domingo, 23 de abril de 2017

PodCrê: 1) O sossegado desespero de Rica Soares

Ano passado, um amigo que trabalha com gravação de vídeos me fez uma proposta que de cara me agradou muito: transformar minha coluna Ninguém me Conhece num programa de entrevistas. Além de felicidade, também me tomou o sentimento de ter o ego massageado; só que o projeto, por razões que fugiram de minha alçada, não foi avante. Tempos depois, outro amigo, o grande Rica Soares, sugeriu-me uma coisa mais fácil de lograr: transformar esse projeto em algo mais simples, um programa de entrevistas apenas em áudio, que eu poderia hospedar em alguma dessas plataformas. Deu-me uns toques de manuseio da ferramenta e ainda por cima aceitou ser a primeira cobaia. Dessa forma, nasceu meu podcast que chistosamente chamei de PodCrê.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Esquerda, Volver: 16) "Garota, eu vou pra Califórnia..."


O assunto do momento são as reformas do presidente biônico, e me lembrei delas em certa passagem do livro que estou lendo no momento, o romance As vinhas da ira, do maravilhoso John Steinbeck. A passagem, pra ser mais específico, é o capítulo 19 inteiro, e fiquei com uma vontade danada de trazê-lo pra cá; contudo, pra não cansar a beleza dos leitores (sobretudo a de meu amigo Paulinho das Frases, que é chegado em microcontos) tentei fazer uma edição caprichada do capítulo, pois, embora o livro seja de 1939, Steinbeck consegue explicar de forma didática e resumida como se constrói uma sociedade injusta, como a nossa, e, de quebra, dá também a fórmula de como reverter o processo e "vencer o monstro". Recomendo o livro (e o filme homônimo – igualmente recomendável –, dirigido por John Ford) tanto pra petralhas e coxinhas quanto pra quem não tem nada a ver com isso, como nosso querido professor Leandro Karnal. É ler pra crer!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Os Manos e as Minas: 28) Homenagem póstuma a Donizeti Costa

A Pálida Dama mais uma vez aprontou das suas: como se já não bastasse o cenário catastrófico que é hoje o de nossa Cultura (a com letra maiúscula, não a outra), acaba de levar mais um dos grandes soldados de nossa causa: o jornalista Donizeti Costa, grande figura, comprometido com as causas sociais, mas sobretudo um cara de antenas ligadas e pronto a escrever sobre tudo o que de melhor aparecesse por nossas terras tupiniquins. Tive poucos contatos pessoais com ele, mas via facebook estivemos um tempo bastante conectados. Conhecemo-lo (eu e Kana), se não me falha a memória, por meio do amigo Zé de Riba, e Donizeti, com seu faro jornalístico, sacou imediatamente que minha japinha daria o que falar – e o que escrever. Portanto, como forma de homenagem póstuma, publico abaixo matéria que ele escreveu sobre ela há lá se vão nove anos. Vá em paz, meu bom! E que encontre em sua nova morada panorama melhor que o que por aqui vemos da janela deste campo de concentração travestido de país.

sábado, 25 de março de 2017

Os Manos e as Minas: 27) I love Rita

O facebook é, em sua quase totalidade, uma droga que nos vicia e nos transforma em seres meio tontos, pentelhos e verborrágicos; seu uso em excesso nos deixa como que perdidos no deserto que não sabem pra onde querem ir. Entretanto, quando bem usado – e dosado – tem lá seu grau de relevância e de informação. Como procuro ser aquele tipo de usuário que dá um tapa vez em quando, mas não se deixa engolir pela substância, tenho certo olho clínico pra pescar pérolas, sejam as que uso pra compor, sejam as que absorvo pra meu conhecimento. Foi assim que cheguei a Rita Lee: uma autobiografia. Confesso que sua leitura não fazia parte de minhas prioridades, ainda mais porque não faz muito li uma biografia sua meio romanceada que, apesar de interessante, não era lá esse balaio todo. Contudo, via fb entraram em cena dois sujeitos cuja opinião prezo.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Esquerda, Volver: 15) O caso Karnal sob outro prisma

Assisti há alguns anos à reprise de um programa muito popular na década de 1970 chamado Quem Tem Medo da Verdade?. Tratava-se de uma espécie de encenação de julgamentos de personalidades públicas, que iam ao programa se defender de acusações que lhes eram imputadas. Na ocasião, o “julgado” foi ninguém menos que Roberto Carlos. Não vou me estender muito, mas, resumindo, os entrevistadores/promotores públicos o acusavam de ser mau exemplo pros jovens por causa de roupa, cabelo e atitude, entre outras coisas. E coube ao apresentador Silvio Santos defendê-lo. E o fez muito bem, diga-se de passagem. Disse Silvio que Roberto não passava de um tímido rapaz interiorano que nunca havia pensado em ser líder de ninguém e que estava preocupado apenas com sua carreira artística. E tanto era (e ainda é) verdade, que até hoje o Rei raramente se pronuncia acerca de assuntos polêmicos.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Esquerda, Volver: 14) Por que dizemos "não" à reforma previdenciária

Sim, eu sei, sou um utopista; não o fosse, não me dedicaria a versejar melodias mundo afora. Portanto, sonho ainda em ver chegar o dia em que, por exemplo, torcedores de Palmeiras e Corinthians, Flamengo e Fluminense, Atlético e Cruzeiro, Grêmio e Internacional etc. sentem-se um ao lado do outro na arquibancada sem que seja necessário separá-los como separamos suínos de bovinos. Quer dizer, em raras exceções isso já acontece, mas apenas em jogos da Seleção Brasileira. E por quê? Porque nesse caso há um interesse comum. Por essas e outras, estranhei a ausência dos coxinhas na manifestação contra a reforma da Previdência que houve no dia 15 último. Sim, petralhas e coxinhas não se sentam lado a lado na arquibancada quando a disputa é entre Esquerda e Direita, mas o caso era outro, tratava-se então de um "jogo da Seleção".

quarta-feira, 1 de março de 2017

Crônicas Desclassificadas: 184) A Maria que ninguém vê

Lá foi mais uma vez Maria pregar com suas duas companheiras como fazia em todas as manhãs de sábado já nem lembrava mais havia quanto tempo. Chovesse ou fizesse sol, lá estavam elas indo de casa em casa, batendo de porta em porta, versículos na ponta da língua afiada, embaixo do braço a velha Bíblia desbotada e já encardida de tantos sol e manuseio, distribuindo folhetos que continham a Palavra de Deus. Era, na maioria das vezes, um trabalho infrutífero, pois poucas pessoas abriam as portas – e os ouvidos – pra suas pregações. O mais comum era que cansassem as mãos de tanto bater palmas inutilmente, mas nem por isso iriam parar. Se o fizessem, o diabo teria levado sobre elas a melhor. Conseguindo salvar uma alma, já se davam por satisfeitas. No mais, o sacrifício da caminhada, cansando-lhes o corpo, fazia, em troca, bem ao espírito.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Esquerda, Volver: 13) O micro e o macro

Recentemente, Kana, minha parceira músico-matrimonial, fez um belíssimo show (sou suspeito, claro) no aconchegante Espaço Parlapatões, bem em frente à paulistana e boêmia Pça. Franklin Roosevelt. Pois bem, a entrada era gratuita, mas a casa permitia que a produção do evento passasse um chapéu pedindo ao público que contribuísse com o que quisesse. Kana levou ao parlapatônico palco oito músicos, sendo quatro saxofonistas, e gastou muito tempo pra fazer os arranjos pra essa banda. Até aí, tudo bem, toda profissão tem seus riscos (e enroscos); o detalhe que gerou este texto foi que bem em frente ao palco havia uma mesa de jovens que bebiam alegremente e, nos intervalos de seu êxtase, assistiam ao show. Já na segunda canção, eu, que estava logo atrás, ouvi de uma garota dessa mesa um "Não tem nenhuma música conhecida!". Duas canções depois, porém, todos eles estavam mexendo seus respectivos esqueletos ao som das tais canções desconhecidas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A Palavra É: 22) Cultura

Cultura é coisa séria, não é pilhéria nem deve ser vítima de censura. É pra invadir a rua, escapulir da raia, cair na gandaia, cortejar a lua. E a rima continua! Cultura é a dignidade de um povo, o futuro do novo, a memória do velho, o evangelho do ateu. Aí, almofadinha, cala a boca já morreu! A cultura é sua e é minha, não cabe só num ministério, pois transborda os hemisférios, não é pra ficar presa num curral. Sai pra lá com teu Interlagos! Nós queremos Carnaval, sarau, saravá, Saramago, aqui e acolá. E além. E também queremos mais grafite e menos gravata, menos bravata e mais quem grite, que cultura também é grito, é voz, somos todos nós cantando bonito no coro dos seres livres e pensantes, e amanhã mais que antes. Que a vida já anda um bocado difícil e pra segurar esse míssil toda festa é pouca, a burrice é mouca e não protesta. Por mais seresta e menos chefatura.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ninguém me Conhece: 83) Teju Franco, um guerrilheiro trovador

Por Vanessa Curci
Estava havia anos querendo dedicar ao moço umas linhas por aqui, mas, sagitarianamente teimoso que sou, esperava que ele antes tomasse vergonha na cara e gravasse um CD pra que enfim "merecesse" ser por mim laureado. Contudo, ele, geminianamente teimoso, nem o gravou, e o próprio CD vem paulatinamente perdendo importância como medidor de carreiras. Há até bem pouco tempo, um cantor/compositor tinha como marco zero de sua trajetória o primeiro trabalho gravado; hoje em dia, um disco, aliás, um CD é mero acessório, pouco mais que um luxuoso cartão de visitas que quando muito facilita a marcação de um show em determinado estabelecimento. Perdeu lugar pra bons vídeos no youtube ou ações mais ousadas dentro (e fora) do universo virtual. Assim que, vencido na teimosia, resolvi deixar de esperar por caducos milagres e lhe dar flores em vida.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Eu Não, Vi, Mas Me Contaram...: 7) Rashomon reloaded ou Um conto capilar

Rashomon, hoje considerado um clássico do cinema mundial, é um filme japonês de 1950 escrito e dirigido por Akira Kurosawa que conta a história de um estupro e um assassinato vistos pela ótica de várias testemunhas. Pesquisando a respeito, descobri que existe na psicologia o chamado Efeito Rashomon, nome que é dado a determinada situação de difícil compreensão (ou esclarecimento) por ter conflitantes julgamentos daqueles que a presenciaram. Pois bem, dia desses um amigo escreveu no facebook um fato que ele protagonizou quando de uma visita ao salão de cabeleireiros; achei interessante a história, contada sob sua ótica, e lhe pedi permissão pra transformá-la livremente num conto que ora compartilho com vocês e pro qual me utilizei, meio que enviesadamente, desse tal Efeito Rashomon. Contudo, quero crer que todos me irão compreender. A ele, pois: