quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Esquerda, Volver: 25) A merda de Milton no ventilador + artigo de Teju Franco

Todos nós temos certa parcela de culpa nessa merda que virou a música brasileira, de Milton Nascimento a mim e passando por todas as demais instâncias, sejam pra lá dele, pra aquém de mim ou entre o hiato que nos separa. Milton e sua geração têm culpa porque sempre se acharam os fodões, os insuperáveis e pouco (ou nada, variando de artista a artista) fizeram pra que as gerações posteriores a eles tivessem as mesmas oportunidades. Claro, tinham suas próprias preocupações — justificáveis —, sobretudo depois do advento do rock nacional, que derrubou as verbas que as gravadoras lhes regalavam, e mais ainda depois de Collor, que institucionalizou a merda musical... mas custava dar uma mãozinha? Vai que, ajudando o outro a subir, este que subia podia puxá-los da areia movediça onde caíram tantos desses medalhões.

Eu e minha geração temos culpa também porque aprendemos pela cartilha da MPB setentista, e copiamos tal e qual, com caras & bocas & gestos etc. É muito bonito ser artista de esquerda, engajado, arrotar "Lula livre", postar nas redes sociais que "ninguém solta a mão de ninguém, compor e gritar a plenos pulmões o amor e sua necessidade (revolucionária?), mas, na hora do pega pra capar, é aquela velha história: farinha pouca, meu pirão primeiro. E não tem nada de amor isso. Aliás, como diz o clássico, e por falar em pirão, a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia. Sim, porque os meus que conseguiram certa projeção midiática soltaram rapidinho a mão dos demais, e com uma facilidade de assustar a esquerdalhada cancioneira.

E, entre esses todos que vieram depois de Milton e os que cabem em sua kombi, tudo o que rolou foi uma relação entre iguais que não difere de nada da que ocorre em Brasília com aqueles em quem votamos pra nos representar. Conchavos, acordos de sobrevivência, praticamente um "governo de coalizão". Em que o que menos valeu foi a amizade verdadeira pelos seus que continuaram lá embaixo, no underground emepebístico brasuca. Claro, como em toda regra, há louváveis exceções, mas o mais normal é ver artista — e aqui me refiro a todos — jogando pra galera — compondo o que sabe que vai agradar, mesmo que não agrade a si próprio —, querendo libertar Lula — porque vai ficar bem na fita — e, em foro íntimo, mandando uma banana pra todos de quem ele não deveria soltar a mão.

Ah, e quanto às outras instâncias, prefiro não me estender muito. Das gravadoras acuadas, passando por artistas milionários vendidos, políticos politiqueiros de ocasião, fazedores de opinião sem opinião etc., e chegando até os ouvintes de oiças preguiçosas... bom, cada um sabe onde o sapato aperta. E quem sou eu pra julgá-los, visto que tenho andado calçando um dois números abaixo do desejável. Findo este introito, fiquemos com o — quase — sempre lúcido Teju Franco, amigo e parceiro que tem sido uma exceção à regra que vigora hoje... e, pensando bem, tem vigorado desde que me entendo por gentalha. A ele, pois:


Ei, Milton! A MPB não tá uma merda não!*

A questão é que a produção artística entregue apenas aos interesses de mercado não produz as novas músicas e os artistas das vertentes da MPB, que virou um artigo de luxo permitido àqueles que têm recursos para se produzirem; normalmente filhos de artistas famosos ou pessoas ligadas ao show business. Ainda no tempo das gravadoras, já não havia mais produtores e nem verbas para MPB. Havia vocês, os grandes artistas consagrados, mas o gênero em si não existia mais como um produto de mercado. Não havia mais um departamento nas gravadoras destinado ao gênero “MPB”, olheiros, festivais, programas de TV e rádio, nada. Os produtores antológicos, sem verbas, migraram em maioria para o cinema. O gênero continuou existindo, vivendo de seu passado glorioso, dos filhos de artistas que ainda dispunham de recursos e facilidades, alguns muito talentosos e outros nem tanto, e também nos bares da vida, botecos, Sujinhos, Bora Boras, Vou Vivendo...

Embora fora de mercado, fora de circuito, fora das rádios e mídias de massa, fora das grandes casas de shows, a bela dama, a mina que assombrava o mundo, a chamada música brasileira, ou MPB, e seus manos, os compositores, ainda cantam por aí, compõem como nunca, encantam corações e mentes em lugares pequenos, muquifos, botecos e, principalmente, saraus.

Nos chamados barzinhos de MPB, normalmente não se permitem músicas autorais, apenas os clássicos e hits do gênero, o que levou os compositores a criarem saraus domiciliares em que se encontram, celebram, e apresentam suas novas canções. Sim, fomos para dentro de casa, casas de músicos e aficionados, fãs, amigos, as nossas próprias, foi o jeito de continuar a existir.

“Mas existirmos a que será que se destina”? Tem muita gente boa criando música por aí, fazendo canções com a mesma vitalidade com que vocês fizeram, letras incríveis, harmonias, melodias, ritmos; você ficaria admirado em saber como tem gente “phoda” por aí, compondo verdadeiros clássicos em completo anonimato, artistas que não conseguem romper uma roda de amigos.

Não tá nada fácil não; é que fomos talhados dos mesmos amor, coragem e ousadia da geração de vocês, e pagamos um preço bem alto por isso. Assistimos há décadas a pessoas que não têm nada a ver com arte disporem de estruturas milionárias para veicular essa música que você chamou de merda, e é mesmo, enquanto pagamos para nos apresentar para 20 ou 30 pessoas. Nossos shows são deficitários, nós realmente pagamos para continuar existindo; sem produtor, empresário, hotel, transporte, equipe técnica; muitas vezes levamos o equipamento de som, fazemos a produção, a divulgação etc. Nós fazemos de tudo um pouco, mas continuamos, seguimos “não importando se quem pagou quis ouvir”.

Não sou populista com meu gosto pessoal, jamais vou combater que alguém faça o que quer que seja, nem ser ofensivo ou mal-educado com as pessoas que fazem músicas de que não gosto. Normalmente essas coisas cheias de fórmulas e clichês são muito chatas, nada inventivas; o brega real mesmo é legal, tem seu charme, sua mágica e inventividade, sua origem genuína e popular, mas essas músicas sobre as quais você reclamou são insuportáveis e repetitivas. Contudo, como arte é uma coisa que se faz para apreciação, gostar e não gostar, eu vou usar de meu livre arbítrio, mesmo porque nessa vida de artista a rejeição também é parte fundamental e diária do ofício. Quem ama de fato o ofício respeita, enfrenta, desrespeita a rejeição; costumo dizer que fazemos arte para as pessoas gostarem e não gostarem, se todos gostassem não haveria a menor graça — dar o acorde e sair correndo para os aplausos que graça teria?

Saiba, queridaço Milton, Milton da vida da gente, sua geração faz tão parte da vida de nossas vidas que, nessa idade em que todos estão, vivemos pensando no que será da gente sem vocês; já que não conseguimos de fato existir, mas subsistir à sombra de; mas a gente tá fazendo música sim, temos nossos Clubes da Esquina também, nossas “Tropicálias” , nossas “Bossas Novas”. Sem querer ser pretensioso e já sendo, não devemos nada para vocês. Tanto lidamos para continuar um legado tão poderoso que vocês deixaram que, sim, muitos chegaram a esse nível de manufatura e encantamento que vocês impuseram ao mundo. Vocês ficariam orgulhosos de conhecer alguns dos filhotes de seus legados, todos vocês. Não tô culpando nenhum de vocês por não saberem que a gente existe — como saberiam? Quanto mais difícil fica o ofício, mais gente aparece, a internet é fantástica porque deixa todo mundo fazer tudo, mas nos torna um em um milhão, então na verdade você está fazendo número, vocês não são produtores, têm suas carreiras para levar, vivem viajando pelo mundo, trabalhando duro; nosso anonimato se deve às opções que o “deus” mercado tomou, a ausência de políticas culturais para talvez ajudar a preservar um dos tesouros desse país, a MPB, uma referência no mundo todo e aqui completamente abandonada pelo Estado, renegada, e no varejo trocada por essa música merda de que você falou.

C’est la vie!, mas nós não vivemos de chororô não; somos felizes, a música tem uma contrapartida de juventude eterna em algumas pessoas que aderem a sua religião, pagamos para existir, nos apresentar, bancamos nossas produções a duras penas, vivemos eternamente nos primeiros anos da carreira de vocês, eternamente, botando nossas tralhas num audaz “Manuel” e soltando a voz nas estradas. Não somos amargos, graças ao deus da música somos um pouco como vocês, generosos, felizes, tristes, invencíveis, corajosos, estamos aí firmes e fortes na misteriosa “travessia”, vamos aonde o povo está. Se não tivemos a mesma sorte que vocês — porque tem muito de sorte nessa profissão, sorte, hora, oportunidade, lugar, tempo, tempo histórico, condições —, se não tivemos isso, tivemos a mesma nobreza, as mesmas paixão e verdade, os mesmos amor, entrega, sacrifício e... talento.

E nunca paramos de sonhar, minha turma mais próxima tá nos 50 anos, um bando de compositores monstros, e todo mundo sonha ainda — juro procê.

Venha pra um sarau na casa do Max Gonzaga — hahaha! Viu como a gente ainda sonha?

Venha, e você vai conhecer uma turma que vai tirá-lo dessa melancolia mais do que compreensível.

A música brasileira não tá uma merda não, Milton, tá no mesmo lugar a que vocês a levaram, só foi tirada de cena.

Beijo e saúde, meu irmão!

25/9/2019


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Publicado originalmente aqui.


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3 comentários:

  1. Perfeito, Léo! Me vi no teu texto! Faço música por amor, por necessidade, mais espiritual que finaceira. A financeira a gente vai soltando pernada, dando rabo de arraia feito capoeirista.Sim, um capoeira da vida. Já dizia o poetinha..."Capoeira me mandou, vai ter briga de amor..." É exatamente isso, "briga de amor", de luz que emana do nosso ser, grita mais forte que o ter. Assim vamos sonhando com a composiçao de cada vez para nossa voz, sempre na esperança que caia na boca de outras vozes, outros ouvidos, apesar de olvidados

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  2. Esteve bem você Leo assim como Teju. A idade não perdoa... E Milton não foge à regra pensa que pode dizer TUDO:

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