sábado, 6 de janeiro de 2018

A Palavra É: 35) Silêncio

Meu querido amigo Paulo Mayr Cerqueira, jornalista, blogueiro (leia seu blogue aqui), frasista merecedor de calorosos aplausos nos tantos saraus nos quais participa pelos palcos paulistanos, microcontista e grande apreciador da boa culinária e de bons tragos (não exatamente nessa ordem), ao me saber neomorador de terras nipônicas teve a feliz ideia de me sugerir um texto em que o tema fosse o tão importante... silêncio. Claro, ele, como intelectual que é, e ao mesmo tempo morador do centro paulistano, ali pelos arredores do Baixo Augusta, sabe dos pesos e das medidas de ser quem é morando onde mora. E eu, que fui praticamente seu vizinho durante o tempo em que morei no bom e velho bairro do Bixiga, venho por esta tentar, de forma humilde e caótica, atender a seus apelos.

Caro Paulinho, como você eu também sou amante do silêncio. O silêncio que nos possibilita uma boa leitura, uma boa bebida (um bom sexo; por que não?), entre tantas outras coisas boas que nos propicia. Esse mesmo silêncio que nos faz, como bons brasileiros que somos, por vezes invejarmos os surdos — mas aqui não posso me furtar ao chavão de dizer que é melhor ouvir merda que ser surdo, já que eu, que trabalho com música, se fosse surdo não poderia exercer o ofício de letrar essas tantas belas melodias (e umas poucas nem tanto) que tenho o costume de receber.

Enfim, caro Paulinho, tal qual um Pero Vaz de Caminha às avessas, venho por esta lhe dizer que, sim, o Japão é um país silencioso. E à beira do suportável. Estou morando em Tóquio, mas, apesar disso (sabendo que se trata de uma das capitais mais populosas do mundo), o silêncio me é ensurdecedor! Eu, que nasci no sertão do Ceará, que cresci nas periferias da zona sul (não a carioca, mas a paulistana), por vezes caminhando por ruas transversais desta grande cidade acabo quase sem querer levando o mindinho ao ouvido mais próximo pra me certificar de que realmente não fiquei surdo. Nem os carros, caro Paulo, velozes e potentes, exercem seu direito de fazer barulho! Muitas vezes, caminhando quilômetros por belas ruas, sinto-me quase como personagem daqueles velhos faroestes que se encontram em cidades fantasmas.

Sim, caro Paulo, lembrando-me ou não de você, nessas horas me sinto feliz. Feliz por me saber morando numa civilização em que o natural, antes de tudo, é evitar fazer algo que incomode o vizinho. Claro, aqui há muitos problemas (venho me inteirando sobre eles aos poucos), mas você não tem ideia de como é bonito ver crianças de 6 ou 7 anos de idade voltando pra casa sozinhas sem medo de sequestro (ou coisa pior); voltando pra casas que no máximo têm portões facilmente abríveis — porque aqui ladrões, sim, existem, mas estão em franca minoria. É comum famílias viajarem e deixarem a casa vazia por semanas sem maiores preocupações. E não me refiro a moradores de apartamentos, caro Paulo. Não sei se você conseguiria entender isso.

Mas voltemos ao silêncio. Caro Paulo, aqui, quando as pessoas falam ao celular em locais públicos, como por exemplo restaurantes ou lojas, levam de imediato a mão à boca, pra não atrapalhar os demais cidadãos que lhes rodeiam. E muitas vezes correm pra rua quando percebem que nem assim conseguirão evitar o desconforto do vizinho de mesa ou de metro quadrado. Que bonito, não, Paulinho? Você, como eu, já deve ter passado inúmeras vezes pelo constrangimento de, num restaurante qualquer, sentar-se ao lado de algum mentecapto que não se cansava de arrotar barbaridades sobre o que comprou, vendeu, tem ou terá. É, caro Paulo, por aqui não temos acesso a essas informações, pois não no-las dão.

No entanto, Paulinho, não saia já praguejando contra nossos patrícios. O Japão já era uma nação civilizada (embora sanguinária) muito antes de que o "bom" Cabral topasse com nossa baiana costa. E digo mais: nossos amigos japoneses nessa época já eram vegetarianos; quando muito, comiam peixe. Só depois que muitos ocidentais deram com suas naus por aqui que nossos orientais amigos acabaram sucumbindo a esse pecado do amor à carne vermelha (e à branca). Enfim, você, como bom jornalista, já sabe que há muitas civilizações que foram completamente engolidas (literalmente) por outras que, embora menos lidas, eram mais, digamos, letais. E o Japão só não se tornou mais uma dessas civilizações porque, embora vegetariana, sempre primou pelo amor ao sangue. Se é que me entende.

Só que agora, caro Paulo, encontro-me numa encruzilhada. Calma! Explicar-lha-ei. O Japão é, sim, silencioso. No entanto — e pra meu gosto particular, esse gosto de quem cresceu tendo contato com decibéis que iam além do que o bom senso sugere —, parafraseando velha canção de Gil e Chico... esse silêncio todo me atordoa. Sabe por quê? Porque numa nação em que seus cidadãos nunca gritam, seja de alegria ou desespero, algo de ruim deve estar passando na calada da noite. E os altos índices de suicídio daqui não me deixam mentir. Caro Paulo: silêncio demais também enlouquece! Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Detalhe: nas últimas 24 horas o chão sobre o qual lhe escrevo tremeu TRÊS VEZES! E, ao que me consta, eu fui o único que gritou(!).

Enfim, o que queria lhe dizer, caro Paulinho das Frases, é que o Brasil ainda é um garotão virgem querendo comer as menininhas barulhentas. Já o Japão me parece vez por outra um nostálgico Casanova já sem libido se lembrando de quando comia menininhas silenciosas (pense nisso — lendo, quiçá, Arthur Schnitzler). Mas, além do silêncio, há o anúncio; o berôncio; o cônscio; o estêncil; o florêncio; o gaudêncio; o H (que não é fácil); o incônscio; o juvêncio; a flor do lácio; o míssil; o negócio; o once (upon); o Pôncio (Pilatos); o... quer saber? Você ganhou, Paulinho! Não tem coisa mais besta que, num texto em que tratamos do silêncio, procurar rimas pra ele! Rima por rima, prefiro terminar dizendo que pra quem sabe dormir no barulho tudo o mais não passa de sons em outra frequência. Abraços silenciosos. Zzzzzzzzz...

***


PS1: trilha sonora: Jorge Drexler, Silencio (Jorge Drexler)


PS2: Nesse caso, creio que vale a pena deixar aqui registrada a letra da canção acima:

SILENCIO

Todo el mundo intentando venderte algo
Intentando comprarte
Queriendo meterte en su melodrama
Su karma, su cama, su salto a la fama
Su breve momento de gloria
Sus dos megas de memoria
Subirte a su nube
Como un precio que sube
Para luego exhibirte
Como un estandarte
No encuentro nada más valioso que darte
Nada más elegante
Que este instante
De silencio
Silencio

El índice vertical entre la boca y la nariz
El eco en la catedral
La brisa en la enredadera
Entremos en el sonido hasta el penúltimo matiz
Hagámosle caso al gesto de la foto de la enfermera
Y cuando el ruido vuelva a saturar la antena
Y una sirena rompa la noche, inclemente
No encontraremos nada más pertinente
Que decirle a la mente
Detente


Silencio
Silencio


Bésame ahora
Antes que diga algo completamente inadecuado
No hay que desperdiciar una buena ocasión
De quedarse callado


Silencio

***

2 comentários:

  1. Leozim, instigante texto. Acredito que tenha o formato e o tamanho para leitura em internet, mas traz o básico dos significados do silêncio tão almejado no ocidente - pra você, em Sampa, uma emergência; para você, no Japão, a diferença cultural, o controle, a discrição e tantos outros pontos.
    Apesar de não conhecer o Japão, ler seu texto me passa que o silêncio aí é o grito inconformado de uma sociedade totalmente "civilizada" por séculos, em cuja coletividade e talvez em sua intimidade pessoal das pessoas, uma prática de distanciamento da subjetividade, talvez, ou a forma em que uma subjetividade se constitui.
    Lembro da indicação de um filme japonês, que ainda não consegui descobrir qual é, mas que mostra uma garota cega, surda e muda, perdida em um quarto de hospital que vem a constituir, reconhecer-se como indivíduo através do contato com um mentor que a visita.
    Observo estas reflexões com grandes questionamentos, no que eu tenho a emergência do silêncio para ouvir-me mais, tendo tido a oportunidade de experienciar este silêncio no sertão nordestino por duas vezes. Como foi gratificante, após uma ditadura de sociabilidade, barulho, concreto e asfalto, por tanto anos, e continuo.
    Eu lhe agradeço mais uma vez por este texto tão especial! Abraços silenciosos, de amparo e pleno ar para os momentos de sufoco!

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  2. Léo, só você grita por conta dos terremotos? Que cena! rsrs É o sangue bom, pulso que pulsa, liberto e desperto, atento no silêncio, só pode. Ecoa aqui; eu te ouço apesar de... Grande!

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