quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Filho da preta! – na boca dos leitores (6) – por Escobar Franelas


Cada qual divulga seu trabalho (parafraseando o saudoso Zé Rodrix) como pode, quer ou consegue. Respeitando essa máxima, e vendo frustradas as expectativas de que meu livro ganhasse alguma crítica nos chamados grandes meios de comunicação, não me dei por vencido e comecei a publicar em meu blogue comentários daqueles que são os mais importantes pra quem escreve: os leitores. Esses comentários foram publicados em cinco edições (leia aqui). O engraçado é que meu filho já ganhou uma bela resenha – que hoje completa um ano de publicação! –, mas eu só vim a saber dela há poucos dias. Então, usando desse marketing das efemérides, aproveito a data pra divulgá-la aqui. Ah, em tempo: agradeço a Rosana Banharoli e Rosinha Morais pelo toque sobre a resenha. A ela, pois!


Resenha – livro Filho da preta!
Por Escobar Franelas

A novela Filho da preta!, de Léo Nogueira, é desconcertante do início ao fim. No dia em que faz 50 anos, Isidoro, o personagem-narrador, resolve contar a sua biografia. E, já no primeiro parágrafo, ele informa que sua filha está morta no banheiro: “quando dei por mim, ela tava lá, mortinha da silva.” Assim, friamente, somos conduzidos ao enredo que traduz as ações e os pensamentos de um ser cru e asqueroso. Os relatos de Isidoro sintetizam o animal humano que ele é e, ao final das contas, no fundo todos somos, uns menos, outros mais.

Com o desdobrar das páginas, a história vai se tornando mais repugnante e paradoxalmente mais plausível, conforme notamos que, apesar do asco e da frieza, o que temos linha a linha é um homem que, aos olhos de uma sociedade padronizada, nos parece um indivíduo normal. Não fosse o seu depoimento em primeira pessoa, carregado nas tintas das descrições que permitem visualizar a sua decrepitude interior, seu relato se assemelharia às milhares de situações que vemos sem verniz todos os dias.

Travestido de homem simples, cumpridor de suas obrigações civis e sociais, Isidoro tem comportamento natural, profundamente arraigado ao senso comum. Exibe com orgulho a sua biografia: ter carteira assinada de motorista profissional e um desempenho satisfatório com as mulheres estão entre os atributos que cita com satisfação. Nada, porém, traduz melhor a pequenez do seu raciocínio do que os preconceitos que são como tatuagens. Esse fato é determinante, pois, apesar de se definir como branco, ele é filho de mãe negra. Daí, a devoção à memória do pai, de quem herdou a cor de seu orgulho: “E eu só queria um menino homem. E branco. Branco que nem eu, preu dá' pra ele a mesma categoria do nome meu e do meu pai. Isidoro.” (p. 11), e a maneira quase histérica com que lida com as questões de cor: “Uma vez fui de serviço para Campos do Jordão. Eita cidadezona bonita! Se eu fosse rico, era lá de que eu ia morar. Até a mulherada lá é mais bonita. Dificilmente a gente vê um preto e, quando vê, é preto rico, talvez jogador de futebol ou cantor de pagode. De maneira que já não parece nem mais de ser preto, de tão rico.” (p. 14).

Nas memórias do narrador, vão se sucedendo inúmeras situações bizarras com as quais lidou depois que abandonou a família e vai tentar a sorte na cidade grande: crime, mentiras, incesto, pedofilia e outras aberrações vão compondo a colcha de retalhos que ele confecciona em seu cotidiano. Em tudo, a realidade nua segue seu curso.

Confesso sem estupefação que tenho encontrado muitos isidoros por aí, com seus pensamentos mesquinhos, a sordidez diária e a imbecilidade perpetuada nos gestos comezinhos e nas inocentes falas nas esquinas, filas e calçadas do cotidiano.

Ao finalizar a leitura do livro, fiquei me perguntando se valia a pena dedicar mais tempo de reflexão em cima de uma obra que me gerou tanto desconforto. Por fim, ponderei que era válida uma nova leitura, até mesmo para me preparar para emitir este texto.

Com orelha de Zeca Baleiro e apresentando uma curiosa composição gráfica, onde as páginas vão “escurecendo” conforme a história vai se desenrolando (como a retratar o túnel no qual Isidoro vai penetrando), Filho da preta!, de Léo Nogueira, preenche um espaço na literatura por onde poucos se esgueiram. Ler as confissões de Isidoro nos põe frente a frente com um mundo sem as afetações cordiais que permeiam a literatice básica dos bons burgueses. Pois a obra é pra poucas cabeças e desaconselhada para estômagos frágeis. Quem a ler sem sacralidades, porém, terá uma rica oportunidade de ver as coisas como são e não sob o véu da hipocrisia.

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PS1: Originalmente publicado no blogue de Escobar (aqui) e no Recanto das Letras (aqui).

Valeu, Escobar!

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PS2: Você tem três opções pra adquirir o livro: 1) entrando em contato comigo; 2) pelo site da Reformatório (aqui); ou 3) na Livraria Cultura (aqui).

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6 comentários:

  1. Se eu morasse aí teria um, mas ainda tenho alguma esperança.

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  2. Parabéns, meu amigo e parceiro. Preciso de um. Como faço?

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    1. Fala, Ito, parceirão sumido! Me manda um e-mail e falamos. Ainda lembra? rs

      Abração,
      Léo.

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