quarta-feira, 22 de março de 2017

Esquerda, Volver: 15) O caso Karnal sob outro prisma

Assisti há alguns anos à reprise de um programa muito popular na década de 1970 chamado Quem Tem Medo da Verdade?. Tratava-se de uma espécie de encenação de julgamentos de personalidades públicas, que iam ao programa se defender de acusações que lhes eram imputadas. Na ocasião, o “julgado” foi ninguém menos que Roberto Carlos. Não vou me estender muito, mas, resumindo, os entrevistadores/promotores públicos o acusavam de ser mau exemplo pros jovens por causa de roupa, cabelo e atitude, entre outras coisas. E coube ao apresentador Silvio Santos defendê-lo. E o fez muito bem, diga-se de passagem. Disse Silvio que Roberto não passava de um tímido rapaz interiorano que nunca havia pensado em ser líder de ninguém e que estava preocupado apenas com sua carreira artística. E tanto era (e ainda é) verdade, que até hoje o Rei raramente se pronuncia acerca de assuntos polêmicos.

Pois bem, esse introito do qual me utilizei pra tratar do tal “julgamento” do Rei deixo como um exemplo que se pode aplicar também ao judas da vez: Leandro Karnal, que teve há alguns dias a péssima ideia de se deixar fotografar jantando (e tomando um bom vinho, segundo palavras do próprio) ao lado do polêmico juiz Sergio Moro, um reles mortal que, endeusado pela mídia, tem se achado o rei da cocada preta. E, como se não bastasse, o popular palestrante e professor de história ainda caiu na besteira de elogiar a inteligência do juiz paranaense (o que já chega a ser um disparate) e comunicar que conversaram sobre possíveis projetos futuros nos quais seriam parceiros. Sendo essa a situação, adianto que não estou aqui pra defender Leandro Karnal e nem acredito que ele precise de minha defesa; só gostaria de filosofar um pouco sobre “culpados” e “inocentes”.

Particularmente, tenho certa dificuldade (ou seria pudor?) em apontar o dedo pra fulano ou beltrano e achincalhá-lo por pouca porcaria. Talvez ajam em mim alguns resquícios de minha antiga formação católica. A verdade é que, nesses casos, sempre me lembro daquela passagem bíblica em que Jesus, defendendo a prostituta (e futura santa) Maria Madalena, diz: “Quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra.” E, quando penso nos meus, se restar uma ou outra pedra em minhas mãos, deixo-a cair. Mas, claro, não porque eu seja um tipo bonzinho, fofo ou mesmo ingênuo. Muito pelo contrário, quando vejo por A + B que o sujeito merece que eu o execre, faço-o com pompa e circunstância, mas aí precisaria ser um Eduardo Cunha, um Michel Temer, um Aécio Neves, um Sergio Moro... Tipos desse naipe. E, convenhamos, não é o caso de Leandro Karnal – que se enquadra no mesmo caso da puta santa (ou seria santa puta?).

Seguindo na linha advogado do diabo, não me lembro de jamais ter visto (ou lido) Leandro Karnal dizer algo como "Sigam-me os bons! Vamos por aqui, que o caminho é este! Eu sou o messias da esquerda!" ou algo do gênero. Até onde chega minha lembrança, sempre o vi espinafrar a política como um todo, manter-se à margem, mostrar-se como um cidadão com ojeriza de companhias e comportamentos políticos. E ainda assim (ou por isso mesmo) tem defendido ao longo dos anos em suas palestras Brasil afora pautas progressistas, sem rabo preso com ninguém (quer dizer, pelo menos até a data da fatídica foto). E eu sei disso porque tenho o hábito de, durante afazeres domésticos de ordem faxinal, ouvir suas palestras – digo ouvir porque o faço munido de um fone de ouvido conectado a meu celular, que nessa hora, de dentro de um bolso, reproduz uma palestra do moço no youtube.

Agora, andam querendo fazer a caveira dele, esvaziar suas palestras, incentivar a que seus fãs descurtam sua página no facebook etc., como se ele fosse um traidor da causa. Ora, meus caros, como ele pode ser considerado traidor de uma causa que nunca foi sua? ... ou pelo menos uma que nunca afirmou em público ser sua... Como, digam-me? Mudemos o foco: se um Chico Buarque ou, vá lá, um Wagner Moura entrasse numas de jantar com o supracitado juiz, aí sim nós teríamos um traidor na mira, porque ambas figuras possuem um vasto currículo de comprometimento com a “causa”, mas o Karnal? Coitado do Karnal! Ele, além do mais, cansou de dizer aos quatro ventos que, embora costume discordar da figura que ora nominarei, é amigão de longa data de ninguém menos que o direitoso assumido Luiz Felipe Pondé.

E eu lhes pergunto: se Karnal janta com Pondé (o que, pela longevidade da amizade, eu suponho que já deva ter feito não poucas vezes), jantar com Moro não seria uma extensão à direita de seu talher? Pra seguir no, digamos, campo semântico, seria mais espantoso se na cadeira de Karnal tivéssemos nos deparado com Mario Sergio Cortella, que sempre teve ligações mais íntimas com a esquerda política brasuca, mas Karnal...? Este, meus caros, sempre posou de neutrão, acima do bem e do mal, aquele que quer sair bem na foto com todos (ui!); e, apesar de seu ligeiro aceno à esquerda, não poucas vezes tratou de Lula de modo pejorativo. E, mais, é um tipo vaidoso, afetado, que estufa o peito ao saborear lentamente as palavras que diz, meio como um pavão quando mostra as plumas...

Enfim, quando o vejo em ação, naturalmente penso que sua imagem está muito mais pra ar-condicionado, FHC, jantares caros e bons vinhos que pra suadeira dos comícios do MST. E agora, quando chega a hora de finalizar o texto, relendo os parágrafos acima acho até que peguei pesado com o moço de lustrosa careca, pois, como nunca esperei muito dele, não tenho por que o achincalhar. Pelo contrário, como supracitei não raro procuro por seus vídeos e já aprendi muito com ele, que é um intelectual que tem o que dizer – e o diz bem. No mais, vaidade não é crime. Só quero com estas maltraçadas dizer à “cumpanherada” que Karnal não merece (pro bem e pro mal) ser alvo de nossa bílis. Deixemos o tempo agir. Muito esquerdista hoje idolatra Nelson Rodrigues, perto do qual Karnal chega a parecer um marxista. A caça às bruxas sempre foi uma perseguição de cunho reacionário; não nos tornemos assim tão parecidos com os que ideologicamente abominamos, please.


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PS1: Pra não dizer que tudo são flores, como o malfadado jantar envolveu duas pessoas públicas, se eu pudesse perguntar algo a Karnal eu lhe perguntaria se, como historiador, aproveitou a ocasião pra fazer ao outro as perguntas certas e, se delas tiver conseguido boas respostas, quais teriam sido. Se ele pagou ou não o vinho, realmente não me interessa.

PS2: Pra quem ficou curioso sobre o julgamento do Rei, deixo de bônus um presentinho:




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17 comentários:

  1. Cada um que acredite no que quiser, ou em quem quiser.

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    1. Parafraseando meu amigo Ricardo Moreira, esse seu comentário me deixou sem emoji pra expressar o que sinto, Vanessinha. Hahaha!

      Beijos,
      Léo.

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  2. Excelente, Léo! Sua opinião, até agora, foi a que mais se aproximou da minha. Concordo totalmente com você. No mais, não vou deixar de ouvir ou ler as "ideias karnais". Achincalhar? Nem o Pondé, a quem prefiro ignorar. ;-)
    Beijão!

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    1. Ah, Dannoca... O Pondé vale, vai! rsrs

      Beijos,
      Léo.

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    2. Pra mim, ele é perda de tempo total! rs

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    3. Mas ele é engraçado, Danny. Suas bobagens já até me inspiraram a escrever uma crônica da qual gosto muito. Saca só: http://oxdopoema.blogspot.com.br/2014/04/cd129-ponderacoes-sobre-a-esquerda-festiva-e-a-direita-que-nao-pega-mulher.html

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  3. Adorei, Léo! Na ocasião, pensei exatamente como você sobre o descompromisso dele com a esquerda (que o adota para si à mínima inclinação dele à esquerda por querê-lo do seu lado, não o oposto, já que da parte dele há sempre reticências) e sobre isto: "A caça às bruxas sempre foi uma perseguição de cunho reacionário; não nos tornemos assim tão parecidos com os que ideologicamente abominamos, please".

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    1. Né, Esther? O Brasil sempre precisou de heróis pra dar um pouco de ilusão a sua vidinha, e, como o herói da direita (leia-se Moro) jantou com um cara que a esquerda tinha adotado como herói, a dor da desilusão bateu forte nos carentes de heróis. Sigamos, sendo nossos próprios heróis.

      Beijos,
      Léo.

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    2. Bem por aí mesmo! Faço um "mea culpa" aqui, pois de certa forma eu me decepcionei com o Karnal. Sim, eu criei falsas expectativas (mesmo sentindo que ele era "isentão" a despeito do que ele mesmo diz sobre não existir isenção). Essa foto só me serviu para ver que não devemos mesmo crer em heróis. Faço coro com você, Léo: sejamos nossos próprios heróis!
      Beijão!

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    3. De qualquer forma, continuo lendo e ouvindo o que ele tem de bom a dizer, como essa frase lapidar lembrada pela Esther: "A caça às bruxas sempre foi uma perseguição de cunho reacionário; não nos tornemos assim tão parecidos com os que ideologicamente abominamos, please". Pleeeaase! :-)

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    4. É, Danny. Por essas e outras nunca bloqueei no face amigos que pensam diferente de mim. Imagina você entrar lá e tudo ser cor de rosa... A vida não é assim, e precisamos saber o que pensa quem não concorda com a gente. Por essas e outras vez em quando leio caras que estão do lado de lá, mas são formadores de opinião. Só um detalhe: a frase que a Esther mencionou é minha. rs

      Beijos,
      Léo.

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    5. Ah, entendi errado! Desculpe. Acho melhor ainda que a frase seja sua. ;-)
      Beijos!

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  4. Léo, o grande problema, creio, é estarmos numa cultura que quer tão avidamente um Salvador da Pátria - e quando ele deixa de ser, "joga pedra na Geni"...
    Não posso negar que me surpreendeu... Talvez não por ele, mas a presença do Moro, sendo o protagonista Karnal a adesão mais negativa da história.
    Como Karnal realmente possui um bom discurso, preparado para o Espetáculo, vamos seguindo-o, agora com ouvido mais atento sobre as coisas ditas.
    Vale falar que ele deu um reply, que ainda não li, devido a ter perdido muitos seguidores... Eu continuo lá, e vou ver agora o Provocações com o Abujamra bufando (espero...kkkk).
    Abração, querido!

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    1. Salve, Erico! Sempre bom te ler por aqui.

      Queridão, admito que tal jantar, embora não tenha me surpreendido, não me passou totalmente em branco. Mas o que mais me estranhou (e citei isso no texto) foi o fato de ele, na condição de pessoa pública e formador de opinião, não ter extraído desse jantar informações ou opiniões que pudessem ser importantes pra seus admiradores e/ou seguidores. Achei isso mais lamentável que o jantar em si. Mas isso só revela que Karnal é, obviamente, humano, e não um ser perfeito e inatacável. Lamento mais por ele, mas ainda o acho um profissional importante dentro desse quadro horripilante que vemos hoje.

      Abraços, meu velho,
      Léo.

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