terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ninguém me Conhece: 28) Enveredando pelas canções de Rafael Leite

Por onde andará Rafael Leite? Por onde andará Rafa? "Ninguém sabe do seu paradeiro. Ninguém sabe pra onde ele foi, pra onde ele vai". Soube de fonte fidedigna que agora tem uma banca de jornal lá pros lados da Lapa (a paulistana). Já outros juram que viram o elemento num ônibus, violão às costas, voltando pro Vale do Paraíba. Ainda há aqueles que têm certeza absoluta de que o foragido era o sujeito de chapéu que fazia cantoria no centro da cidade. Qual dessas informações estará correta? O certo é que, com o desmantelamento da primeira sede do Caiubi, ele, que era figurinha fácil no local, começou a rarear suas aparições até descobrir a fórmula da invisibilidade. Em certa ocasião, na casa de Tato Fischer, por um momento cri tê-lo visto, mas depois percebi que me equivocara, pois o tipo de penteado moderno e pinta de galã não correspondia à descrição do bigodudo de rabo de cavalo que eu conhecera outrora.

Crônicas Classificadas: 8) O circo das iIlusões do rock: uma tragédia contemporânea

Uma amiga me emprestou recentemente um livro de Nelson Motta chamado Música, Humana Música, lançado em 1980 (!) pela editora Salamandra. Na verdade, é uma compilação de crônicas musicais publicadas anteriormente em jornais. Além da leitura deliciosa que o livro me propiciou, o que mais me chamou a atenção foi sua contemporaneidade. Em 1980 eu não passava de um impúbere garoto, e ter o prazer de ler hoje – 30 anos depois, às vésperas de completar quatro décadas de vida, e em pleno século 21 – textos tão contundentemente atuais proporcionou-me a experiência de ser tomado por um sentimento misto de prazer e frustração, por identificar em longevas crônicas uma premonição do que viria a se tornar a música, humana música, de nossos tristes tempos. Escolhi, entre tantas amargas delícias, um texto que considero cruelmente atual, que, visto não o ter encontrado disponível no universo virtual, tive a pachorra de redigir:  

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Crônicas Desclassificadas: 7) O Palhaço-Fantasma

A caiubista de Roraima, Lucinda Prado, convidou-me a participar do seguinte projeto do qual ela está à frente:

Escrever um livro de coletâneas de contos de escritores/compositores que fazem parte do Clube Caiubi, agregando-os em torno de um projeto comum que venha buscar as características das relações que se travam entre o louco de rua e a comunidade, e detectar a maneira como o convívio com o louco toca o imaginário popular e produz efeitos culturais. Não se trata aqui de um projeto de estudo facilmente encontrado na esfera das ciências, mas sim um resgate aos valores que vêm se perdendo ao longo dos tempos e que tiveram importância ímpar na compreensão de vida das comunidades ou dos grupos sociais de então, com uma riqueza imensa de valores e forma de lidar com as emoções suscitadas pelas histórias, ao mesmo tempo cheias de humor, de piedade e até de certa maldade [...]

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Ninguém me Conhece: 27) Lis Rodrigues, a musa do Caiubi

Todos os grandes movimentos musicais contaram com suas musas. Com o Clube Caiubi não poderia ser diferente. Ela atende pelo nome de Lis Rodrigues. Claro que por lá passaram (e passam) muitas outras, como Lucia Helena CorrêaBárbara RodrixVanu Rodrigues, a própria Kana, entre outras, mas Lis sintetiza bem o que é o Caiubi, pois suas características são as do próprio clube. Lis é eclética, perseverante, guerreira, positiva, tem espírito de coletividade e, sim, acredita sempre. Vai na frente, apontando tendências, dando voz a seus compositores prediletos, um pé na tradição, o outro na vanguarda, como o próprio Caiubi. E tudo isso do alto de seu pouco mais que metro e meio. O talento, contudo, é inversamente proporcional.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Crônicas Desclassificadas: 6) Gomen-ne

Mais uma vez escrevi um conto inspirado em fatos reais. Só que este tem maior liberdade no desenvolvimento da história. Foi assim: hoje, no trabalho, uma senhora que frequenta lá puxou conversa comigo e contou que estava ainda em estado de choque pelo que havia acontecido com seus vizinhos da frente. A partir do que ela me contou, desenvolvi, sem muita preocupação com os fatos reais, o seguinte conto:

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Crônicas Classificadas: 7) Tiririca e os inteligentes

Sou tomado por uma alegria danada quando vejo se consolidar no caótico mercado musical brasileiro algum ser pensante, que não tem medo de dar suas opiniões (e não se furta a fazê-lo). E a alegria é redobrada quando percebo nesses tais seres, além do talento poético-musical, uma saborosa e afiada prosa. Estou me referindo a Zeca Baleiro, claro. Já tive até ímpetos de enfiá-lo num texto do Ninguém me Conhece, mas achei que seria muita cara de pau, não bastassem Ceumar e Celso Viáfora, pra ficar entre os mais ou menos conhecidos destacados lá.

domingo, 21 de novembro de 2010

Um Cearense em Cuba: Décimo Primeiro Dia

2006
JUNHO
DÉCIMO PRIMEIRO DIA
Miércoles, 28.

Fomos à praia. Uma das melhores de Santiago. 40 minutos de táxi. Calma lá, não foi essa fortuna toda que vocês estão pensando, apesar de não ter sido barato. Contratamo-lo via Cubatur, e ele marcou hora pra nos levar e trazer de volta. Uma das melhores praias de Santiago equivale a uma das piores de Varadero. Uma praia cheia de rochas e pedras pequenas; pra entrarmos no mar tínhamos que fazer um baita malabarismo e nos contorcer todos até nos afastarmos do perigo de cortar os pés ou escorregar. Até esqueci o nome da danada da praia, mas não faz diferença, pois não vou indicá-la. O bom foi que ficava dentro de uma espécie de clube, segurança total (se bem que por aqui a segurança é total em praticamente todo lugar). Havia também goiabeiras espalhadas por toda a margem, que nos davam uma bela sombra. Nessa praia, um dia alguém teve uma ideia maravilhosa: fez uma espécie de cerco redondo, todo feito de rochas, dentro do mar, com apenas duas entradas pra água do mar penetrar e uma escadaria que acabava dentro das águas, e foi justamente ali que desfrutamos, pois, fora do cerco, além das pedras, havia ondas violentas. Na volta o taxista nos descontou cinco pesos, pois trouxe também dois amigos alemães, que falavam muito bem espanhol. Um deles era fanático por salsa e já havia vindo a Cuba umas quatorze ou quinze vezes.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Um Cearense em Cuba: Décimo Dia

2006
JUNHO
DÉCIMO DIA
Martes, 27.
    
Está cerrado”. Ouvimos hoje esta frase não poucas vezes. Um senhor de 65 anos, cujo nome me escapou, morreu pela manhã. E o que tem isso com as portas fechadas? Este senhor foi um dos criadores do Festival Caribenho, que acontecerá semana que vem, e durará a semana toda. Por conta disso, todos os ensaios e apresentações que estavam marcados pra hoje não ocorreram, e muitas casas fecharam, por luto. Kana ficou deveras desapontada, pois marcamos pra ir a uma praia próxima amanhã, mas se soubéssemos que o dia ia ser improdutivo, teríamos marcado pra hoje. De bom, apenas a vitória do Brasil por 3 a O sobre Gana e a plena recuperação de Ronaldo. A onda de improdutividade recaiu sobre o outro, o Gaúcho. Engraçado que Adriano, sem praticamente fazer nada durante o jogo todo, acabou fazendo um gol de joelho que, se minha vó não fizesse, minha mãe certamente o faria. E o outro jogo, Espanha e França, terminou em 3 a 1 pra esta última. Esperamos todos que Ronaldo não “amarele” de novo…

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Ninguém me Conhece: 26) Declarando os bens de Álvaro Cueva

Um sujeito se dá conta de que está ficando velho quando fatos que até havia pouco lhe eram recentes da noite pro dia parecem pertencentes a encarnações antigas. Foi o que aconteceu comigo ao puxar pela memória minha primeira lembrança de Álvaro Cueva. Deu-se assim: Em 2002 fui convidado pelos amigos Rodrigo Campos e Nany di Lima a participar do projeto Samba da Bênção. A ideia era originalíssima: uma vez por semana, no Teatro Arthur Azevedo, no bairro paulistano da Mooca, uma roda de samba comandada por Rodrigo homenageava um sambista. Até aí, nada de mais, a peculiaridade consistia no roteiro do show, que trazia nos intervalos das canções uma espécie de palestrante que contava, não a biografia do homenageado, mas fatos curiosos, pitorescos, que o envolvessem. Em seguida, aproveitando a deixa, atores comandados por Nany invadiam o palco e interpretavam a cena. O palestrante era eu! Foi, inclusive minha primeira experiência de palco, e agradeço imensamente aos dois pela oportunidade que me deram.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Crônicas Desclassificadas: 5) Sem Novidade

Dia desses ouvi de um cara que conheci um relato que achei que dava um bom conto. Hoje aproveitei o silêncio das noturnas horas pra pô-lo no papel, ou melhor, na tela. Ei-lo:

Ninguém me Conhece: O 1º show

A partir das 21h da noite do dia 20 de novembro próximo (quis o deus das coincidências que caísse no Dia da Consciência Negra), no novíssimo Bagaça Botequim (que também é a nova sede das Segundas Autorais do Clube Caiubi), que fica na rua Clélia, 2023 (esquina com a Jericoacoara), no bairro da Lapa (Pompeia?), pertinho do Sesc Pompeia, minha coluna Ninguém me Conhece ultrapassará as fronteiras do mundo virtual em direção ao mundo real. Nessa noite subirão ao palco (ou serão representados por outros artistas) Celso ViáforaCeumarDaisy CordeiroÉlio CamalleKanaKléber AlbuquerqueLéo NogueiraLúcia SantosSonekka e Vlado Lima. A maioria deles já confirmou presença! Os telefones pra reserva são: (11) 2386-4915 e 9584-2388. E o valor da entrada pra assistir a seleta lista é apenas R$ 10! O show será filmado e futuramente será divulgado no youtube e aqui. Feita a propaganda, passemos à prosa.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Ninguém me Conhece: 25) Os fragmentos intactos de Alexandre Lemos

A primeira vez que ouvi falar de Alexandre Lemos, se não me falha a memória (e ela costuma falhar!), foi numa segunda autoral no antigo Caiubi, ainda em Perdizes, pela boca de Sonekka, enquanto este apresentava as duas canções que lhe cabiam. Em dado momento, entre a primeira e a segunda canção, disse ele: “Alexandre Lemos, pra mim, é o maior compositor vivo!”. Tomei um choque. Como é que eu nem sequer conhecia um compositor que pra um parceiro chegado era simplesmente o maior vivo? Fiquei encafifado, mas o tempo passou e acabei esquecendo o dito cujo

sábado, 6 de novembro de 2010

Um Cearense em Cuba: Nono Dia

2006
JUNHO
NONO DIA
Lunes, 26.

Não retomei. Dormi. Livros, se não os levamos nas viagens, fazem-nos falta, se levamos, não temos tempo pra lê-los…

Hoje, após o café da manhã, fomos à Casa del Estudiante, que fica exatamente ao lado do Hotel Casagranda, do outro lado da rua. Lá acontecia um ensaio de um grupo de dança chamado Matumba (se não me engano), dedicado à música folclórica. O espetáculo, a cujo ensaio assistimos, mescla três influências da música cubana. Do lado oriental do país há a influência francesa, do lado ocidental há a africana, e há também uma outra (cuja origem esqueci completamente), todas juntas formando uma trilogia a que o espetáculo se dedica. Este grupo é muito famoso, e já viajou por vários países da Europa, além do Canadá. O diretor é rigorosíssimo, um negro pequeno, com tranças e uniforme de basquete, que certamente deve ter trocado com alguém (o uniforme, não as tranças). Ao final, coversamos com o coreógrafo, e Kana o filmou. Foi ele quem nos deu todas essas informações. A dança é muito vigorosa, pois remete às origens africanas dos cubanos.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Crônicas Classificadas: 6) O elogio do amor, segundo Almodóvar

Há alguns anos, a convite de Ricardo Soares, comecei a escrever alguns textos pro site do Caiubi explicando meu processo de criação. O site foi pelos ares, mas consegui salvar alguns textos, entre eles, o que segue abaixo. Estivesse só, eu o colocaria nas Crônicas Desclassificadas, mas, como serve de prefácio pra um texto de Walter Salles, vai aqui mesmo, nas Crônicas Classificadas:

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Crônicas Desclassificadas: 4) Quarups e calados

O Brasil se baianizou. No sentido preconceituoso da frase. Ou eu não nasci de bem com a felicidade. Explico: nesta quinta-feira última, ganhei da sogra (que sogra!) uma viagem para Rio Quente-GO, um resort (ou, como dizem por lá, risórti), já que fica mais bonito assim, em inglês. Lugar maravilhoso, com muito sol e diversas piscinas de água quente natural, além de um parque aquático “mudernamente” batizado de Hot Park. O primeiro dia foi ótimo, relaxante, revigorante. Eles têm lá um método interessantíssimo que é uma espécie de cartão personalizado que cada um leva ao peito e utiliza aonde quer que vá, sem precisar se preocupar com usar dinheiro. 

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Crônicas Classificadas: 5) El buscador

Quando finalmente pisei numa sala de aula na tão ansiada condição de universitário, tive o prazer indescritível de conhecer a espanhola Teodora Freire, uma simpática senhora que iria ser minha professora de espanhol. Lembro-me de que estávamos no laboratório onde iriam ser ministradas as aulas. Teodora preparara-nos um áudio-livro com um conto de um escritor argentino chamado Jorge Bucay. Pus os fones, fechei os olhos e entrei numa viagem inesquecível. O conto era maravilhoso; a voz, do próprio Bucay, era grave, serena; e o mais incrível foi que consegui entender praticamente tudo!