2006
JUNHO
QUARTO DIAMiércoles, 21.
“Hidoi!”. Palavra que em japonês significa horrível. Dita por Kana, ao nos vermos a sós no Hotel Inglaterra, o mais antigo de Havana. Mais precisamente, existe desde 1875. Um hotel quatro estrelas. Talvez por isso a frustração da Kana. Se fosse no Brasil, um hotel com essa qualidade levaria duas estrelas chorando.


O guia, Lázaro, um sujeito simpático e de fina inteligência, acompanhou-nos na viagem, destilando seus conhecimentos. E o camarada tinha tanta presença de espírito, que praticamente não percebemos passar as duas horas e meia. Foi como se ele tivesse escutado nossa conversa com Manuel e pego o fio de onde este havia parado. Uma sucessão de informações. Pena que muito se perdeu. Começou dizendo que, no começo do século passado, um franco-americano de sobrenome Dupont viera se instalar em Varadero. Comprou quatorze quilômetros de terreno por centavos e depois os revendeu a preço de ouro. Além disso, montou um restaurante de comida francesa, que existe até hoje, e é um ponto turístico muito procurado, além de ter uma cozinha maravilhosa, segundo ele. Porém, deu-se que veio a revolução e Dupont foi expulso, cedendo, contra a vontade, claro, suas terras e construções ao governo. Assim sucedeu com muitos outros também. Este foi apenas um exemplo em Varadero.
Disse Lázaro também que Cuba tem uma relação muito estreita com a Venezuela, sobretudo com a China e a Coreia do Norte. Que cortou relações com Israel, e que apoia o Irã em seus testes nucleares. Esse foi o ponto em que me abismei, pois ele disse com tanta naturalidade, que me gelou o sangue. Continuando, disse que um dos maiores problemas cubanos ainda não solucionados é a questão do transporte. Que, apesar de a China ter lhes enviado mil ônibus, ainda não foram suficientes. Por isso, nas ruas é lugar-comum ver pessoas pedindo carona pra voltar pra casa após o trabalho. Disse que Cuba fabrica seu próprio petróleo, ajudado pela Venezuela, e também que há sociedade com muitos países que investem em Cuba. Por exemplo, o Hotel Meliá foi construído com dinheiro espanhol e funciona em forma de parceria, assim como muitas outras construções. Há muitas cores de placas de automóveis, a cor azul é a dos carros pertencentes ao governo, a verde é a dos pertencentes ao exército, a amarela é dos pertencentes ao povo, além da laranja, se não me engano, que pertence a funcionários de empresas estrangeiras. Há ainda a vermelha, se não me falha a memória, que é de carros recém-comprados ainda não devidamente emplacados, e a preta, pertencente aos funcionários das embaixadas.

E eis que passamos por Matanzas, e Lázaro nos disse que foram matados muitos porcos ali, por isso lhe deram o nome de Matanzas. E que a faculdade que eu ridicularizara na ida é simplesmente uma das mais conceituadas em medicina na América Latina, inclusive recebe milhares de estudantes estrangeiros (chineses sobretudo). Vejam como às vezes é melhor ficar calado.
Durante todo o trajeto não vimos outdoors, pelo simples fato de que outdoors não há. A não ser aqueles sobre a revolução, sobre Che, sobre educação e armas et cetera et cetera.
E, por fim, chegamos ao hidoi Hotel Inglaterra. Uma relíquia. Literalmente. As estrelas aqui funcionam por tempo de atividade, como um aposentado recebendo seu salário, pois, vejam, em Arenas Blancas as mesmas quatro estrelas davam direito, entre outras coisas, a uma piscina enorme e a uma praia inesquecível a dois minutos de agradável caminhada, ao passo que o Hotel Inglaterra…
À noite fomos à Casa de la Música de Miramar, uma casa de shows famosa. Vocês não imaginam o quanto esperamos. Chegamos lá às 22h (e uns quebrados) da noite. A bilheteria abria às 23h. Esperamos. Às 23h pagamos, entramos, pedimos algo… Estava tocando música ambiente. De repente, um telão começou a passar música local. E dá-lhe tempo. Mais bebida. E um frio de bater os dentes, devido ao forte ar-condicionado. Eu e Kana, ainda não completamente curados daquela gripe paulista, tremíamos, enquanto víamos cubanas seminuas acompanhadas de turistas endinheirados (se é que me entendem) e com cara de bobos (como são quase todos os turistas endinheirados. Digo quase todos porque há turistas como eu, a quem o adjetivo endinheirado não cola, apenas a cara de bobo).
Finalmente, abrem-se as cortinas; parece que finalmente o show vai começar… Entra um senhor negro, muito charmoso, e começa a contar piadas. A única de que consigo me lembrar agora é aquela em que ele fala que um homem solteiro é um animal pela metade, já um casado é um completo animal. Ou algo do gênero. Depois, interpreta a atuação de vários policiais: o francês, o mexicano e o cubano. Muito engraçado. E fecham-se as cortinas. Já está perto das duas horas. Lembrando que chegamos às dez. Às duas e pouco começa o show. Dois teclados nos deixam antever o que virá… Enfim, um bom show, porém pra mim todas as letras falavam a mesma coisa e todas as músicas eram iguais. ¡Y viva la salsa!

Saímos por volta das 3h. Moídos. E com um frio de dar inveja a esquimó!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk! Finalmente, la salsa!
ResponderExcluirÉ, acontece...
Show pra turistas, né?
Besos!
Jeje! Y mira, chica, que todavía la salsa no está lista. Aún le faltan ingredientes.
ResponderExcluirBesos con sal(sa) de
Léo.
Por supuesto no toda salsa es buena, así como no todo samba es bueno...
ResponderExcluir:)))))
Seguro.
ResponderExcluirDei um tempo pro diário porque essa semana me brotaram ganas de escrever mais sobre meus camaradas no "Ninguém me Conhece", mas nessa semana que entra volto à artilharia.
Beijos e obrigado pela companhia,
Léo.