quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Minhas Top5: 1) Lulu de todos os Santos

Gosto de cochilar ouvindo música, e cada vez escolho um artista diferente pra (re)ouvir, o que não deixa de ser também uma viagem no túnel do tempo rumo a meu passado. Recentemente, o escolhido foi Lulu Santos, e, enquanto ressonava (e ele ressoava), tive a ideia de usar mais uma vez meu blogue pra prestar outras — e novas — homenagens a esses tantos artistas que fazem parte de minha memória afetiva; assim, enquanto suas canções faziam ligação direta entre meus tímpanos e meu coração, bolei a estrutura e batizei de Minhas Top5, coluna que estreio agora, e, como Lulu foi a mola propulsora, começo por acertar minhas contas com ele.

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Sempre achei Lulu Santos uma figura um tanto arrogante, vaidosa ao extremo, dessas que não pensam duas vezes antes de dar uma patada em outrem (talvez ele seja um doce, mas foi essa a imagem que me passou), e isso se aprofundou tanto em mim que nunca fiz questão de conhecê-lo, essa coisa de ir ao camarim depois do show e tal (pra ser sincero, nunca gostei de ir a camarins em geral; às vezes vou, mas mais em consideração às pessoas que estão comigo); entretanto, e paralelamente a isso, quando puxei pela memória pra escolher as cinco canções sobre as quais trataria aqui, tomei um susto, pois não imaginava que iria ser tão difícil chegar a elas. Foi então que percebi que o sujeito me fez subestimar o artista. Portanto, as contas que quis acertar com ele no parágrafo anterior só aumentaram neste. Passemos, pois, aos próximos, enquanto é tempo.

5) DE REPENTE, CALIFÓRNIA

(Já tinha publicado o texto com o título sem o "Califórnia" (que se trata de outra canção de Lulu), quando meu atento mano Rica Soares me chamou a atenção pro equívoco. Daí, fui obrigado a vir aqui corrigir. Humildade é isso, o resto é bolsonarismo. Mordida a língua, daqui pra frente segue o restante da prosa, do erro em diante.) Outra coisa digna de nota é que a letra, simples, mas bela, é de Nelson Motta, o que me faz pensar que talvez Lulu tenha sido o parceiro com quem mais ele acertou a mão (entendidos me entenderão). Isto posto, o que queria dizer sobre a canção é que ela traduz um sonho adolescente, pois todo cara (e talvez toda mina) nessa fase da vida, por mais que more num lugar maravilhoso, sempre deseja estar em outro lugar. Provavelmente, porque não esteja satisfeito/a dentro do próprio corpo. Ao menos, era o que acontecia (e ainda acontece) comigo. Assim, a Califórnia seria qualquer lugar que não onde estivéssemos/fôssemos.


De Repente, Califórnia
Lulu Santos – Nelson Motta


4) TÃO BEM

Quando ouvi essa canção pela primeira vez, foi amor à primeira vista. Tomei um choque! Sim, choque é a palavra, pois é uma canção elétrica e, além disso, como direi?, salvífica (como gostam de dizer os católicos). Sim, porque ela mostra que é possível um zero à esquerda encontrar um bem de verdade, e tão intenso que cause em quem recebe esse bem o desejo de devolvê-lo em dobro ao agente dessa ação. "E prum garoto introvertido como eu", rei das bolas-fora, representava também quase como que se alguém me dissesse: "Calma, seu dia vai chegar." E tempos depois chegou. Ah, além disso, naquela época considerei essa melodia algo novo, porque ao mesmo tempo que começava meio que falada, desaguava em notas de um baita mar melódico.

Tão Bem
Lulu Santos


3) TEMPOS MODERNOS

Essa canção, cujo título é "roubado" de um clássico de Charles Chaplin, é pra mim um dos maiores hinos juvenis de esperança já compostos. E o "juvenis" não é pejorativo, sublinhe-se. É apenas porque só na fase juvenil acreditamos que as coisas mais naturais que a letra diz possam ser possíveis. Por isso, ela toca fundo em minha alma e, creio, na de todos os seres (forever young, né, Teju?) que sonham com um mundo melhor. E ainda hoje soa atual (e utópica), talvez porque sua letra ainda more mais no patamar dos sonhos impossíveis que aqui no subsolo da realidade, onde todos querem comer (e não — só — no sentido sexual) todos. E admitamos que a ducha de água fria que temos tomado no inverno de nossos outonos contribuiu pra que esses tempos modernos estejam cada vez mais além do horizonte.

Tempos Modernos
Lulu Santos


2) TUDO AZUL

A ditadura agonizava. Éramos jovens, esperançosos, com a via inteira pela frente e vislumbrando no horizonte um céu azul com um imenso sol dourado no centro dele. Éramos sós, mas éramos uma multidão. Não tínhamos profissão, mas sabíamos que tínhamos talento e que podíamos contribuir pra que nosso país fosse tão grande quanto merecia e como jamais havíamos visto. E essa canção caía como uma luva na mão de nossos sonhos. Sem falar que era ousada, misturando baião com rock (tá, outros já haviam feito, mas em outra época). Ouvindo-a, eu sentia vontade de marchar com meus companheiros, soldados da paz — & do amor — em eterna guerra contra os bélicos. E éramos belos.

Tudo Azul
Lulu Santos


1) O ÚLTIMO ROMÂNTICO

Em 1984, quando essa canção estourou, eu tinha de 12 pra 13 anos. Acho que nem havia beijado ninguém na boca ainda; então, imaginem o que era ouvir esse som, viajar em sua letra meio como quem tem saudades do que ainda não viveu. Tá, sei que é uma frase manjada, mas nessa idade quem é original? Ainda não havia pra mim Chico Buarque, minha mais completa evolução, e esses versos diretos, quase à queima-roupa, incendiavam o impúbere remelento que eu era, aquele quatro-olhos que se apaixonava quase diariamente por uma garota diferente, e sempre platonicamente. Assim, a voz máscula e sensual de Lulu me fazia querer ser o protagonista da canção. Eu ainda não era gente grande, mas me sentia habilitado a poder chorar.

O Último Romântico
Lulu Santos – Antônio Cícero – Sérgio Souza

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PS1: Depois de terminar o texto foi que percebi que abordei pouquíssimos anos da obra de Lulu. Depois, houve outras que me marcaram (talvez até melhores que essas acima), mas aí eu já era outro, e a magia inicial havia desbotado um pouco; a MPB "classic" me havia sequestrado indelevelmente, e o pop/rock nunca mais me seria o mesmo. Sei lá, "tem certas coisas que eu não sei dizer"...

PS2: E aí, quais são suas top5? Fique à vontade pra comentar abaixo.

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4 comentários:

  1. Oi Léo, mais um texto legal. Acho interessante abordar o Lulu, pois ele conseguiu até fazer filosofia na música pop. E conseguiu fazer uma "proeza" em "Como uma onda", partindo da música "Smile", em que ele e o Nelson Motta (realmente o parceiro essencial), passearam pela harmonia da canção do Charles Chaplin de forma grandiosa, com ótimo resultado - se não sabia, aqui está, e é uma prática muito comum na indústria, conforme fontes fidedignas.
    Não são as mesmas as minhas top5 do Lulu, mas é interessante ver como toca diferente para "outras gerações".
    Eu já estava cansado do Lulu, mas ele deu uma renascida. Isto é ótimo.
    E seu texto confirma isso.
    Abração!

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    1. "Como uma onda", a melô do surfista tarado! Sim, ótima lembrança, Erico!

      Beijos pra você também, amore!

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  2. Rapaz, eu não gosto dessa coisa de top 5, top 10, top sei lá quanto, porque vivo discordando de mim mesma! (risos)

    Sou muito fã do compositor Lulu, que também embalou minha juventude (afff, que me senti anciã agora!) e fez suspirar também essa adolescente aqui (digo, a que eu fui), que também se apaixonava por garotos diferentes, e sempre platonicamente. Só que não era diariamente, ao menos nessa fase. Minhas paixões platônicas eram duradouras, a ponto de eu pensar que elas nunca passariam. (Ah, jovens, envelheçam! rs)

    Eu incluiria aí "Um certo alguém", "Apenas mais uma de amor" (que, afinal de contas, a adolescência passou, as paixões platônicas também, mas o romantismo não) e outras tantas que, agora no meio de alguns trabalhos "pra ontem", não lembrarei.

    E o dever me chama.

    Adorei sua nova coluna!

    Um beijão!

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    1. Danny, eu também não consigo - decidi não conseguir, com o tempo, à medida que fui ouvindo os cds como inteiros, um trabalho íntegro, e seria impossível fazer as fitas que dava de presente pras pessoas com "as melhores". Por este motivo, consegui ganhar na obscuridade das faixas "que não são 'de trabalho comercial'", ouvindo muito mais coisas do que simplesmente hits.
      Mesmo dentro dos hits, teria dificuldade, pois ele tem muitas músicas boas - não consigo lembrar dos nomes, mas lembro de "Nós somos feitos de sons, somos feitos de silêncio e luz" (algo assim), entre outras que amo, que vou até fazer o meu playlist do Lulu no Deezer...kkkkkk... Lembro de um DVD Acústico MTV que pra mim é impecável, ainda hoje - vou ouví-lo já já, deu saudades.
      Certamente, outros têm suas preferências ou outros modos de absorver o som, mas dentro do universo pop-rock nacional tem muita coisa boa.
      Leozim, esqueci de parabenizar pela sua nova coluna. Que ela sempre nos traga o prazer da memória, do conhecimento de algo que pode ser novo, e todas as suas armas escondidas. Amei.
      Beijão, Danny e Léo

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