sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Notícias de Sampa: 23) Um mundo em nós... e em vocês!


Como diz um famoso verso de Los hermanos, canção de Atahualpa Yupanqui imortalizada por Mercedes Sosa (e também cantada brilhantemente por Elis Regina), "yo tengo tantos hermanos, que no los puedo contar", eu também tenho a alegria de ter um incontável número de irmãos, manos, brous, que são amigos e parceiros sem os quais minha vida teria sido muito mais triste e sem significado. Durante estes dois anos vividos aqui no Japão, tenho sentido na pele (e na alma) a falta deles, da proximidade física, do abraço e do beijo, dos encontros etílicos repletos de gargalhadas, das vozes de consolo nos momentos difíceis ou simplesmente de seu silêncio compreensivo a meu lado nalgum momento de pranto. De sangue, tenho apenas um irmão; mas ao longo da vida fui encontrando tantos outros... que no los puedo contar.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

A Caverna de GH: 2) Entrevista com o peixe

E eis que o grande Gregory Hamyl está de volta com mais uma de suas interessantíssimas histórias. Quer dizer, já era pra ele ter voltado há muito tempo; eu é que andava um tanto atarefado e por isso — e por outros motivos urgentes que roubaram seu lugar na fila — me vi obrigado a adiar este tão esperado momento. Aliás, e por falar em momento, evitando o spoiler acrescento apenas que este continho que GH nos traz é uma verdadeira metáfora, não diria nem dos tempos atuais, visto que cada tempo tem elementos semelhantes às figuras deste conto, mas que cai como luva nas mãos da atualidade não há dúvida. Em sua prosa de estreia por aqui, gastei dois parágrafos pra apresentar a ele e a sua obra; desta vez, economizo um, pra que mais rápido cheguemos ao prato principal. Com vocês:

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Esquerda, Volver: 25) A merda de Milton no ventilador + artigo de Teju Franco

Todos nós temos certa parcela de culpa nessa merda que virou a música brasileira, de Milton Nascimento a mim e passando por todas as demais instâncias, sejam pra lá dele, pra aquém de mim ou entre o hiato que nos separa. Milton e sua geração têm culpa porque sempre se acharam os fodões, os insuperáveis e pouco (ou nada, variando de artista a artista) fizeram pra que as gerações posteriores a eles tivessem as mesmas oportunidades. Claro, tinham suas próprias preocupações — justificáveis —, sobretudo depois do advento do rock nacional, que derrubou as verbas que as gravadoras lhes regalavam, e mais ainda depois de Collor, que institucionalizou a merda musical... mas custava dar uma mãozinha? Vai que, ajudando o outro a subir, este que subia podia puxá-los da areia movediça onde caíram tantos desses medalhões.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Crônicas Desclassificadas: 195) A loira da loja de conveniência

Escrevi este conto/crônica há exato um ano menos dez dias (hoje, quando o publico, é madrugada de 17 de setembro de 2019). Quase o havia esquecido, quando me deparei com ele ali, quietinho e esperançoso entre meus guardados. Resolvi que era tempo de lhe dar voz (vida?). Antes, acrescento apenas que, claro, é uma obra de ficção.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Cinema & Cia.: 3) Resenha crítica a Chatô, o filme

Meu estimado amigo Carlos D'Orazio — funcionário público em horário comercial, boêmio desses que varam a madrugada só pra despertar o sol, cantor à procura da nota perfeita, tocador de violão em outras rodas, compositor avulso e roteirista inédito (ou seria compositor inédito e roteirista avulso?) — certa vez criticou minha postura de blogueiro "chapa-branca", ou seja, que só escreve pra falar bem de outrem, e acrescentou que não tenho muitos leitores porque o que interessa a estes é a polêmica, o texto descaradamente escrito com o intuito de atingir (ou falar mal de) alguém. Respondi-lhe que meu tempo é muito precioso pra gastar com quem não vale a pena, mas ao mesmo tempo lhe passei a batata quente, convidando-o a ser o autor de um desses textos e prometendo-lhe que, se assim o fizesse, oferecer-lhe-ia espaço nesta humilde morada. Ele, ousado como é, não se fez de rogado e, pouco tempo depois, saiu-me com esta prosa que ora os convido a ler pra que tirem suas próprias conclusões — não só quanto ao texto de D'Orazio, mas também a sua polêmica opinião sobre polêmicas.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A Palavra É: 48) Resistência

Às vezes, a gente perde a paciência (ou a elegância) e age com truculência, em outra instância; toma uma cana e manda uma banana pra geral, um "fuck you", um "tomar no cool" etc. e tal. Sim, porque a gente é humano, não tem sangue de barata, tá cansado de tirano e de psicopata travestido de chefe. Quando tudo é um blefe, não rola oferecer a outra face. E não é só questão de (falta de) classe, é que toda esperança se cansa, cedo ou tarde, e arde na fogueira dos sem eira nem beira órfãos de fé. É, quando nada mais dá pé, há que se meter a colher no caldo da História. Vitória não vem de graça, há que se pôr a mão na massa, arregaçar a manga. Pra evitar um "Brasil de tanga", vez em quando é preciso meter o louco. E achar pouco.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Grafite na Agulha: 49) O adeus a Sydney Valle + seu "Você ainda não ouviu nada!"

É, os tempos estão duros! Soube há alguns dias que mais um querido amigo e parceiro resolveu abandonar o barco antes da hora. Quem foi fazer um som do lado de lá desta feita foi Sydney Valle, o eterno Palhinha, grande guitarrista, compositor e arranjador (arranjou recentemente, inclusive, o belo trabalho da cantora Iris Salvagnini, que contou com uma canção minha e de KanaCruzeiro — no repertório; ouça aqui) com quem tive o privilégio de compor umas poucas, mas belas, canções. Aliás, ele se foi sem me dar oportunidade de lhe pagar uma dívida. Explico: como soube que sou revisor de texto, deixou em minhas mãos um esboço de um livro inédito seu, que, segundo ele, seria uma espécie de romance autobiográfico a ser lançado em vários volumes. O material que me entregou seria referente ao primeiro. Como me mudei pro Japão pouco tempo depois e minha vida virou de ponta-cabeça, acabei adiando a leitura/revisão. Demorei demais...

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Minhas Top5: 4) Aos pés de João Gilberto

Pense num cabra brega, cafona, de mau gosto etc.: como diria Roberto Carlos, esse cara sou eu! Passei toda a infância (até a adolescência) ouvindo os tais artistas cafonas. Inclusive, em breve pretendo escrever sobre eles; só que agora nosso grande "papa" resolveu desencarnar, o magnífico e revolucionário João Gilberto, daí me vi obrigado a escrever antes sobre ele. Não será a primeira vez em meu blogue; há seis anos a não menos querida e saudosa Luhli, a pedido meu, escreveu lindamente sobre o maravilhoso Chega de Saudade, disco divisor de águas que em 1969 nosso Joãozinho gravou (leia aqui) —, e pouco tempo depois o não menos querido Dhenni Santos também versou em prosa sobre ele (aqui). E eis que agora chegou também minha vez de joão-gilbertear(te).

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A Caverna de GH: 1) A lava do solo

Este novo ano que se inicia por aqui, em meu humilde bloguinho, traz uma novidade: uma coluna nova, chamada A Caverna de GH. GH é meu querido Gregory Hamyl, um multiartista talentoso pra caramba que será o dono e senhor da coluna. Ou seja, todos os textos publicados nela serão dele, que, por ser um pensador de alta periculosidade, procurado inclusive pela PI (Polícia dos Ignorantes), optou por manter-se escondido atrás desse nome artístico, pseudônimo, codinome ou seja lá o que seja. Antes de irmos à prosa, e a título de prefácio, comento apenas que o primeiro conto se trata de criação de metaforismo ímpar, assim sendo pedi a Gregory que me explicasse o contexto, o que o autor havia querido dizer com o que escreveu, e ele me mandou uma dissertação que resumo no parágrafo seguinte.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Nono aniversário d'O X do Poema

Ontem, foi o nono aniversário deste meu valente blogue, mas resolvi desta feita publicar o já tradicional texto de aniversário hoje por um motivo muito justo: neste décimo dia do sétimo mês de 2019 mais uma vez me mudei, mais uma vez pruma casinha modesta, como as dos primeiros anos de meu casamento. Só que, ao contrário daquelas, esta é do outro lado do mundo, o que representa por si só um novo começo. Entretanto, não vim falar da casa, só quis traçar esse paralelo entre as duas datas. Isto posto, resta dizer que nesses 12 meses que se passaram escrevi muito pouco, não só por falta de tempo, mas também por certa desmotivação causada pela fuga de leitores. Fosse eu um principiante, juro que teria parado, mas, agora que o vício de escrever já me contaminou por completo, resta-me continuar seguindo entregue a ele, nem que seja em respeito ao vício. E a essa meia dúzia que ainda não desistiu de mim, à qual agradeço e dedico estas maltraçadas.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

A Palavra É: 47) Fogueira

Havia dias que eu não escrevia quando resolvi encarar esta virtual folha de papel em branco e só abandoná-la quando a houvesse enchido de palavras, mesmo que carentes de significado. Algo ardia dentro de mim: a incendiária necessidade de escrever. Sou, mais que um homem de palavra, um de palavras. Só que, ao fixar esta folha sem saber o que nela viria a nascer, não me vinha nada. Resolvi usar de um subterfúgio: agarrei um dos poucos livros que trouxe pro Japão e pelo qual tenho muito apreço — Con buena letra, do espanhol Joaquín Sabina, que ganhei de meu querido amigo e parceiro Pedro Moreno, aliás, Edimundo Santos —, fechei os olhos, abri-o numa página aleatória e pus o dedo indicador sobre ela. Iria escrever sobre a palavra que meu dedo apontasse.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Crônicas Desclassificadas: 194) A química acaba

por Francisco Daniel
A química acaba. Assim como o amor. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, de repente do nada você percebe que a faísca que sempre esteve prestes a virar fogueira hoje não passa mais de cinzas, brasa não adormecida, mas restos mortais do último incêndio. E dá uma tristeza danada, porque a gente se põe a pensar naqueles tempos até nem tão longínquos assim quando tudo gerava fogo. É quase um sentimento de morte em vida, um envelhecimento precoce, um vazio que provoca um gosto amargo na garganta, ali mesmo por onde escorria o melhor dos vinhos. E dá-lhe procurar explicações, buscar culpados onde não há culpas. A coisa é assim, um dia está e no outro já não; um dia existe, no outro há apenas o grande Nada — teria ido parar num buraco negro interior?

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Esquerda, Volver: 24) Lula Livre — muito mais que um samba

por Malu Freire
Um ano e pouco depois de sua prisão, que tal falarmos um bucadim sobre Lula? E, notem, nem me refiro a sua pessoa física, ao dono de um CPF e de um RG, mas sim a essa entidade que seu nome se tornou com o decorrer das décadas, desde os já longínquos anos 1970. Lula hoje no Brasil é sinônimo de salvador da pátria, adjetivo que carrega em si muito preconceito. Muita gente — entre a qual diversos intelectuais — espinafra essa alcunha. Tenho ouvido e lido bastante contra os salvadores da pátria. O próprio Ciro Gomes em sua campanha ano passado batia repetidas vezes nessa tecla: "Chega de salvadores da pátria!" Foram tantos, e tantas vezes, que eu mesmo cheguei a pôr em xeque a importância desses sujeitos. Até que repensei. Parágrafo novo.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A Palavra É: 46) Travessia

Morrer, falecer, expirar, descansar, desencarnar, fenecer, perecer, partir desta pra melhor, bater as botas, abotoar o paletó, empirulitar-se, ir morar com o Pai, deixar de existir, voltar ao pó etc. Poderia gastar a vida aqui tratando dos tantos sinônimos que inventamos pra essa travessia cujo destino é sabe-se lá o quê. E que na verdade é também sinônimo do vazio que quem morre deixa em quem fica. Quem não está mais deixa de sentir, sofrer, sorrir, comer, respirar... já quem fica segue em frente, mas com essa dor, com essa saudade, que é meio que "arrumar o quarto do filho que já morreu". É quase imperdoável continuar existindo, ou sobrevivendo a outrem.

terça-feira, 5 de março de 2019

Canções em Colisão: 2) Verdades e mentiras ilusórias

O colega Miyage, que, além de químico, professor universitário e músico, tem um interessantíssimo blogue em que heróica e diariamente escreve sobre música brasuca (este: 365 canções brasileiras), desafiou-me a não deixar a peteca desta coluna cair. Aceitei o desafio e cá estou, iludindo (mesmo sem ter o dom).


***

No Brasil parece que não, pois estamos sempre atrasados quando nos comparamos a outros povos, mas em geral com o passar do tempo o mundo melhora, a civilização avança, as pessoas mudam e com elas seu comportamento. E os compositores, assim como os escritores, cronistas e quetais, têm sido repórteres de sua época. Tá, nem todos, claro, mas grande parcela deles (a mais significativa, eu diria). Por essas e outras é que não podemos simplesmente criticar inconsequentemente certas obras sem entender o contexto social do momento em que foram criadas.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Cinema & Cia.: 2) As asas de Bruno Ganz (e os anjos de Lucio Dalla)

É inexplicável pra mim como sinto um enorme desejo de escrever sobre a morte de alguns artistas — alguns dos quais, como Bruno Ganz, que nem significaram tanta coisa assim em minha vida — e silencio sobre a de outros que amei... A única explicação que me vem pra isso é que, como não me pagam pra escrever, deixo-me levar pelos anjos (demônios?) de meu coração, que me sopram às vezes sentimentos dos quais nem me lembrava mais de ter sentido. Como foi pra mim começar essa viagem não a bordo de um avião, mas das asas de Bruno Ganz, de cujo rosto me lembro de uma série de outros filmes, mas que me marcou por dois. A eles, pois:

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Cinema & Cia.: 1) Sexo, além do prazer

Há alguns dias, meu amigo Antônio Carlos me desafiou a publicar no facebook fotos de dez filmes que marcaram minha vida — um por dia. Só que, de acordo com as regras da brincadeira, eu não podia comentar os respectivos filmes. Resignado (e um tanto contrariado), obedeci; entretanto, nasceu-me então a ideia de criar aqui no blogue mais uma coluna, desta vez tratando exclusivamente de cinema. Minha ideia era começar pelos dez filmes cujas fotos publiquei no fb, mas uma série e um filme a que assisti recentemente me fizeram mudar de opinião. De modo que a coluna que ora estreia resolvi que tratasse justamente de...

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Minhas Top5: 3) Eu, bêbado; Elis, equilibrista

Descobri Elis Regina tardiamente. Confesso que a primeira cantora que me pegou de jeito foi Maria Bethânia. Eu, que sou desafinado até falando, nunca me preocupei em saber se a irmã de Caê alcançava as notas ou não. Pra mim, o que importava eram o repertório e a interpretação, que tinham tudo a ver comigo. Bethânia sempre foi uma atriz cantando. Já Elis (também atriz), puxando pela memória, lembro que tocava no rádio bastante com Alô, Alô, Marciano — refiro-me à época em que eu já começava a me entender por gente. Tempos depois, de tanto ouvir falar da "Pimentinha", comprei uma coletânea dela e foi a partir daí que ela começou a soar nos tímpanos del mio cuore. Sim, depois fui atrás de seus discos, mas vamos por partes, como diria... não, não vou completar essa frase manjada...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Minhas Top5: 2) Outro retrato de Djavan

Fuçando num grupo do facebook dedicado a Jorge Drexler, descobri que esse uruguaio cidadão do mundo acaba de fazer uma linda participação no mais recente trabalho de Djavan, Vesúvio, cantando uma versão em espanhol de uma das canções desse disco. Bastou isso pra eu me pôr a reouvir Djavan, este que, como Lulu, é um hitmaker de mão cheia. Só que Djavan, embora tenha também uma veia pop acentuada, é mais, digamos, classudo, jazzístico e emepebístico, tanto em suas melodias elaboradas quanto em suas letras únicas — e não raro ininteligíveis, dizem as más línguas.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Minhas Top5: 1) Lulu de todos os Santos

Gosto de cochilar ouvindo música, e cada vez escolho um artista diferente pra (re)ouvir, o que não deixa de ser também uma viagem no túnel do tempo rumo a meu passado. Recentemente, o escolhido foi Lulu Santos, e, enquanto ressonava (e ele ressoava), tive a ideia de usar mais uma vez meu blogue pra prestar outras — e novas — homenagens a esses tantos artistas que fazem parte de minha memória afetiva; assim, enquanto suas canções faziam ligação direta entre meus tímpanos e meu coração, bolei a estrutura e batizei de Minhas Top5, coluna que estreio agora, e, como Lulu foi a mola propulsora, começo por acertar minhas contas com ele.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Versão Brasileira: 4) "Alto el fuego", por Augusto Teixeira + textinho de feliz ano novo

O ano de 2018 foi pra mim extremamente delicado. Pela primeira vez na vida, passei um ano inteiro morando fora do Brasil (pra quem me lê pela primeira vez, acrescento que estou vivendo em Tóquio, Japão, desde fins de novembro de 2017), e, se comi o pão que o diabo amassou, em contrapartida não posso omitir que, naturalmente, foi um ano cheio de experiências novas. Vi-me obrigado, entre outras coisas — e pela dificuldade de me comunicar em japonês —, a trabalhar num ramo com o qual nunca nem sequer havia sonhado: de um dia pro outro lá estava eu trabalhando numa churrascaria brasileira no coração de Tóquio.