domingo, 2 de julho de 2017

Crônicas Desclassificadas:186) A flor e o Espinoza

Sabadão. Vinte horas de la matina. Calor da porra! Horário de verão recém-implantado. Garganta rangendo mais que fusquinha faltando óleo em subida da Imigrantes. Timóteo, em estado ressacal, apenas despertado do sono da lerdeza, jogou a moeda de um real pra cima. Desse cara, ligaria prum brou pra tomar outras... e umas. Desse coroa, compraria umas brejas e se quedaria em casa lendo Nietzsche, além do bem e do mal, pai, filho, espírito santo, amém. Deu coroa. Ele, por cima dos óculos rotos de aros raros, centralizou foco na porra da moeda e tascou, à guisa de improviso: "Coroa é do tempo do cruzeiro, meu velho!" Nem pestanejou. Aproveitou o pouco crédito que tinha junto à (sic) operadora e operou uma ligação direta que foi parar, do outro lado da linha, no escutador de Baltazar. A prosa, como diria um músico de barzinho, deu-se "mais ou menos" assim:

"Fala, Balta. Tomar uma hoje?" "Meu velho (o Balta), a patroa acabou de ser atropelada por um malbec arrentino que se chocou com una pastasciutta al dente, e eu tava justamente depositando-a no leito dormital, de modos que, temporariamente alforriado, embora ga-ga-gaguejante, vos digo: só topo se você escolher a hora e o local do crime." Timóteo, do outro lado da linha do etilicoador, não precisou esconder o sorriso (visto que não era visto) e sentenciou: "Que tal na Augusta, naquele boteco de sempre?" Balta: "Fechado, mas com uma condição: só se for dentro de meia hora." Timóteo: "Fechado. Sem mais, despeço-me." Ambos, cada um em seu respectivo cafofo, escovaram o sorridor, passaram um pente no penacho (um meteu gel, mas não revelarei qual) e saíram rumo à naite.

Claro, houve um problema comum de dois: dónde carajos era o boteco de sempre? Mas, como se conheciam havia um bilhão de anos (sem o atrás, plis), celularizaram a questão e acabaram praticamente batendo óculos no ósculo na terceira (ou seria quarta?) travessa da Augusta. Timóteo abraçou o amigo, meio assim de lado, pra denotar macheza, e vilipendiou (o verbo não foi esse, mas, como é bonito, mantenho-o): "Convidei o Gaspar." Balta: "Gaspacho nele!" E assim chegaram ao Boteco Não Sei das Quantas, cumprimentaram o garção pelo nome (um tipo que jamais haviam visto antes) e pediram uma breja daquela marca que os bebuns da periferia ignoram. Três dias e três noites depois, após uma série serial de ligações diretas, apareceu o Gaspar, como si nada...

Sentou, chamou o garção pelo nome (que ele, igualmente, ignorava quem fosse), pediu um copo, e, assim en passant, retardatário, avisou os pólis: "Convidei dois amigos." Os sorrisos amarelos rayovac, em uníssono, rangeram um "tudo bem" qualquer, pediram outra estupidamente gelada e retomaram o papo de onde haviam parado... Aliás, trocaram-no por uma prosa novinha em folha, visto que Gaspar morava na filosofia ("o mundo me condena e ninguém tem pena, falando sempre mal do meu nome"...). E foi assim que, trocentas brejas depois, quando já trocavam Sócrates por Zico, digo, Platão (capaz que tivesse sido Aristóteles...), chegaram os dois amigos de Gaspar, dois jovencitos nem bem saídos dos cueiros.

Neste exato momento da trama, urge dizer que Timóteo (que de Aguinaldo não tinha nada) era um galego recém-separado que, após um largo matrimônio que vinha desde os tempos diluvianos, ora reencontrava os manos por vez primeira sem sentir o peso das esporas, ops, esposas (aqui grafadas em espanhol). Ou seja, de língua solta, sede setentrional e nonsensismo em riste. Já Baltazar, muito bem cag... cassado, mirava o amigo com olhos tão cheios de pena quanto de inveja. Afinal, a felicidade a dois não deixa de ter sua dose de abnegação compartilhada. Mas on the rocks. A verdade mais verdadeira foi que os dois marujos, soltos nos mares bravios do oceano augústico, embora amigos de um morrer pelo outro, num breve relapso de tempo se quiseram matar pela recém-chegada presa (pelas sete chagas de Cristo!).

E eis que chega o momento de o narrador (em terceira pessoa, deixemos claro; o que, obviamente, o absolve de culpas quaisquer) desatinar sobre os dois re-retardatários: primeiro, o macho alfa, 20 e pouquíssimos anos, não exatamente lindo, mas dono de um sorriso de deixar bissexual subindo pelas paredes. Altura, um metro e lá vai pedrada (tava todo mundo sentado); apesar do nome japa, Akira, um bradirudim (seu pai deve ou ter visto muito Kurosawa ou ter sido fã de mangá — segunda hipótese mais provável). Sem mais, passemos à segunda (cá pra nós, primeiríssima), Gisele, moçoila, assim como o supra Akira, residente do algarismo dois ponto pouco, altamente pegável, tanto quanto inatingível (embora nesse momento da prosa nessuno sapeva).

E eis que, por volta das 15 pra não sei quanto, magnanimamente, Gaspar — justo ele que havia convidado os pós-impúberes — resolve abandonar o recinto com um "sinto muito" meio nas coxas, proveniente de um sentimento de culpa de um motorizado mezzo consciente do efeito-bafômetro. Lamentamos... mais por ele que por nós, of course, principalmente depois de termos ouvido de Gisele um musicalíssimo "conheço um boteco aqui perto superbarato e boa onda". Tapinhas nas costas do Gaspar, "a conta, por favor", visita ao toalete em fila indiana, e lá fomos nós ao giselíssimo bar... E é aqui que nossa história ganha ares de suspense. Já não era sem tempo, dirá um (leitor) ejaculador precoce. Porém, em nome da estilística, demos tchauzinho a Gaspar e inauguremos novo parágrafo.

Em tempo: Gaspar era (é; não deve morrer tão cedo) um professor de flosofia (sim, eles existem!) não coincidentemente professor de AkiraGisele. Isto posto, resta dizer que, no tal boteco "superbarato e boa onda", Gisele pede uma pinga com mel e Baltazar, num último e gentlemanístico lampejo de lucidez, sussurra no "olvido" de Timóteo um musical "Vai que é sua, Taffarel", que caiu como uma luva no colo (este lado pra cima) de Timóteo, que, mais rápido do que soletrar inconstitucionalissimamente, sentou-se ao lado de Gisele (que, pasmem, era cearense!) e, com uma sem-cerimônia de dar inveja a muito faustão por aí, pôs-se a ler a mão da moçoila com uma propriedade de quem sabe russo em meio a analfabetos.

A verdade é que ela quase caía na cartomante leitura pós-machadiana de Timóteo, não fosse o detalhe de, além de não ser analfabeta, ser pós-graduanda em Espinoza. Tinha espinho, sim, mas teve a compaixão de beijá-lo no canto (esquerdo) da boca antes de lhe negar o acesso ao paraíso (no qual, diga-se, não acreditava). De Akira (embora este não tivesse deixado os copos dos dois pré-andropáusicos vazios — ou por isso mesmo), esta história não soube mais. Pra resumir a prosa, Timóteo e Baltazar, preocupados que estavam em acordar o galo, escafederam-se com a alba, deixando a conta a cargo da "espinoza". Igualmente, de Baltazar este relato não teve mais notícia, visto que se tratava de coadjuvante. 

Timóteo, disseram as más línguas, após o selinho perdeu o sinal, o celular (e deve ter tirado de barato o fato de não ter perdido também o selo lá) e, minutos depois, já na rua da amargura, tropeçou nas duas pernas esquerdas, deu com a cara no chão (salvaram-se os óculos) e por pouco não perdeu o rumo de casa. Aliás, só lá chegou porque o deus dos bebuns, apesar da opinião dos ateus, sim, existe. A bem da verdade, este narrador acrescenta que os moços, posteriormente, subtraíram o rombo nas finanças de Gisele. O que não pôde ser subtraído foi o rombo no coração de Timóteo. Contudo, como este não é um conto do vigário, é bom acrescentar que tal rombo facilmente poderia ter fixado morada no coração de Baltazar, não fosse ter este, placidamente, entrado na guerra pra perder. Tivesse o narrador feito um roque (jogada no xadrez que envolve a movimentação de duas peças com a intenção de proteger o rei) e teria ficado o sujo pelo mal-lavado.


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PS: Pra que conste nos autos, esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas ou fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Ou não.


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6 comentários:

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    1. Ravena, rara (e sempre bem-vinda) presença! Esta humilde casa das palavras agradece — e se envaidece.

      Um ósculo maiúsculo,
      Léo.

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    1. Grato, Poli. E eu só não acrescento "gratidão" por puro sagitarianismo. rs

      Abracci,
      Léo.

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  3. Não sei se hoje acordei sentimental - "Sentimental", aliás, "eu sou", diria Altemar Dutra -, mas consigo ver, nas entrelinhas dessas bem traçadas linhas, uma história de amor, cada personagem buscando o amor à sua maneira... desastrosa. Mas não é isso mesmo, o amor, um desastre do sentimento?
    Mas confesso que amei, realmente amei essas palavras, essa prosa de Léo Nogueira me delicia. Frise-se o portunhol oportuno, consciente de si, que consegue inclusive misturar Espinosa (que segundo uns era de origem portuguesa) com Spinoza (que segundo outros era de origem espanhola), donde o "Espinoza". Genial.

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    1. E, por falar em portunhol:

      Salve, Marcuela! Muito me honra sua estreia neste humilde espaço. Gostei dessa definição: "amor, um desastre do sentimento"; isso dá música, hem? Quanto ao Espinoza, talvez a grafia esteja mais no campo da ignorância que no da genialidade (rsrs).

      Apareça mais, meu velho! E, qualquer hora, como colaborador quiçá.

      Abração,
      Léo.

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