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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A Palavra É: 11) Moisés

Um belo dia, minha mãe, preocupada com a violência das ruas, trancou o portão que até então vivia aberto e disse, "De hoje em diante, é daqui pra dentro!". Não podendo mais ganhar a rua, precisei usar a criatividade. Primeiro, foram os amigos imaginários; depois, a coleção de tampinhas de garrafa com rostos de personagens de Walt Disney – mais ou menos na mesma época em que surgiram em minha vida os gibis –; em seguida, apaixonei-me por livros infantis, seguidos dos infantojuvenis (pasmem!, agora é assim que se escreve); e, a partir de então, ainda que atabalhoadamente e sem critério, a leitura entrou em minha vida como se fosse uma bola de neve dentro da qual eu seria engolido e sairia ladeira abaixo, destruindo tudo o que fosse ignorância a meu redor. Acabei, na falta da chave que me abriria o portão, inventando portões outros.

domingo, 7 de junho de 2015

A Palavra É: 7) Sentido

Os homens que carecem de sentido têm sobrevivido por muitos mais anos do que os planos da Terra (e de Deus) o tinham permitido. No princípio, era o verbo, depois veio o berro, de lá pra cá tudo foi erro, inclusive o certo e o errado, o pasto e o arado, o aberto e o fechado, a floresta e o gado, a segunda e o feriado, os secos e os molhados, os vivos e os enterrados. Sem falar nos cremados... e na crème de la crème. Tudo o mais não passa de FM mal-sintonizada, o tudo e o nada, quem se afoga e quem nada, águas que passarão e águas passadas, eles passarão e eu passarinho, o caminhão e (a pedra no meio d)o caminho, os louros e os pelourinhos, os que vão e os que vinhos, os advãos e os adivinhos, os sãos e os sozinhos, os sacristãos e os sacristinhos, a lã e o linho, o Alain Fresnot e o fernet, você e eu, eu e você... juntinhos!

terça-feira, 1 de março de 2011

Ninguém me Conhece: 39) A utopia de um certo Pe. Zezinho

Resolvi escrever este texto por motivos afetivos. Quando era criança, costumava passar as férias escolares na casa de meus avós. Lá, passava os dias inteiros jogando futebol num campinho de terra e, quando chovia, ou quando anoitecia, jogava damas com os garotos da rua. Só descuidava dessas importantes atividades nas horas de refeição e… oração. Minha avó era uma católica fervorosa, quando não estava ocupada com os afazeres domésticos estava rezando. Inclusive, visitava doentes e rezava com eles e pra eles. Quando eu ia pra sua casa, sabia que ia pôr em dia minha carga de orações. Eu, moleque, louco pra brincar, achava chato para caramba ter que rezar o terço, depois o anjo da guarda, depois a ladainha, depois o credo, depois a salve rainha, depois a novena de não sei quem, depois mais isso, depois mais aquilo… Enfim, me parecia um castigo, muito pagamento pra pouco pecado (mas deve ter servido pros pecados futuros). Porém, se era o preço, então eu pagava, pois teria o resto do dia livre pra brincar.