domingo, 24 de novembro de 2013

Grafite na Agulha: 11) Beijo Moreno, de Raimundo Sodré

Quando estava pensando em que título daria ao Ninguém me Conhece que então acabara de escrever a respeito de Sonekka, após alguns instantes, súbito me veio a palavra "imprevisível". E agora, ao receber o texto que ele, a meu pedido, escreveu pra esta coluna, novamente a tal palavrinha me vem à mente: Sonekka é mesmo um camarada imprevisível! Bem, neste prefácio eu o deveria apresentar, contudo, a maioria dos leitores que visitarão esta página certamente já terá lido o texto que lhe dediquei, visto que é um dos mais populares deste blogue. No entanto, se você chegou até aqui inadvertidamente, sugiro que, antes de ir em frente, visite O imprevisível Sonekka, que lhe facilitará bastante a leitura que o aguarda a seguir.


Beijo Moreno, de Raimundo Sodré
Por Sonekka

Eu recebi o convite do Léo pra publicar na coluna Grafite na Agulha algo sobre algum disco que teria me impactado na vida. Não lembro se o termo era, mas me soou como sendo algo assim, tipo uma investigação. O que norteia um autor? Quais as influências?

Confesso que deu uma baita preguiça, porque isso não é fácil pra mim, nem escrever e muito menos encontrar uma influência determinada. Eu iria rodar, rodar e ancorar no primeiro disco do Celso Viáfora ou em algum lugar-comum, tipo Chico Buarque ao Vivo Paris Le Zenith, talvez um Sá & Guarabyra - álbuns que eu confesso ter ouvido muito -, mas impacto é outra coisa. Impacto muda seu gosto, muda sua busca, intercepta seu padrão de comportamento em matéria de curiosidade musical.

Então fui buscar nas vísceras, cavar no fundo da alma alguma coisa que tenha mesmo contribuído pra ser um pedaço do que sou. E peguei uma cápsula do tempo de algum Syfy ou o aerotrem do Levy Fidelix e fui lá pro ano de 1980, naquele festival, o MPB 80, da Globo, do qual me orgulho de ter visto todas as etapas com plenos 10 anos de idade.

Orgulho de quê, se nunca mais vi Raimundo Sodré, aquele por quem eu torcera? Ganhou um até honroso 3º lugar com a deliciosa A Massa (Raimundo Sodré Jorge Portugal) – Aqui copio as idas e vindas dos textos do Léo e já de antemão grifo Jorge Portugal; falar de Raimundo Sodré é falar de Jorge Portugal, seu constante letrista naqueles idos:

"Juntei meu tempo de menino triste/ Ao sonho de tirar um dia o meu pé do chão/ Não é que a vida simplesmente descalçou/ O sonho do meu coração/ Bater no ferro meu destino torto/ E mastigar a dor do ferro feito pão." Menino Triste (Raimundo Sodré  Jorge Portugal)

Pois bem, vamos entrar no álbum? Pouco tempo depois do MPB 80, em 1983, minha irmã chegou em casa com um LP autografado e uma foto com Raimundo Sodré. Do alto dos meus 12 anos já um minifrustrado por não fazer música, nem tocar violão: "Como assim? Você conheceu Raimundo Sodré? Me deixa ouvir isso."

Naquele 1980 parece que Deus deu as costas pra música. Levou Elis Regina, John Lennon...

Daqui pra frente é que meu texto se revela. Diferente dos que cultuam os grandes medalhões da MPB, os meus heróis são quase tão anônimos quanto qualquer um. Nesse LP Beijo Moreno – o tal do "disco que tenha te marcado" –, eu chorei tanto pelas palavras bem-feitas quanto porque quase ninguém conhecia. Eu falava de Raimundo Sodré pra molecada, e era aquele silêncio, ninguém tinha a mais vaga noção de quem era. Parecia que só eu tinha assistido ao festival da Globo. Quando eu tocava músicas dele, tinha gente que perguntava:

"Que lindo! É sua?"

"Não, é de Raimundo Sodré."

"Quem?"

Sonekka
A quem espera um LP melancólico (como eu), engana-se. O axé, que apareceria 20 anos depois, já estava ali, ainda bem-vestido de afoxés, forró, reggae, baladas, música de protesto, mas já se notava uma modernidade, umas guitarras, os efeitos. Uma salada joiaça de violões bem-tocados, percussões, baixos melódicos. Meu LP predileto, que roubei da minha irmã, se foi com o tempo, talvez com os ladrões que invadem casas e levam o que veem pela frente, mas teria ido de algum outro jeito, junto com a vitrola.

O blog Musicaria fez uma introdução sobre Raimundo Sodré que assino embaixo e recomendo (o link é este): "O cantor e compositor Raimundo Sodré é um dos mais injustiçados artistas do Nordeste. Teve sua carreira de certa forma abortada. Depois de conseguir um estouro nacional, em 1980, com a música A Massa e LP homônimo, não emplacou mais nenhuma. Assim, diluiu sua projeção dentro da Música Popular Brasileira (MPB). Apesar de ter lançado mais dois trabalhos de consistência nos dois anos seguintes, o impacto nunca foi o mesmo. Com sua música recheada de nordestinidade, principalmente a derivada da música do Recôncavo, como chulas e sambas de roda, Raimundo Sodré fez uma música de cunho popular, porém, recheada de uma lírica de primeira qualidade."

Ou então um comentário no mesmo blog, vindo de um anônimo, que dizia: "infelizmente a nossa pobre e curta inteligência permite que compositores como Sodré sejam marginalizados. É o fim dos tempos... há muito tempo!!!"

Eu fui buscar a discografia de Raimundo Sodré. Cravo Albin cita um: A Massa (1980). O Musicaria é mais preciso, cita três: A Massa (1980), Coisa de Nêgo (1981) e Beijo Moreno (83). Busquei o site oficial: http://www.raimundosodre.com.br/, ops! Not found. Cacei no Umquetenha.org e achei Real, de 1995, que nunca ouvi. O link tá quebrado, mas ao menos reativou minha esperança de encontrar por aí um Raimundo Sodré pleno, vivo e produzindo.

Do Recôncavo, na Bahia, de onde saíram Caetano, João Gilberto e Caymmi, esqueceram-se de mostrar Raimundo Sodré, Jorge Portugal e Roberto Mendes pro resto do país.

Novamente em boa voz, arranjos e melodias:

DEBAIXO DO CÉU
(Raimundo Sodré  Jorge Portugal)

Quem achar debaixo do céu
O caminho em que se perdeu

Multiplicará sua emoção

Pelas voltas que o mundo deu

Assumir no grande escarcéu

A loucura que não viveu

Nas profundas de tantos céus
Nos infernos de tanto deus
Só assim ressuscitará
Tanta vida que já morreu
Tanto amor que se queria dar
Tanta coisa que não se deu
É preciso só começar
Pois a força do que será
Já está no que pode ser
No mangue nas águas
Do mar
No prostíbulo no pomar
Na pessoa que vai nascer.

Algumas, como a que cito abaixo, sou capaz de declamar ainda de memória, já que se acham poucos vestígios desse fantástico compositor. Só que, SURPRISE! Esta eu achei no Youtube [segue o link]. Belíssima baladinha falando do movimento estudantil francês de 1968 – e lá não era só pelos 20 centavos mesmo, como foi aqui.

MAIO 68 
(Jorge Portugal)

A última vez
Em que vi esperança foi

Na mesma esquina

Em que me perdi

Havia uma lacrimogênica ilusão

Palavras de ordem sob a calça Lee

O estado de graça
De tantas contradições
Nas barbas de Marx ou Khrisnamurti
No livro sagrado
De todas as pichações,
A voz de John Lennon
Na canção de Vladimir
Maio meia oito
Meia vida meio torta
Meio natureza morta
Pode ser... (bis)
Meia liberdade (Nosso sonho) que se solta
Mas não volta
Na meia-volta volver
Havia vestígios de hippies e Cohn Bendis
Os punhos cerrados violando o ar
Tropicaetanos, excelsos, travassos, gizs
Em cada cabeça um mundo a mudar
Se somos a soma de tantas subtrações
Outras gerações vão nos multiplicar
O saldo é a semente plantada nos corações, ações
De outras cabeças que possam sonhar.

Fica aí meu relato. Foi muito cedo, eu sei, eu só tinha 10 anos quando descobri que música baiana não se resumia a Caymmi, Gal, Caetano e Gil. Que música nordestina não era só Luiz Gonzaga, pelo contrário, tinha mais e muito melhor. E que a música que a gente vê é só a pontinha do iceberg, diria até que apenas o primeiro cubinho de gelo de um gigantesco iceberg. Pra explorar mais maravilhas do Raimundo Sodré, com Jorge Portugal, Marcelo Machado, Roberto Mendes, passa aqui, ó – link –, ou aqui – link (ouvir 54 musicas).

PS: Jorge Portugal, se você ler este post, manda uma letra pra mim, meu véi! rsrsrsrsrs

***

Beijo Moreno – Raimundo Sodré (1983 Polydor)

Lado A
1. Pelo Sim, Pelo Não
    (Raimundo Sodré  Jorge Portugal)
2. Avenida Emoção
    (Jorge Portugal – Roberto Mendes)
3. Beijo Moreno
    (Raimundo Sodré  Jorge Portugal)
4. Brasa Ardente
    (Raimundo Sodré  Jorge Portugal)
5. Saudosismo
    (Roberto Mendes  Jorge Portugal)
Lado B
1. Debaixo Do Céu
    (Raimundo Sodré  Jorge Portugal)
2. Assim Não Dá (Eu Já Vou, Mamãe)
    (Raimundo Sodré  Jorge Portugal – Roberto Mendes)
3. Maio 68
    (Jorge Portugal)
4. Reboliço
    (Cássio Tucunduva João Luiz Magalhães)
5 - Propriedade Privada
    (Raimundo Sodré – Marcelo Machado)

***

Ouça o LP na íntegra aqui:


***

13 comentários:

  1. "A Massa" é uma grande canção, ainda sei de cor a letra e a harmonia. O LP homônimo , que cheguei a ter, não mantinha o nível e isso acabou me desinteressando do trabalho do Sodré. Vou ouvir as outras agora.

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  2. Em tempo: releia a letra de Maio 68, Sonekka, e vc verá que as citações mostram que ele fala mais do movimento estudantil brasileiro do que do parisiense. E lá, como vc se refere à França, não era mais legítimo do que aqui.

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    1. Concordo, Alemos, acho que apenas me expressei mal, mas é normal, eu não sei me expressar direito mesmo.

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    2. ALemos, grato pela visita!

      Sonk, grato pelo texto!

      Abraços,
      Léo.

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    3. Perfeita, a sua observação Alexandre Lemos!
      Sílvio França

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  3. Esse é, realmente, o melhor trabalho de Raimundo Sodré. Coisa de Nêgo também é muito bom. O último trabalho é o CD Dengo de 2003. Legal, Sonekka, você tirar do esquecimento esse grande artista.

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    1. Grato pela visita, José Carlos!

      Abraço,
      Léo.

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  4. Sonekka. Grande cara. Um menino triste, como a canção de Raimundo Sodré, mas que, tal e qual a ostra, sabe transformar ferimento em pérola; isto é, belas canções. Uma pessoa querida. Do bem até a medula! Lucia Helena Corrêa

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  5. Poxa!!! Sonekka. Parabéns! Mesmo. GRANDE VULTO, GRANDE COMPOSITOR, E MÚSICO. É com muita emoção que dirijo aos amigos e vice-versa, esta CRIAÇÃO DO SONEKKA E JOSÉ RODRIGUES. Que está
    empolgando todos os Compositores do Brasil. Intitulada: "CLUBE CAIUBI DE COMPOSITORES". Quem não é ainda um Caiubista,
    procure se cadastrar neste CLUBE. Esperamos você!
    Aquele abraço Fraternal da Maura Fernandes.(CRISTAL VIOLETA)

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    1. Grato pela presença, Maura/Violeta!

      Abraço,
      Léo.

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  6. "como eu mando dizer toda vez..nas fartas cartas de amor...que eu mando pra vcs..." palavras cantadas por Raimundo Sodré que ainda vivem comigo...surpresa maravilhosa essa referência tão justa à ele....valeu Sonekka....

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    1. Valeu pela visita e pelo comentário, Tche Feliz.

      Abraço,
      Léo.

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