afeto, com o toque, com o sexo, com a separação, com a mágoa, com a dor... E adeus felicidade. Quando volta pra sua caverna, já é outro, pois tem pela primeira vez na vida consciência de sua solidão.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Crônicas Desclassificadas: 187) Confissões de um homem preso fora do artista

Adoro crônicas, e, de tanto gostar delas, acabei me tornando também um cronista, embora menor. E, se hoje escrevinho com regularidade, tenho que admitir que em grande parte devo isso a Carlos Heitor Cony, cuja coluna diária na Folha de S.Paulo acompanhei durante anos. O fato de ele ter envelhecido mal e ter ficado gagá, transformando sua fina ironia em mero cinismo azedo, não conseguiu destruir a estima e a gratidão que tenho por sua obra. Inclusive, é necessário que eu acrescente, ele também é um excepcional ficcionista. Comecei citando-o porque o li certa vez admitir que a felicidade depõe contra a criação. Durante os cerca de 20 anos em que esteve casado, foi feliz e, portanto, não teve ganas de escrever nada que ultrapassasse suas obrigações de jornalista.

domingo, 23 de julho de 2017

Pra não passar em branco o sétimo ano do blogue

Esta publicação é só pra não passar em branco. Nos primeiros seis aniversários de meu blogue, sempre publiquei um texto comemorativo. Contudo, este ano, quando chegou a data (9/7), estava eu, o homem, travando uma briga com o eu artista. Já aviso que ambos perdemos: um nocauteou o outro. Daí, ficou sem clima pra comemorações. O homem disse ao artista: "Vou parar de te alimentar!" Ao que o artista replicou: "Sou eu quem te alimenta!" Porrada pra lá, porrada pra cá; ego roxo pra lá, bagos inchados pra cá; a única coisa boa que aconteceu com tudo isso foi que, como ele e eu, no fundo, no fundo (beeeem lá no fundo...), nos queremos bem, um ajudou o outro a se levantar.

terça-feira, 18 de julho de 2017

A Palavra É: 25) Frio

Apesar de meu descarado humor, meu hábito hilário (e um tanto otário) de fazer graça, meu incendiário ardor e meu jeitão de boa-praça, no fundo eu sou um triste. Na tristeza consiste minha alegria. E, quem diria?, chega a ser um paradoxo. É que nos sentimentos nunca fui muito ortodoxo. Lamento. Vivo em conflito entre o feio e o finito, entre o nem e o mal, entre o apimentado e o sal. É quase um desacato, um grito. Por isso sou grato à tristeza, que é quem me faz ver com clareza o breu que me ilumina. Ela é gente-fina! E ainda agrega valor (ui!) a minha dor. E, como todo triste que se preze, sou expert em viajar na maionese.

domingo, 16 de julho de 2017

Os Manos e as Minas: 29) Eu e Teju Franco — Dois olhares (e uma canção) sobre a juventude


1) Síndrome de Benjamin Button

Pra mim, existem dois tipos de seres humanos: os que têm filhos e os que não têm. Eu, pertencente à segunda categoria, muitas vezes me flagro, com certa inveja e meio como se eu fosse um ET, observando (admirando) as relações entre pais e filhos. E dessas observações constatei uma coisa: a paternidade envelhece — ou amadurece; como queiram. É que, quando vejo um pai com um filho, noto que o senso de responsabilidade daquele faz que ele pareça mais velho do que realmente é, e o vejo como se ele fosse muito mais velho que eu, mesmo que se trate de um moleque. Mas, pensando bem, talvez o inverso é que seja a grande verdade: eu que, por não ter filho, às vezes ajo inconsequentemente, como se o moleque fosse eu. Não à toa, vira e mexe esqueço minha idade e gosto de imaginar que tenho ainda... mas, afinal, qual é minha idade mesmo?

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A Palavra É: 24) Dor


Ah, a dor... De certa forma, ouso dizer que talvez eu adore a dor, mas quando ela está a-dor-mecida, quando ela está dor-mente, quando ela está dor-mindo. Quando ela está no dormitório da dor. Mas aí de repente ela desperta e vira um ar-dor, e eu já não posso mais segurar o an-dor. Em certos momentos, nem consigo mesmo andar. E eu não sei onde vai dar a dor. Claro, talvez eu esteja apenas dourando a dor, porque uma dor de alma não é uma dor de dente, embora seja mais urgente. É que ela zoa o radia-dor, e dor-avante passa a durar. Meio que nem um doremi. E eu me sinto duro por fora e como que drogado por dentro. Ali, bem onde a dor tem seu centro.

domingo, 2 de julho de 2017

Crônicas Desclassificadas:186) A flor e o Espinoza

Sabadão. Vinte horas de la matina. Calor da porra! Horário de verão recém-implantado. Garganta rangendo mais que fusquinha faltando óleo em subida da Imigrantes. Timóteo, em estado ressacal, apenas despertado do sono da lerdeza, jogou a moeda de um real pra cima. Desse cara, ligaria prum brou pra tomar outras... e umas. Desse coroa, compraria umas brejas e se quedaria em casa lendo Nietzsche, além do bem e do mal, pai, filho, espírito santo, amém. Deu coroa. Ele, por cima dos óculos rotos de aros raros, centralizou foco na porra da moeda e tascou, à guisa de improviso: "Coroa é do tempo do cruzeiro, meu velho!" Nem pestanejou. Aproveitou o pouco crédito que tinha junto à (sic) operadora e operou uma ligação direta que foi parar, do outro lado da linha, no escutador de Baltazar. A prosa, como diria um músico de barzinho, deu-se "mais ou menos" assim:

terça-feira, 20 de junho de 2017

Crônicas Desclassificadas: 185) Vale a pena brigar com o público? — para Teju Franco

Meu parça Teju Franco fez show recentemente e, findo o espetáculo, resolveu manifestar via facebook sua desaprovação ante algumas sentidas ausências na plateia, entre elas a minha — ele me havia convidado a recitar algo, porém caí de cama e, bem na hora do show, jazia com quase 39 graus de febre. Mas minha situação não o sensibilizou, assim como as desculpas (esfarrapadas ou não) dos demais faltantes. Imagino que ele deva ter pensado que mentíamos todos, e não lhe tiro a razão, pois admito já ter dado uma desculpa qualquer pra não ir a algum show. Contudo, desta vez não foi o caso, até porque eu já havia dado meu sim. Se não quisesse, ou pudesse, ir, teria dito na lata.

domingo, 28 de maio de 2017

Eu Não Vi, Mas Me Contaram: 8) Os complexos desejos da vocação

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ATENÇÃO! 
Excepcionalmente, esta postagem é desaconselhável a menores (e também a conservadores, preconceituosos, radicais religiosos, reacionários, skinheads, partidários do politicamente correto e congêneres patotas) 
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Era minha última chance. Eu só tinha alguns meses antes do dia que mudaria pra sempre minha vida. Ainda não dera nenhum passo em direção ao objetivo que não saía de minha mente havia dias, mas já arrastava meus passos pra cima e pra baixo com um antecipado complexo de culpa. Em algumas manhãs, despertava sentindo-me mais forte e decidido a não ceder; porém em outras eu era todo fraqueza e desejo. Deixara de me masturbar fazia dois anos, orava muito, chegava a castigar meu corpo, mas este continuava me desobedecendo. Parecia que, quanto mais eu pedia ao Pai pra afastar de mim a tentação, mais ela penetrava em minha carne, espalhando-se por minhas veias como um vírus ou uma droga.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Entrevistando: 13) Pepê Reis e eu (eu e Pepê) no Sons do Brasil

Não imaginei que ia me enrolar com a falta de tempo como me tem acontecido ultimamente. As 24 horas do dia seriam do tamanho certinho se eu não precisasse dormir as 8 horas diárias que durmo. Quanta perda de tempo! Ainda mais imaginando que quando eu morrer terei a eternidade pra dormir... Lembrei-me de um samba do mestre Wilson das Neves em parceria com outro mestre, Paulo Cesar Pinheiro, que diz assim: "Se alguém me bancar eu sei me vestir/ Só me falta é roupa, Iaiá, só me falta é roupa." No meu caso, só me falta é tempo (e grana). Além dos afazeres domésticos e dos trampos que aparecem picados, mas constantes, estou terminando mais um romance que inventei de começar (o terceiro – e nem lancei o segundo!) e ainda por cima resolvo uma série de assuntos referentes a uma mudança de residência... da qual tratarei mais tarde.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Esquerda, Volver: 17) A esquerda Duvivier

Meu amigo Teju Franco apontou há alguns dias (aqui) certa guinada à direita nos discursos de Gregório Duvivier, humorista e – entre outras coisas – colunista da Folha de S.Paulo, sobretudo no que diz respeito a Lula. Eu, como admirador do moço, saí em sua defesa – embora ele não tenha me dado procuração pra tal – alegando que cada um é livre pra dar sua opinião e ninguém tem a obrigação de gostar de Lula – nem entre os que se dizem de esquerda. A crítica de Teju era fruto de uma entrevista que o rapaz concedera ao El País (leia aqui). Contudo, em sua mais recente crônica publicada na Folha (leia aqui), Duvivier pegou pesado com Lula, comparou-o a Moro, perdeu o humor e agiu – sem provas, mas com convicção – como se fosse um agente da PF (refiro-me à polícia federal, não ao prato feito). Daí, após ler a crônica, fui obrigado a concordar com Teju que o rapaz, no mínimo, anda perdendo a mão.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A Palavra É: 23) Gravata

Experimente pegar um cachorro vira-lata, atraí-lo com algum osso e tentar colocar nele uma coleira. O que acontecerá? Ele provavelmente avançará sobre você não exatamente abanando o rabinho. E por quê? Porque cão sem dono não é lá muito chegado em ser "adotado" sem que combinem com ele antes (mais ou menos como existem mendigos que não querem dormir em albergues). Em contrapartida, os cães domesticados enfiam o pescoço na coleira quase com tanta alegria como aceitam um osso. Essa é uma metáfora que cai como uma luva (pra não dizer uma coleira) pra exemplificar minha relação com o malfadado adereço do título da coluna: a gravata. Sou selvagem, bicho da rua, gosto de sentir o vento no rosto e corpo livre. Não curto nem essas cuecas apertadas que não deixam o "morador" respirar. Sou mais o bom e velho (e arejado) samba-canção.

domingo, 23 de abril de 2017

PodCrê: 1) O sossegado desespero de Rica Soares

Ano passado, um amigo que trabalha com gravação de vídeos me fez uma proposta que de cara me agradou muito: transformar minha coluna Ninguém me Conhece num programa de entrevistas. Além de felicidade, também me tomou o sentimento de ter o ego massageado; só que o projeto, por razões que fugiram de minha alçada, não foi avante. Tempos depois, outro amigo, o grande Rica Soares, sugeriu-me uma coisa mais fácil de lograr: transformar esse projeto em algo mais simples, um programa de entrevistas apenas em áudio, que eu poderia hospedar em alguma dessas plataformas. Deu-me uns toques de manuseio da ferramenta e ainda por cima aceitou ser a primeira cobaia. Dessa forma, nasceu meu podcast que chistosamente chamei de PodCrê.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Esquerda, Volver: 16) "Garota, eu vou pra Califórnia..."


O assunto do momento são as reformas do presidente biônico, e me lembrei delas em certa passagem do livro que estou lendo no momento, o romance As vinhas da ira, do maravilhoso John Steinbeck. A passagem, pra ser mais específico, é o capítulo 19 inteiro, e fiquei com uma vontade danada de trazê-lo pra cá; contudo, pra não cansar a beleza dos leitores (sobretudo a de meu amigo Paulinho das Frases, que é chegado em microcontos) tentei fazer uma edição caprichada do capítulo, pois, embora o livro seja de 1939, Steinbeck consegue explicar de forma didática e resumida como se constrói uma sociedade injusta, como a nossa, e, de quebra, dá também a fórmula de como reverter o processo e "vencer o monstro". Recomendo o livro (e o filme homônimo – igualmente recomendável –, dirigido por John Ford) tanto pra petralhas e coxinhas quanto pra quem não tem nada a ver com isso, como nosso querido professor Leandro Karnal. É ler pra crer!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Os Manos e as Minas: 28) Homenagem póstuma a Donizeti Costa

A Pálida Dama mais uma vez aprontou das suas: como se já não bastasse o cenário catastrófico que é hoje o de nossa Cultura (a com letra maiúscula, não a outra), acaba de levar mais um dos grandes soldados de nossa causa: o jornalista Donizeti Costa, grande figura, comprometido com as causas sociais, mas sobretudo um cara de antenas ligadas e pronto a escrever sobre tudo o que de melhor aparecesse por nossas terras tupiniquins. Tive poucos contatos pessoais com ele, mas via facebook estivemos um tempo bastante conectados. Conhecemo-lo (eu e Kana), se não me falha a memória, por meio do amigo Zé de Riba, e Donizeti, com seu faro jornalístico, sacou imediatamente que minha japinha daria o que falar – e o que escrever. Portanto, como forma de homenagem póstuma, publico abaixo matéria que ele escreveu sobre ela há lá se vão nove anos. Vá em paz, meu bom! E que encontre em sua nova morada panorama melhor que o que por aqui vemos da janela deste campo de concentração travestido de país.

sábado, 25 de março de 2017

Os Manos e as Minas: 27) I love Rita

O facebook é, em sua quase totalidade, uma droga que nos vicia e nos transforma em seres meio tontos, pentelhos e verborrágicos; seu uso em excesso nos deixa como que perdidos no deserto que não sabem pra onde querem ir. Entretanto, quando bem usado – e dosado – tem lá seu grau de relevância e de informação. Como procuro ser aquele tipo de usuário que dá um tapa vez em quando, mas não se deixa engolir pela substância, tenho certo olho clínico pra pescar pérolas, sejam as que uso pra compor, sejam as que absorvo pra meu conhecimento. Foi assim que cheguei a Rita Lee: uma autobiografia. Confesso que sua leitura não fazia parte de minhas prioridades, ainda mais porque não faz muito li uma biografia sua meio romanceada que, apesar de interessante, não era lá esse balaio todo. Contudo, via fb entraram em cena dois sujeitos cuja opinião prezo.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Esquerda, Volver: 15) O caso Karnal sob outro prisma

Assisti há alguns anos à reprise de um programa muito popular na década de 1970 chamado Quem Tem Medo da Verdade?. Tratava-se de uma espécie de encenação de julgamentos de personalidades públicas, que iam ao programa se defender de acusações que lhes eram imputadas. Na ocasião, o “julgado” foi ninguém menos que Roberto Carlos. Não vou me estender muito, mas, resumindo, os entrevistadores/promotores públicos o acusavam de ser mau exemplo pros jovens por causa de roupa, cabelo e atitude, entre outras coisas. E coube ao apresentador Silvio Santos defendê-lo. E o fez muito bem, diga-se de passagem. Disse Silvio que Roberto não passava de um tímido rapaz interiorano que nunca havia pensado em ser líder de ninguém e que estava preocupado apenas com sua carreira artística. E tanto era (e ainda é) verdade, que até hoje o Rei raramente se pronuncia acerca de assuntos polêmicos.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Esquerda, Volver: 14) Por que dizemos "não" à reforma previdenciária

Sim, eu sei, sou um utopista; não o fosse, não me dedicaria a versejar melodias mundo afora. Portanto, sonho ainda em ver chegar o dia em que, por exemplo, torcedores de Palmeiras e Corinthians, Flamengo e Fluminense, Atlético e Cruzeiro, Grêmio e Internacional etc. sentem-se um ao lado do outro na arquibancada sem que seja necessário separá-los como separamos suínos de bovinos. Quer dizer, em raras exceções isso já acontece, mas apenas em jogos da Seleção Brasileira. E por quê? Porque nesse caso há um interesse comum. Por essas e outras, estranhei a ausência dos coxinhas na manifestação contra a reforma da Previdência que houve no dia 15 último. Sim, petralhas e coxinhas não se sentam lado a lado na arquibancada quando a disputa é entre Esquerda e Direita, mas o caso era outro, tratava-se então de um "jogo da Seleção".

quarta-feira, 1 de março de 2017

Crônicas Desclassificadas: 184) A Maria que ninguém vê

Lá foi mais uma vez Maria pregar com suas duas companheiras como fazia em todas as manhãs de sábado já nem lembrava mais havia quanto tempo. Chovesse ou fizesse sol, lá estavam elas indo de casa em casa, batendo de porta em porta, versículos na ponta da língua afiada, embaixo do braço a velha Bíblia desbotada e já encardida de tantos sol e manuseio, distribuindo folhetos que continham a Palavra de Deus. Era, na maioria das vezes, um trabalho infrutífero, pois poucas pessoas abriam as portas – e os ouvidos – pra suas pregações. O mais comum era que cansassem as mãos de tanto bater palmas inutilmente, mas nem por isso iriam parar. Se o fizessem, o diabo teria levado sobre elas a melhor. Conseguindo salvar uma alma, já se davam por satisfeitas. No mais, o sacrifício da caminhada, cansando-lhes o corpo, fazia, em troca, bem ao espírito.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Esquerda, Volver: 13) O micro e o macro

Recentemente, Kana, minha parceira músico-matrimonial, fez um belíssimo show (sou suspeito, claro) no aconchegante Espaço Parlapatões, bem em frente à paulistana e boêmia Pça. Franklin Roosevelt. Pois bem, a entrada era gratuita, mas a casa permitia que a produção do evento passasse um chapéu pedindo ao público que contribuísse com o que quisesse. Kana levou ao parlapatônico palco oito músicos, sendo quatro saxofonistas, e gastou muito tempo pra fazer os arranjos pra essa banda. Até aí, tudo bem, toda profissão tem seus riscos (e enroscos); o detalhe que gerou este texto foi que bem em frente ao palco havia uma mesa de jovens que bebiam alegremente e, nos intervalos de seu êxtase, assistiam ao show. Já na segunda canção, eu, que estava logo atrás, ouvi de uma garota dessa mesa um "Não tem nenhuma música conhecida!". Duas canções depois, porém, todos eles estavam mexendo seus respectivos esqueletos ao som das tais canções desconhecidas.