sábado, 7 de agosto de 2010

Crônicas Classificadas: 1) O amor acaba

Eu não seria dependente do vício de escrever se não tivesse começado por um vício maior: o da leitura. Um belo dia, minha mãe trancou o portão e me disse: "A partir de hoje, é do portão pra dentro!". Não sabia ela que, a partir daquele dia, me condenava ao vício supracitado. Ainda hoje me pergunto: se ela soubesse, será que teria deixado o portão aberto? O fato é que não deixou, e, depois de drogas pesadíssimas, cá estou neste espaço, traficando palavras. E, não contente em traficar as minhas, tive a ideia de compartilhar com os possíveis leitores textos que me arrebataram. Como tenho a malfadada coluna Crônicas Desclassificadas, optei por, como contraponto, batizar esta de Crônicas Classificadas.

Mas não quero simplesmente jogar aqui textos alheios. Quero conversar com eles, filtrá-los, dissecá-los, comentá-los, chamá-los pra briga! E chamo-os a que venham comigo. Escolhi como primeira crônica a de Paulo Mendes Campos, O Amor acaba, que li na Folha de S.Paulo em 2000. Não vou pesquisar datas, pois seria chatíssimo, mas ocorreu que, algum tempo depois dessa leitura, no avião que me levaria ao Japão pela primeira vez, um pouco como uma forma masoquista de lidar com o medo que sentia naquelas alturas, lembrei-me dessa crônica e, inspirado nela, comecei a escrever uma letra que tratava do fim do amor que culminava com o verso "o amor eterno termina na queda do avião". Já em solo japonês, concluí-a, utilizando vários elementos daquele país na letra. Enviei-a a Fernando Cavallieri, que nunca a musicou. Anos depois, quando passei a compor regularmente com Clarisse Grova, lembrei-me daquela letra, busquei-a em meus arquivos e, passados os anos, dei razão a Cavallieri. Era uma letra, além de trágica, muito ruim. Porém, como tinha elementos interessantes, achei por bem "recauchutá-la". O engraçado é que acabei subtraindo o tal verso do avião em torno do qual girava a letra original. Aparentemente deu certo, pois, menos de um mês depois de tê-la enviado a Clarisse, não só esta lhe fez uma melodia maravilhosa como também a canção resultante tem caído nas graças de muitos ouvintes.

Abaixo, segue a crônica, ao final a letra e o link pra ouvir a canção, que intitulei Hiroshima:

O amor acaba
Por Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão, como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Folha de S.Paulo, 2 de janeiro de 2000.

***

HIROSHIMA

Onde é que foi parar

Aquele amor que era eterno,

Num dos porões do inferno

Ou em garrafas ao mar?
(Foi em Hokkaido no inverno?)

Onde é que eu fui largar?

Na Disneylândia de Tóquio,

Sob o nariz do Pinóquio?

No Monte Fuji estará?
(Tendo com Buda um colóquio?)

Ou só foi relaxar

Por entre as coxas da gueixa,

Por entre os poxas da queixa

Dormindo em casas de chá?
(Ou de trem-bala me deixa?)

O amor eterno morre

Não tem choro nem vela

Em Alphaville ou favela

Como o saquê vira porre
(Pra samurai ou donzela)

No Ceará… No Japão…

No Rio, em Sampa, na China

No orgasmo de quem ensina

A bomba a estuprar o chão
(Todo eterno termina)





***

4 comentários:

  1. É Leo,na sexta uma amiga comentou que o nome do filme é 9 1/2 weeks, que não tem Love... e o tradutor, seja qual tenha sido a razão ou desrazão, completou as semanas, e escreveu 'de amor'.
    meu pensamento brincou com Love in translation. E agora, acabando de ler a crônica e o poema, a voz de Elis cantou na minha orelha 'Amor... não tem que se acabar' - o 'não tem que' pode levar o papo e o amor adiante! beijo, Vi

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  2. Hello, teacher! "Love in translation" é um mote muito bom pra uma letra... em inglês?

    Quanto aos nomes de filmes estrangeiros traduzidos pro português, acho que o critério é o do quanto pior, melhor.

    E, finalmente, falando de "amor não tem que se acabar", recentemente fiz uma canção (mais uma) em parceria com Élio Camalle que tem um verso que diz assim: "os amantes passam, o amor, não". Assim sendo, o papo, eu não sei, mas o amor segue adiante...

    Beijos do
    Léo.

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  3. Léo, você e Camalle são terríveis! Adoro essa parceria. Irinéa e Alexandre Lemos tem uma canção que fala disso também. Essa letra sua com o Élio,me fez lembraar dela: O tempo passa, os tempos, não! Veja a colheita em sua mão: o que se arranca é o que permite o próximo grão.
    Poi é Parceiro, o amor segue adiante. Com certeza. Bjs, La Grova

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  4. Ô, parceira!

    Encontrei seu comentário temporão por aqui. Que bom! Fiquei com vontade de ouvir essa canção, você pode mandá-la pro meu e-mail? Aproveito e colo, na íntegra, minha letra com Camalle:

    SAMBA DO AMOR ETERNO
    Élio Camalle – Léo Nogueira

    Eu creio na eternidade do amor
    Sim, eu creio
    Por mais que dissabores nasçam
    O amor troca de endereço, bate em outro coração

    É que os amantes passam
    O amor, não

    O amor que tu me deste
    Era vidro e não quebrou
    Nos lugares onde eu vou
    Ele ainda é quem me veste
    Ele ainda te reflete
    No retrovisor

    O amor que tu me tinhas
    Era muito, transbordou
    Era louco, desandou
    Onde havia erva daninha
    Veio assim como quem vinha
    Transformando tudo em flor

    Beijão do
    Léo.

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