terça-feira, 23 de novembro de 2010

Crônicas Desclassificadas: 6) Gomen-ne

Mais uma vez escrevi um conto inspirado em fatos reais. Só que este tem maior liberdade no desenvolvimento da história. Foi assim: hoje, no trabalho, uma senhora que frequenta lá puxou conversa comigo e contou que estava ainda em estado de choque pelo que havia acontecido com seus vizinhos da frente. A partir do que ela me contou, desenvolvi, sem muita preocupação com os fatos reais, o seguinte conto:

Gomen-ne*

É, meu fi, é como eu tô lhe dizeno. Eles morava de frente da minha casa. E olhe, desde que eu me mudei pa cá, e isso já fazem uns 20 ano, que eles já morava. Os dois fi eu vi crescer, um casal, um minino e uma minina. Eram bem bunitim os bichim, a minina paricia uma princesa. Os dois sempre dava bom dia, boa tarde, mas era só, os minino, sim sinhô, mas os pai, nem isso, quando via a gente, baxava a cabeça e levantava, assim, ó. Minha vizinha do lado diz que é assim que os japonês cumprimenta os otro. É, sim sinhô. Eles era japonês, dos zoim puxado nas berada. O marido diz que tinha uma relojaria, que japonês é tudo assim, gosta de mexê com essas coisa de reloge. Mas eu num sei onde ficava, não sinhô. Mas isso já fazem muito tempo, purque ele se aposentô. É, fechô o negoço. Ultimamente ele num fazia nada, não sinhô. A única coisa que eu via ele fazê era duas coisa: regá o jardim, que eles tinha um jardim muito do bunito, e chupá laranja sentado nos dregau. É, laranja, sim sinhô. E a mulé eu incrontava na fêra, que era ela que fazia a fêra, o marido num ia junto, não sinhô. E quando ela me via ela baxava a cabeça. E era só.

A pois. Teve um dia que eu istranhei. Foi. É que nesse dia a mulé falô cumigo. É. Mas eu quase num intindi, purque ela num sabia bem falá o brasilero direito, não sinhô. É. É que nesse dia nóis tava no ponto de ômbus e o diacho do ômbus num passava nem cum a mulesta. E ela me falô “tá demorando, né?”, que japonês sempre bota o “né” no fim das coisa que eles fala. E deu uma risadinha. Daí eu fiquei ispantada, da mulé falá cumigo, sim sinhô. E eu cumecei a puxá cunversa. E eu num sei o que foi que eu falei, acho que eu perguntei alguma coisa do marido dela, e ela falô “marido duente, né". E eu perguntei o que era que ele tinha e ela falô só “muito duente, né?". Mas dessa vez ela num riu, não. Ficô foi sera, daí eu fiquei sem jeito de cunversá otro assunto e o jeito foi eu me calá. E ela ficô ali, olhando pa frente mas sem vê as coisa. Paricia que tava mei lesada, num sabe? Mas aí o ômbus vei logo, e cumo eu sentei num banco e ela sentô notro, acabô-se a cunversa.

Não, não sinhô. Eles num vinha visitá nunca, mas é purquê os dois mora no Japão. É, sim sinhô. Diz que foro lá trabaiá e nunca mais que voltaro. Qué dizê, voltaro agora, depois do aconticido. É, sim sinhô. Os dois casaro e foro trabaiá no Japão. Mas um num casô cum o otro não, vixe maria! Hehehe! A minina casô com ôtro japonês e o minino casô cuma brasilera. Minino é modo de dizê, num sabe?, que eles crescero, né, meu fi? A pois. O fi hômi casô premero e foi na frente, uns dois ano depois, ela foi também. Mas a minha vizinha do lado disse que foro cada um puma cidade diferente. É, sim sinhô. Num era na mesma cidade, não. Isso já fazem bem uns dez ano mais umeno. Ô parece que foi nove, agora eu me imbananei toda. Hehehe! Diz que eles tivero até fi lá, mas das vez que eles vinhero eu num cheguei a vê, não sinhô. Mas também eu num sô de passá o dia cuidano da vida alhêa, não, que nem a minha vizinha do lado, que sabe tudo de todo mundo. Parece uma reporte. Não sinhô. A vez eles vinha visitá, mas era difice, que o sinhô sabe que o Japão é longe, diz que leva um dia todim de viage. Diz que o Japão fica debaxo do chão, mas será se é verdade? Eu num acridito nessas coisa, não. Assim que o Japão fica mais longe do que o Ciará. Hehehe! Sim, sô. Ciarensa. Mas eu vim pa cá já fazem muitos ano. Sim. Cum meu marido e meus cinco fi. Qué dizê, quato, que o Quinzim nasceu aqui. É, sim sinhô. Os otro nascero lá e vinhero já mei criscidim. A Raimunda, que era a mais novinha, já tinha uns três ano. É, sim sinhô, eu já tinha pensado em pará, mas aí Deus mandô o Quinzim, e eu era de fazê o quê?  Se é da vontade de Deus...

A pois. Nesse dia, quando eu dei fé, só vi o ribuliço. Era puliça pa todo lado, veio até os hômi da televisão. O sinhô num viu, não? É, o negoço foi fei, meu fi. Deu até no reporte. Foi, sim sinhô, vinhero até falá cumigo. E eu disse mais umeno o que eu tô lhe dizeno agora. Quando eu sube, meu fi, eu num quis nem num vê. Fiquei me tremeno toda, tive que entrá e tomá um copo d'água cum açuca. Depois, qué sabê o que eu fiz? Entrei no meu quarto, pus os juei no chão e fui foi rezá. Foi, sim sinhô. Foi a minha vizinha do lado, aquela que sabe de tudo, que me contô que o japonês tinha se matado e matado a mulé. Qué dizê, ele matô ela premero, né? E depois se matô. Mas o mais horrive foi que foi cuma faca. E foi um risco no mei da barriga, de assim, ó. Na dela e na dele. A coisa mais fea. Diz ela que viu. Meu fi, a pessoa tem que tê muito estomo puma coisa dessa. Ave maria! Só seno mesmo que eu vô vê um negoço desse!

Mas espere aí que o pió foi depois. Ói, cumo eu até me arripuno. A pois. Daí que os fi vinhero, né? Foi, sim sinhô. Do Japão. Foi aí que eu vi os fi deles, bem bunitim os bichim, paricia eles quando era criança. Igualzim! O do fi era um minino e da fia era um casal. A pois. Sabe o que foi? Tinha em cima da mesa um invelope cum biete dentro. Mas tava tudo em japonês, naqueles garrancho que só eles é que intende, num sabe? Ói cumo eu me arripuno! Então, foi a minha vizinha do lado que disse, a que sabe de tudo. Diz que na parte de fora tava iscrito que era pus dois fi, e na parte de dentro tinha uma palava só. Só uma! Ói, meu fi, o que é a falta de Deus. Os véi era tudo ateu, num tinha religião ninhuma. Os fi crescero assim, no mundo, os imboléu, que nem os bicho, nem batizado foro. Foro educado sem amô, daí, crescero e foro imbora e dexaro os pai só. A pois. Sabe o que é que tava iscrito no biete? Perdão. É, sim sinhô. Só isso! Perdão. E mais nada. Mas a minha vizinha do lado, aquela que eu lhe falei, sabe o que ela me disse que os fi dissero? Eles ricuincero a letra. Veja o sinhô, aqueles desenhim que eles iscreve, e os fi ricuincero. E sabe o que é que eu me assustei? Ói cumé que eu fico... Diz que quem iscreveu o biete foi a mãe.

***


*"Desculpe-me", em japonês informal.

4 comentários:

  1. Lindona! Fico feliz em te saber por perto, embora distante...

    Beijos,
    Léo.

    ResponderExcluir
  2. Com muita sensibilidade você percebeu esse contraste de culturas e fez o conto. Legal, minha esposa também gostou.
    Abraço!

    ResponderExcluir
  3. Domo arigato, Cláudio! E também à esposa.

    Abração do
    Léo.

    ResponderExcluir