terça-feira, 2 de novembro de 2010

Crônicas Classificadas: 5) El buscador

Quando finalmente pisei numa sala de aula na tão ansiada condição de universitário, tive o prazer indescritível de conhecer a espanhola Teodora Freire, uma simpática senhora que iria ser minha professora de espanhol. Lembro-me de que estávamos no laboratório onde iriam ser ministradas as aulas. Teodora preparara-nos um áudio-livro com um conto de um escritor argentino chamado Jorge Bucay. Pus os fones, fechei os olhos e entrei numa viagem inesquecível. O conto era maravilhoso; a voz, do próprio Bucay, era grave, serena; e o mais incrível foi que consegui entender praticamente tudo!

Poderia passar horas aqui escrevendo a respeito daquele dia, mas preferi fazer outra coisa: há anos venho querendo traduzir esse conto, e hoje, ao despertar e dar-me conta de que estamos em pleno Dia de Finados, achei que era o momento mais que oportuno pra levar a cabo tal empreita, já que o conto trata, sim, de morte, mas é, sobretudo, uma obra de amor à vida. E resolvi postá-lo aqui, nessa coluna que batizei de Crônicas Classificadas mas que foi ganhando desejos próprios e já andou acolhendo até poesia. Então, pensei, por que não acolheria um conto? 

Antes, um detalhe importante: Este conto pode ser considerado como autoajuda. Pensei bastante a respeito antes de optar por postá-lo, pois, sendo eu um crítico de tal tipo de leitura, poderia estar incorrendo numa contradição. Porém, em nome de minha sincera emoção daquela noite e como um contraponto ao dia de hoje, atropelei as dúvidas e resolvi postá-lo e deixar que cada um forme sua própria opinião. Se ele conseguir tocá-los um décimo do que me tocou naquela noite, já me terei dado por satisfeito. No mais, no mundo cabem Fernando Pessoa e também Frank Capra. Ei-lo:


O BUSCADOR*
por Jorge Bucay

Esta é a história de um homem a quem eu definiria como buscador. Um buscador é alguém que busca. Não necessariamente é alguém que encontra. Tampouco é alguém que sabe o que está buscando. Simplesmente, é alguém pra quem sua vida é uma busca.

Um dia, um buscador sentiu que devia dirigir-se à cidade de Kammir. Ele havia aprendido a dar uma rigorosa atenção a essas sensações que vinham de um lugar desconhecido de si mesmo, então deixou tudo e partiu. Depois de dois dias de jornada por empoeirados caminhos, avistou Kamir, ao longe. Um pouco antes de chegar ao destino, uma colina à direita de sua rota lhe chamou a atenção. Parecia um verde e maravilhoso tapete e havia em grande quantidade árvores, pássaros e encantadoras flores. Estava completamente rodeada por uma espécie de cerca pequena de madeira lustrada... Uma portinhola de bronze o convidava a entrar. De repente sentiu que esquecia Kammir e sucumbiu ante a tentação de descansar por um momento nesse lugar. O buscador atravessou a entrada e começou a caminhar lentamente entre as pedras brancas que estavam distribuídas como que ao acaso, entre as árvores. Mas ele tinha os olhos de um buscador, por isso descobriu, sobre uma das pedras, aquela inscrição: Abedul Tare, viveu 8 anos, 6 meses, 2 semanas e 3 dias”. Sobressaltou-se um pouco ao perceber que essa pedra não era simplesmente uma pedra. Era uma lápide! Sentiu pena ao pensar que um garoto com tão pouca idade estava enterrado nesse lugar... Olhando a seu redor, o homem percebeu que a pedra ao lado também continha uma inscrição. Aproximou-se pra lê-la. Estava escrito: Llamar Kalib, viveu 5 anos, 8 meses e 3 semanas”. O buscador se sentiu terrivelmente comovido. Este bonito lugar era um cemitério, e cada pedra, uma lápide. Todas continham inscrições similares: um nome e o tempo exato de vida do morto. Porém, o que mais o deixou espantado foi comprovar que o que o que tinha vivido mais passava um pouco os 11 anos. Invadido por uma dor terrível, sentou-se e começou a chorar. Um ancião, que tomava conta do cemitério, passava por ali e, aproximando-se, ficou um momento observando-o chorar e logo lhe perguntou se seu pranto era por causa de algum parente.

– Não, nenhum parente.  disse o buscador.  O que acontece por aqui? Que coisa tão terrível há nesta cidade? Por que tantas crianças mortas enterradas neste lugar? Qual é a horrível maldição que pesa sobre esta gente, que os obrigou a construir um cemitério de crianças?

O velho sorriu e disse: – Você pode ficar tranquilo, não há maldição nenhuma. O que acontece é que aqui temos um velho costume. Vou lhe contar. Quando um jovem completa 15 anos, seus pais lhe dão de presente um caderninho, como este que tenho aqui, pendurado no pescoço. E é tradição entre nós que, a partir desse momento, cada vez que desfrutemos algo intensamente, abramos o caderninho e nele anotemos: à esquerda, o que foi desfrutado, à direita, quanto tempo durou tal gozo. Conheceu sua namorada e se apaixonou por ela? Quanto tempo durou essa paixão enorme e o prazer de conhecê-la? Uma semana? Duas? Três semanas e meia?... E depois, a emoção do primeiro beijo, quanto durou? O minuto e meio do beijo? Dois dias? Uma semana? E a gravidez ou o nascimento do primeiro filho?... E o casamento dos amigos?... E a viagem mais desejada? E o encontro com o irmão que vive num país distante?... Quanto durou o prazer dessas situações? Horas? Dias?... Dessa forma, vamos anotando nesse livrinho cada momento. Quando alguém morre, é nosso costume abrir seu livrinho e somar o tempo do que foi por ele desfrutado, pra inscrevê-lo sobre sua tumba. Porque pra nós esse é o único e verdadeiro tempo vivido.

*Traduzido por Léo Nogueira.
***

Abaixo, no original, em espanhol:


EL BUSCADOR
por Jorge Bucay

Esta es la historia de un hombre al que yo definiría como buscador. Un buscador es alguien que busca. No necesariamente es alguien que encuentra. Tampoco esa alguien que sabe lo que está buscando. Es simplemente para quien su vida es una búsqueda.

Un día un buscador sintió que debía ir hacia la ciudad de Kammir. Él había aprendido a hacer caso riguroso a esas sensaciones que venian de un lugar desconocido de sí mismo, así que dejó todo y partió. Después de dos días de marcha por los polvorientos caminos divisó Kammir, a lo lejos. Un poco antes de llegar al pueblo, una colina a la derecha del sendero le llamó la atención. Estaba tapizada de un verde maravilloso y había un montón de árboles, pájaros y flores encantadoras. La rodeaba por completo una especie de valla pequeña de madera lustrada… Una portezuela de bronce lo invitaba a entrar. De pronto sintió que olvidaba el pueblo y sucumbió ante la tentación de descansar por un momento en ese lugar. El buscador traspaso el portal y empezó a caminar lentamente entre las piedras blancas que estaban distribuidas como al azar, entre los árboles. Dejó que sus ojos eran los de un buscador, quizá por eso descubrió, sobre una de las piedras, aquella inscripción: “Abedul Tare, vivió 8 años, 6 meses, 2 semanas y 3 días”. Se sobrecogió un poco al darse cuenta de que esa piedra no era simplemente una piedra. Era una lápida. Sintió pena al pensar que un niño de tan corta edad estaba enterrado en ese lugar… Mirando a su alrededor, el hombre se dio cuenta de que la piedra de al lado, también tenía una inscripción. Se acercó a leerla. Decía “Llamar Kalib, vivió 5 años, 8 meses y 3 semanas”. El buscador se sintió terriblemente conmocionado. Este hermoso lugar era un cementerio y cada piedra una lápida. Todas tenían inscripciones similares: un nombre y el tiempo de vida exacto del muerto. Pero lo que lo contactó con el espanto, fue comprobar que el que más tiempo había vivido apenas sobrepasaba 11 años.

Embargado por un dolor terrible, se sentó y se puso a llorar. El cuidador del cementerio pasaba por ahí y se acercó, lo miró llorar por un rato en silencio y luego le preguntó si lloraba por algún familiar.

- No, ningún familiar – dijo el buscador - ¿Qué pasa con este pueblo?, ¿Qué cosa tan terrible hay en esta ciudad? ¿Por qué tantos niños muertos enterrados en este lugar? ¿Cuál es la horrible maldición que pesa sobre esta gente, que lo ha obligado a construir un cementerio de chicos?

El anciano sonrió y dijo: -Puede usted serenarse, no hay tal maldición, lo   que pasa es que aquí tenemos una vieja costumbre. Le contaré: cuando un joven cumple 15 años, sus padres le regalan una libreta, como esta que tengo aquí, colgando del cuello, y es tradición entre nosotros que, a partir de allí, cada vez que uno disfruta intensamente de algo, abre la libreta y anota en ella: a la izquierda que fu lo disfrutado, a la derecha, cuanto tiempo duró ese gozo. ¿ Conoció a su novia y se enamoró de ella? ¿Cuánto tiempo duró esa pasión enorme y el placer de conocerla? ¿Una semana?, dos?, ¿tres semanas y media?… Y después… la emoción del primer beso, ¿cuánto duró?, ¿El minuto y medio del beso?, ¿Dos días?, ¿Una semana? … ¿y el embarazo o el nacimiento del primer hijo? …, ¿y el casamiento de los amigos…?, ¿y el viaje más deseado…?, ¿y el encuentro con el hermano que vuelve de un país lejano?… ¿Cuánto duró el disfrutar de estas situaciones?… ¿horas?, ¿días?… Así vamos anotando en la libreta cada momento, cuando alguien se muere, es nuestra costumbre abrir su libreta y sumar el tiempo de lo disfrutado, para escribirlo sobre su tumba. Porque ese es, para nosotros, el único y verdadero tiempo vivido.

4 comentários:

  1. Meu caro Leo,
    Ler seus textos, mesmo quando não são seus efetivamente, como no caso acima, é uma delícia! Fácil se render ao seu talento!
    Abraço, Dimi.

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  2. Salve, Dimi! Vindas de você, as palavras se enchem de um sabor delicioso e um valor extremo.

    Volte sempre!

    Abração do
    Léo.

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  3. Muy bien Leo!!coincido con dejar atras los prejuicios e incluir todo lo que nos guste!!

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  4. Marce,

    Cuando dejamos atrás nuestros prejuicios, deixamos pra trás também nossos prejuízos. Hehe!

    Besos y beijos,
    Léo.

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