Sou um ser humano egoísta e mesquinho que ao longo dos anos tem supervalorizado sua obra pra ver se consegue equilibrar a balança, visto que como indivíduo sempre se achou o cocô da pulga do cavalo do bandido. Mas um restinho de orgulho me alerta que, como ando num momento dodói de autoflagelo e pena de mim mesmo e estou a ponto de mais uma vez ir a público expor meu ridículo, ao menos a raspa do tacho da dignidade me impele a tirar o time de campo por uns tempos antes de nele entrar, combalido, perigando tomar um particular 7 x 1 — e cheio de gols contra.Colunas
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quarta-feira, 1 de julho de 2020
A Palavra É: 52) Tchau
Sou um ser humano egoísta e mesquinho que ao longo dos anos tem supervalorizado sua obra pra ver se consegue equilibrar a balança, visto que como indivíduo sempre se achou o cocô da pulga do cavalo do bandido. Mas um restinho de orgulho me alerta que, como ando num momento dodói de autoflagelo e pena de mim mesmo e estou a ponto de mais uma vez ir a público expor meu ridículo, ao menos a raspa do tacho da dignidade me impele a tirar o time de campo por uns tempos antes de nele entrar, combalido, perigando tomar um particular 7 x 1 — e cheio de gols contra.domingo, 5 de abril de 2020
A Palavra É: 51) Abraço
Dedicado a Claudia Salto.
***
Reza a lenda que, como o Japão no passado foi um país muito pobre e, por causa disso, propagador de doenças, seus filhos aprenderam (e se acostumaram) a evitar o toque, o contato, o aperto de mãos, o beijo etc. Ainda no Brasil, e mais de uma vez, ao cumprimentar alguma japonesa com os famosos beijinhos no rosto, notei que a desinfeliz beijava com a bochecha ou, pior, a orelha; ou seja, tinha medo, nojinho ou ao menos falta de experiência pra tascar um suculento e babento beijo no rosto de quem a cumprimentava. Em certa ocasião cheguei mesmo a dar umas aulas pra uma amiga japa, mas o tempo passou e percebi que ela não se graduara. E agora, em pleno século XXI, no auge da civilização e num momento em que as pessoas aprenderam a deixar os ódios de lado(?), eis que nos vemos obrigados, nosotros, los que no somos japoneses, a imitá-los nessa feia e fria forma de cumprimento.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
A Palavra É: 50) Cabelo
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| Foto: Kana |
Quando eu era criança, tinha os cabelos de um castanho tão claro que era quase loiro (como loiro é o cabelo de minha mãe ainda hoje, praticamente sem fios brancos). E também os tinha lisos. Só que de um dia pro outro escureceram, engrossaram e se enrolaram. Quer dizer, pior que isso, na época parecia mais é que tinham se engalfinhado. Um verdadeiro ninho de ratos. Minha família costumava dizer que o que deixa um cabelo “ruim” é cabeleireiro/a que não tem mão boa. Não sei se é verdade, mas me lembro de que a mudança se deu depois que meu pai me levou pra cortar meu cabelo com um sujeito a quem não posso difamar, pois não tenho provas (embora na época tivesse muitas convicções). É possível mesmo que tudo tenha sido mera coincidência.
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
A Palavra É: 48) Resistência
quinta-feira, 27 de junho de 2019
A Palavra É: 47) Fogueira
Havia dias que eu não escrevia quando resolvi encarar esta virtual folha de papel em branco e só abandoná-la quando a houvesse enchido de palavras, mesmo que carentes de significado. Algo ardia dentro de mim: a incendiária necessidade de escrever. Sou, mais que um homem de palavra, um de palavras. Só que, ao fixar esta folha sem saber o que nela viria a nascer, não me vinha nada. Resolvi usar de um subterfúgio: agarrei um dos poucos livros que trouxe pro Japão e pelo qual tenho muito apreço — Con buena letra, do espanhol Joaquín Sabina, que ganhei de meu querido amigo e parceiro Pedro Moreno, aliás, Edimundo Santos —, fechei os olhos, abri-o numa página aleatória e pus o dedo indicador sobre ela. Iria escrever sobre a palavra que meu dedo apontasse.quarta-feira, 3 de abril de 2019
A Palavra É: 46) Travessia
Morrer, falecer, expirar, descansar, desencarnar, fenecer, perecer, partir desta pra melhor, bater as botas, abotoar o paletó, empirulitar-se, ir morar com o Pai, deixar de existir, voltar ao pó etc. Poderia gastar a vida aqui tratando dos tantos sinônimos que inventamos pra essa travessia cujo destino é sabe-se lá o quê. E que na verdade é também sinônimo do vazio que quem morre deixa em quem fica. Quem não está mais deixa de sentir, sofrer, sorrir, comer, respirar... já quem fica segue em frente, mas com essa dor, com essa saudade, que é meio que "arrumar o quarto do filho que já morreu". É quase imperdoável continuar existindo, ou sobrevivendo a outrem.terça-feira, 11 de setembro de 2018
A Palavra É: 45) Espera
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| Por Francisco Daniel |
sexta-feira, 3 de agosto de 2018
A Palavra É: 44) Tempo
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| Por Francisco Daniel |
quinta-feira, 19 de julho de 2018
A Palavra É: 43) Empatia
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| Por Francisco Daniel |
domingo, 10 de junho de 2018
A Palavra É: 42) Exílio
A terra é redonda — referimo-nos ao planeta, assim, grafemo-la com maiúscula. Um giro completo dela — a Terra, o planeta — leva 24 horas. A história se repete. Dizem que às vezes em tom de farsa. Farsante eu, como posso dizer que essa afirmação é (ou não) verdadeira? Quando muito, posso apenas afirmar que me coube viver nesta época e que tenho me esforçado pra viver bem, tanto no que diz respeito a desfrutar dela (da época) quanto no que diz respeito a ser um homem de meu tempo, com suas preocupações, seus prazeres e suas (des)culpas. Como de culpas estou até aqui (visualizem, atentos leitores), prefiro pensar em tudo o mais. No mais, como acredito em reenca(de)rnação, melhor pegar leve comigo durante a viagem desta carcaça que me coube habitar...sábado, 24 de março de 2018
A Palavra É: 41) Logradouro
Não lembro exatamente o ano — quando muito, posso afirmar que foi num dos primeiros depois da virada do século —, o que, sim, lembro bem é o embasbacamento pelo qual fui tomado quando ouvi pela primeira vez a canção Logradouro. Já conhecia seus autores e era razoavelmente próximo deles: Rafael Alterio, pra mim, um dos maiores melodistas que o Brasilzão ainda não teve o privilégio de conhecer, e Kleber Albuquerque, também ótimo melodista e um dos letristas mais originais que surgiram nas últimas décadas. Outra coisa que me vem à memória quando penso nessa canção é a inveja que senti. Falar disso requer novo parágrafo.quinta-feira, 1 de março de 2018
A Palavra É: 40) Vírgula
Trilha sonora: Augusto Teixeira e Ceumar, Vírgula (Augusto Teixeira – Gabriel de Almeida Prado – Léo Nogueira)
***
"A lua é a boca na cara do céu/ O sol é quem acende o céu dessa boca/ Os sonhos são mais altos que arranha-céus/ Ideias são zumbidos de uma muriçoca/ Estrelas são, no breu, luminoso sorriso/ Montanhas são as esculturas dos lábios/ O pensamento é ave num voo indeciso/ O tempo são as páginas de um alfarrábio/ Os astros interpretam o firmamento/ O rio xaveca a terra, mas se casa com o mar/ Poetas são brisas que ouvem o vento/ A música é o som a um passo de gozar/ Paixão é torpedo que erra de destinatário/ Amor é vírus que se contrai pelo ar/ A vida é uma vírgula no calendário/ Se tudo isso é seu/ Me diga quem sou eu/ E o que mais posso te dar."
"A lua é a boca na cara do céu/ O sol é quem acende o céu dessa boca/ Os sonhos são mais altos que arranha-céus/ Ideias são zumbidos de uma muriçoca/ Estrelas são, no breu, luminoso sorriso/ Montanhas são as esculturas dos lábios/ O pensamento é ave num voo indeciso/ O tempo são as páginas de um alfarrábio/ Os astros interpretam o firmamento/ O rio xaveca a terra, mas se casa com o mar/ Poetas são brisas que ouvem o vento/ A música é o som a um passo de gozar/ Paixão é torpedo que erra de destinatário/ Amor é vírus que se contrai pelo ar/ A vida é uma vírgula no calendário/ Se tudo isso é seu/ Me diga quem sou eu/ E o que mais posso te dar."sábado, 24 de fevereiro de 2018
A Palavra É: 39) Gengibre
Minha "patroa", Kana, faz um karê dos deuses — pra quem não sabe, karê é a versão japonesa do indiano curry. Antes de nossa mudança pro Japão, fomos recebidos na casa de Sander Mecca & família pra um bota-fora, e, pra enriquecer ainda mais o cardápio preparado pelos anfitriões, Kana mais uma vez nos brindou com seu karê. Sander, maravilhado, perguntou-lhe qual seria o segredo de tão mágico sabor; e Kana lhe respondeu com simplicidade: "O segredo está no gengibre." Claro que eu já estava a par desse "segredo". Aliás, mais que isso; já tinha o costume de propagar o bendito gengibre pra cima e pra baixo, e não poucas vezes fora do contexto culinário.segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
A Palavra É: 38) Bunda
Aviso aos navegantes:
Esta crônica foi encomendada por minha amiga Silvia Maria Ribeiro. Sou um blogueiro sério e costumo tratar de assuntos da mais alta relevência, mas, como bom covarde, não fujo a desafios... só por masoquismo.
***
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| El baño — de Fernando Botero |
Vinicius de Moraes em certa ocasião deixou escapar uma afirmação que dita hoje causaria furor na nova inquisição que são as redes sociais e, por que não?, o feminismo exacerbado que vê em cada flerte uma ameaça de assédio(/estupro?). Disse ele, sem medo de ser feliz: "Que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental." Levada ao pé da letra (sobretudo desta pequena letra que é o pensamento único das ditas correntes), a viniciana aberração levaria seu autor ao corredor da morte ou, na melhor das hipóteses, ao degredo a que são sujeitas as personas non gratas (Woody Allen?). Contudo, se dermos dois passos atrás pra vermos melhor esta chistosa pérola, perceberemos que Vinicius não tratava da beleza vã, mas da beleza como obra de arte.
sábado, 27 de janeiro de 2018
A Palavra É: 37) Opressão
A opressão vem chegando de mansinho, devagar, sem pressa e sem pressão, sorrateira, rasteira como uma cobra e discreta como um cágado, e, quando de repente dá o bote e envolve o oprimido com seu abraço quebra-ossos, primeiro causa uma sensação de mal-estar, enjoo, comprime o peito do sujeito, asfixia-o e lhe propicia uma forte pressão no cérebro que corta imediatamente o fluxo sanguíneo do pobre, não permitindo que seu pensamento respire. Assim, sequestrado o o oxigênio, começa a vir em seguida uma leseira, quase um "barato", como uma droga que vai corroendo por dentro, uma solitária que vai crescendo dentro do bucho do desgraçado e que pede cada vez mais alimento, fazendo que tudo o que seu hospedeiro ingira vá parar na bocarra da imunda.segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
A Palavra É: 36) Neve
sábado, 6 de janeiro de 2018
A Palavra É: 35) Silêncio
Meu querido amigo Paulo Mayr Cerqueira, jornalista, blogueiro (leia seu blogue aqui), frasista merecedor de calorosos aplausos nos tantos saraus nos quais participa pelos palcos paulistanos, microcontista e grande apreciador da boa culinária e de bons tragos (não exatamente nessa ordem), ao me saber neomorador de terras nipônicas teve a feliz ideia de me sugerir um texto em que o tema fosse o tão importante... silêncio. Claro, ele, como intelectual que é, e ao mesmo tempo morador do centro paulistano, ali pelos arredores do Baixo Augusta, sabe dos pesos e das medidas de ser quem é morando onde mora. E eu, que fui praticamente seu vizinho durante o tempo em que morei no bom e velho bairro do Bixiga, venho por esta tentar, de forma humilde e caótica, atender a seus apelos.quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
A Palavra É: 34) Solidão
("Solidão é lava que cobre tudo, amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo. Solidão palavra cravada no coração resignado e mudo no compasso da desilusão [...]") Minha amiga Isabella Montagnana, bem na fase pós-inferno astral que antecedeu seu aniversário, desabafou no facebook sobre "a sensação de estar sozinha, de não poder contar, de fato, com ninguém", independente de estar rodeada por várias pessoas. E sentenciou: "O mundo é cheio de gente, mas no fim você vai estar sozinho." Discordei dela, em termos, e lhe prometi um texto — como presente de aniversário? Pensei nisso agora, e pode ser que seja. Ainda mais sendo ela sagitariana como eu e, portanto, já por isso dona de sensibilidade ímpar.
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
A Palavra É: 33) Cabral
Desde tempos imemorias, de
guerra ou de paz (tanto faz), o concreto fato (do índio ao sem-teto) é
que o pobre paga o pato; mas tenho cá pra mim que não foi sempre assim.
No princípio (muito antes de protesto e comício), o índio, mais que
cidadão, era tratado como pessoa, vivia numa boa e era levado em
consideração. Claro, havia uma hierarquia, mas o da alta extremidade não
tinha a leviandade de não dar bom-dia a quem quer que fosse, não fazia
cu-doce nem se achava the best — e isso era inconteste. Todos eram
iguais perante a lei — que, aliás, como direi? ... não havia. Mas uns não ficavam de
barriga vazia nem outros tinham demais. O sexo não era tabu e até o
nudismo era valorizado pra chuchu. Não havia catecismo e muito menos
ateus — até porque, deuses, eles tinham os seus.domingo, 22 de outubro de 2017
A Palavra É: 32) Vampiro
Hoje é sábado. Aliás, já é domingo — passou da meia-noite. Ouço o barulho da chuva lá fora. Nessas noites, quando escrevo, componho, leio, ouço música, vejo um filme, bebo etc. (e esse etc. pode ser o que você imaginar) — às vezes mais de uma coisa ao mesmo tempo — e me lembro de que preciso dormir... me dá uma inveja danada dos vampiros. Quisera ser um deles e aproveitar a noite toda — a eternidade toda? Ir do livro de poesia ao filme clássico em preto e branco, lapidar aquele verso manco, ouvir um bolero instrumental — como faço agora — ou simplesmente bebericar uma vodca — como faço agora. A vida não é justa. Trabalhamos muito mais tempo do que gostaríamos (e ganhamos, em geral, muito menos do que achamos que merecemos), e durante esse tempo as horas se arrastam...
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