segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Ninguém me Conhece: 33) As boas ações de Ricardo Moreira

Se a alma de Ricardo Moreira (quando este vier a morrer – toc toc toc, bate na madeira!) não se salvar, o céu vai perder pro inferno por W.O., pode escrever aí. Vai fechar por falta de clientes. Pense num cabra do bem. Mas eu tô falando do bem MESMO. Não como esse bem atual, politicamente correto, do qual só faz parte gente interesseira, falo do bem anterior aos holofotes, o bem puro, natural, inerente à pessoa. Moreirinha é tão do bem, que até seu lado mau deve ser bom. Fosse ele um ladrão, seria Robin Hood.

1) Nostalgia (Ricardo Moreira)

Mas este texto não se propõe a ser uma carta de referência pra futuros empregos, mesmo porque, ao que me consta, ele vai muito bem, obrigado, na função de professor (aliás, como eu, é letrista profissional - formado em letras). Apenas achei interessante frisar mais essa qualidade, visto que no meio musical nem sempre talento rima com caráter. E o moço acima possui ambas características. Contudo, comecemos pelo começo. Conheço Ricardo Moreira há tantos anos, que nem me lembro ao certo quando o vi pela primeira vez. Ele, organizado que é, deve sabê-lo. Creio que nos conhecemos por meio da RSMB (veja texto sobre Adolar Marin... Acho que já escrevi isso antes...). Lembro-me de que, na época, ele fazia parte de uma banda chamada Salada Mística. Contou-me ele que a origem do nome surgiu de um fato pitoresco. Antes de contar o fato, devo acrescentar que Moreira é praticamente um trocadilho ambulante. É daqueles que perdem o amigo, mas não perdem o trocadilho. Presenteou-me, certa vez, um livreto de poemas/letras, xerocado e encadernado, cujo nome era, se não me engano, Em Vértices, os Papéis. Sacaram? "invertem-se os papéis". Pois é. Voltando ao chiste: Moreira me contou que, quando trabalhava na Ford (ou seria na Volks? Na Chevrolet?), em São Bernardo - cidade onde nasceu e onde vive até hoje -, um funcionário, desses bem humildes (não sei por que chamam aos pouco escolados de humildes, conheço alguns que de humildes não têm nada), foi pedir uma salada mista e soltou a pérola: "Me vê uma salada mística". Moreirinha, com o germe da criatividade ativo, guardou a frase, sabendo que no futuro poderia vir a aproveitá-la. Quando montou sua banda, entre tantos possíveis nomes, este foi o que se sobressaiu. E acho que resume mesmo a banda.

Trocamos CDs (eu lhe entreguei o primeiro da Kana) e também uma série de e-mails, nos quais discutíamos os aspectos positivos e negativos que encontráramos na obra do outro. Pelo que me lembro, devo ter sido, digamos, excessivamente rigoroso com seu CD, aliás, da Salada Mística, Batom no Colarinho. Afinal, quando me pedem pra escrever a respeito de um CD, sinto-me confortável na função de pedra (já na de vidraça...). Ele já se mostrou mais benevolente comigo. Pouco tempo atrás, inclusive, resgatou alguns daqueles e-mails, alguns dos quais escritos no Japão, quando de minha primeira viagem à terra do sol nascente. Relendo-os, acometeu-me certa vergonha, pela petulância das palavras por mim escritas. O fato é que talvez eu quisesse dizer que ele, embora estivesse verde, era um bom compositor, e a tendência era, naturalmente, evoluir. O que minha condição de crítico de obra alheia não me fazia enxergar era que eu também (talvez mais que ele) me encontrava nessa fase verde (atenção, não estou falando de política, certo?), o que foi detectado na época por meu primeiro parceiro, Élio Camalle.

2) A Marca da Cal (Sonekka - Ricardo Moreira) (ouça aqui)
Sonekka

Como disse, Ricardo Moreira é de São Bernardo, mas seu sotaque acaipirado parece vir de muito mais longe, e vejam vocês que a manutenção de tal sotaque até hoje também é fator relevante acerca de sua personalidade humilde (acho mesmo um fator excessivo). Tanta humildade esconde um cara que é até boa pinta, mas que acaba parecendo inofensivo. Mas pode ser também um método desenvolvido pra evitar cenas de ciúmes da patroa. Afinal, de perto ninguém é tão inofensivo assim.  E o artista tem que se precaver. Mas o fato é que sucedeu que a banda Salada Mística teve vida curta. Parece-me, puxando pela memória, que seus demais membros não apostavam lá muitas fichas na carreira artística, de modo que Moreirinha, sem a salada, ficou só com a mística. O problema era que, na banda, ele era o baterista-compositor (às vezes, gaitista), agora, só, tinha que fazer as vezes também de cantor/violonista, no intuito de mostrar sua cara/obra. E, digamos que, nessa nova função, ele não se via tão confortável. Mas aí veio o Caiubi, ou melhor, Moreira foi ao Caiubi. E, lá, o que não lhe faltou foi parceiro. Assim, ele desenvolveu acima das outras sua faceta de letrista.

Um de seus mais ardorosos fãs é ninguém menos que Fernando Cavallieri. Ah, agora me lembrei, foi Cava quem nos apresentou e quem primeiro me falou do moço da gaita. Falava de forma tão apaixonada, que eu ficava até com ciúmes. Chegou mesmo, certa feita, a compará-lo (o que achei exagerado na época) a Chico Buarque. E foi justamente Cava quem registrou em CD uma das mais belas canções de Moreira, Nostalgia. Mas a bateria o chamava sempre de volta (refiro-me ao Moreira), e foi como baterista (e compositor) que ele participou dos saudosos Tropeçalistas, grupo que contava com nomes como Zé Rodrix, Vlado Lima, Ricardo Soares e Sonekka. Vi alguns shows memoráveis do grupo. O engraçado era que, apesar de ser uma banda de solistas, as apresentações eram ótimas. Era meio como ver jogar um time só com camisas 10. Depois veio o Tonq (Tosqueira ou Não Queira), este, um tanto mais debochado. Não à toa um de seus líderes era (é? Me parece que a banda está na ativa ainda, diz aí, Ayrton!) Ayrton Mugnaini, ex-Língua de Trapo.

Recentemente Moreira enveredou pela arte dos clipes caseiros. E não é que o moço leva jeito? Tem uns que parecem ter sido feitos por profissionais (ai!). De quebra, é mais uma ferramenta pra divulgar suas tantas canções. Vão no youtube e procurem por "Ricardo Moreira". Vão achar muita coisa boa lá. Parece que ele até está cantando melhor. Minhas ressalvas em relação a suas canções, quando de nossas trocas de e-cartas, dirigiam-se mais a suas melodias. Moreira vem da escola do blues, e às vezes eu ficava pensando que a melodia não estava à altura da letra. No Caiubi ele teve a felicidade de compor com craques como Sonekka e Cavallieri, entre outros, e tal parceria lhe fez bem, pois hoje em dia ele tem criado melodias muito inspiradas também. Acho que a maior lacuna em sua arte de letrista consiste em não se atrever a letrar melodias. Moreira cresceu com a geração dos melodistas que musicam letras, daí não desenvolveu esse outro exercício, bem diverso, que é o de letrar melodias. Já lhe disse que o mais difícil é se atrever. Perdem-se algumas no percurso (lembram-se da frase manjada "não se pode fazer uma omelete sem que se quebrem alguns ovos"?), mas, depois de pegar a mão, a coisa flui. Zé Edu que o diga, com suas belas canções com Gulherme Rondon, por exemplo. Mas cada um na sua. Acho que pedir pra Ricardo Moreira letrar uma melodia é meio como pedir pra Ricardo Soares compor uma bossa nova. Como diz o clássico, cada um no seu quadrado. Assim a canção desce redonda. Ai!

3) Risível (Sonekka - Ricardo Moreira)
Os Tropeçalistas

Mas Ricardo Moreira tem também muito desenvolvido seu lado "professor Pardal". Sobram-lhe ideias. O que lhe falta é grana pra fazê-las sair do papel. De tempos em tempos aparece ele com uma recém-nascida (ideia). Não faz nem duas semanas, ele escreveu pra mim e pra mais uma turma de compositores, expondo-nos uma nova ideia genial. Em princípio, todas parecem muito boas. Depois, os e-mails vão rareando, até que o moço sai de circulação por um tempo, até, qual fênix, ressurgir das cinzas com uma outra revolucionária. O cabra é tão bom no quesito, que, dizem as (boas) línguas, foi convocado por Sonekka e Alexandre Lemos a encabeçar (cabecear?) uma gravadora (Sonarts) que estes estão concebendo, que irá abalar o mercado (mercado?).  Tô botando fé nessa ideia atual. Será que é dessa vez, Moreirinha?

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Visite seu site aqui.

Moreirinha também está no Caiubi.

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24 comentários:

  1. Uma criatura doce esse Moreirinha!
    Belo, por inteiro, assim como são suas canções.
    :)

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  2. Falou e disse, la belle!

    Beijos do
    Léo.

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  3. He!He!
    Grande Léo e sua "memória de elefante"... Desta vez, os projetos têm de sair do papel por questão de sobrevivência...rs
    Eu jurava que vc falaria sobre a nossa "discussão": Aldir X Vinícius...rsrsrsrs
    Abs

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  4. Hahaha!!! Valeu, Moreirinha!

    Pensei nisso, mas não quis queimar seu filme. Hehe! Esperemos a boa vontade da Grova com aquela letra.

    Abração do
    Léo.

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  5. Ricardo Moreia é o cara que manterá a sonarts acordada! podescrê

    Moreira é um gênio de sorriso estampado no rosto em meio de um mundo de canções fantásticas que eu adoro!

    Beijo monika

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  6. Que suas palavras sejam proféticas, Moniketa!

    Beijos do
    Léo.

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  7. Sim, o TONQ ainda existe, e várias das melhores canções (aliás, cada integrante só entra com as melhores, rerre) são dele ("Passa Boi Passa Boiada", "Piercing No Umbigo" e até uma parceria minha com ele, "O Tolo E O Castelo"). Um e-abraço.

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  8. >Acho que pedir pra Ricardo Moreira letrar uma melodia é meio como pedir pra Ricardo Soares compor uma bossa nova.<


    Bossa nova não sei, mas sambas nosso preclaro Soares tem muito bons, como "Sinuca de Bico", gravada pelo TONQ.

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  9. Verdade, Ayrton. Bem lembrado. E obrigado pelas informações sobre o Tonq.

    Abração do
    Léo.

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  10. Ricardo foi meu primeiro parceiro no Clube Caiubi, bem antes até do Zé Rodrix virar curador do movimento. Se o Moreira fosse mais organizado, já teria mais evidência na música brasileira.

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  11. Salve, ALemos!

    Olha, não sabia disso. Moreirinha tá na estrada há um tempão mesmo, mas não sei se a evidência que lhe falta vem da pouca organização. Acho que o assunto é mais complexo, visto que toda uma geração de compositores permanece à margem dos holofotes.

    Valeu pela presença.

    Abração do
    Léo.

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  12. Mas então, Léo, a obscuridade eventual de um artista, ou de uma geração, não pode ser debitada apenas na conta do maquiavelismo do mercado. A grande maioria dos "obscuros" que conheço pecam pela desorganização, sim, e pela dificuldade em focar as melhores alternativas. Aliás, o Clube Caiubi é um vasto exemplo disso e, ao meu ver, uma das razões é interpretação equivocada de um aforismo do Zé Rodrix. A defesa dele de que a arte era mais importante que o artista (que por si só, já é uma opinião questionável) impregnou o Clube de uma certa displicência conceitual, como se fosse errado ser artista. Assim, com a maioria, pelo menos, bancando esse ar blasé de que "minhas canções é que são importantes, então dane-se se eu desafino ou canto de porre", a desorganização se alastrou e nem o próprio Zé Rodrix conseguiu corrigir o rumo do barco. Por isso, insisto: o Moreira tem uma obra importante que poderia ser mais conhecida se ele fosse mais organizado. Abraço.

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    1. Alexandre:

      Organizações à parte, concordo com você em relação a certa displicência de alguns artistas. Mas acho também que um pouco vai da ambição de cada um. Se o camarada se propõe a ser apenas compositor, não vejo problema em que ele tenha uma postura um tanto, digamos, desleixada. Mas se o camarada quer ter uma carreira, aí sim precisa cuidar de aspectos estéticos (aparência, vestuário etc.) e, sobretudo, dedicar-se a melhorar sempre, seja no canto ou na execução de seu instrumento (violão, piano etc.). Também vejo em alguns caiubistas essa falta de profissionalismo, mais, de dedicação. Poucos ali procuram ter um trabalho gravado, fazer shows fora do habitat caiubista etc. Mas não sei se poria tudo na conta das máximas do Zé. Acho que o Caiubi, mesmo antes da chegada dele, já era meio assim. Acho, ao contrário, que o Zé fez o que pôde pra profissionalizar o Clube. Se alguns entenderam errado aí já vai de um problema de interpretação de cada um. Sobretudo porque a própria imagem do Zé era de profissionalismo, fosse no palco, na execução do instrumento ou na própria composição, fosse em entrevistas. Acho que uma coisa é complemento da outra. Mas tô gostando do debate. Vejamos o que dizem os demais.

      Abração do
      Léo.

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  13. Léo, como eu disse, o problema não era o Zé, o problema foi a interpretação errada das palavras dele. Ele visava criticar artistas que já não criavam e viviam apenas do nome e da cópia de si mesmos. Mas o Zé sempre foi artista e sempre teve postura de artista, mesmo quando militava apenas na publicidade. Sobre posturas em geral, se vc cobra couvert, é obrigatório respeitar quem está pagando, mesmo que vc queira "apenas" ser compositor. Enfim, o Caiubi foi um exemplo porque falávamos do Moreira. Mas isso serve pra quase todas as iniciativas independentes que conheci no Brasil. Valeu.

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    1. Entendi perfeitamente, Alexandre. E corroborei. Apenas na questão público/couvert sou mais maleável. Até porque, no caso do Caiubi, o público que frequenta já sabe do que se trata, e curte. Talvez o que pode acontecer é que outros públicos, mais exigentes, ao irem uma vez e notarem certo "amadorismo", não voltem. Mas é o preço.

      Abraço!

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  14. Eba!
    Léo e Alemos!!!!!!!!!
    Obrigado pelos elogios e críticas...rsrsrsrs
    Estou tentando me organizar... Juro que estou...rsrsrs
    Abraçãoooooooooooooooooo

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    1. Tá vendo, Moreirinha! A culpa é tua, rapá! Hahaha!!!

      Abração e feliz aniversário,
      Léo.

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    2. Vc é talentoso, Moreira, mas é papo furado hahahahaha ... feliz aniversário!!!!

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  15. Continuo pq acho que o papo pode servir de referência. "Amadorismo" nem sempre é problema, às vezes é até uma virtude. O que me preocupa no segmento independente são coisas ainda mais sérias, mas principalmente a falta de autocrítica e de padrão. Qualquer movimento que vire um "saco de gatos" acaba prejudicando a todos, aos que têm e até aos que não têm qualidade. Claro que cada um sabe de si e faz o que quer, mas via de regra vejo a maioria se dando por satisfeito com o tapinha nas costas dos pares e/ou amigos para, no dia seguinte, seguir na cantilena de que o mercado é mau, bobo e chato. Às vezes, o movimento independente lembra a piada que os brasileiros fazem com os argentinos: o melhor negócio do mundo é "comprar" um artista independente pelo que ele vale e vendê-lo pelo que ele pensa que vale.

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    1. É, Alexandre. É mais o menos o que eu falei acima sobre ambição. Pra alguns basta ir ao Caiubi, cantar um "sucesso" e ouvir todos os amigos cantarem junto e pronto. Mas o que mais me assusta é que antes havia mais público que artistas, agora é o inverso. Na última segunda, por exemplo, acho que os artistas eram 70% da plateia. Aí voltamos ao que o Rodrix dizia: vai chegar um dia em que não haverá plateia, pois estarão todos no palco! Sintomático, não?

      Abração do
      Léo.

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  16. Levei um ano pra ver o post sobre o Ricardo Moreira...que não sabem, mas pra mim, ele é o Ricmistic... um velho amigo que jamais vi em carne e osso... acho que mais osso que carne, rs pq ele me parece um moço magro!rs
    Brincadeiras à parte, Eu só vim dizer que adorei o texto do Leo sobre o Ricmistic e os comentários de todos... e dizer que no que depender de mim, um desses grandes projetos sairá do papel.

    Bjs,
    M

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    1. Agradeço pela visita e pelas palavras, Marfiza. E, sim, me lembro também do Ricmistic. Hahaha!!! E lá se vão tempos! Bola pra frente com os projetos!

      Beijão do
      Léo.

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  17. Demorei mas vim ler. Meu depoimento pessoal é que o Ricardo Moreira é uma estrela em todos os quesitos, até quando se mete a cantar desafinado. Me lembro bem de um pocket que ele fez no Caiubi Villaggio que foi um dos melhores que assisti por aquelas bandas. Criatividade extrema com as letras e a cara e coragem de fazer tudo com as próprias mãos.
    Perdi a data de aniversario pelo instinto de priorização de tarefas mas deixo aqui registrado que meu *compadre Ricardo Moreira é dos talentos que espero que não demore pra ser reconhecido, o tempo ruge.
    *Sim, sou orgulhasamente padrinho de casamento do dito cujo

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  18. Pô, Sonk! Não sabia dessa de padrinho de casamento!

    No mais, embora não tenha visto esse pocket, vi alguns vídeos dele no youtube e curti pacas!

    Abração do
    Léo.

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