quinta-feira, 17 de outubro de 2019

A Caverna de GH: 2) Entrevista com o peixe

E eis que o grande Gregory Hamyl está de volta com mais uma de suas interessantíssimas histórias. Quer dizer, já era pra ele ter voltado há muito tempo; eu é que andava um tanto atarefado e por isso — e por outros motivos urgentes que roubaram seu lugar na fila — me vi obrigado a adiar este tão esperado momento. Aliás, e por falar em momento, evitando o spoiler acrescento apenas que este continho que GH nos traz é uma verdadeira metáfora, não diria nem dos tempos atuais, visto que cada tempo tem elementos semelhantes às figuras deste conto, mas que cai como luva nas mãos da atualidade não há dúvida. Em sua prosa de estreia por aqui, gastei dois parágrafos pra apresentar a ele e a sua obra; desta vez, economizo um, pra que mais rápido cheguemos ao prato principal. Com vocês:


Entrevista com o peixe
Por Gregory Hamyl


Naquele ruidento barulho branco, dentro do azul refratário, ainda ouvi um toque das frequências agudas cortantes de algo semelhante ao ferro, antes de vislumbrar aquele objeto que ia pouco a pouco se tornando quieto, no distorcido som inaudível, se dando ao movimento das águas que ali ele foi habitar — é o que entendia. Ainda não saberia reconhecer o que seria, pois a uma certa distância o que é não é o que se vê — mesmo porque muito do que se vê realmente não é o que é.

Via aqueles cardumes passeando de lado a lado, pensando no porquê de eles andarem em grupo. Não sou muito chegado a grupos — tendem a limitar minha linguagem e quero mais é a língua solta e livre! Estava à espera de um outro sonhador, este sendo um peixe, cuja vida estava ali para refletir. Deveria haver algum rebelde libertador, em libertação, para mostrar alguma possibilidade de ação em novidade — que maldade, estava eu ainda querendo que tudo a meu entorno tivesse essa espécie pacífica de vingança do mundo, mostrando ao mundo como ele é, o que ele produz e coisas do gênero, como qualquer indeciso...

Meu interesse, nesse caso, dava-se especialmente por se tratar de seres que ouviam certo o que ouço errado, isto é, suponho que eles tinham sua maneira especial de ouvir, por tanto tempo vivendo dentro das águas. Eu, que me revelo em som, haveria de ter mais uma perspectiva desse ambiente sonoro tão especial, onde haveria de transpor para a escala humana o que é esse grande arsenal de sons ocos, vazios, inquietos e vibrantes, batendo direto no corpo e tremendo no coração. Não sei se era saudade do tempo de feto, mas... pode ser! Isso, claro, está por baixo da entrevista de pesquisador que tento me formar.

Enquanto minha visão restrita pesquisava algum possível alvo, vem por trás um peixe azul engraçado, todo desengonçado e gordinho, que reclamou de pronto: “Sai do meio!” Achei que era ele. Um “cara” assim deveria ser um transgressor — além de mal-educado, claro. Não acredito que transgressores sejam mal-educados, mas, entre eles, um ou outro sempre se alia como forma de “se superar”.

— Ei, amigo!

— Amigo o quê, mermão?

— Você tem um tempinho pra gente conversar?

— O que você acha que eu tenho pra conversar contigo, ô?

— É que estou vendo que você tem um jeito descolado e eu queria saber um pouquinho sobre o que pensa da vida.

— Pensar da vida... Pra que pensar em vida? Vida é viver! — já achei interessante a primeira resposta. Demasiado inspirado (ou eu estava numa de panaca). Daria uma boa entrevista.

— Bom, pra onde você está indo?

— Você não está vendo aquele alimento ali na frente?

— Rapaz, pra ser sincero, eu não enxergo direito aqui embaixo.

— Embaixo do quê?

— Aqui dentro.

— Dentro do quê?

— Hum, tá certo. Eu não sou daqui, sou de outro ambiente e queria muito saber pra onde você vai.

— Ué, já não lhe disse daquele alimento ali na frente? – apontando com um bico enorme em direção ao tal objeto que vacilava oscilantemente como algo que quer hipnotizar.

— É, eu vi quando ele caiu. Você sabe o que é aquilo?

— É alimento.

— Você tem certeza?

— Claro! É alimento dos deuses. Todos que vão lá conseguem sua redenção. Vão para outro plano.

— Ah, quer dizer que você acredita em outro plano?

— Bom, acreditar mesmo, não sei. Sei que é histórico que quem vai consegue.

— Consegue?...

— Consegue sumir, rapidamente. Eu acho que isso que você fala de ser diferente é tão igual que tem horas que dá vontade de sumir. Daí, a gente some, vai pra outros planos. Ninguém diz nada, mas todos nós vamos. É assim que acontece por gerações e, mais cedo ou mais tarde, esse é o início de outra jornada. Você me achou mal-educado porque não lhe pedi desculpas, né? Pois é, quando se chega em minha idade e peso, é por que está chegando a hora.

— A hora de ir pra esse outro plano?

— Claro que sim!

— Mas, senhor, digo, rapaz, você não consegue ver direito o que é aquilo ali?

— Claro que vejo. E não me chame de senhor. Tenho idade e peso, mas aqui não tem esse negócio de senhor, não!

— Você diz que é alimento. Não vê mais nada além disso?

— E tem mais alguma coisa a se ver por aqui senão o alimento?

— Rapaz, eu pensava que você era transgressor, mas parece que você é mais tradicional e cego do que eu imaginava.

— Bom, o que você pensa, ou não, nada disso me interessa. Eu quero o alimento.

— Olha, você vê que lá no seu alimento tem umas coisinhas meio brilhantes?

— Claro que vejo. É exatamente o sinal de que aquele é o alimento para a ida ao plano dos deuses.

— Rapaz, aquilo é um anzol. Aquilo vai lhe perfurar a boca e você não vai nem conseguir sentir o gosto do alimento. E você vai ser pescado! Isso é o fim!

— Ah, já entendi! Você está querendo ficar com o alimento, né? Pois eu não deixo não — já ia saindo e o puxei pelas barbatanas.

— Aquilo ali é uma ferramenta dos homens que vai  levá-lo para uma grande churrasqueira, e não tem história de deuses, não!

— Macho, você está começando a me confundir. Não gosto disso, não!

— É sério, aquilo tem uma garra de ferro que vai pegar na sua garganta e você vai ser levado pro ar e vai se bater até morrer. É isso que você quer?

— Sabe de uma coisa? Você é muito cheio das conversas. Vou cumprir meu caminho e ganhar o plano dos deuses. Enfim, a vida aqui é pra isso mesmo. Seja feliz com sua pesquisa e veja se arranja um outro trouxa pra convencer.

Assim, lá se foi “nosso grande herói”, lutou um pouco pra agarrar “o alimento” e rapidamente foi puxado para o “plano dos deuses”. Minha entrevista fica assim registrada: entre a gordura da vida, o azul estrelado de si e a cabeça, não há exatamente um ser pensante. Peixes continuarão comendo minhocas, chamando-as de alimento. O fim do fim do pensamento e de uma sensibilidade crítica é uma churrasqueira familiar, repleta de pentelhinhos e empregados remontando os costumes burgueses. O peixe ainda vai ser servido com ketchup! O alimento, ou melhor, a minhoca, sempre será servida com um gancho que agarrará na garganta, não adianta o canto que cante. Minhocas, artistas da terra, sempre estarão deslocadas e servindo de gancho para outros objetivos.

Até o próximo peixe!

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