terça-feira, 12 de agosto de 2014

Crônicas Desclassificadas: 141) Quando a gente não tem nada pra dizer...

Quando a gente não tem nada pra dizer... aí é que a gente diz. E diz com prazer; diz, e feliz. É que nesse dia tem a alma leve (a alma deve ter feito uma faxina na mente), e a gente mente mentirinha à toa, mentirinha boa, só pra dar risada (que é melhor do que não dizer nada), só pra ver se o outro acredita, só pra ficar bem na fita. O mundo devia ter mais gente sem nada pra dizer... e dizendo. Sem querer, querendo. Falando por falar, o á-bê-cê do blá-blá-blá, o ti-ti-ti, o nhem-nhem-nhem (e o outro louco pra dizer também). Falar faz bem, desopila as veias da amargura, língua bate até que cura a doença do silêncio. E vence-o. Pode ser papo furado, pode ser prosa felina, com quem tá do outro lado, com quem tá ali na esquina. Quem fala não adoece. Falar é a melhor prece.

Quando a gente não tem nada pra dizer... aí é que a gente diz. E pede bis. Diz qualquer coisa que venha à cabeça (antes que esqueça). A piada do papagaio, a piada do português, aqui mesmo eu rio, aqui mesmo eu caio; já falei, agora é sua vez. A gente devia falar mais, mas pessoalmente, frente a frente, cara a cara (coisa já tão rara), tomando um pileque, papo de moleque. Falar é o melhor comprimido. Fala! Sou todo ouvidos. Sobre o tempo lindo que tá fazendo, ou agradecer a Deus se estiver chovendo. Só vendo. Falar por falar é o que há. É o que é. Falar por falhar. Fala, mané! E agora, José? Agora é que é a hora. Outro dia já era. Não aproveitou a primavera, mudou a estação. Pra falar, tem que aproveitar a ocasião. A gente fala, outros ouvirão; a gente cala, nos engole o chão. Ou não. Palavra que não é dita atrofia. Já a palavra bem dita pode ser prosa ou pode ser poesia.

Quando a gente não tem nada pra dizer... aí é que a gente diz. Que nem eu fiz. E faço. Falar não arranca pedaço. E desfaz a carranca. Quando a gente conversa, versa. E até o universo conspira a favor, como um verso, quando é de amor. A gente pode falar de futebol, pode falar de cinema. Não tema! Basta jogar o anzol. Uma palavra chama outra palavra, vira lavra, lavoura, cresce e doura. A gente devia dizer mais "bom-dia", pro vizinho, pro estranho, com carinho sem tamanho. Todo mundo anda com tanta pressa, que nem percebe que falar é bom à beça. Falando, o tempo passa mais depressa, a fila que tava parada anda, parece até que a gente tá falando na varanda. Quem fala tem voz, eu mais tu já somos nós. Eu, tu, ele, somos mais. Fala quem é capaz. Conversar é fumar o cachimbo da paz.

Quando a gente não tem nada pra dizer... aí é que a gente diz. Diz aí você. Em vez de ficar teclando bobagem, abrindo outra tela que é só miragem, viaje! E hoje! Saia pra rua, saia pra praça. Fale com a lua, ouça e ache graça. Quando a gente fica mudo é porque já disse tudo. Falando e ouvindo, o dia fica mais lindo. É como se a gente estivesse lendo ao vivo. Fale, sem qualquer motivo, sem vergonha. Quem fala, fala porque sonha. Falar é grátis. Mesmo que sejam só disparates. É falando que a gente se entende. Cê não fala agora, depois é só... the end. Siga o exemplo das crianças. Falar não cansa. Eu posso falar até abobrinha, mas eu falo a minha e não a alheia. Quando a gente proseia não precisa de Prozac. Pra falar, não precisa ser craque. Duas palavras já formam uma oração. Falar também é uma forma de oração.

Quando a gente não tem nada pra dizer... aí é que a gente diz. Nem que seja pra dizer que o juiz é ladrão. Que fulano é perna de pau, que beltrano jogou um bolão. Que o zero a zero foi normal. Que o Brasil tomou de sete. Que sicrana canta pra cacete. Jogar conversa fora é dar uma dentro. Pode ser no bairro, pode ser no centro. Pode ser no busão, pode ser no metrô. Desliga a televisão, pô! Besteira é melhor falar que ver. Veja você. Pode falar errado, o importante é dar o recado. Se eu troquei o imperativo não é imperativo. Fiz porque tinha motivo. Pra dar ênfase na frase. Ou quase. Falei, tá falado. Mas não tá escrito. Posso, num momento dado, desdizer o dito. O que a gente fala, o vento leva. A chuva lava. Já o silêncio é treva. O silêncio é trava. Falar é a melhor manifestação. Sem parar a Paulista. Com educação. Invista!

Quando a gente não tem nada pra dizer... aí é que a gente diz. Se eu calei, foi por um triz. Quem fala, seus males avassala. Pode ser na sala, pode ser na cozinha. Pode ser até sozinha. Desde que seja em voz alta. Pra falar, um não faz falta. Já dizia um astronauta. Já dizia um terapeuta. E, se não der rima, pode falar até com o capeuta. Pois falando, Deus perdoa. Ainda que doa. Falar é sempre coisa boa. Ainda mais com outra pessoa. E, se for com um estranho, é sempre um ganho. Uma nova experiência. Um bom papo requer paciência. Falar é uma ciência. Mas, além, falar bem é uma arte. Destacar do todo uma parte. Ou mandar a dor ao raio que a parta. O vocabulário é farto. Quem fala não enfarta. É fato. Pra falar, não precisa ser afinado. Basta ser afiado. Em dia útil ou feriado. O papo fútil é o mais sagrado.

Quando a gente não tem nada pra dizer... aí é que a gente diz. Só pra se distrair, pra se desligar. Pode ser com a Pereyr ou com o Adolar. Desliga logo o celular e vamo "se" encontrar! Pra filosofar é bem melhor no bar. Onde dois ou mais estiverem reunidos e com sede de falar... ninguém pode contrariar. Nada é proibido, só silenciar. Pode ser com um mala, pode ser em libras. Quando a gente vibra, nem carece a fala. Pode ser na língua do P, pode ser em esperanto. Eu falando com você, não importa o quanto. Nem o idioma. Quem tem boca vai a Roma. Quem diz o que quer... é mais feliz... do que quem não diz. Pra falar, basta só o ato. Pode ser invenção, pode ser um fato. Pode ser com o cão. Pode ser com o gato. Com uma anta. Ou até com as plantas. E daí que as rosas não falam? Quando calam, é porque escutam. E que as palavras repercutam!

Quando a gente não tem nada pra dizer... aí é que a gente diz. E vá me desculpando. A gente falando, diz quando. Pra falar, a gente encontra tempo. Nem que seja um contratempo. Pra falar, o tempo é sempre a favor. Não fala quando precisa, vai falar com o doutor. Quem fala, seus males cicatriza. Quem avisa, amigo é. Pode ser deitado, pode ser de pé. Pode ser com Zé Luiz. Pode ser com Louise (take it easy!). Pode ser na Luz ou na Consolação. Quem fala faz jus. É um direito do cidadão. Pode ser até chamando Jesus de Genésio. Pode ser na cruz, pode ser no trapézio. Pode ser trepando. Ou interpretando. Se contradizendo. Falar é bom e eu recomendo. Falar com meu bem, melhor ainda. A prosa é sempre bem-vinda. E às vezes termina abruptamente, mas... Oxente! Nunca finda.

***

6 comentários:

  1. Quero escrever uma coisa, quero assistir "aos" Tapas e Beijos e quero dormir cedo e quero ler sua crônica. Aliás, quero ler várias coisas suas; pessoas que empurram, entre outras. Abraços Paulinho das frases

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    1. Aí cê tem que encomendar um clone, Paulinho. Haha!

      Abração,
      Léo.

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  2. Léo Nogueira na veia (não ler véia, apesar da nova Ortô... kkk)

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    1. Valeu, Tatíssimo!

      Abraços ortográficos (rs),
      Léo.

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  3. E tá falado. E faladolar!
    Muita música aí, hein?
    Abraços sempre saudosos

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    1. Valeu, Dodô! Matemos essa saudade, pois. Senão... "saudade mata a gente".

      Abração,
      Léo.

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