terça-feira, 13 de julho de 2010

Boca da Noite – Parte I

Era uma vez um cara que brincava de ser compositor. Mas brincava a sério. A ponto de, nos momentos de maiores solidão e desvario, chegar a pensar que era um Chico Buarque reencarnado (e olha que o Chico nem morreu ainda!). Com seu teclado de brinquedo inventava melodias já inventadas e criava letras clonadas de outras. Todos os temas eram chupados, e as rimas, idem. E assim seguia nosso compositor errante, e assim continuaria seguindo, não fosse um acontecimento que mudaria sua vida. Tinha nosso quixote das letras um amigo amante de música e frequentador assíduo de um bar de MPB localizado no bom e velho Bixiga (hoje mais velho que bom), pra ser mais exato, na rua Santo Antônio, chamado Boca da Noite. Quis o destino que esse amigo uma bela noite arrastasse nosso herói pra tal antro de perdição (ou encontração).


Eram horas tantas de uma quinta-feira, a lua iluminava os caminhos tortos e a temperatura agradável convidava a uma boa noite em claro. A dupla de amigos já vinha de uma(s) rodada(s) de sinuca e cerveja (ou seria de cerveja e sinuca?) quando transpôs os portões e penetrou nesse paraíso laico. Uma dúzia de degraus depois e da entrada da casa podia-se contemplar na parede logo em frente um grande quadro com caricaturas da nata da MPB de então. E a seguinte inscrição: “O importante é que a nossa emoção sobreviva”, verso tirado da canção Mordaça, de Eduardo Gudin e Paulo Cesar Pinheiro. A casa, apesar de praticamente vazia, por ser uma quinta-feira, era pequena, mas aconchegante. A meia-luz acentuava o romantismo da atmosfera. Na plateia, uns poucos gatos (pardos) pingados ouviam atentamente um cantor moreno, magérrimo, de rabo-de-cavalo, roupa dois números maior e, o mais importante, voz belíssima, que desfilava um repertório de muito bom gosto.

Antônio Carlos
(era este o nome do amigo) ouvia maravilhado e de vez em quando lançava olhares satisfeitos ao nosso herói cervantino, como se dissesse "Não te falei?". Veio o intervalo e o rapaz moreno aproximou-se da mesa da dupla, apresentou-se ("Boa noite, meu nome é Élio Camalle. Sejam bem-vindos ao Boca.") e pediu licença pra se sentar com eles. Em dez minutos Camalle e nosso herói já conversavam como se fossem amigos de infância, ante o abismado olhar de Antônio Carlos, que, apesar de frequentador de longa data, jamais falara com o cantor. Nosso quixote (doravante, pra não cairmos na prolixidade, trataremo-lo por Léo), com ares de importância, dizia a Camalle que também era compositor, ao que este, animado com a notícia, convidava-o à parceria, avisando que adorava musicar letras.

Na noite seguinte, desfalcado de Antônio Carlos, lá estava Léo, com sua hoje folclórica pastinha verde. Pra evitar que se visse em alguma situação arriscada por conta de um desmaio ou coisa parecida, levou como enfermeiros sua prima Auri e o então namorado dela. Ao contrário da noite anterior, a casa estava cheia. Soube pelo garçom, um boa-praça, que Camalle ainda não havia chegado, e então teve oportunidade de assistir aos demais artistas que lá se apresentavam: Maria Martha, uma ruiva de cabelos inflamáveis, voz aveludada e repertório seresteiro; Anunciação, de cabelos curtos e um tantinho mais voltada ao pop; e Julinho, este, com o violão repleto de djavans e gils. Finalmente chegou a vez de Camalle, isso lá pelas tantas da madrugada. Léo sentia-se como um recém-chegado ao paraíso sendo recebido pelo próprio São Pedro. E, como a felicidade é egoísta, por vezes se esquecia de seus acompanhantes, que estavam quase tão felizes quanto ele. Ao final, conversaram novamente, e Léo lhe mostrou a fatídica pasta, na qual morava praticamente toda a sua obra de então. Trocaram contatos e ficaram de se reencontrar brevemente. A volta pra casa foi uma festa dentro do carro do namorado da Auri. Fosse hoje, em tempos em que a alegria tende a ser confundida com o alcoolismo (a recíproca também é verdadeira), teriam entrado no bafômetro.

Alguns dias depois, o telefone toca na casa de Léo. É Camalle, dizendo haver musicado duas letras da pastinha e convidando-o a aparecer novamente no Boca. Léo pega o primeiro voo que passa por Americanópolis e, antes que se possa dizer "inconstitucionalissimamente", já está lá na sua segunda nova casa. A noite termina e Camalle não canta nenhuma das duas parcerias. Quando vê o parceiro, pede desculpas e diz que não sentiu clima pra cantá-las, principalmente por não haver decorado as letras, mas convida o frustrado letrista a ir visitá-lo em seu apartamento. Quem sabe assim, num ambiente mais tranquilo, possa sentir-se à vontade pra cantá-las em primeira mão. Léo, já sonhando com os inéditos aplausos, resigna-se.

E lá foi ele rumo ao bairro da Aclimação. Camalle recebeu-o sem afetação, e, em meio a vários assuntos que se atropelavam, mostrou-lhe as duas canções. Léo não cabia em si de felicidade. Nunca havia tido a possibilidade de ver/ouvir suas letras recebendo tão fino tratamento. A tarde voou e chegou o momento em que as pessoas de bem percebem que é hora de bater em retirada. Antes disso, Camalle aproveitou a ocasião pra devolver ao novo parceiro a pastinha verde. Ao que este lhe respondeu que podia ficar com ela e musicar outras. Camalle, constrangido, respondeu que era melhor que ele a recebesse de volta, pois havia o risco de que esta se extraviasse no meio de sua ordenada desordem. Léo sentiu algo estranho no ar e fez a pergunta fatal: "Por quê?". Sem se fazer de rogado, com os olhos fixos no amigo e a pasta na mão estendida em sinal de devolução, Camalle sentenciou: "Cara, você é bom, mas essa pastinha é muito ruim! O que consegui encontrar de musicável foi o que já te mostrei hoje". Fulminando o novo parceiro com o olhar, Léo arranca a pastinha da mão deste e, sem se despedir, dá meia volta, entra no elevador e desce rumo ao inferno...

Continua.

9 comentários:

  1. magnânimo! só queria lembrá-lo que na época em que vc conheceu o Camalle, ele se chamava artisticamente Helio da Costa. O sobrenome Camalle e a tirada do "H" foi feita pelo Zé Luiz do Villaggio por ocasição do Cd "Mágicas. beijos amorosos!!!!

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  2. Queridona, quando conheci nosso sestroso amigo, o Zé Luiz já o havia rebatizado, o CD "Mágicas" já estava pronto e em vias de ser lançado. Caso contrário, eu teria dado um jeito de me fazer presente nele, nem que fosse por meio da pastinha verde. Hahaha!!!
    P.S. A foto da Fulô não condiz com as informações do comentário.

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  3. Levei um puxão de orelha de uma testemunha ocular por ter omitido, ainda que por esquecimento, um fato. Começo mal minha carreira de biógrafo. No entanto, está feita a emenda.

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  4. ABRAM AS PORTAS DA NOITE
    LÁ VEM O MESTRE DAS PALAVRAS
    LEVITA SOB A LUA ESFUZIANTE
    E BRINDA A VIDA EM VERSO E PROSA

    Grande Léo, mestre das palavras...
    Como diz o caipira: "num é que esse moço faz aguá os ôio da gente, sô!"
    Seu blog é um presente, um mar de reencontros e inspiração. Uma delícia estar aqui.
    Beijo pros Bakanas diretamente da Gargolândia

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  5. Uia! Que visita chique! Não é que a mulher se abalou lá de Alambari, pegou seu jatinho e veio até meu humilde espaço me dar um beijo na alma com o sopro de suas não menos inspiradas palavras?

    Rita, saiba que a Gargolândia é meu éden na Terra, povoado que é por anjos livres, que vão diariamente ao pomar colher para o café matutino maçãs da sabedoria!

    Beijos baKanas do
    Léo.

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  6. Léo, tenho andado por aqui, e gosto muito de tudo que leio. Mas afinal, o que aconteceu depois que vc. arrancou a pastinha da mão do Camalle, entrou no elevador e desceu rumo ao inferno???
    Beijos
    Rita

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  7. Hahaha! Calma, mulher! Essa novela não é diária! Os roteiristas estão ainda escrevendo as falas, e é muito provável que lá pelo meio da semana que vem já tenhamos novidades. Ou não... Por ora, deixemos o menino no inferno, assim ele volta preparado pras "coisas do mundo, minha nêga".

    Beijos,
    Léo.

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  8. Oi pessoal tenho este quadro dos músicos. Original preciso vender porque estou de mudança e não vou levar nada
    Quem se interessar me chama no whats 11.976476264 Angélica

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    1. Oi, Angélica. Grato pelo aviso. Passei seu número a um amigo interessado. Espero que façam negócio. Esse quadro é muito especial pra mim, espero que ganhe um belo espaço num palco especial.

      Abraço,
      Léo.

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