quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Crônicas Desclassificadas: 183) Existe amor no Ibirapuera – assinado: Deus

Cada ano que começa faz renascer em nossos corações a esperança – em nós mesmos e na humanidade. Com o passar dos dias, contudo, esse sentimento vai infelizmente diminuindo, mas por nossa culpa, visto que vamos nos deixando sucumbir ante as porradas do cotidiano. Por isso, antes de ceder a elas, tomado ainda desse sentimento de fé na humanidade adentrei os portões do Parque Ibirapuera pra uma caminhada. Só que dessa vez resolvi caminhar por aquele espaço tão meu conhecido lhe lançando um novo olhar: o olhar de Deus. Invadido por uma magnitude divina, deixei de ser eu e permiti me transformar por alguns minutos em recipiente do Todo-Poderoso. E, vendo por meio de seus olhos, tudo ganhou cores vivas, exorbitantes, que quase me cegaram. O astro rei passou de repente a lançar sobre os espaços em que as árvores permitiam uma luz tão intensa como se ele estivesse ao alcance da mão. Da mão divina, diga-se.

Vi gente de todas as raças, cada um com um sorriso de celebração por estar vivo; pais com seus filhos; muitas pessoas em suas bicicletas – uma delas, cujo antebraço esquerdo não existia, equilibrava-se agilmente com uma mão e o pedaço de braço que lhe restava; muitos jovens com seus skates e patins – uma menina, não conseguindo ficar de pé, a cada queda ria de si mesma, o que me pôs também um grande sorriso no rosto; casais de idosos caminhavam lentamente, como se tivessem todo o tempo do mundo; uma garota tão ruiva que parecia ter um incêndio na cabeça beijava ardentemente o namorado japonês; outro casal, este de lésbicas (ambas com o cabelo raspado), espreguiçava-se sobre a grama como se esta fosse sua cama; outra garota, também deitada na grama, lia gostosamente um livro, e me deu uma vontade danada de saber que livro era... Até que me lembrei de que eu era Deus, portanto, já sabia.

Vi uma infinidade de lindas mulheres: gordas, magras, altas, baixas, umas de shortinho (meu design, né, Poli?), outras de vestido, algumas de calça bailarina, outras ainda de saia, e me deu um orgulho incomensurável por tê-las feito. E disse pra mim mesmo: "Deus, você é foda!" Algumas eram descomunalmente gostosas, já outras eram meio barangas, mas as amei igual, visto que eu era pai de todas e, portanto, eram todas perfeitas a minha imagem e semelhança. Em determinado momento, praticamente retrasei os passos pra olhar sentada em um banco uma morena de generosas coxas, à qual lancei um olhar paternal cheio de sentimento. Foi quando vi que ao lado dela uma mulher que devia ser sua mãe por sua vez me lançava um olhar nada maternal. Sorri magnanimamente e com a mão direita erguida fiz-lhe o sinal da cruz em nome de mim, do filho e do espírito santo. E desviei a vista pra não ver sua mão que já se erguia e devia devolver-me o aceno.

Vi os cachorros correndo tranquilamente ao lado de seus donos, sem medo nenhum nem nenhuma preocupação, exalando uma paz tão pura quanto canina e pensei em como os homens ainda tinham muito o que aprender com os bichos; mas me resignei, afinal lhes dei o livre-arbítrio, e o livre-arbítrio é algo maravilhoso, por mais que traga em si por vezes dor e tristeza. Queria dizer-lhes que o mundo seria muito chato se todos me obedecessem cegamente e não elegessem seus próprios caminhos. E, por falar em caminho, eu mesmo naquela tarde me aproveitei do livre-arbítrio, ora virando à esquerda, ora à direita, ora simplesmente seguindo em frente, e sabedor de que as pessoas que eu iria encontrar e as que não, assim como as paisagens com as quais eu ia me deparar, dependiam exclusivamente de minhas escolhas.

Foi então que senti um calor tão impetuoso que, não fosse eu Deus, ter-me-ia feito sentar pra descansar. Já no instante seguinte senti um igualmente impetuoso vento acariciando meus fartos cabelos (eu era Deus, lembram?), o que me causou uma reconfortante sensação de bem-estar, e entendi que pra tudo ser perfeito era necessário que houvesse os contrastes, e mais uma vez sussurrei um autoelogio. Pensem vocês: eu criei as árvores, que dão sombra e frutos, além de serem majestosas e vigorosas, mas sem arrogância. E tanto que aceitam que indefesos e frágeis passarinhos façam ninho em seus galhos e chamem-na de lar. E vi no chão a terra conversando com o cimento e achei tudo lindo, minha criação em harmonia com a criação dos homens. Assim como era bela a arquitetura das construções do parque dialogando com a natureza. E me deu um baita orgulho por ter criado o arquiteto!

Ali, os seres humanos queriam apenas ter o direito de existir, respirar, conversar e fazer parte do todo. Quem era da atividade física se exercitava, quem não era podia aproveitar a grama pra um belo piquenique; mais adiante, ignorando a inclemência do sol, intrépidos jovens jogavam futebol; um mendigo ali era apenas mais um transeunte; o que não havia era a pressa – mesmo entre os que corriam ou andavam de bicicleta. O relógio não importava, assim como não importavam a religião (e pensando nisso mais uma vez sorri, pois estou acima das religiões), a política, o time de futebol, o sexo, a idade, a condição social... Mesmo os que estavam ali trabalhando ostentavam vitoriosos sorrisos, considerando-se felizardos por terem conseguido trabalho dentro de um esplêndido cartão-postal. E pela terceira vez usei meu santo nome e concordei comigo mesmo que eu era foda!

Perdi a noção do tempo nessa brincadeira. Teria passado ali uma hora, duas...? Não importava, eu era Deus e estava em pleno dia de folga admirando minha criação. A humanidade dera certo. Ri de minha própria piada pensando que eu devia era ter feito do mundo um imenso Parque Ibirapuera... mas eu o fizera! O danado do livre-arbítrio é que o reduzira a esses poucos quilômetros quadrados. É que o filho nunca quer seguir os passos do pai, ainda mais o pai sendo eu, o Pai. Era, pois, ora de eu voltar pra casa e deixá-los novamente ao volante – ou pelo menos pensando que estão, já que uma de minhas brincadeiras favoritas é mudar a direção das estradas. Foi pensando nisso que me vi fora do parque e, cheio de mim por todos os lados, não reparei no motoqueiro que a toda velocidade convergia à esquerda e por pouco não me atropelou. Lançou-me um palavrão, e eu quase respondia, mas em seguida o perdoei, pois entendi que ele não sabia o que fazia.

Foi então que ergui os dois braços rumo a minha celeste residência e exigi a meus alados funcionários que fizessem desabar a chuva. E de repente Deus sumiu e lá estava eu mais uma vez sozinho sob o sol.

***

6 comentários:

  1. Leo você é que é "foda* muito massa", adorei adorei adorei,Foi Rô Castelo quem aconselhou, e já agora pergunto tem intenção de compilar estas crónicas, mereciam um livro, abraço da sua amiga Mi Villela
    * Sabe, que aqui em Portugal foda é um pecado, que dá direito a ajoelhar em cima de feijão e rezar no mínimo 30 Avé- Matias.

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    1. Hahaha! Valeu, Mi! Aqui, foda deixou de ser palavrão faz tempo, afinal não há palavra melhor pra ilustrar nossos dias: aqui tá foda! rs

      Respondendo a sua indagação: não, por ora não faz parte de meus planos uma compilação de crônicas. Até porque estou com um romance novo e seu lançamento é minha prioridade no momento. Mas não descarto a sugestão pra um futuro nem tão longínquo assim.

      Beijos,
      Léo.

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  2. Pois é, Deus! Sua emissária, a Janaína, cuidará dos banheiros do Ibira. Isso sim é divino!!!

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    1. Hahaha! O problema é que Deus não foi informado; ela foi contratada pelos assessores Dele. rsrs

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