terça-feira, 24 de agosto de 2010

Ninguém me Conhece: 8) A felicidade triste de Ceumar

Minha ideia inicial era escrever apenas a respeito de artistas que, de uma forma ou de outra, estivessem excluídos: os sem-produtor, os sem-marketing, os sem-mídia, os sem-público, os sem-shows, os sem-voz, os sem-grana, os sem-patrocínio, os sem-editais, os sem-pais-famosos etc. Porém, como toda regra tem exceção (e é saudável que assim seja), faço hoje uso deste espaço pra escrever acerca de Ceumar. Sim, Ceumar! Se bem que, por um determinado viés, ela também poderia ser vista como pertencente aos sem-alguma-coisa, porque, apesar de ser razoavelmente conhecida, sua fama é ainda infinitamente pequena se comparada ao talento que possui. Lembro-me de quando li pela primeira vez a seu respeito na Folha de São Paulo, num remoto janeiro de 2000, texto sob a pena de Pedro Alexandre Sanches (que saudades!) com o sugestivo título Ceumar Parece Coisa que nem Existe. Acabei a leitura sentindo comichões que só passaram quando comprei o CD Dindinha. Na verdade, os comichões aumentaram...

1) Dindinha (Zeca Baleiro)

Mas, voltando ao início, não foi do nada que resolvi cometer esse texto. Ele nasce como um ato de contrição. Explico: desde Dindinha venho considerando Ceumar a Elis Regina de nosso tempo. Calma, calma! Ceumar, felizmente, não tem nada a ver com Elis. Quero dizer, não traz em seu canto nenhum trejeito elis-reginiano que virou fórmula, ou mesmo vício, afetando nove entre dez cantoras da geração pós-Elis. Mas traz em seu repertório os mesmos bom senso e bom gosto que guiavam o da outra: o hábito de mesclar tradição com modernidade. E a bem-vinda desobediência aos modismos vigentes, o hábito de não fazer concessões (outra semelhança com Elis, que não tem a ver com música, é essa estranha e quase incomodativa beleza, que foge aos padrões das passarelas). Tais características se acentuaram em seu segundo disco, ¡sempreviva!, este, de identidade ainda mais escancarada que o anterior, sinal de evolução. Nele eu tive a felicidade de encontrar nomes relativamente próximos a mim, o que me deu esperanças de vê-la (ouvi-la) cantando, num futuro não muito distante, alguma composição de minha lavra. Cheguei, inclusive, a tentar uma aproximação, mas, apesar de sua simpatia de sempre (viva), eu ainda tinha que aprender a não pôr o carro na frente dos bois. Peguei minha senha e voltei pro fim da fila, esperar o momento oportuno. Conformei-me lembrando que na época de Elis também houve muitos compositores que tiveram sua quilometragem de sala de espera...

Mas, que raio tem o tal ato de contrição a ver com a história? Simples: após o malfadado Festival Cultura, com o pomposo subtítulo A Nova Música do Brasil, do qual Ceumar participou cantando a premiada Achou!, de Dante Ozzetti e Luiz Tatit, e o convite feito a esta pra gravar, ao lado de Dante, o CD homônimo, comecei a ver cair por terra minha associação Elis-Ceumar. Tanto que odiei o CD. Claro está que ela procurou trazer pra perto os seus, como parceiros nas canções (todas de Dante), mas era pouco. Uma observação: passada a frustração inicial, meses depois de abandonar o disco, voltei a ouvi-lo e só então pude me deliciar com a delicadeza das canções, que, em primeira audição, não me haviam arrebatado. Um disco pra ser sorvido aos poucos, sem afobação, fora dos padrões de descartabilidade que nos são hoje enfiados goela/ouvidos abaixo. Aliás, o que escrevi acima a respeito de Achou! pode ser aplicado a todos os CDs da cantora.

Voltando à bendita novela do ato de contrição, rompi de vez com Ceumar quando soube que esta havia gravado um novo CD. Não, que ela gravasse um novo CD era uma notícia a se comemorar. O que me causou decepção foram dois detalhes que me são insuportáveis: 1) Odeio CDs (e DVDs, principalmente) gravados ao vivo. Pra mim, show é pra se ver no calor do momento, não no sofá, comendo pipoca. Se a indústria fonográfica dependesse de mim pra comprar suas pilhas e mais pilhas de DVDs/CDs ao vivo, já teria falido há muito. 2) Sou um compositor ranzinza. Gosto muito de Marisa Monte (inclusive de suas canções, fique-se claro), mas não suporto essa obrigatoriedade que ela (sem querer) imputou às cantoras que lhe sucederam de ter que ser também compositoras. AAAAAAAHHHHHH!!! E o que fazemos nós, os compositores que não nascemos com o dom da afinação? Vamos vender pastel na feira? Agora toda cantora é também compositora. Assim como toda famosa-relâmpago é atriz-modelo-dançarina. Tomo emprestada a frase que disse certa vez o saudoso Zé Rodrix (num outro contexto): "Estão roubando o leite de meus filhos!" (O fato de eu não ter filhos não vem ao caso). E lá vinha Ceumar com um CD (ao vivo!) com 20 canções... dela!


2) Parede-Meia (Kléber Albuquerque)

Finalmente chega ao final a novela do ato de contrição: como minhas convicções são bem maleáveis, de tanto ouvir falar bem desse bendito Meu Nome, resolvi comprá-lo, mesmo que fosse apenas pra falar mal com conhecimento de causa. E eis que se deu algo que gosto muito de fazer: morder a língua! Não, não sou masoquista. Apenas é que o mundo fica mais bonito quando nos deixamos deslumbrar. Prefiro ser um barraco de portas abertas a uma mansão com cerca eletrificada. É assim que sou, essa construção eternamente em obras. E sem prazo de entrega. Afinal, no dia em que me der por pronto, não terei mais o que fazer nessa bolinha que gira. Por ora, contento-me em tirar prazer dessas doloridas mordidas de língua.

Bem, deixando a filosofia barata pra outra ocasião (afinal, o retratado do texto não sou eu), o fato é que Meu Nome me arrebatou desde a primeira audição. Canções belíssimas, melodiosas (como já não se fazem mais), letras inspiradas; teria 
Ceumar aprendido a compor da noite pro dia? Ou terá sido estratégia de marketing esperar tantos discos pra se afirmar como (boa) compositora? Acredito mais na segunda opção (é bom lembrar que no ¡sempreviva! já havia uma canção de sua autoria). O importante é que me senti em débito com ela, pois me fizera morder a língua nos dois pontos acima criticados: 1) Embora ao vivo, é um CD que merece existir, porque sai do conforto da mesmice ao corajosamente trazer um repertório de canções até então inéditas. E a ousadia está também na economia de instrumentos, que deixa as canções muito próximas de como vieram ao mundo. 2) Nota-se que Ceumar é do ramo, não é uma neocompositora a fim de ganhar também uma fatia do bolo dos direitos autorais. Suas canções têm alma, não são burocráticas. E ela, além de ter a companhia de um invejável time de letristas, também não faz feio quando escreve suas próprias letras. O que lhe falta em técnica sobra em coração.

Algo que me chamou a atenção, sobretudo, é que é um disco de MPB! Também nisso é ousado, pois já faz tempo que os compositores se esforçam por não parecer "emepebistas", talvez por medo de parecer antigos e, assim, afastar o público sedento de novidade. Claro que o CD tem pitadas de pop, mas sutis. 
Ceumar mostra no disco que tem atitude e que seu trabalho veio pra ficar, podendo ser ouvido em qualquer época sem parecer datado. Na canção Ciranda, feita em parceria com o companheiro de outras jornadas Dante Ozetti, ela se resume: "Eu gosto de cantar/ seja lá onde for/ livre na melodia/ na alegria, no amor/ cantando a vida eu vou/ olhos a marejar/ giro na roda-viva/ vivo em paz nesse lugar/ na cidade, no sertão/ vanguarda, tradição/ na festa, no terreiro/ no baile, São João/ se me chamar eu vou/ canto de coração/ entro no passo, pego a zabumba/ te encontro no refrão/ vem brincar nesse cordão/ me dê a mão, me leve/ pode entrar na ciranda/ pois a vida é tão breve". Afinal, o título do CD foi acertado, pois tem assinatura.

3) Reinvento (CeumarEstrela Ruiz Leminski)

Contudo, eu a resumiria em outra canção, esta em parceria com Kléber Albuquerque: tenho a impressão de que Ceumar é, ao mesmo tempo, feliz e triste. Por trás da máscara de alegria, suas canções deixam transparecer certa melancolia (sentimento também fora de moda nessa época de "sai do chão"), como se a boca sorrisse e os olhos chorassem. Por isso essa revelação de uma Ceumar compositora nos chega como um presente. Um belo (e necessário) presente! Na canção que abre o disco, Reinvento (com Estrela Ruiz Leminski), ela canta "Eu quero aprender um jeito de reiventar". Depois de tantos discos dedicando-se a transformar canções alheias em suas, acho que ela já aprendeu essa reinvenção. Azar o meu. Sorte nossa!.

***

7 comentários:

  1. Nunca concordei tanto com um depoimento(sim, depoimento)!
    Escrever ligeiro, direto, bom de ler.
    Já me inscrevi pra seguir o poeta-escritor-amigo e futuro parceiro.

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  2. Muito bom texto. Só tenho um adendo quanto a este trecho:

    "Gosto muito de Marisa Monte (inclusive de suas canções, fique-se claro), mas não suporto essa obrigatoriedade que ela (sem querer) imputou às cantoras que lhe sucederam de ter que ser também compositoras. AAAAAAAHHHHHH!!! E o que fazemos nós, os compositores que não nascemos com o dom da afinação? Vamos vender pastel na feira? Agora toda cantora é também compositora."

    O adendo é: este problema vem de muito antes. Em 1980, quando abandonei o curso de Engenharia, descobri perto de casa uma mini-micro-gravadora e, seguindo o método Cosmo Kramer para arrumar emprego, comecei a visitá-la todos os dias. Idealista e atirado como sempre fui, resolvi tentar um bico de "compositor da casa". Então descobri adivinhem o quê: todo compositor se aventurava a cantar e todo cantor, por mais tosco que fosse, aparecia com canções mais toscas ainda. (No fim, fiquei algum tempo por lá - além de quase dois anos trabalhndo com um artista da casa - encontrando uma terceira saída, a de músico, por sinal o único caucasiano no meio de vários afrobrazucas de todas as gradações de cores.)

    Um e-abraço,

    Ayrton

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  3. Irinéa, bem-vinda! Fico feliz que tenha gostado.

    Ayrton, fique à vontade pra discordar, concordar, acrescentar, enfim, enriquecer o espaço com sua experiência.

    Abraços do
    Léo.

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  4. Léo,
    Continuo a dizer: seus textos são demais! É muito bom lê-lo nesta veia de espalhar um sarcasmo inteiro pelas desaventuranças das imposições culturais e suas formas de representação.
    Bom, Ceumar é linda (sem "aiquelindismo"!, e até "com"). Sua voz estica o ar e chega no coração, sem pena, com vontade e verdade. Sempre deixo minha reverência a ela como um marco, assim como você a comparou a Elis, com as merecidas devidas restrições.
    O "grande ato" de Ceumar é exatamente pegar a euforia e a melancolia e transformá-los nestes momentos do puro etéreo, a condição irresolvivelmente humana, onde páiram a tradição da festa e o olhar assertivo sobre o contemporâneo.
    Mas, bem além disso, está a grandiosidade de seu canto que só está onde deve (mesmo que ela tenha me dito em um programa de rádio que "a gente precisa errar mais").
    Belo texto, merecidíssima reverência e lembrança. Do seu texto saem todas as convicções e rupturas necessárias a se saber o grande processo da vida.
    Mordamos nossa língua!
    Viva Ceumar!
    Abração, meu véi companheiro, grande "articulador"

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  5. Érico, meu velho:

    Mais do que ler os imerecidos elogios, me alegram sua presença por aqui, seus comentários sempre tão estilosos e o prestígio que confere a meu blog tê-lo como leitor.
    Grande abraço,
    Léo.

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  6. Duas frases do texto praticamente sintetizam o que penso serem características da Ceumar, e que eu não por acaso admiro em artistas em geral (e ainda não por acaso eu busco pra mim):
    - O mundo fica mais bonito quando nos deixamos deslumbrar;
    - O que lhe falta em técnica sobra em coração.
    Ceumar é isso, parceiro! É coração na boca, que traz os nossos corações aos ouvidos. :)
    Um beijão!

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    1. Bonito complemento, Danny! "É coração na boca, que traz os nossos corações aos ouvidos". Falou e disse!

      Beijos,
      Léo.

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