sexta-feira, 4 de julho de 2014

Crônicas Desclassificadas: 135) "Chorei, não procurei esconder, todos viram..."

Até bem pouco tempo atrás – eu já tinha vindo ao mundo e na época não passava de um moleque remelento – ainda era comum ouvir por aí a malfadada frase "homem que é homem não chora". Havia até uma canção bastante popular que dizia que "homem que é homem não chora quando a mulher vai embora". Já eu, alheio às ameaças, pivete recém-saído dos cueiros, abria o berreiro ante qualquer situação adversa. Às vezes usava até desse artifício em benefício próprio: quando passava em frente de alguma vitrine cujo brinquedo me chamasse a atenção, em primeiro lugar, tentava sensibilizar minha mãe fazendo cara de pidão. Caso não a convencesse, rolava no chão, aos berros, até que ela, mais cansada que convencida, comprava-me o tal brinquedo. Detalhe: nesse chororô todo, eu não vertia uma lágrima.

Talvez por isso, por experiência própria, eu sempre tenha sido desde cedo um observador atento do choro alheio. Quando via que alguém abria o bocão, a primeira coisa que fazia era olhar bem fixamente nos olhos do chorão, pois assim diagnosticava com mais facilidade se o pranto era verídico ou não passava de farsa. Claro, eu, mau ator, não podia ser enganado por outros maus atores. Futuramente eu viria a descobrir (muitas vezes na condição de vítima) que existiam pessoas capazes de fingir o pranto... com lágrimas nos olhos! E muitas vezes em abundância! Tanto que, não poucas vezes, sozinho no banheiro, fitando o espelho, exercitava-me na arte. Obtive sucesso uma ou outra vez, mas o desgaste era tanto, que percebi que não valia a pena.

Mais futuramente ainda eu viria a descobrir que existem também pessoas capazes de fingir... o orgasmo! Porém, nesse quesito, nunca me senti atraído por aprender. Mesmo porque, quando fingia o choro, fazia-o no intuito de ser, de um modo ou de outro, beneficiado; já fingir o orgasmo jamais me pareceu um ato que trouxesse algum benefício. Claro, sou homem, e, nesse caso, pra nós, homens, a coisa é sempre mais complicada. Já as mulheres, quando são boas atrizes, conseguem mais facilmente convencer o parceiro. E, se o fazem, devem ter lá seus motivos. Sinceramente, não vejo graça em sair dos lençóis com o zero no placar e com ares de vitória, mas, como diz o poeta, cada um cada um. E, como diz ainda outro poeta, "como pode querer que a mulher vá viver sem mentir".

Mas foquemos. Lá se foi um parágrafo em que misturei alhos com bugalhos. Se bem que chorar e gozar têm lá seu grau de prazer. Há quem se compraza chorando como há quem boceje gozando. No mundo há pra todos os gostos. Isto posto, agora sim, voltemos. Dizia eu que até bem pouco tempo atrás o choro masculino ainda era considerado ato vergonhoso. O tempo passou, fomos ficando mais maleáveis (e mais sensíveis?), e, do mesmo modo como a mulher foi se emancipando, o homem foi tirando das costas um pesado fardo, o de ser o único responsável pelo sustento de sua família. Claro, há exceções. Ainda hoje vejo por aí mulheres que não querem sair do século XIX. Exemplos abundam (sic) em nosso país: as marias-gasolinas, as marias-chuteiras, as marias...

Exceções à parte – sempre as há, e é saudável que assim seja, principalmente, como nos casos acima, pros feiosos endinheirados –, as mudanças são sinais de amadurecimento da vida em sociedade. Pensando bem, não sei se amadurecimento seria a palavra certa... Deixem-me pensar... ah, acho que humanização cairia melhor. Sim, humanização! As melhores sociedades são aquelas que conseguem se desenvolver a ponto de entender que todo cidadão, na condição de indivíduo, tem o direito de, em foro íntimo, fazer o que lhe apetecer. E, desde que não cause prejuízo a outrem, também em foro externo, pra usar um linguajar, digamos, advocatício. Assim, os advogados também poderão entender este complexo texto, e não apenas o vulgo. Justiça seja feita.

Vejamos: o piano, por exemplo. Apesar de Beethoven, Mozart, Chopin, Schubert e cia. ltda., monstros sagrados da música que a popularizaram séculos antes do nosso, há cem anos tocar piano ainda era atividade de moça casadoira. Tivéssemos ficado parados no tempo, não teríamos tido Villa-Lobos ou Jobim. E quanto ao samba? Nessa mesma época, era considerado coisa de vagabundo. Quem tocasse violão, então, estava fadado a morrer solteiro. E hoje? Quanto avanço, não? Hoje todo mundo quer ser sambista. Ops! Desculpem, pagodeiro. E em relação aos homossexuais? Vocês acham que não existiam há cem anos? Ó, ingenuidade! No caso destes, a luta pelos direitos foi ainda mais árdua. Ainda hoje há cabeças de bagre que não podem ver um e já vão tascando lâmpadas fluorescentes. Sem falar em negros, correntes de bicicletas e postes...

Mas voltemos aos chorões. Precisei expor uma série de avanços pra mostrar em que companhia estão os chorões. E não ponho aqui uma gota (desculpem) de ironia, visto ser eu um deles, e de marca maior! Já me peguei vendo filmes que odiava que, contudo, no minuto seguinte, por alguma daquelas cenas batidas de dramalhões, levavam-me às lágrimas, ainda que contrariado. Como posso, pois, criticar quem chora? Muito pelo contrário! Tenho medo é dos olhos secos, que quase sempre são portadores também de corações duros. E, sob esse aspecto, apesar de todos os exemplos que citei acima, acho que regredimos. O capitalismo selvagem tem desumanizado tanto o homem, que este voltou a ter vergonha de chorar. Ou, pelo menos, tem chorado na cama, que é lugar quente, e longe das más línguas.

Portanto, caros, queria apenas dizer: deixem os meninos chorarem! São humanos como nós! Claro, com uns dólares ou euros a mais, mas, admitamos, fruto de trabalho, talento, abdicação e dedicação. Vai lá você, ô, sangue ruim e língua comprida, bater um pênalti depois de 120 minutos de jogo e tendo em cima de você os olhos de toda uma nação. Vai! Aposto que muitos borrariam no calção antes de chegar à marca da cal. Ou seja, criticar é fácil, fazer é que são elas. Por isso temos 200 milhões de técnicos e só 11 em campo. Vamos combinar: se algum jogador chorar DURANTE a partida, pau nele! Ninguém vê um caixa chorando na hora em que atende um cliente. Nem médico chorando ao dar notícia ruim aos familiares do doente. Mas nos intervalos do ofício, caros, com a bola parada... Quem é capaz de atirar a primeira pedra?

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PS 1) "Ando tão à flor da pele/ que qualquer beijo de novela me faz chorar."

PS 2) "Chorei, não procurei esconder,/ todos viram, fingiram/ pena de mim, não precisava./ Ali onde eu chorei/ qualquer um chorava/ Dar a volta por cima que eu dei/ quero ver quem dava."


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Encharquei as palágrimas acima antes do jogo Brasil x Colômbia. Oxalá não as tenha vertido em vão.

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4 comentários:

  1. Excelente. É o que penso e comentei no meu perfil. Chorar, pode. Claro que pode.

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  2. Ótima argumentação, Leozito! Adorei seu texto!
    Um beijão,
    Danny.

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    1. Valeu, Dannoca!

      Beijão procê também,
      Léo.

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