Adoro crônicas, e, de tanto gostar delas, acabei me tornando também um cronista, embora menor. E, se hoje escrevinho com regularidade, tenho que admitir que em grande parte devo isso a Carlos Heitor Cony, cuja coluna diária na Folha de S.Paulo acompanhei durante anos. O fato de ele ter envelhecido mal e ter ficado gagá, transformando sua fina ironia em mero cinismo azedo, não conseguiu destruir a estima e a gratidão que tenho por sua obra. Inclusive, é necessário que eu acrescente, ele também é um excepcional ficcionista. Comecei citando-o porque o li certa vez admitir que a felicidade depõe contra a criação. Durante os cerca de 20 anos em que esteve casado, foi feliz e, portanto, não teve ganas de escrever nada que ultrapassasse suas obrigações de jornalista.Colunas
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segunda-feira, 24 de julho de 2017
Crônicas Desclassificadas: 187) Confissões de um homem preso fora do artista
Adoro crônicas, e, de tanto gostar delas, acabei me tornando também um cronista, embora menor. E, se hoje escrevinho com regularidade, tenho que admitir que em grande parte devo isso a Carlos Heitor Cony, cuja coluna diária na Folha de S.Paulo acompanhei durante anos. O fato de ele ter envelhecido mal e ter ficado gagá, transformando sua fina ironia em mero cinismo azedo, não conseguiu destruir a estima e a gratidão que tenho por sua obra. Inclusive, é necessário que eu acrescente, ele também é um excepcional ficcionista. Comecei citando-o porque o li certa vez admitir que a felicidade depõe contra a criação. Durante os cerca de 20 anos em que esteve casado, foi feliz e, portanto, não teve ganas de escrever nada que ultrapassasse suas obrigações de jornalista.domingo, 23 de julho de 2017
Pra não passar em branco o sétimo ano do blogue
Esta publicação é só pra não passar em branco. Nos primeiros seis aniversários de meu blogue, sempre publiquei um texto comemorativo. Contudo, este ano, quando chegou a data (9/7), estava eu, o homem, travando uma briga com o eu artista. Já aviso que ambos perdemos: um nocauteou o outro. Daí, ficou sem clima pra comemorações. O homem disse ao artista: "Vou parar de te alimentar!" Ao que o artista replicou: "Sou eu quem te alimenta!" Porrada pra lá, porrada pra cá; ego roxo pra lá, bagos inchados pra cá; a única coisa boa que aconteceu com tudo isso foi que, como ele e eu, no fundo, no fundo (beeeem lá no fundo...), nos queremos bem, um ajudou o outro a se levantar.terça-feira, 18 de julho de 2017
A Palavra É: 25) Frio
Apesar de meu descarado humor, meu hábito hilário (e um tanto otário) de fazer graça, meu incendiário ardor e meu jeitão de boa-praça, no fundo eu sou um triste. Na tristeza consiste minha alegria. E, quem diria?, chega a ser um paradoxo. É que nos sentimentos nunca fui muito ortodoxo. Lamento. Vivo em conflito entre o feio e o finito, entre o nem e o mal, entre o apimentado e o sal. É quase um desacato, um grito. Por isso sou grato à tristeza, que é quem me faz ver com clareza o breu que me ilumina. Ela é gente-fina! E ainda agrega valor (ui!) a minha dor. E, como todo triste que se preze, sou expert em viajar na maionese.
domingo, 16 de julho de 2017
Os Manos e as Minas: 29) Eu e Teju Franco — Dois olhares (e uma canção) sobre a juventude
1) Síndrome de Benjamin Button
Por Léo Nogueira
Pra mim, existem dois tipos de seres humanos: os que têm filhos e os que não têm. Eu, pertencente à segunda categoria, muitas vezes me flagro, com certa inveja e meio como se eu fosse um ET, observando (admirando) as relações entre pais e filhos. E dessas observações constatei uma coisa: a paternidade envelhece — ou amadurece; como queiram. É que, quando vejo um pai com um filho, noto que o senso de responsabilidade daquele faz que ele pareça mais velho do que realmente é, e o vejo como se ele fosse muito mais velho que eu, mesmo que se trate de um moleque. Mas, pensando bem, talvez o inverso é que seja a grande verdade: eu que, por não ter filho, às vezes ajo inconsequentemente, como se o moleque fosse eu. Não à toa, vira e mexe esqueço minha idade e gosto de imaginar que tenho ainda... mas, afinal, qual é minha idade mesmo?
quarta-feira, 12 de julho de 2017
A Palavra É: 24) Dor

Ah, a dor... De certa forma, ouso dizer que talvez eu adore a dor, mas quando ela está a-dor-mecida, quando ela está dor-mente, quando ela está dor-mindo. Quando ela está no dormitório da dor. Mas aí de repente ela desperta e vira um ar-dor, e eu já não posso mais segurar o an-dor. Em certos momentos, nem consigo mesmo andar. E eu não sei onde vai dar a dor. Claro, talvez eu esteja apenas dourando a dor, porque uma dor de alma não é uma dor de dente, embora seja mais urgente. É que ela zoa o radia-dor, e dor-avante passa a durar. Meio que nem um doremi. E eu me sinto duro por fora e como que drogado por dentro. Ali, bem onde a dor tem seu centro.
domingo, 2 de julho de 2017
Crônicas Desclassificadas:186) A flor e o Espinoza
Sabadão. Vinte horas de la matina. Calor da porra! Horário de verão recém-implantado. Garganta rangendo mais que fusquinha faltando óleo em subida da Imigrantes. Timóteo, em estado ressacal, apenas despertado do sono da lerdeza, jogou a moeda de um real pra cima. Desse cara, ligaria prum brou pra tomar outras... e umas. Desse coroa, compraria umas brejas e se quedaria em casa lendo Nietzsche, além do bem e do mal, pai, filho, espírito santo, amém. Deu coroa. Ele, por cima dos óculos rotos de aros raros, centralizou foco na porra da moeda e tascou, à guisa de improviso: "Coroa é do tempo do cruzeiro, meu velho!" Nem pestanejou. Aproveitou o pouco crédito que tinha junto à (sic) operadora e operou uma ligação direta que foi parar, do outro lado da linha, no escutador de Baltazar. A prosa, como diria um músico de barzinho, deu-se "mais ou menos" assim:terça-feira, 20 de junho de 2017
Crônicas Desclassificadas: 185) Vale a pena brigar com o público? — para Teju Franco
Meu parça Teju Franco fez show recentemente e, findo o espetáculo, resolveu manifestar via facebook sua desaprovação ante algumas sentidas ausências na plateia, entre elas a minha — ele me havia convidado a recitar algo, porém caí de cama e, bem na hora do show, jazia com quase 39 graus de febre. Mas minha situação não o sensibilizou, assim como as desculpas (esfarrapadas ou não) dos demais faltantes. Imagino que ele deva ter pensado que mentíamos todos, e não lhe tiro a razão, pois admito já ter dado uma desculpa qualquer pra não ir a algum show. Contudo, desta vez não foi o caso, até porque eu já havia dado meu sim. Se não quisesse, ou pudesse, ir, teria dito na lata.domingo, 28 de maio de 2017
Eu Não Vi, Mas Me Contaram...: 8) Os complexos desejos da vocação
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ATENÇÃO!
Excepcionalmente, esta postagem é desaconselhável a menores (e também a conservadores, preconceituosos, radicais religiosos, reacionários, skinheads, partidários do politicamente correto e congêneres patotas)
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Era minha última chance. Eu só tinha alguns meses antes do dia que mudaria pra sempre minha vida. Ainda não dera nenhum passo em direção ao objetivo que não saía de minha mente havia dias, mas já arrastava meus passos pra cima e pra baixo com um antecipado complexo de culpa. Em algumas manhãs, despertava sentindo-me mais forte e decidido a não ceder; porém em outras eu era todo fraqueza e desejo. Deixara de me masturbar fazia dois anos, orava muito, chegava a castigar meu corpo, mas este continuava me desobedecendo. Parecia que, quanto mais eu pedia ao Pai pra afastar de mim a tentação, mais ela penetrava em minha carne, espalhando-se por minhas veias como um vírus ou uma droga.
quarta-feira, 24 de maio de 2017
Entrevistando: 13) Pepê Reis e eu (eu e Pepê) no Sons do Brasil
Não imaginei que ia me enrolar com a falta de tempo como me tem acontecido ultimamente. As 24 horas do dia seriam do tamanho certinho se eu não precisasse dormir as 8 horas diárias que durmo. Quanta perda de tempo! Ainda mais imaginando que quando eu morrer terei a eternidade pra dormir... Lembrei-me de um samba do mestre Wilson das Neves em parceria com outro mestre, Paulo Cesar Pinheiro, que diz assim: "Se alguém me bancar eu sei me vestir/ Só me falta é roupa, Iaiá, só me falta é roupa." No meu caso, só me falta é tempo (e grana). Além dos afazeres domésticos e dos trampos que aparecem picados, mas constantes, estou terminando mais um romance que inventei de começar (o terceiro – e nem lancei o segundo!) e ainda por cima resolvo uma série de assuntos referentes a uma mudança de residência... da qual tratarei mais tarde.
terça-feira, 16 de maio de 2017
Esquerda, Volver: 17) A esquerda Duvivier
Meu amigo Teju Franco apontou há alguns dias (aqui) certa guinada à direita nos discursos de Gregório Duvivier, humorista e – entre outras coisas – colunista da Folha de S.Paulo, sobretudo no que diz respeito a Lula. Eu, como admirador do moço, saí em sua defesa – embora ele não tenha me dado procuração pra tal – alegando que cada um é livre pra dar sua opinião e ninguém tem a obrigação de gostar de Lula – nem entre os que se dizem de esquerda. A crítica de Teju era fruto de uma entrevista que o rapaz concedera ao El País (leia aqui). Contudo, em sua mais recente crônica publicada na Folha (leia aqui), Duvivier pegou pesado com Lula, comparou-o a Moro, perdeu o humor e agiu – sem provas, mas com convicção – como se fosse um agente da PF (refiro-me à polícia federal, não ao prato feito). Daí, após ler a crônica, fui obrigado a concordar com Teju que o rapaz, no mínimo, anda perdendo a mão.quinta-feira, 27 de abril de 2017
A Palavra É: 23) Gravata
Experimente pegar um cachorro vira-lata, atraí-lo com algum osso e tentar colocar nele uma coleira. O que acontecerá? Ele provavelmente avançará sobre você não exatamente abanando o rabinho. E por quê? Porque cão sem dono não é lá muito chegado em ser "adotado" sem que combinem com ele antes (mais ou menos como existem mendigos que não querem dormir em albergues). Em contrapartida, os cães domesticados enfiam o pescoço na coleira quase com tanta alegria como aceitam um osso. Essa é uma metáfora que cai como uma luva (pra não dizer uma coleira) pra exemplificar minha relação com o malfadado adereço do título da coluna: a gravata. Sou selvagem, bicho da rua, gosto de sentir o vento no rosto e corpo livre. Não curto nem essas cuecas apertadas que não deixam o "morador" respirar. Sou mais o bom e velho (e arejado) samba-canção.
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