quarta-feira, 20 de março de 2013

Ninguém me Conhece: 73) Elisa Lucinda é gente que gera

Jorge Ben (antes de agregar o Jor) costumava cantar sobre as maravilhas de nosso "país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza". Só que nosso país também é o país dos  estereótipos, do jeitinho brasileiro, que exalta o Carnaval pra inglês ver (leia-se por inglês os turistas endinheirados em geral), trocando a liberdade dos belos sambas-enredo de antigamente pelos cafonas sambas-jingles da atualidade, e que tem como um dos produtos-exportação a bunda (orgulho nacional, com carimbo de qualidade e tudo). Os mais novos não farão a menor ideia da figura em questão, mas há alguns anos Luciano Huck (cadê meu rolex?) lançou em seu programa a mulher-fetiche Tiazinha, hoje quase jurássica perto das tantas mulheres-frutas, comestíveis bundas sem rosto.

1) Ashell, Ashell pra Todo Mundo, Ashell (Madan - Elisa Lucinda)
Madan e Elisa Lucinda

Lembrei-me de Tiazinha porque certa vez, quando esta estava no auge, Marta Suplicy foi entrevistada pelo supracitado Huck e atentou pro perigo de as jovens brasileiras terem como referência mulheres-objeto que em nada contribuíam pra emancipação intelectual feminina. Acrescentou Marta que o Brasil possuía outro tipo de mulheres dignas de admiração, como (lembro de memória, talvez escorregue num ou noutro nome, mas o que vale é a categoria) Cecília Meireles, Clarice Lispector, Raquel de Querioz etc. Luciano, com sua habitual persuasão de troglodita engomado (e com sinusite), numa atitude antipática da besta acuada, pôs o público de seu auditório contra a convidada, e esta não pôde concluir seu raciocínio. Não precisou. Marta, e as mulheres citadas por ela no malfadado programa, ainda vivem na memória popular, já Tiazinha...

Em minha opinião, uma das mulheres mais lindas de nosso país vai na contramão desse bundalelê geral. Trata-se de Elisa Lucinda, atriz, jornalista, poeta e negra (a ordem dos adjetivos não altera a qualidade). Elisa, com seus olhos claros (serão verdes ou azuis?) contrastando com a pele escura, tinha tudo pra ser esposa de jogador, modelo, dançarina, tentar a sorte no BBB ou alguma outra profissão de quem não tem profissão, só que ela tinha um probleminha: Deus a castigara com uma massa cinzenta que a transformou num ser pensante (ô dó!). Daí que a moça, dando-se conta disso, resolveu usar o cérebro em vez do corpo. Se bem que seu cérebro também tinha lá seus defeitos, suas disfunções, assim que a moçoila encasquetou que tinha de ser... poeta!

Porém, coitada, não foi culpa dela. Ao passo que tem gente que tem tanta vontade de ser poeta, que se veste como poeta, caminha, age, fala como poeta e nem assim consegue chegar a um mínimo resultado um tiquinho acima da mediocridade, Elisa tem a poesia no DNA. Tirante o fato de ela já ser uma poesia, a mulher é uma poeta nata. Contudo, talvez sua grande qualidade seja a de tirar a poesia do andor e colocá-la a seu lado, na maior sem-cerimônia. Elisa, em vez de trabalhar a poesia, tem a cara de pau de pôr a poesia pra trabalhar pra ela. Assim, sua poesia posso dizer mesmo que é meio que sua empregada doméstica, pois lhe arruma a casa, lava a roupa, está a seu lado ocupando todos os metros quadrados da cozinha, é praticamente sua escrava, chega mesmo a ajudá-la a cortar cebola!


 2) No Meio da Banda (Elisa Lucinda)
Augusto Martins

É assim sua poesia. Fala sobre o dia a dia, os sentimentos contraditórios de ser mãe, as contas pra pagar, as divagações de uma mente enquanto sua dona cozinha, o tesão, a solidão, a menstruação, os homens na praia ostentando suas espadas, os papos íntimos com um Deus que não sabemos se está acompanhando nosso raciocínio ou se está tirando uma soneca, enfim, tudo. Caiu uma gota de qualquer coisa na fértil mente dessa criatura, pronto, vira poesia. Um perigo! Eu desaconselharia que inocentes garotas em fase de crescimento lessem os livros dessa famigerada, pois há o risco de que sejam desencaminhadas. Imagine uma moça com um lindo futuro pela frente, podendo seguir qualquer uma das supracitadas carreiras, e lhe cai nas mãos um livro desses. Endoida! Fosse na época da Inquisição, Elisa seria queimada como bruxa (e seus livros junto).

Confesso que, após a primeira leitura de seu O Semelhante (sim, porque houve muitas outras), jamais me restabeleci por completo. Uns fios se desconectaram, outros se desencamparam, quase deu pane, um deus-nos-acuda! Embora eu não seja um leitor voraz de poesia (prefiro os romances), sou razoável conhecedor (e consumidor) do gênero, já tendo mesmo vertido grossas lágrimas lendo poesia (sobretudo Pessoa) em voz alta pra ninguém, de copo em riste. Porém, a leitura do tal livro foi pra mim um divisor de águas; acho que passei a pensar a poesia de forma diferente depois dessa leitura, passei a vê-la mais próxima, o que foi de grande valia na hora de eu compor minhas próprias letras, pois Elisa me mostrou que a diferença hierárquica entre poesia e letra de música só existe na cabeça dos teóricos. Talvez por isso seus poemas se prestem tão bem a canções (ela é, excrusive, compositora).

Afirmo e dou fé que minha amiga (¡muy amiga!) Daisy Cordeiro foi a responsável, diria mais, culpada, por esse moço (pobre moço) ter pirado o cabeção com tão sacroprofana leitura. Minha mãe lamenta que eu nunca mais tenha voltado a ser o que era, virei um trem fora dos trilhos que segue em marcha estrada fora, atropelando desatentos transeuntes em transe e ultrapassando os faróis vermelhos do pode-não pode-não pode-pode das convenções. O que um livro não faz com um cero mano! Culpa da Daisy, que me viciou! Fez que nem os bons traficantes, deu o primeiro de graça. Daí gastei uma grana preta comprando outros. Sim, porque, como bom discípulo, acabei dando outros livros a outros semelhantes. Bastava tomar uma dose a mais e já saía presenteando até desconhecidos. Depois, no dia seguinte me arrependia e lá ia comprar outro. 

3) Só de Sacanagem (Elisa Lucinda)

Falando nisso, esperem um pouco que vou lá ver se ele está em minha estante (tenho amnésia alcoólica). ... Voltei. Tava lá. Ufa! Voltemos, então. Há outros livros dela, oficóurse, mas este foi the Bible! Agora quer entrar em transe, vá vê-la ao vivo recitando seus poemas. Afe! Nem parece poesia, porque a mulher não tem empáfia, parece que tá conversando com a gente. Falando nisso, em certa ocasião, Daisy (sempre ela), em pleno Ridijanêro, levou-me a compartilhar na Cobal uma mesa com a moça (veio até a Beth Carvalho, na hora de fechar o bar). Era aniversário de um amigo da Daisy, o cantor Augusto Martins, e ele e outros amigos estavam comemorando, Elisa incluída. Eu e Kana, na condição de penetr... digo, amigos da amiga, lá sentamos. Olhei pra mulher e não dei um pio. Nem olhei muito, porque a polícia estava do lado. Sorte de todos...

***

PS1: Minha querida Danny Reis apontou minha falta jornalística (mas eu num sô jornalista...) e avisou que Elisa tem uma escola de poesia no Rio (ó que chique!), a Casa Poema, então eu já tasco o linque aqui.

PS2: Ah, faltou dizer que a mulé é (entre outras coisas) atriz da Redigrobo, mas não vem ao caso, pois o papo aqui é puisia... e um tiquim de musga.

PS3: Falando nisso... Já acabou, tá? Mas, pra provar que sou um bom discípulo da Daisy, deixo abaixo, pra quem não conhece, um poema da moça. Vai que vicio mais alguns (hahahahaha! - risada malígrina)...

AVISO DA LUA QUE MENSTRUA

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita
Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na "vera"
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a "cidade secreta"
A atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe. de leite.
Vaca e galinha...
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

***

Xi! Me empolguei! Só mais este. Juro (acompanhem com a canção lá em cima)!

ASHELL, ASHELL PRA TODO MUNDO, ASHELL

Ela mora num Brasil
mas trabalha em outro Brasil
Ela, bonita... saiu. Perguntaram: Você quer vender bombril?
Ela disse não.
Era carnaval. Ela, não passista, sumiu
Perguntaram: empresta tuas pernas, bunda e quadris para um clip-exportação?
Ela disse não.
Ela dormiu. Sonhou, penteando os cabelos sem querer
se fazendo um cafuné sem querer
Perguntaram: você quer vender henê?
Ela disse nãâãão.
Ficou naquele não durmo não falo não como...
Perguntaram: você quer vender omo?
Ela disse NÃO.
Ela viu um anúncio da cônsul para todas as mulheres do mundo...
Procurou, não se achou ali. Ela era nenhuma.
Tinha destino de preto.
Quis mudar de Brasil: ser modelo em Soweto.
Queria ser realidade. Ficou naquele ou eu morro ou eu luto...
Disseram: Às vezes um negro compromete o produto.
Ficou só. Ligou a TV
Tentou achar algum ponto em comum entre ela e o free:
Nenhum.
A não ser que amanhecesse loira, cabelos de seda shampoo
mas a sua cor continua a mesma!
Ela sofreu, eu sofri, eu vi.
Pra fazer anúncio de free, tenho que ser free, ela disse.
Tenho que ser sábia, tinhosa, sutil...
Ir à luta sem ser mártir.
Luther marketing
Luther marketing... in Brasil.

***

7 comentários:

  1. Afe, tudo impecável, parceiro: começando pela Lucinda e terminando com seu belo texto-homenagem!
    Amo a poesia da Lucinda, que você descreveu como eu não conseguiria.
    Ela também me desbravou um novo mundo dentro da poesia: me mostrou ser possível escrever. "Só" isso, como se fosse pouco.
    Você só não falou que ela tem uma escola de poesia aqui no Rio, a Casa Poema. Que também é uma coisa linda, e um dia ainda farei cursos lá.
    Tô emocionada, Léo!
    Um beijão,
    Danny.

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    1. Falei, sim! Lê direito, mulé! Hahaha!!!

      Beijosss,
      Léo.

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    2. Aaaahhhh, seu danadinho!!! Hahaha!

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    3. Te peguei! Hahaha!

      Valeu!
      Beijos,
      Léo.

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  2. Salve Léo! Belo Blog! Boas lembranças! Salve Elisa Lucinda!!!!!! Axé!
    Augusto Martins

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    1. Grande Augusto! Quanto tempo, hem, rapá?

      Abração,
      Léo.

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