quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Ninguém me Conhece: 52) Roney Giah, compositor e tudo mais


Quando comecei a frequentar o Clube Caiubi, uma das coisas que mais me chamaram a atenção foi a quase ingênua atmosfera de rebeldia, própria da juventude dos compositores e de suas canções, cheias de frescor e originalidade. Contudo, notava-se certo amadorismo. Por vezes o compositor não passava segurança na hora de interpretar sua própria canção e terminava por estragá-la. Mas isso também pertencia ao pacote "espírito rebelde". Os erros eram aplaudidos e, de tão condescendente que era a plateia, o mesmo compositor, na terceira ou quarta tentativa, já mostrava melhor desenvoltura.

1) Sou Compositor e Nada Mais (Roney Giah)
Roney Giah e Perseptom Banda Vocal

A juventude tem a seu favor o aspecto tempo (os mais velhos chamam a esse aspecto "espectro"), pode se dar o luxo de errar e aprender. E o Caiubi era um movimento jovem. Mesmo os não tão jovens assim que lá chegavam aprendiam logo a ostentar essa bandeira juvenil, ainda que em espírito. Foi nessa época que apareceu por lá Zé Rodrix. Veio. Viu. Gostou. Voltou. E ficou. E trouxe com ele a bagagem da experiência adquirida em tantas décadas de estrada. Ele olhava no olho do erro e sabia cegá-lo.

E com Zé RodrixCaiubi começou a dar os primeiros passos rumo ao profissionalismo. Sim, havia muito o que fazer, vários dos compositores que ali se apresentavam e mostravam belas canções nunca tinham subido num palco antes. É preciso frisar que, como a principal bandeira do Caiubi era (é) a música autoral, sobravam compositores e faltavam intérpretes, o que fazia que os próprios compositores se fizessem intérpretes.

Mas todos sabemos que a melhor propaganda é a que faz o público satisfeito, o chamado boca a boca. E, quando menos se esperava, o público aumentou e, com ele, vieram outros artistas. E quer uma coisa melhor pro artista que tocar onde o público está? Assim foram chegando outros nomes, uns se sentindo em casa, como o grupo Rossa Nova, a dupla Carol Pereyr e Márcio Pazin; outros sondando o espaço, como Ito Moreno e Adolar Marin; alguns no meio termo, como Élio Camalle; sem falar nos que vinham de fora, como Clarisse Grova e Alexandre Lemos... Cada um acrescentando sua experiência de estrada ao Clube (a bem da verdade, o Rossa Nova vem dos tempos das vacas magras).

E foi aí que, numa daquelas noites, meio como quem não sabe exatamente onde está pisando, penetrou pela velha rua Caiubi 420 um tipo alto, loiro, de olhos claros, como que recém-chegado da Finlândia ou da Dinamarca... Ah, trazia um violão (não entrava tão desavisadamente assim...). Sentou-se e passou a escutar atentamente os que se apresentavam. Até que chegou sua vez. A humildade dele não subiu ao palco. O que se viu (e se ouviu) naquele momento foi um camarada personalíssimo, tranquilo, seguro, prender a plateia com suas belas canções de inusitadas letras, violão bem tocado e uma voz que, se fechássemos os olhos, nos remeteria ao canto negro dos irmãos americanos da metade superior do globo. Só que em português.


2) Amar com E (Roney Giah)

O nome do moço: Roney Giah. E eu errei o país, seus genes tinham mais a ver con una bella pastasciutta. Na segunda segunda lá estava ele de novo. E na terceira. E na quarta. Logo ele era tão de casa, que a primeira noite foi se tornando cada vez mais longínqua. Mas Roney, apesar de certo ar principesco, não pensava duas vezes em arregaçar as mangas e ajudar com o que fosse possível, desde tocar um violão sobressalente na canção de um colega até manusear a mesa de som. Acho mesmo que se preciso fosse ele faria as vezes do garçom.

Roney, raciocínio rápido, entendeu na hora o espírito da coletividade caiubista. Diria até que o melhorou, pois não trazia em si nenhum tipo de ostentação. Dominava com segurança seu ofício e isso lhe bastava. Trocamos CDs e (observação: sempre quando falo que troquei CDs, de minha parte me refiro a algum CD da Kana, pois, pra felicidade geral da nação, não possuo um pra chamar de meu - por enquanto! - será uma ameaça?) pude ouvir, maravilhado, sua competência muito bem amparada pela qualidade sonora e musical de Mais Dias Na Terra, CD com boa quantidade de possíveis hits radiofônicos valorizado ainda mais pelo brinde de belas letras.

Certa vez ameaçamos uma parceria, mas ficou só na ameaça. Roney chegou a vir em casa, onde labutamos bastante em prol do desenlace de duas canções, que nos venceram pelo cansaço e continuaram no limbo, na qualidade de duas meias canções. Com o tempo, percebi que no quesito parceria o espírito coletivo de Roney enfraquece um pouco, talvez porque tudo o que queira expressar em suas canções o faça por meio de suas próprias palavras.

E chegou o grande dia do lançamento do Mais Dias Na Terra no MIS (Museu da Imagem e do Som). E, mais uma vez, Roney mostrou todo o seu profissionalismo num show afiado, empolgante, cheio de climas, com ensaiada banda e seu protagonista efervescido, apoteótico como se estivesse num Rock in Rio, a exemplo dos shows de seu colega Ricardo Soares. Aliás, talvez o grande defeito do show (pra que não falemos só de flores) tenha sido sua larga duração, pois, como a plateia estava gostando, Roney preferiu satisfazê-la a deixá-la com o gostinho de quero mais.

Mas a trajetória de Roney vai além do MIS e do Caiubi. Ele esteve nos States estudando música com feras e lhes apre(e)ndendo também a tecnologia. Emplacou pequenos sucessos e conseguiu até contrato com uma gravadora (inglesa). Mas antes disso sua música já tinha passeado pelo Prêmio Visa, batido na trave no Prêmio Tim e no Grammy Latino, sua guitarra já esteve a serviço da banda do etc. etc. Dá até preguiça copiar aqui tantos feitos. Façamos assim, abaixo vou postar o link pra seu site e vocês poderão notar como o moço é "rodado".


3) Mas Até Lá (Roney Giah)

Contudo, Roney também tem defeitos. E nós, os baixinhos, adoramos procurar defeitos em figuras como ele. Foi assim que, com muito custo, percebi que ele vez em quando pisa na jaca com a "flor do Lácio", mandando um "ter" em vez do "tiver", respirando no meio de um "pá... ssaro" y otras cositas, digo, other things. Mas ele não quer nem saber. Pode alegar (com razão) que não passa de inveja de quem está impedido (não pelo juiz) de fazer gol de cabeça, e continua no ataque, Queimando A Moleira, Co'as Goela E Tudo, preparando dois ou três novos CDs simultaneamente, acreditando que é só dessa forma que pode justificar seu pedido diário de renovação de passaporte terreno, pra passar Mais Dias Na Terra.

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Roney também está no Caiubi.

Visite seu site.

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17 comentários:

  1. Léo,
    Ao ouvir o som do Giah me rendi, amor a primeira ouvida. Gostei das composiçoes, da forma como canta,da firmeza no tocar e no bom gosto nos arranjo (aquele arranjo vocal no FA, FA, FA, FA, FA).
    Só me falta conhecê-lo pessoalmente e oiví-lo ao vivo e a cores.
    Parabéns pela bela cronica.
    Abs

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  2. Roney + Léo Nogueira é fórmula/operação impossível de não dar resultado fabuloso.
    Acho até que vou copiar e colar no meu blog.
    Abraços
    Paulinho das Frases

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  3. Conheço o Roney a tempos e acompanho a trajetória genial dele desde o início.
    Recomendo a todos muita atenção ao trabalho de composição dele, pois traz muito frescor e originalidade a um mercado onde cada vez mais se encontra apenas cópias mal feitas de cópias copiadas de outras cópias...
    Parabéns pelo texto e pelas opiniões expressadas.
    Concordo plenamente.
    Abs
    Roberto Brandt
    robibrandt@terra.com.br

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  4. Léo, seu texto é muito bem escrito, e o conteúdo... compartilho!
    Faço parte do Clube Caiubí de Compositores e lá conheci o moço talentoso e "de boa" que é o Roney Giah, e desde então ouço suas músicas maravilhosas e torço pra que muita gente tenha o prazer de ouvi-las!
    Parabéns e sucesso para vocês.
    Beijos,
    Elisabet Just

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  5. queridos!!
    lindo texto!

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  6. Pois é Leo,sou fã do Roney, não somente pelo seu trabalho, mas pela seu jeito simples de ser. Contato, poucos , mas ele representar bem o seu papel de compositor. Leva aos que o seguem um trabalho personalizado.O programa Olho Clínico já prestigiou esse rapaz numma manhã cinzenta, mas colorida pela magia da sua história. É isso, sacastes bem o roney na tua matéria.

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  7. Muito merecida a homenagem. Não se trata, tão-somente, da qualidade do trabalho dele, da força na hora de compor e de cantar as canções. Roney é um legítimo representante da gente do bem, gente que, quando nos abraça, parece que lava todas as dores... Coisa de anjo. E isso nada tem a ver com a lourice e os olhos da cor do Mar Mediterrâneo. Tem a ver com a aura, entre o violeta e o lilás. Olorum abençoe o Roney! Lucia Helena Corrêa

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  8. Eu cheguei em casa e me deparei com um mail de meu caro amigo Roney, o qual não cumprimentei pelo aniversário por mero acidente do acaso, mas que sabe da consideração que por ele tenho.

    Me releve!!

    No e-mail ele me passa um link de um fantástico texto que remonta uma trajetória vencedora que a meu ver é um sucesso. Tão complicado usar esta palavra, entender que significa: sobreviver, esperar, tentar, tentar, tentar até desacreditar.

    Típico de seres que estão de passagem por um local onde tantas mazelas e interesses inescrupulosos enchem nossos noticiários. Qual seria então a solução para se dar continuidade a essa busca e não desistir? Talvez o fato de querer dizer algo, querer fazer algo que alerte, que desperte, que anime que reinvente.

    Devemos louvar que uma pessoa como Roney esteja tão perto e nos proporcione com sua arte e com sua lição de vida exemplo tão maravilhoso.

    Tudo aquilo que plantamos colheremos e toda planta tem seu ciclo de produção. Preparem os grandes armazéns que antes que se perceba nosso amigo colherá!!!

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  9. A Obra do Roney é a soma da rebeldia com o profisisonalismo, faz música de alto nível e pop. Quando conheci o primeiro CD dele, como O GUITARRISTA, dos bons. Já valeu uma pauta de entrevista para minha revista musical: www.ritmomelodia.mus.br -
    indico sempre para todos a entrevista dele. Depois conheci os CDs cantados (Queimando A Moleira, Co'as Goela E Tudo). Ai pensei, além do excelente guitarrista, canta muito, tem letras inventivas e pouco convencional e melodias que grudam. Ai,pensei é gênio. Tem um reggae dele que virou a referencia sonora e estética de minha banda de reggae, não que minha banda chegue a igualar nunca, mas será nosso Pico nas núvens. O Roney Faz música a serviço da MÚSICA. Não tem uma música esquizofrenica. Sua música é genial e lúcida. Não o conheço pessoalmente, mas ele me passa a impressão da simplcidade que que não simplória, da elegancia que não é esnobe. E da inteligencia que não é arrogante. É Gênio na obra e me causa a impressão de não ser um humano medíocre nem boçal. Alguns gênios forma humanos boçais. A única coisa que desejo ao Roney é que seja um humano semelhante a sua obra. Pois, talento, profissionalismo, bom gosto musical ele não precisa mais me provar que tem. Sucesso que nem o céu seja o limite. É o cara.

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  10. QUE DELICINHAAAAAAAAAAAAA!!!

    PARABÉNSSSSS QUERIDO, PELO NIVER E PELO TRABALHO FANTÁSTICO!! (E OLHA QUE EU SOU CHATA HEIM! KKK)

    GRANDE BEIJO E MUITO SUCESSO!!!

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  11. Combinação de talentos incontestáveis!!!

    texto...
    voz...
    energia...

    completíssimo!!!

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  12. Nossa! Deixem-me ver se não esqueço ninguém: Pedro, Paulinho, Roberto, Elissa, Dandara, Marta, Lucia, Ricardo, Antônio Carlos, Nádia e Larissa! Ufa! Gratíssimo pela presença, pelas palavras, pela divulgação, enfim, agradeço por tudo, em meu nome e no de Roney. E voltem sempre!

    Abração do
    Léo.

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  13. Vim aqui após receber dica do site do próprio Roney.
    Já o conhecia da internet.
    Criativo e talentoso.
    Roney tem um fã, aqui no Recife.

    Abç fraterno.

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  14. Bem-vindo, Eurico! Volte sempre, pra conhecer também outros talentosos artistas.

    Abração cearense de Sampa do
    Léo.

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  15. Roney é dono de um talento impar e uma simplicidade gigante vezes um milhão ao quadrado! Não dá pra falar desse grande artista sem antes ouvir seu trabalho, bater um papo ou se presentear com desempenho desse grande vocalista, guitarrista e compositor! Só posso dizer que é um privilégio compartilhar dessa trajetória e amizade! Grande abraço pra você meu brother querido e que vc continue cativando e colecionando amizades e corações pelo mundo a fora!

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  16. Grato pela visita e pelas palavras, Renato. Volte sempre.

    Abraços do
    Léo.

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