terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Crônicas Desclassificadas: 73) A dona da voz

"Vivo en un país libre/ cual solamente puede ser libre/ en esta tierra, en este instante/ y soy feliz porque soy gigante". Esses versos do compositor cubano Silvio Rodríguez, cantados com emoção por Chico Buarque num disco deste, me calaram fundo na alma. Nem lembro que idade eu tinha, lembro apenas que meu esquerdismo começava a engatinhar, e Cuba representava pra mim algo de extraordinário, ainda mais em comparação com o Brasil ditatorial do qual havíamos recém-saído (ouvi a canção com alguns anos de atraso). O tempo passou, tive a oportunidade de viajar a Cuba por duas semanas, onde escrevi um diário (que postei no blogue, aqui), e aos poucos minhas convicções foram mudando...
E, embora hoje caminhe firmemente sobre o solo do esquerdismo (eu mais firme que ele), percebi que qualquer totalitarismo, seja de esquerda ou de direita, é prejudicial à individualidade do ser humano. Qualquer governo que queira calar seus cidadãos porque pensam diferente ou impedi-los de ter acesso a qualquer tipo de informação está completamente equivocado. Sinto carinho por Cuba, respeito sua revolução, tenho em Che Guevara um herói, mas sei que o poder corrompe e faz despontarem vaidades, e os exemplos são fartos, vão de Fidel, passam por Hugo Chávez e chegam até nosso PT tupiniquim. Todos lendo a cartilha de que "os fins justificam os meios".

Escrevo hoje estas linhas após ter lido sobre a truculência com que foi tratada em solo baiano a blogueira cubana Yoani Sánchez. E por gente da chamada esquerda. Militantes estudantis! Estamos mal de esquerda (e de estudantes)... Depois de tantos anos calados pela mordaça da ditadura, hoje, livres pra exercer o diálogo, preferimos ladrar contra os que não pensam como nós. Devíamos no mínimo saber ouvir, antes de gritar "traidora" e "paga pela CIA". Nós não moramos lá, temos de tudo por aqui, podemos ler os livros que quisermos, assistir aos filmes que desejarmos, viajar pra onde bem entendermos (se a grana der, claro). Mas eles...

Antes de continuar, expliquemos; sempre há os desinformados: Yoani é uma blogueira cubana que ficou famosa por escrever em seu blogue certos aspectos do cotidiano cubano que Fidel & cia. preferiam que fossem mantidos em segredo. Teve por vinte vezes negada a autorização pra viajar pra fora do país, e só agora, após certo "relaxamento" das regras, enfim, logrou-a. E o primeiro país escolhido foi o Brasil, mais especificamente Feira de Santana (BA), onde iria participar da exibição do documentário Conexão Cuba-Honduras, dirigido pelo cineasta baiano Dado Galvão, que contou com sua participação. A tal exibição não houve, por causa da agitação proporcionada pelos acima citados. 

Há, contudo, teorias conspiratórias ligando-a à CIA. Teorias à parte, o bom convencedor deve saber convencer provando que o que tem a oferecer é melhor do que o que o outro oferece. Isso é básico. Em Cuba o convencimento se dá proibindo que se saiba o que o outro tem a oferecer. Não à toa Yoani teve estado de espírito pra dizer, a respeito da baderna que presenciou: "Um protesto assim contra um convidado do governo cubano não duraria mais que dois minutos" (fonte: aqui). E continuou: "Falar é se meter em problemas. Prefiro o risco da opinião à apatia e à segurança de ficar em silêncio". Também sou contrário aos métodos estadunidenses, mas porque os consideramos vilões não significa que os demais sejam mocinhos puros.

Estar infeliz com Cuba não significa estar do lado dos ianques. O mundo mudou, sabemos que ninguém é mais só preto ou só branco. Cada indivíduo (assim como cada sociedade) tem suas nuances. A melhor maneira de superar o adversário é tentando entendê-lo, e não apenas o demonizando. E, principalmente, reconhecendo nossos erros e fraquezas e buscando a superação deles. A revolução cubana foi necessária pra que a exploração acabasse, mas, com o tempo, ela apenas trocou de mãos, coisa que George Orwell já antevira na década de 1940. Os idealistas morrem (como Che) e os ambiciosos se perpetuam no poder. Mas qualquer poder perpétuo é prejudicial a uma sociedade, pois o caudilho paparicado perde o bom senso.

Yoani, em seu blogue (Generación Y), descreve assim sua chegada ao Brasil: "O aeroporto de Recife, um lugar para o abraço. Ali encontrei muitas pessoas que apoiam durante anos meu empenho de viajar fora das fronteiras nacionais. Houve flores, presentes e até um grupo de gente me insultando que me agradou muito – confesso –, porque me permitiu dizer que eu sonhava que 'algum dia em meu país as pessoas pudessem se expressar publicamente assim contra algo sem represálias'. Um verdadeiro presente de pluralidade, pra mim, que chego de uma ilha que tentaram pintar com a monocromática cor da unanimidade".* Não à toa Nelson Rodrigues chamava burra a esta.

Hoje temos a internet, podemos conhecer o mundo sem sair de casa. Vejamos o que escreveu Yoani sobre sua experiência virtual em nosso solo: "Mas tarde acessei também uma internet tão rápida, que quase não compreendo, sem páginas censuradas nem funcionários olhando pelo ombro a página que visito. Assim que até agora vai tudo bem. O Brasil me deu o presente da diversidade e do carinho, a possibilidade de apreciar e narrar tantos assombros".* Ter opinião deve ser um direito de todos, mesmo pra ter o direito de mudar de opinião. Afinal, o que é melhor, educação sem liberdade (Cuba) ou liberdade sem educação (Brasil)? Minha resposta: liberdade com educação (Utopia).

Não sei se Yoani está ou não a serviço dos ianques! O que sei é que, de certa forma, ela tem prestado um baita serviço à liberdade de expressão cubana, visto que os que a querem calar parecem não possuir voz própria. 

"Soy feliz,/ soy un hombre feliz,/ y quiero que me perdonen/ por este día/ los muertos de mi felicidad."

***

*Trechos (traduzidos por mim) escritos antes dos acontecimentos de Feira de Santana descritos acima. 

16 comentários:

  1. É isso, Léo... Não vou nem me alongar muito. Achei tão idiota e estúpida aquela recepção selvagem, uma demonstração de intolerância e principalmente ignorância. Carinho por Cuba, sim... Alinhamento com ditaduras de quaisquer matizes, "jamás"...
    Hay que endurecerse?? Pero sin perder la ternura...
    E Deus nos proteja, os comunistas, da Coréia do Norte...

    ResponderExcluir
  2. Clap clap clap clap clap! Texto lúcido, coerente e corajoso! Parabéns!
    Um beijão da parceira e fã
    Danny.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, Danny! Não mereço, mas agradeço!

      Beijão do
      Léo.

      Excluir
  3. Ótimo texto, Léo. Raramente concordo contigo a 100%, mas esse aí chegou aos 99%. rs É que eu não acredito nessa balela dela ser financiada pela CIA. Argumento cubano, veeeeelho, aplicado a todos que não se ajoelham ao poder castrista.
    Essas manifestações são orquestradas a partir de Cuba, com apoio do PT e do governo brasileiro. Quem duvida que procure as matérias na imprensa. O embaixador cubano anunciou que essa operação de desqualificação estava em curso, na cara de pau! Distribuiu CDs com o plano das manifestações. Até um assesssor de Gilberto Carvalho recebeu um, e viajou em seguida para Cuba. O embaixador disse também que agentes cubanos iriam seguir Yoani por todo lado no Brasil. Isso é uma vergonha, uma esculhambação e uma humilhação para o nosso país. Mas nos tempos que correm isso é tratado como coisa normal e fica por isso mesmo.
    Que espetáculo dantesco ver essa gente repetindo slogans mentirosos, sem medo do ridículo. Nunca leram o blog da Yoani, mas querem calá-la! Orwell se fosse vivo, estaria sorrindo com o acerto de suas previsões. As palavras de ordem dos "manifestantes" poderiam ser traduzidas como "Abaixo a liberdade!", "Viva a censura!" e "Viva a ditadura!". A esquerda já conheceu melhores dias...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É, Alan, também sou obrigado a concordar com você 99%, pois essa matéria à qual você se refere saiu na Veja, o que já lhe tira um tanto de credibilidade. rsrs

      Mas, quanto ao resto, concordo, realmente lamentável...

      Abraço,
      Léo.

      Excluir
  4. É isso aí Leo, parabéns pelo texto!!!
    Lidar com a liberdade onde a maioria é burra, como bem escreveu Nelson Rodrigues, muitas vezes, acaba em estupidez cega.
    Grande abraço!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois, é, Cláudio. Como disse, liberdade sem educação é complicado...

      Abraço,
      Léo.

      Excluir
  5. será posible alguna vez la educación junto a la libertad? utopía dicen pero insisto en desearla!!

    ResponderExcluir
  6. Taí, deve ser por isso, ou por algo assim, q acabamos não virando parceiros ... É uma lástima ler um artista independente repetindo, conscientemente ou não, o discurso da revista Veja e dos "debates" da Globo News. Afirmar que a exploração em Cuba é a mesma que nos tempos de Batista, tendo apenas trocado de mãos, é uma sandice tão grande que sequer essa blogueira vigarista assinaria embaixo. Que pena.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Cara, você não precisa procurar motivos pra não ser meu parceiro, as coisas acontecem ou não, mas, se você está do lado dos truculentos, não posso fazer nada. Só um detalhe: o que pensaria sobre o assunto Zé Rodrix, hem?

      Excluir
  7. Eu não procuro motivos pra nada, mas como vc escreveu já várias linhas sobre nossa não-parceria, me ocorreu que a razão pode estar além da música. Sobre o pensamento do Zé sobre o assunto, não sou adivinho. Mas nunca tive o Zé como guru, éramos amigos e parceiros mas passamos a vida discordando sobre inúmeros assuntos e nunca fizemos segredo disso. Em tempo: truculência é impor a uma ilha um bloqueio desumano, por décadas a fio.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Alexandre, escrevi várias linhas sobre nossa "quase parceria" porque o tenho em alta conta e essa é uma de minhas frustrações na música. Paciência. Mas não me convence isso de você "achar" razões pra ela não ter ocorrido, ao contrário, me magoa, como se já houvesse de antemão uma pré-indisposição em relação a ela.

      Com relação a truculência, uma não justifica outra. Estive em Cuba por duas semanas e vi com meus próprios olhos o que acontece ali, portanto, sei bem do que a blogueira está falando. Só me incomoda é que a esquerda esteja se utilizando de um radicalismo tão bobo e panfletário, que faz um partido em frangalhos como o PSDB se aproveitar da situação, assim como uma revista de direita como a Veja, que não é onde eu busco assunto pra escrever, pode estar certo.

      Excluir