terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Notícias de Sampa: 17) O que anda acontecendo no Teatro Imaginário da Fábrica de Caleidoscópios

por Drika Bourkim
O ano da graça de 2016 começou com o pé direito. Já de cara o velho São Pedro resolveu tomar as rédeas e corrigir as lambanças alckmistas, jogando lá de cima muita água sobre a Terra da Garoa. Esperamos que os da banda de cá saibam aproveitar a generosidade do santo das três negações. Por outro lado, e por falar em banda, um bando de compositores já começou a se mobilizar pra se antecipar aos acontecimentos, atendendo a chamado irrecusável do grande Kleber Albuquerque. Explico: manjam aquele papo de "quem sabe faz a hora, não espera acontecer"? Então, o albuquerqueano mano, cansado de muito penar procurando lugares bacanas e viáveis pra apresentar por aí seu som, resolveu contra-atacar e, mandando um bem-colocado golpe abaixo da linha da cintura da burocracia das casas de espetáculo, entrou numas de make yourself.

Ou seja, obedeceu àquela velha máxima que diz que "quem não tem cão caça com gato" e resolveu, em tempos de vacas magras dos palcos paulistanos, arregaçar as mangas e abrir os portões de sua remasterizada casa-coração e os de sua igualmente grande casa-CEP, e ali, naquele quintal aconchegante nos fundos de uma residência que também pode ser chamada de Lar (assim mesmo, com L maiúsculo), numa simpática rua da sempre charmosa Mooca, instaurou (e instalou), com o auxílio luxuoso de sua primeira-dama alquimista (não confundir com o "alckmistas" supracitado) Vivi Correa, um espaço superbacana que ele, com o costumeiro acerto, viria a batizar de Teatro Imaginário da Fábrica de Caleidoscópios.

Aliás, antes de continuar preciso dizer que tal nome é um achado e resume bem o que é esse quintal. Afinal, quem chega ali se depara com um espaço tão lúdico e lírico que pensa estar em um parque de diversões musicais pra adultos. E foi esse espaço mágico que Kleber resolveu experimentar como palco de seus novos shows. Deu tão certo, que ele refletiu e repetiu, inclusive produziu ali alguns clipes em que o público dançava a dança da chuva, tão necessária em nosso árido e asfáltico solo. Ouso dizer que, se ele fizesse eventos ali diariamente, não teríamos mais problemas de escassez de água, pois Kleber, quando resolve brincar com seu violão alado e seu cavaquinho marinho, vira meio que um mago que transforma mágoas em águas.

Eu sei porque, meninos, eu vi!, em duas oportunidades, com meu próprios olhos, a mágica da multiplicação das canções e dos feixes trazedores de águas. Mas Kleber, bom anfitrião, sempre preparava os paráguas e as tendas dos milagres, pra que todos, público e artistas, pudessem se confraternizar e celebrar diluvianas canções em estado de enxutez. Uma vez, foi num show seu em que ele, trovadoresco, possibilitou encerrar o ano em paz com os trovões. A segunda vez, foi sábado passado, também conhecido como 9 de janeiro, quando democratizou o microfone... Minto, não houve microfone dessa vez, nem foi necessário, porque todos os presentes ("que presentes te daria?") estavam ali todo ouvidos.

E era justamente desse evento que gostaria de falar quando comecei o texto, quatro parágrafos acima, antes de ser interrompido por mim mesmo e por minha verborragia hemorrágica: a 2ª Gira de Compositores (não pude ir à primeira, pois estava girando por outros – galos, noites e – quintais). Ou seja, além de fabricar seus próprios shows ao vivo e ante os olhos de embasbacados espectadores em sua Fábrica de CaleidoscópiosKleber se predispôs a fabricar também essas giras de compositores, emprestando a estes seus instrumentos e terceirizando suas fórmulas pra que magos outros pudessem brincar com essa fabricação de fabricar sons. Eu tava lá e vi com esses olhos que ainda hão de se tornar unha e carne com a terra (oxalá demore).

Era como se ele fosse uma espécie de rei Arthur em sua improvisada távola redonda. Aliás, tão improvisada, que nem de távola careceu. As cadeiras, os banquinhos e violões bastaram. Ah, e, claro, os cavaleiros. Lancelot não pôde vir (deve ter encalhado seu corcel em alguma enchente), mas mandou whatsapp pros demais, assim que todos os outros foram (pelo menos os que estiveram presentes). Não vou citar nomes, pois poderia esquecer alguém, é suficiente dizer que quem foi não se arrependeu. Enquanto o palco flutuante mudava de lugar de canção a canção e os cavaleiros-seresteiros, acústicos (e aquáticos), reverberavam suas cordas vocais, nos bastidores um exército de bravos assessores, capitaneados por Guinevere-Vivi, providenciavam saborosos lanches vegetarianos regados a cachaça, lúpulo, malte & cia.

Um chistoso momento que vale o relato teve a este humilde escriba como involuntário protagonista. E agora necessitarei dar nome a pelo menos um boi, digo, cavaleiro. Juro que, como na canção, cheguei ali naquele quintal pisando o chão devagarim, todo discrição – pra melhor cuidar da descrição –, só que, como havia muitos parceiros meus no recinto, e como eles foram generosos e cantaram muitas parcerias nossas, meu nome acabou sendo repetido de boca em boca, o que não passou despercebido a um dos presentes, Carlos Careqa (o homem de esvoaçantes e einsteinianos qabelos), que, auscultando a todos atento, não conteve a emoção (nem poderia perder a ocasião) e, como bem reparou uma amiga, misturou homenagem com trollagem e ele próprio fabricou ali, na hora, uma canção que teve a mim por muso – quanto menos queremos chamar a atenção, mais a atenção nos chama...

Bem, como tantos têm nos deixado ultimamente (o mais recente a comprar a passagem só de ida, todos sabem, foi David Bowie), eu me vi obrigado a relatar esse encontro da mais alta relevância que propiciou, em forma de círculo (e, por que não?, circo), juntar boa colherada da nata da canção paulistana (não me refiro só aos aqui nascidos, mas também aos aqui residentes e domiciliados) durante um punhado generoso de horas. E isso tudo pra dizer que, sim, senhoras e senhores, os compositores e intérpretes não claudicamos, de tão acostumados a estar sujeitos às intempéries, fomos criando uma crosta protetora feita da mais pura e inquebrantável teimosia. Portanto – e pra fins de epílogo –, fiquem atentos, pois a qualquer momento o Teatro Imaginário da Fábrica de Caleidoscópios abrirá novamente seus portões mágicos pra nova apresentação demonstrativa de como se transforma dor em canção.


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18 comentários:

  1. Respostas
    1. Hahaha! A recíproca é mais que verdadeira, Qarlos!

      Abraços,
      Léo.

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    1. Eu gastei todas, né, Vanessinha? rs

      Beijo,
      Léo.

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    2. Todas, nao deixou nenhuma, pra mim.

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    3. Mas sempre você pode encontrar mais algumas, se procurar bem. rs

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    4. ou pelo menos novas combinações, né!

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  3. Que super presente este seu maravilhoso texto, Léo querido! Valeu!

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    1. O presente é nosso, mano Kleber! Vida longa às atividades quintaleiras!

      Abração,
      Léo.

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  4. Parabéns Leo Nogueira, Kleber e Vivi! E aos demais operários desta incrível Fábrica de Caleidoscópios!😊

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  5. eu quero ir!!será que rola uma antes de eu ir embora?ou estou pedindo demasiado??

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    1. Hola, Marce!

      Pelo que tudo indica, o próximo encontro deve rolar no Carnaval. Vem?

      Beijos,
      Léo.

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  6. Bela iniciativa do Kleber. Vida longa pro Teatro Imaginário!

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    1. Valeu, José Carlos! De acordo!

      Abraço,
      Léo.

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