segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ninguém me Conhece: 30) Pequeno estudo sobre Marcio Policastro

Por ser eu um letrista, tenho, naturalmente, uma queda por canções que contêm belos textos. Quando compro um CD, gosto de ler suas letras antes de ouvir-lhe as canções, só pra sentir, antes do musical, o impacto poético do trabalho. Claro que há melodias tão fascinantes que qualquer letra fica boa dentro delas. Quando recebo melodias assim pra letrar, sei, de antemão, que o trabalho vai ser muito facilitado (e prazeroso). Mas, hoje em dia, belas letras são um luxo cada vez mais raro e pra cada vez menos ouvintes. Os próprios letristas, no intuito de atingir o público, têm procurado construir letras mais acessíveis. O que é, de certa forma, fazer concessões. E a arte verdadeira não deve fazer concessões. Há uma canção do belíssimo cantautor argentino Charly García na qual ele diz "No voy a parar/ Yo no tengo dudas/ No voy a bajar/ Déjalo que suba". É mais ou menos isso o que penso. A arte, pra ser grande, tem que nascer da alma, não de pesquisa de mercado. E quem a consome que procure apurar sua sensibilidade. Quando pensamos, por exemplo, em grandes nomes da literatura como Dostoiévski, Proust, Joyce, Saramago, nosso Guimarães etc., não encontramos neles facilidades, nós é que temos que, com a fluência da leitura, adaptar o mecanismo de nosso cérebro pra alcançá-los.

1) Falso Herói (Marcio Policastro)

Esse imenso prólogo foi pra situar a arte de Marcio Policastro, a quem considero, na atualidade, não um dos melhores compositores do Clube Caiubi, mas um dos melhores compositores do Brasil. Policastro é um artista completo: letrista originalíssimo, dono de uma poesia urbana mordaz, ácida e ao mesmo tempo não desprovida de humor; melodista dos mais inspirados, capaz de ir do rock ao xote sem perder o estilo; cantor afinado; violonista de pegada "nervosa" e harmonias inteligentes, que sabe extrair de seu instrumento percussividade e certa sujeira roqueira; e, por último, é um belo exemplar de arranjador intuitivo, daqueles que sem academicismo sabem com que roupa querem vestir suas canções. Ah, ia me esquecendo de acrescentar que Policastro também é talentosíssimo pra musicar letras alheias, arte que desempenha com tamanha facilidade como se se tratassem de letras suas.

E por que você não conhece Marcio Policastro? Os adjetivos acima citados geralmente são dirigidos por críticos a artistas com algum destaque no panorama musical. Eu lhe respondo: Você não o conhece porque Policastro trabalha sem pressa. Seu primeiro CD vem sendo lapidado ao longo dos últimos anos com a paciência (e a boa mão) dos artesãos. Ele sabe o que faz e onde quer chegar. E sabe, sobretudo, que suas palavras não perderão o viço se demorarem mais um ou dois anos. A música de Policastro é como um bom vinho, melhora com o tempo. É moderna, mas sem cair na armadilha de ser demasiado moderna, pois o fim destas é perderem o prazo de validade em pouco tempo.

Conheci Marcio Policastro numa das primeiras noites em que fui ao Clube Caiubi. Lembro-me até da primeira canção dele que ouvi, Cine Caiubi (parceria com Almir Teixeira). E já gostei de cara, principalmente pela ousadia de ele cantar versos que, de tão  abusivamente femininos, davam a impressão de ser homossexuais: "Vê se te manca, sujeito/ e quebra logo esse clima/ eu sei, bem sei, é perfeito/ ficar me olhando de cima/ mas só que a  noite é tão curta/ e a vida é muito mais curta ainda/ [...] Eu conheci ontem à noite um cara tão legal/ me disse que tá de passagem comprada pra Montreal/ achei demais, pois conhecer Quebec é o que eu mais desejo/ me convidou para fumar um beque e a gente deu uns beijo'".

2) Dia de São Nunca (Marcio Policastro - Léo Nogueira)

E aí Policastro abriu sua caixa de Pandora e vi que a gama de assuntos do moço era um poço (alucinógeno) sem fundo. E o modo como ele escolhia as palavras pela sonoridade, sem subtrair-lhes o sentido, era de tirar o fôlego. Adentrei de ouvidos limpos nesse universo sacroprofano e me deliciei com a descoberta de uma música tão necessária nos dias de hoje, de ontem e de sempre. Mas à distância. Cheguei mesmo a ficar com certa vergonha de mostrar minhas letrinhas comportadas a um compositor tão anárquico. Mas acabei sendo levado até ele pela mão (literalmente) de sua namorada (hoje, esposa) Vanessa, que, com uma desenvoltura de velha conhecida, apresentou-se a mim dizendo que seu namorado queria me conhecer. Fiquei lisonjeado, ainda mais pela inusitada maneira como aconteceu. Cumprimentamo-nos e, superada a timidez (de ambos) inicial, em pouco tempo já nos tratávamos como irmãos. Ah, tem um detalhe: No começo, no Caiubi, algumas pessoas nos confundiam. Nunca entendi bem o porquê disso, se eu sou bem mais bonito que ele. Mas essa é uma questão de importância reduzida, pois, em se tratando de talento, a beleza é só uma qualidade menor.

E, sim, ele me pediu uma letra! E esse pedido foi uma das melhores coisas que já aconteceram em minha... poderia dizer carreira? Enfim, foi algo deliciosamente desafiador pra alguém que se considera letrista. Ainda mais pra alguém que sempre se alimentou de suas influências. E foi assim que eu passei a compor letras, digamos, policastrianas. E, pra meu espanto, a química se deu, e, em pouquíssimo tempo, tínhamos dezenas de canções. Detalhe: quando desenvolvemos um estilo, por mais que "imitemos" terceiros, no final, sempre acabamos deixando nossa marca. Dessa forma, espelhando-me na poesia de Policastro, alarguei meus horizontes poéticos e tratei de assuntos novos, sob minha ótica, que ganharam melodias fulminantes dele. Nasceu dessa parceria um resultado deliciosamente híbrido. E foram tantas canções, que um dia ele me reclamou, desabafando: "Irmão, depois que te conheci minha obra poética diminuiu consideravelmente". É que, Policastro, embora não pareça, tem um lado caymmiano gritante, e eu, com minha safra sempre renovada, enchi-lhe os porões musicais de letras.

E a usina de canções continuou a todo vapor quando expandimos nosso leque de parcerias, com o advento do 4+1, grupo formado por nós dois mais Álvaro e Alê Cueva e Kana. O 4+1 teve vida curta, mas espalhou alegria por São Paulo numa série de shows memoráveis, que sempre contavam com um convidado; gente boa como Tavito, Zé Rodrix, Élio Camalle, Lis Rodrigues e Ricardo Soares foram só alguns dos muitos que participaram. Como disse no texto do Álvaro, pelo fato de o 4+1 não ser uma banda e sim um grupo de solistas, não conseguiu durar o suficiente pra ao menos gravar o tão esperado (pelo menos por mim) CD.

3) Veludos e Colares (Marcio Policastro)

E seria realmente de se espantar se não se desse o fim que se deu, quando cada um dos membros tinha pelo menos um projeto paralelo. Policastro já andava por essa época arquitetando seu CD. E não parava de compor, o que dificultava e muito a escolha do repertório. E foi justamente ele o protagonista de um dos melhores shows a que assisti da turma caiubista. Marcio Policastro e banda fizeram um show espetacular no finado Villaggio Café, quando este ainda se localizava no bairro do Bixiga. Esse show, o primeiro solo de Policastro pós-Caiubi, deu-lhe o ânimo que faltava pra tirar o projeto da gaveta e trazê-lo à vida. De lá pra cá já vimos alguns dezembros, mas Policastro segue firme, com sua paciência de e sua meticulosidade, experimentando, compondo, gravando. Tenho fé em que o ano de 2011 nos dará este tão especial presente. Anote aí em sua agenda o nome do moço, pra não esquecer. E peça pra Papai Noel, pro amigo secreto, pro namorado, ou vá lá na loja e compre você mesmo, enfim, dê-se de presente o universo musical de Marcio Policastro no Natal de 2011.

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Policastro também está no Caiubi.

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21 comentários:

  1. E o Poli é também dono de um estilo eminentemente paulistano, nervoso, lírico e acidamente engraçado. Não fosse o moço são paulino e eu diria que bate um bolão! Abs.

    Álvaro

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  2. Verdade, mano Álvaro. Fosse palmeirense, aí, sim, agregaríamos a ele um valor ainda maior. Hahaha!!!

    Por falar em estilo paulistano, falou o "pai da matéria".

    Abração do
    Léo.

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  3. Taí: gostei.
    Belo texto, escrito no tom certo, e feito por quem conhece o universo musical, sobretudo por quem conhece o trabalho do Márcio.
    E quem conhece o Poli sabe que ele tem uma "concepção" de arte um tanto zen: a Arte é um Caminho... Um dia ainda gostaria de escrever sobre a maneira como o Poli vem lapidando e sendo lapidado pela arte da música popular.
    Não tenho dúvidas de que há duas coisas que lhe fazem muito bem: a Arte, isto é, o Caminho, e a Vanessa, sua musa-esposa-inspiratriz.
    Vamos então aguardar que em 2011, como disse o Leo Nogueira, os trabalhos do Poli sejam finalmente registrados. Porque o que é bom tem que ficar.

    Abraços - Marcos de Paula

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  4. Salve, Marcos!

    Assino embaixo do que você escreveu. E, quando escrever seu texto, passe por aqui pra avisar. Vou querer lê-lo.

    Abração do
    Léo.

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  5. Poli? Quem não o conhece não sabe o que está perdendo... No mínimo, no mínimo, ele nos resgata do tédio, da mesmice. Poli compõe com estilo próprio. Poli canta com estilo próprio. Poli toca com estilo próprio. Que estilo? O melhor! Mortal! Três das canções dele estão no meu CD: "Dostoievskiana", uma das canções que detonaram em mim a vontade de compor, há seis anos, quando cheguei ao Clube Ciubi de Compositores; "Aparição", que ele fez para eu cantar (pense!); e "TPM", que compusemos juntos! Que orgulho! Não bastasse tudo isso, Poli é meu amigo! Um cara cujo caráter é à prova de corrupção. Um ser humano de primeira classe! Bendito seja o Poli! LHC

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  6. Que bom poder falar de pessoas como o mano Poli, que trazem de volta a estas páginas pessoas como LHC! Como diria outro mano, o Rondon, é felicidade demais!

    Seja re-bem-vinda, Lucia!

    Beijos do
    Léo.

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  7. Álvaro e Leo, vocês estão equivocados. Eu “realmente” sou boleiro, na melhor acepção do termo, além de são paulino, e talvez sejam essas as minhas maiores qualidades (rs). Ao que o Marcos escreveu das duas coisas que mais me fazem bem, com o que eu concordo plenamente, eu acrescento uma terceira: Ter grandes amigos como vocês. Em relação à amizade, eu me identifico com o seguinte provérbio romano que diz: Amici, nec multi, nec nulli (amigos, nem muitos, nem nenhum).
    Aliás, Marcos, se este texto prometido sair, eu coloco no encarte do meu CD (Leo, eu só não coloco este texto porque vão me acusar de propaganda enganosa (rs)). Pra quem não sabe, o Marcos é filósofo espinosano, grande ensaista e um grande parceiro de vida.
    Nega, obrigado pela generosidade de suas palavras. Você tem em mim um amigo e um grande admirador, tanto pela sua arte visceral , quanto pela sua postura diante da vida.
    Dr. Smith, meu primeiro parceiro caiubal, membro da família mais querida do Caiubi. Você tem sido sempre uma referência artística, não apenas porque quando eu mostro alguma coisa nova, e sempre que tem eu mostro, não faz rodeios quanto ao que não gosta e não mede elogios quanto ao que gosta, o que é raro (rs), mas também pela sua obra que é sempre inspiradora.
    Finalmente, Leo, quero te dizer uma coisa: Pô, irmão, cê deve estar tomando drogas pesadas pra ver tudo isso na minha ( minha? Hoje em dia em dia é quase tão nossa quanto minha) música. Vou fazer um desconto porque todo sagitariano é exagerado...O fato é que, se metade do que você escreveu for verdade, já é um puta motivo de orgulho justamente por que vem de você, que além de ser crítico pra caramba com relação à música (pra não dizer cricri), é um letrista genial (cuidado: eu também sou sagitariano (rs))!!! Daí a minha preguiça em escrever letras de uns tempos pra cá. Sempre imagino que se mandar aquela melodia, que está nascendo, pra você, a coisa sai melhor e, mais de forma mais rápida, com menos sofrimento. E quando você me manda uma letra, fica mais fácil ainda. É só alterar a altura das notas que já estão ali. Fiquei emocionado com o teu texto e pra mim foi um puta presentão de aniversário.
    Um grande beijo pra todos. Como diz o meu sobrinho, que agora virou MC: “Tamo junto”.

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  8. (a mensagem anterior foi sozinha... que engraçado!)

    Poli, não fosse por mais nada, só pelo prazer de te ler também em prosa já teriam valido as linhas que escrevi a seu respeito. Exercite-a mais, pois você também é ótimo nisso (opinião sagitariana... hehe!).

    Amplexos,
    Léo.

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  9. Somos dois, Jaime.

    Volte sempre.

    Abraços do
    Léo.

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  10. Jaime,
    Você que a recíproca é verdadeira!

    Leo

    Se você quiser, pode retribuir a visita do Jaime. Jaime é também é blogueiro e entre os vários blogs que assina, existe um em especial que é muito interessante, principalmente para os letristas e poetas. Trata-se de um blog de etimologia.
    Aí vai o link: http://iba-mendes.blogspot.com/

    Abraços.

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  11. Anotado, Poli! Visitarei.

    Amplexos,
    Léo.

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  12. Ele é o cara, e ainda São Paulino

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  13. Salve, Tunico! Eu mudaria um pouco a frase: Ele é o cara, apesar de são-paulino.

    Abraços do
    Léo.

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  14. É bom demais ler textos tão bons sobre grandes compositores como o Poli.
    Tenho um orgulho danado de ser parceira desse cabra bão!!
    :)

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  15. Pô, Lis, seu comentário me passou batido. Sorry.

    Beijão pra você do
    Léo.

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  16. por isso vamos curtir cantAR ,VER O SOL NASCER E SE POR ,E VIVER SIMPLISMENTE ESSA VIDA CHEIA DE ALTOS E BAIXOS ,SU FÃ TIM MAX

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  17. No Clube Caiubi só tem gente interessante, mas na noite em que o grupo se apresentou no RJ, em 2005 - Funarte - eu fiquei impressionada com o Márcio. Me lembro que depois fui logo procurando saber se ele já tinha gravado algum CD. Espero ansiosamente pelo trabalho.
    Bj e parabéns Léo, pelos textos sempre inspirados e emocionados (emocionantes)!

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    1. Oi, Kláudia!

      A espera está no fim. Poli tá com o CD praticamente pronto, e, pelo que ouvi, está maravilhoso! Claro que sou suspeito, pela amizade, pela parceria, por estar no CD, mas, tirante tudo isso, ainda é um CD altamente recomendável.

      Beijão do
      Léo (e obrigado pelas gentis palavras).

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