domingo, 28 de maio de 2017

Eu Não Vi, Mas Me Contaram: 8) Os complexos desejos da vocação

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ATENÇÃO! 
Excepcionalmente, esta postagem é desaconselhável a menores (e também a conservadores, preconceituosos, radicais religiosos, reacionários, skinheads, partidários do politicamente correto e congêneres patotas) 
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Era minha última chance. Eu só tinha alguns meses antes do dia que mudaria pra sempre minha vida. Ainda não dera nenhum passo em direção ao objetivo que não saía de minha mente havia dias, mas já arrastava meus passos pra cima e pra baixo com um antecipado complexo de culpa. Em algumas manhãs, despertava sentindo-me mais forte e decidido a não ceder; porém em outras eu era todo fraqueza e desejo. Deixara de me masturbar fazia dois anos, orava muito, chegava a castigar meu corpo, mas este continuava me desobedecendo. Parecia que, quanto mais eu pedia ao Pai pra afastar de mim a tentação, mais ela penetrava em minha carne, espalhando-se por minhas veias como um vírus ou uma droga.

Naquela manhã, notei ao acordar que novamente fora vítima de uma polução noturna. Corri pro banheiro e lavei imediatamente minha cueca, mas a mancha que eu limpara nela continuava viva e pulsante dentro de meu cérebro. Decidi-me por fim. Estava seguro de que havia escolhido o caminho certo, mas, se ia passar minha vida inteira sofrendo as consequências de minha escolha, precisava ao menos saber de que eu fugia. Vale mais o livre-arbítrio de alguém que vira vegetariano já tendo provado ao menos uma vez um bom filé e abre mão desse prazer por pena dos bichinhos abatidos do que aquele que já nasceu numa família de vegetarianos. 

Foi então que baixei pela primeira vez um desses aplicativos de paquera. Jurei pra mim mesmo que só o iria usar uma vez e tão logo conseguisse meu objetivo o jogaria fora. Inclusive, comprei um chip só pra isso. Não podia dar meu número verdadeiro a essas paqueras avulsas. Tinha uma coisa em mente: não sairia de maneira nenhuma com qualquer garota que me parecesse extrovertida em demasia ou que deixasse transparecer em seu olhar qualquer sinal de perigo, mesmo que tivesse uma estonteante beleza. Aliás, fugiria mesmo das estonteantemente belas. Claro, tampouco optaria por sair com uma garota feia, mas, se eu queria discrição, tudo nela devia ser discreto, incluindo roupa, cabelo e, obviamente, beleza. E o primeiro encontro só aconteceria depois de muita conversa pelo aplicativo. Se a moça não fosse paciente e não tivesse uma prosa que me cativasse, nada feito.

Gastei alguns dias conversando com um punhado de garotas até que me decidi por Vera. Antes do primeiro encontro, no entanto, voltei a me masturbar muito. E também admito ter cometido o pecado de ver alguns vídeos pornográficos na internet. Mas em minha defesa alego que foi por um importante motivo: não podia de maneira nenhuma deixá-la perceber que eu era virgem. Afinal, um virgem de quase 30 anos iria lhe parecer um cara com algum tipo de problema. Portanto, treinava como se eu fosse um ator de teatro às vésperas de uma grande estreia e que procura, mais que decorar seu papel, penetrar nele (com o perdão do trocadilho) de modo a nem mesmo parecer que está atuando.

No primeiro encontro, duas surpresas: 1) ela era pontual; e 2) era mais bonita ao vivo do que nas fotos. Marcamos num café. Era um sábado à tarde. Ela falou bastante, o que facilitou minha vida, pois tinha intenção de falar de mim o mínimo possível. Outra coisa de que gostei foi seu riso franco, aberto. O que me levou na hora a ter pensamentos impuros, pois fiquei imaginando aquela boca, em vez de falando, trabalhando em meu falo — e agora o trocadilho foi proposital. Contudo, como parte de meu plano, não podia levá-la pra cama já no primeiro dia. Contudo, tampouco ela pareceu estar inclinada a isso, o que me desanimou um pouco. Será que ela não teria me achado atraente o bastante?

Mas consegui marcar um segundo encontro. Dessa vez, numa sexta à noite. Seguindo ainda meu plano, o objetivo dessa vez seria embebedá-la e arrastá-la pra algum motel próximo. Só que eu não contava com pequenos detalhes que acabaram arruinando tudo: o primeiro era que Vera bebia como se álcool fosse água; depois de duas horas ainda estava lúcida e sem o menor sinal de embriaguez. Em contrapartida, eu, que não costumo beber, em meia hora já estava falando pelos cotovelos e com as palavras me saindo da boca enroladas, como se eu fosse um estrangeiro tentando falar português. Por sorte, nesse dia descobri que a bebida me ajuda a mentir e também que minhas mentiras lhe agradaram muito. Demos nosso primeiro beijo nessa noite. E o segundo, e o terceiro, e o quarto...

Mas não fomos pro quarto. Como em determinada hora da noite corri pro banheiro pra vomitar, ela achou que já era hora de irmos embora. O que pra mim foi até bom porque perigava eu brochar já no primeiro encontro. Raciocinei e pus a culpa na comida, afinal, 90% do que eu vomitara tinha composição sólida. A noite, afinal, não fora de todo ruim. Rolaram uns beijos, e eu percebi que 1) não ia conseguir embebedá-la; 2) eu era quem não podia ficar bêbado; 3) eu não podia comer enquanto estivesse bebendo; 4) tinha que arrastá-la pro motel antes de ficar fora de combate; 4) ia tomar um Engov no próximo encontro; e 5) não podia esquecer a camisinha. Se ela engravidasse, seria o fim pra mim.

O encontro seguinte (o terceiro — não percamos a conta), por incrível que pareça, aconteceu do jeito que eu previra — ou pelo menos a primeira parte dele. Não comi (apesar de ela me dizer que o bom era o oposto); bebi pouco, inclusive tomei uma cerveja sem álcool pra equilibrar; e consegui convencê-la a irmos continuar a conversa em algum lugar mais tranquilo... Minto, foi ela quem deu a ideia, mas a ordem dos fatores não altera a soma — só a subtração. Chegando ao motel, tentei agir como se fosse um cara experiente. Procurava me lembrar do que vira nos vídeos e tal, mas acho que não fui muito convincente, pois em determinado momento ela tomou as rédeas da situação, o que pra mim, pra ser sincero, foi um alívio.

E, sim, o sexo oral foi uma delícia. O problema foi que não consegui me segurar e cheguei a um prematuro orgasmo. Ela entendeu, foi condescendente, e chegamos mesmo a rir de meu sêmen em sua boca. Então, ela me propôs a devolver a gentileza enquanto meu "funcionário" descansava. Ela tinha seios lindos! Tão lindos, que eu não sabia direito se os chupava, lambia, mordia ou assoprava. Mas ela não pareceu se importar muito entre qualquer uma dessas opções. Enquanto eu me esforçava, ela foi baixando minha cabeça. Sua barriguinha era bem jeitosa, e repeti o procedimento no umbigo, um pouco mais rapidamente, até chegar lá embaixo. Foi aí que algo não programado ocorreu. Seus lábios inferiores estavam completamente lubrificados, e ela empurrava minha cabeça em direção a eles de forma intensa, de modo que me dificultava a respiração.

Outro detalhe: aquele líquido que invadia minha boca me deu... como direi? ... hmmm... certo nojinho. Foi quando ela falou "vem", mas meu soldado não estava ainda em posição de sentido, e ela se irritou um pouco, mas foi prática, virou-se sobre mim e fez aquele trabalho oral que já havia dado certo uma vez, de maneira que, quando meu garoto ficou meia-bomba, ela, com as mãos, ajudou-o a adentrar o recinto. Como eu não soubesse muito o que fazer, ela empurrava minhas nádegas em sua direção ao mesmo tempo que erguia e baixava sua cintura pra que a fricção fosse mais harmônica. De repente, começou a dar intermitentes gemidos e a exalar mais longamente, cravou suas unhas em minhas costas quase a ponto de arrancar sangue, e desfaleceu num suspiro prolongado e agudo. Foi como se eu não estivesse ali; ela, de olhos fechados, fizera tudo sozinha.

Foi então que abriu os olhos e, sorrindo meio encabulada, me disse "agora é sua vez". Eu sorri de volta e falei "tô morrendo de fome". Ela me olhou embasbacada, mas eu já tinha saído dela. Pedi licença, fui até o banheiro, levando minha mochila, de dentro da qual tirei uma escova e uma pasta de dentes. Finda a higiene bucal, dei uma longa mijada, lavei as mãos e voltei pro quarto, com um pacote de bolacha nas mãos — homem prevenido, sempre trazia um na mochila. Ofereci-lhe, e ela fez que não com a cabeça, ainda com seus olhos cor de jabuticaba arregalados. Comi quase o pacote inteiro. Olhei a hora no relógio, vi que estava tarde e lhe disse "vamos?". Ela me indagou "não vai terminar?", e eu, dobrando o pacote, disse "vou deixar um pouco pra comer no metrô".

Ela me cumprimentou friamente quando nos despedimos na plataforma, deu-me um selinho e me disse "a gente se fala", mas tanto eu quanto ela sabíamos que não era verdade. Nem bem ela deu meia-volta e entrou num vagão, tirei o chip do celular, quebrei-o e o joguei no lixo, junto com o pacote de bolacha vazio. Saí da estação e fui embora de ônibus. Gostei dela. De verdade. O problema é que o sangue de Cristo penetrou mais forte em minhas entranhas. E agora, que eu já tinha conhecimento sobre o ato sexual e seus desdobramentos, estava pronto pra encarar minha vocação. Adeus, punheta! Adeus, vídeos pornôs! Daqui pra frente, entregar-me-ei de corpo e alma à Santa Igreja. Em dezembro, vou ser ordenado padre. Não vou convidá-la, mas só porque sei que ela não ia querer ir. No entanto, vou rezar pra que ache um cara legal. De preferência, um que tenha outras vocações.

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Este é mais um conto livremente inspirado em fatos reais. A pessoa que me contou o fato me deu liberdade pra escrever sobre ele como quisesse, desde que não expusesse seus reais protagonistas. Tentei fazê-lo da melhor maneira possível. Espero que tenha conseguido, né, fulan...?

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