quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Trinca de Copas: 32) Dose tripla de Augusto Teixeira (mais Gabriel de Almeida Prado e Guiaugusto Pacheco)

por Marina Tavares
Ainda sentindo os efeitos colaterais da ressaca/preguiça pós-carnavalesca, fiquei aqui pensando em qual assunto traria pra cá, pra alimentar este meu faminto (e famigerado) bloguinho; daí, levando em conta que hoje não é um dia dos mais propícios a leituras (visto que deve haver muita gente por aí ainda pior que eu), lembrei-me de que o mano Augusto Teixeira continua com sua campanha de financiamento coletivo pra gravação de seu primeiro CD (campanha que, aliás, entra em sua fase final); então, resolvi mais uma vez escrever sobre ele (já havia escrito sobre o projeto antes, aqui), só que, desta feita, focando em mais algumas de nossas belas parcerias. Se gostar, não perca a oportunidade de contribuir e ganhar um CD que tem tudo pra ser uma belezura. Saiba mais sobre o projeto aqui: http://www.kickante.com.br/AugustoTeixeira


1) ANJO AVULSO

Certa noite, em meu cafofo, estávamos eu, Augusto Teixeira, Gabriel de Almeida Prado e umas canjebrinas. Eu já era parceiro de ambos, mas eles (Gabo e Bom Gusto, que é como eu os chamo) não eram parceiros entre si, então se nos revelava a ocasião perfeita pra que preenchêssemos essa lacuna. Sei bem como é difícil o primeiro namoro, assim, como os visse um tanto tímidos, apelei pra minha caixa de pandora, ou seja, meus arquivos de rascunhos, e de lá tirei um começo de letra que, por preguiça ou falta de inspiração, eu jamais terminara. Mostrei-lhes e deixei que o germe da criação principiasse a fazer efeito neles. Bom Gusto, violão em punho, esboçou uns acordes e uma melodia e Gabo foi desenvolvendo novos versos, enquanto eu não deixava os copos se esvaziarem – gasolina é sempre necessária.

Bom Gusto tem um lirismo mais à la MPB, já Gabo, embora também tenha seu lado emepebístico, possui uma acidez mais roqueira, talvez por ser uns anos mais jovem; daí que foi bonito de ver Gabo envenenando a melodia de Gusto, sugerindo certa agressividade onde antes não havia. E eu dando uns pitacos na letra, claro. E também na melodia (embora nesse quesito eles não me levassem muito a sério, não sei por quê). Algum tempo depois, estávamos os três extasiados com esse resultado híbrido que foi Anjo Avulso, talvez a canção mais "nervosa" de nosso Bom Gusto. Meses depois, ele a tocou num show, com participação de Gabo. E é justo essa gravação que trago pra cá. O dono do show disse: "Não ficou tão bom porque a bateria e o clarinete não foram microfonados. Mas gostei da energia." Eu também. Confiramos:


Fazer o quê, se eu só luto
Quando as causas são perdidas
E de minuto em minuto
Me meto em beco sem saída?

Fazer o quê, se meus atalhos
Dão no ponto de partida
E de ato falho em ato falho
Embaralho a minha vida?

E, se a criação deu zebra,
O maestro deu vexame
E a maçã mordeu a cobra
Sou pincel pra toda obra
Nesse éden de origami
É o papel que me desdobra
Me invente, me rasure, me amasse e ainda assim­­ me ame

Fazer o quê, se eu fui expulso
Da celeste anarquia
E hoje eu sou um anjo avulso
Nem o inferno me queria


***

2) OUTRA POPULAÇÃO

Esta poderia estar na coluna Cançonetas, pois se trata de um soneto musicado. Só que rolou um pequeno problema: como não avisei a Augusto que era um soneto, ele, ao musicá-lo, precisou mexer em um ou outro verso, o que acabou descaracterizando o decassílabo, que, pra quem não sabe, em poesia é um verso com dez sílabas – que não leva em conta a última átona (quando há). Vou tirar um exemplo da letra: em "O viciado vai comprar fiado", temos "o-vi-ci-a-do-vai-com-prar-fi-a...do". Ou seja, esse "do" do "fiado" não entra na contagem. Voltando: no fim das contas, tivemos que nos encontrar diversas vezes e gastar muita massa cinzenta pensando em como resgatar o decassílabo sem prejudicar a melodia. Acho que conseguimos. Vejam se encontram o ponto de discórdia (ah, essa serve de trilha sonora pra uma quarta-feira de cinzas):

OUTRA POPULAÇÃO
Augusto Teixeira – Léo Nogueira

É nesse instante em que se deita o justo
Que o ladrão sai pra defender seu pão
As Madalenas vão subindo o custo
E os beijos roubam o acre do limão

O viciado vai comprar fiado
O inferno sobe a tampa do alçapão
É tanto errante por metro quadrado
Que chega a ser outra população

Os ébrios rezam sua ave-maria
Pra que demore pra raiar o dia
Porque quem não tem paz, de noite, tem

E eu, que não tenho nada pra perder,
Depois do dia em que perdi você
É nesse instante que saio também

***
3) SOMBRA E GOIABA

Numa dessas noites no Julinho Clube, após encerrada a noite autoral do Caiubi, continuamos por lá, meio sem querer ir embora, tentando eternizar a noite. Foi então que Augusto pegou seu violão e começou a tocar (acusticamente) Refazenda, de Gil. Foi um momento tão bonito, que ficou na memória dos que estávamos lá. Tempos depois, visitei-o em sua então residência, e ele me apresentou a uma goiabeira que havia em seu quintal, o que me fez costurar as duas informações, e lhe sugeri que compuséssemos uma espécie de Refazenda moderna usando sua goiabeira. Ele topou, mas me deixou com a parte mais difícil. Disse: "Faz a letra você, que eu musico." Voltei pra casa pensando em que raios escreveria... Até que, após alguns dias, não é que uma ideia pintou, como num jorro?

Estava eu trabalhando numa bela e ensolarada manhã de sábado, acompanhado por outras revisoras, todos regados a muito café e com aquela costumeira preguiça matinal, e pensando que podíamos estar em qualquer outro lugar, menos ali; então, uma delas, não sei bem por qual motivo, disse que em seu quintal havia taioba. Eu, embora não soubesse que diacho era aquilo, percebi-lhe a sonoridade e, ali mesmo, larguei a revisão que fingia fazer e comecei a escrever a letra do que viria a ser Sombra e Goiaba. Missão cumprida, enviei-a a Augusto. Contudo, o malandro me enrolou por muito tempo. Achei mesmo que não a iria fazer. Até que um dia, estando ele com seu parceiro Guiaugusto Pacheco, eis que este lhe mostrou uma melodia que Augusto imaginou caber em minha letra. Encontrou-a, mostrou-a a Gui(augusto) e não é que coube? Assim, animados, terminaram-na a quatro mãos, e confesso que adorei a canção (e a sigo adorando), principalmente porque é diferente de tudo o que já havíamos feito antes. Comprovem:

SOMBRA E GOIABA
Augusto Teixeira – Guiaugusto Pacheco – Léo Nogueira

Goiabeira, me incline sua juba

Que todo faminto gaba
Pra que eu trepe nela, pra que eu suba
Me dê sombra e goiaba

Goiabeira nunca deu jabuticaba,
Nem beterraba, peroba
Nem nas bandas de Piracicaba
Nem pereira dá taioba

Goiabeira, você, que é filha da gleba
Me dê frutos dessa aba
Me conceda, me conceba
Ou eu vou pescar piaba

Goiabeira, por favor não seja boba
Ou escapo mapa arriba
E vou pegar no pé da gabiroba
No sertão da Paraíba

Goiabeira, me dê sombra e goiaba
Antes que o desejo acabe
E eu me mude pruma taba
Onde tudo/nada cabe

***

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