segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Os Manos e as Minas: 30) O Jekyll e o Hyde de Jerry Lewis

Dizem por aí que a arte em si é inútil, não serve pra absolutamente nada! Não mata a fome; não aquece no frio; não refresca no calor; não leva a gente pra nenhum lugar; não nos acolhe quando temos sono; não nos possibilita comprar algo de que necessitamos; enfim, não passa de lero-lero, enrolation, coisa de vagabundo cumunixta que se escora na Lei Rouanet. Possa ser, mas aí eu paro, penso e reflito: como é poderoso esse Raulzito... Brincadeira; eu penso que, se isso é verdade, eu sou um inútil profissional, porque algumas das coisas que me são mais importantes na vida vêm da arte. Acho que se me tirassem, entre outras coisas, a literatura, a música e o cinema, eu enlouqueceria (se é que já não estou louco e não percebi).

E quando penso isso a lógica se inverte, e tudo o mais é que vira insignificância. A gente vive uma vida tão chata, tão cheia de perrengues; a maioria trabalha em empregos insatisfatórios e malpagos com uma carga horária desumana, perde um tempão entre o ir e vir (isso os que têm emprego!)... e se não houvesse a arte? Aliás, pra muitas dessas pessoas a arte realmente não existe. Elas foram enganadas e foi tirada delas essa beleza; em troca, deram-lhes os canais abertos de TV com sua programação que as aliena e imbeciliza. Daí, essas vítimas devolvem pra sociedade o que esta lhe deu. E vomitam seu discurso raso e cheio de lugares-comuns nas redes (antis)sociais. Por essas e outras, embora de vez em quando eu queira mandar muitas dessas pessoas pra PQP, no fundo tenho pena delas... às vezes, só bem no fundo, mas tenho.

Esse introito foi só pra dizer que numa das fases mais críticas de minha vida, aquele período em que o sujeito está em fase de crescimento e tudo são dúvidas, complexos e quetais, a arte veio me salvar de muita angústia por meio dos velhos filmes vespertinos, entre os quais estavam, obviamente, os de Jerry Lewis. Aliás, deparei-me com seus filmes antes de saber que houvera antes um Charles Chaplin, um Buster Keaton. Em meu período imberbe, Jerry reinava fácil em minha telinha. Claro, havia os nacionais Trapalhões, mas estes eram quatro, ao passo que o outro sozinho, ou vez por outra acompanhado por seu parceiro Dean Martin, dava conta de minha carência de risos. Ah, eu o amava!

O cara era foda! Bastava lançar um olhar blasé, franzir as sobrancelhas, fazer uma semicareta, e eu me acabava. E o que — na época eu não sabia, vim a pensar nisso depois — mais impactava era que ele expunha na tela toda a fragilidade dos caras comuns, ou seja, os caras como eu: os desastrados, os antigalãs, os ingênuos que eram facilmente enganados por terceiros. Eram esses caras que Jerry representava (e, por que não?, homenageava) na tela. Era como se eu menos assistisse a um filme e mais me visse num espelho. E tudo era mágico; as situações mais banais se transformavam em acontecimentos épicos e ao mesmo tempo hilários e surreais... de tão reais.

Falam o diabo sobre Jerry Lewis, já li mil coisas sobre o sujeito, o ser humano Jerry; que era arrogante, que era egocêntrico, que tinha uma postura política reacionária, que era homofóbico e blá-blá-blá... Beleza, se tanta gente falou, talvez ele fosse mesmo; mas, vamos ser sinceros, nada que a morte não resolva. Ela, em certos casos, faz um favor à obra de um ou outro. Afinal, os seres humanos somos todos imperfeitos, contraditórios, mutáveis, alguns envelhecem mal, outros renegam o que escreveram, mas a verdade absoluta é que morremos e no fim nossa carcaça vai dormir eternamente sob um cobertor de terra... e já elvis! No entanto, se o que fizemos em vida tiver sido relevante, isso perdurará por muito tempo.

Não quero defender o sujeito. Na verdade, tô me lixando pra ele. Não o conheci, não foi meu parente, amigo nem inimigo, o que me marcou indelevelmente foi o artista, o gênio criativo, o cara que me arrancava gargalhadas e quase no segundo seguinte me levava às lágrimas. Isso não é pouco; e não é pra qualquer um. Hoje, vemos muitos caras metidos a humoristas que não passam de paspalhões, querem arrancar nosso riso a fórceps ou no tapa, brutamontes que fugiram da escola do riso e destilam veneno em lugar de humor. Acham que é engraçado apregoar o ódio. Esses caras podem ter seus 15 minutos de fama, mas a história os engolirá. Já Jerry, este tem seu lugar garantido no panteão dos imortais. 

E já teria se tivesse sido simplesmente o palhaço simplório do começo de carreira. Só que ele era muito mais que isso. Com o tempo, de tanto observar o que o rodeava, foi aprendendo até adquirir um domínio completo de seu ofício, e creio que não exagero em colocá-lo entre os grandes monstros da chamada sétima arte. Muitas vezes, a comédia é vista como um subproduto do cinema, assim como os romances policiais estão pra literatura... Balelas! Quando uma arte toca corações e mentes, não importa o formato em que ela nos chega. Além do mais, Jerry Lewis foi um baita ator também no drama (bissexto, é verdade), como demonstrou no sensacional O Rei da Comédia, de Martin Scorsese. Enfim, sua arte fez melhor a vida de milhões de pessoas (a minha incluída), ainda que por apenas um par de horas aqui e acolá. Mas de par em par também se molda uma vida. O resto são inutilidades.


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2 comentários:

  1. A vida sem a arte não seria nada, seria mais enfadonha isso sim. Adorei o texto abraço Mi

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