quinta-feira, 21 de março de 2013

Crônicas Classificadas: 79) As pessoas que falam gritando

Por volta dos 12 anos, eu tinha um amigo negro que, apesar de ser um dos maiores da classe, possuía uma voz fininha, mas teimava em falar bem alto. Como morávamos perto, voltávamos da escola no mesmo ônibus. Ocorreu que, em certa ocasião, conversávamos animadamente dentro do coletivo, quando fomos interrompidos por outro homem negro, que pousou um olhar penetrante em meu amigo e sentenciou: "Ó o barulho, rapá! Negão tem que falar baixo!". Sua voz era grave e forte, pois, apesar de ele falar quase num sussurro, podíamos ouvi-lo perfeitamente. Meu amigo esboçou uma reação, mas puxei-o de lado e fomos pro fundão do veículo, onde tentamos continuar o papo, sem muito sucesso. Senti que o impacto nele fora grande, e jamais esqueci essa lição, que, embora tenha mirado um alvo, acabou acertando outro.

Entendo as diferenças culturais; famílias italianas, assim como as nordestinas (de onde provenho) e algumas outras, são bastante animadas, e basta haver dois de seus representantes em um ambiente pra que a conversa possa ser ouvida a um quarteirão de distância. Nesse caso, embora admita que me sinto um pouco incomodado (sobretudo se estou dentro de um transporte público tentando manter a concentração na leitura), resigno-me e aceito. O que não suporto mesmo são as pessoas que, embora se note que detêm certa escolaridade, falam alto pra chamar a atenção, pra que sejam ouvidas INCLUSIVE por aqueles a quem não estão se dirigindo, como se estivessem enviando uma mensagem a terceiros nas entrelinhas de sua fala.

Certo dia estava eu com a esposa num restaurante, quando entrou um homem gordo, alto, de bigode, que ostentava orgulhosamente um chapéu de fazendeiro, acompanhado de dois fulanos com ar de submissão. Falava ao celular. Sentou-se, pediu comida e bebida sem desligar o aparelho e continuou a conversa mesmo enquanto comia. Ver aquela boca aberta espirrando farofa entre uma frase ou outra não era uma coisa muito bonita de se ver, mas o infeliz escolhera uma mesa bem em frente à minha, o que não me deu alternativa, visto que já havia chegado nosso pedido. A voz de trovão do sujeito por vezes se tornava áspera, era fácil perceber que falava com um subordinado, mas o mais cômico foi que todos no recinto ficaram sabendo de suas transações; ouvi palavras como helicóptero, venda de automóvel, fazenda, sei lá quantas cabeças de gado...

Sou terminantemente contra vozerio em ambientes públicos, sobretudo fechados, como bancos, restaurantes, local de trabalho, bibliotecas (obviamente), mas o que percebo é que, em determinadas ocasiões, quem fala alto sente que está exercendo um direito, como se os altos decibéis de sua voz lhe houvessem sido conferidos por uma espécie de status. São cidadãos pertencentes àquela ridícula categoria dos que ainda hoje arrotam um "você sabe com quem está falando?". Em nossa fauna política vemos muitos espécimes dessas aberrações, em geral velhos decrépitos imbuídos de um espírito de coronelismo decadente oriundo de uma época em que as leis funcionavam diferentemente de pessoa pra pessoa (pensando bem, as leis não mudaram tanto assim).

Acima citei "escolaridade", mas reconheço que não necessariamente poder aquisitivo e educação caminham juntos. Como o Brasil vive um bom momento financeiro e nossa moeda vem se valorizando, é cada vez mais comum brasileiros viajarem ao exterior; dependendo do país de destino, a viagem chega a ser mais barata do que pra certas cidades brasileiras. E se há uma coisa que me deixa constrangido é presenciar patrícios mundo afora dando piti. Na maioria das vezes isso ocorre porque a pessoa acha que ter dinheiro basta, daí chega no país e quer que todo mundo fale português(!!!). Já contei aqui que uma vez estava em Machu Picchu com esposa e sogra e presenciei o escândalo causado por uma brasileira que não entendia o guia em espanhol. Mas ela o escolhera porque tampouco entendia o guia em inglês...

Na verdade estas maltraçadas vêm a título de desabafo. Sinto em meu íntimo que possuo uma personalidade um tanto atrofiada (personalidade, não caráter), tenho mesmo dificuldade de me fazer ouvir, visto que, ao contrário dos alto-falantes (autofalantes) acima, falo muito baixo. Uma amiga chegou mesmo a me sugerir que fosse a um fonoaudiólogo. Como convivo com minha voz há mais de quatro décadas (embora não confortavelmente, admito), adiei tal visita a um futuro incerto, mas sei que lá no fundo o que sinto é uma pontinha de inveja desses retumbantes falantes, sobretudo porque sei que em nosso país ainda é mais respeitado aquele que canta de galo. Aos humildes está reservado (com uma ou outra exceção) um futuro profissional igualmente humilde, independente de sua capacidade.

Quer um exemplo do sucesso dos que esbravejam? O reino do telemarketing é perfeito pra exemplificar. Suponhamos que você tenha se sentido lesado em algum serviço ou até mesmo queira se livrar de alguma taxa etc. Você liga e conversa educadamente com um robô que educadamente lhe vai responder que tal solução é impraticável. Após 20 minutos, muita canseira, ligações que caíram misteriosamente, você resolve berrar que quer cancelar sua assinatura. O robô do outro lado, ainda educadamente, pede-lhe que espere um minuto na linha ao fim do qual lhe revela magnanimamente que, devido a sua bela relação com a empresa X ou Y, milagrosamente o pedido que 20 minutos atrás era impraticável agora, por poderes divinos, será atendido. E isso se aplica a praticamente tudo; telefonia, cartões de crédito, canais de TV por assinatura, serviços de operadoras de celular e o que mais lhe vier à cabeça. O que me faz pensar que esse desconto que lhe foi feito será cobrado de algum infeliz que não grite.

As pessoas que falam gritando são donas de potentes aparelhos de som que igualmente gritam. Acho que o silêncio as aterroriza. Talvez sofram de algum problema de autoestima, julguem-se desprovidas de talento ou algo que o valha. Sabemos que um animal, acuado, ataca. As pessoas que falam gritando fogem de situações de desconforto atacando antes, pra impor respeito e, assim, atemorizar o hipotético adversário. Em situações de comando o patrão sempre é o que fala mais alto, pra que não haja a possibilidade de que alguém o interrompa ou divirja de sua opinião/sentença. Mas o século XXI tem sido generoso com essas pessoas, inclusive criou ferramentas que servem como belas válvulas de escape. Entre tantas destaco as redes sociais. Sempre que ligo meu computador e entro no, por exemplo, facebook, chega a ser engraçado, pois, por mais que reine um silêncio absoluto, sinto-me como um surdo que sabe que a seu redor estão todos gritando.

***

9 comentários:

  1. É fato, Léo. Tem muita gente sem noção de volume ou do quanto a vida própria não interessa necessariamente a todos.
    Também me incomodo muito com gente que fala alto em qualquer lugar, sem respeitar o fato de que não está na sala da própria casa.
    Nos restaurantes eu mudo de mesa, se não consigo estar somente com quem me acompanha, sem ouvir a conversa da mesa ao lado.
    Já nos transportes públicos é um absurdo o número de pessoas que falam no celular bem alto o caminho todo, como se sua vida fosse muito interessante para os outros passageiros. Tenho vontade de "gritar": não quero saber da sua vida, lugar de DR é em casa... E por aí agora.
    Em redes sociais muita gente também GRITA para se sobressair. Outro dia ousei avisar uma amiga que escrever ASSIM equivale e fui taxada de arrogante. Ela achava muito legal GRITAR, pois denotava SUA PERSONALIDADE ITALIANA. rsrs...

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    1. Ops, corrigindo:
      "E por aí afora"
      "...escrever ASSIM equivale a gritar..."

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    2. É, Esther, parece que a privacidade hoje é ofensiva. Os anônimos se baseiam em seus ídolos, que abrem as casas pras "Caras" e lavam a roupa suja em revistas de fofoca. Tudo é promoção... e sai caaaaro...

      Beijos,
      Léo.

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  2. Ao longo do tempo, descobri que falar baixo é uma das coisas melhores que adquiri com a maturidade. Também, sendo de uma família co-dependente emocional,aprendi cedo que quem falasse + alto seria mais respeitada. Ora...falar alto, além de má educação, é desgastante para a voz! 25 anos de terapia familiar me colocaram no eixo!
    Me incomoda pessoas no metrô aos berros no celular, contando suas desgraças ...rs Já mudei de lugar em restaurantes, em ônibus, e acho que até meu desencarne farei isso, pois as pessoas estão cada vez mais mal educadas, estressadas e exibicionistas!

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    1. Tô contigo e não abro, Irinéa!

      Beijos,
      Léo.

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  3. Já vivi algumas dessas situações...

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  4. Léo Nogueira:

    Muito bom, gostei.
    Parabéns.
    Também detesto barulho.
    Abraços
    Paulinho das frases

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