quarta-feira, 13 de maio de 2015

Crônicas Desclassificadas: 162) A feliz (e triste) história do Clube dos Feios

No dia em que Batista faliu, sua esposa avisou que estava indo embora com as crianças. Ele, duplamente arrasado, só teve forças pra sussurrar um pálido "Por quê?", ao que ela respondeu, com uma agudeza metálica e cortante na voz: "Não suporto mais sua feiura!" Batista, que estivera casado com a mesma mulher durante mais de dez anos – e tivera um sem-número de amantes durante o período –, ouviu aquilo horrorizado. Sempre se achara bonito. Quer dizer, bonito, bonito, nunca fora, mas era elegante, charmoso, engraçado, espirituoso, alto, atlético e, sobretudo, sempre tivera dinheiro suficiente pra que seus defeitos (os físicos, aclaremos) se mantivessem, se não de todo escondidos, ao menos camuflados. Não teve sequer presença de espírito pra implorar que a mulher ficasse. Nem tinha mais capital pra encabeçar tal negociata.

Ao contrário, preparou uma dose dupla de uísque, subiu até sua suíte, adentrou o banheiro ainda tentando parecer altaneiro com seu roupão de seda e olhou fixamente praquele rosto no espelho. Mais, talvez pela primeira vez na vida o tenha fitado sem a máscara da vaidade e do orgulho. Ficou ali como que hipnotizado por um tempo que não soube dizer se eram minutos ou horas, olhando demoradamente cada marca, cada detalhe de seu rosto, que, naquele momento, parecia o de um estranho. Viu as olheiras, a calvície acentuada, o grisalho praticamente amarelado dos desgrenhados cabelos, a ligeira miopia, o tamanho GG das orelhas, o aduncado do nariz, a finura hipócrita dos lábios, o queixo que praticamente inexistia, e, com o pranto a escorrer pela face, sentenciou: "Tu é feio pra cacete!"

Algum tempo depois, já tendo se desfeito de seu patrimônio inteiro, enfrentado ex-funcionários, processos, advogados, enfim, o diabo a quatro, quando, com o rabo entre as pernas e uma magra mala, voltou pra casa materna, teve ainda que se sentir agradecido por estar vivo e não ter ido parar atrás das grades. Sua mãe, uma anciã viúva, baixinha e de rosto rechonchudo – mas a melhor das mulheres do mundo –, recebeu-o com uma espécie de pranto feliz, abraçou-o demoradamente e, após lhe dar um demorado beijo na face esquerda, à guisa de boas-vindas lhe disse: "Nunca te vi tão bonito como hoje!" Batista a olhou com imensa ternura mesclada com um não menor ceticismo. Erram quando dizem que o amor é cego. Quando muito, o amor é estrábico; cego é o amor de mãe.

Passada a tormenta, Batista foi aos poucos se adaptando à nova vida. A maioria dos amigos nem mesmo lhe atendia as ligações, mas afortunadamente havia o Peixoto, velho amigo dos tempos de faculdade, que arranjou pra ele uma colocação em seu escritório de advocacia. Peixoto, a despeito de seu 1,55 m de altura, sua pança saliente e sua careca reluzente, possuía, sim, um grande coração. Além disso, era frequentador assíduo de um bar muito descolado na rua da Consolação, a duas quadras do escritório. Obviamente, numa daquelas noites levou Batista ali, e, em pouco tempo, este se tornara tão habitué do local quanto aquele. O dono do bar era um tal Neves, um velho mal-encarado, de barba e cabelo brancos, que usava um tapa-olho e soltava uma gargalhada pavorosa. Mas os tira-gostos e as cachaças  eram de primeira.

O bar tinha o chistoso nome de Clube dos Feios, por um motivo categórico: quando Neves se separara, duas décadas antes, indignado com a mulher, que o trocara por um garotão boa-pinta, como numa espécie de vingança contra ela, o amante dela e, de quebra, as mulheres em geral e os homens bonitos em particular, resolvera abrir um bar onde só os feios pudessem frequentar. Era um verdadeiro "clube do Bolinha"; lá mulher não entrava, mas, mais que isso, homem que tivesse o mínimo de sex appeal também não. Com o decorrer dos anos, o local foi se tornando um verdadeiro reduto de feios, solitários, solteirões, desiludidos, suicidas em potencial e toda espécie de mal-amados não só da região, mas de toda a cidade. Não à toa, Batista se sentira em casa.

Mas eis que uma noite, após o expediente, quando Batista e Peixoto lá chegaram, notaram que as luzes estavam apagadas e a porta trancada. Na entrada, um pequeno cartaz, em caixa-alta, avisava, "FECHADO POR LUTO". Um pouco mais abaixo, em letras menores, puderam ler o nome e o endereço do cemitério onde Neves seria enterrado no dia seguinte. No enterro, souberam que o velho tivera um infarto fulminante e morrera dormindo. Alguns dias depois, o bar reabriu. No balcão, no lugar de Neves estava um jovem loiro de olhos azuis, alto, bronzeado e cheio de tatuagens. Era Júnior, filho único do defunto, que morava com a mãe. Como herdara o bar e sabia de sua fama, resolvera mantê-lo, pra alegria dos velhos fregueses.

Contudo, em pouquíssimo tempo foram ocorrendo mudanças radicais no estabelecimento. Júnior, recém-formado em Propaganda e Marketing, investiu forte em divulgação, e a casa chegou a ganhar matérias extensas e empolgadas nos melhores jornais e revistas da cidade. Aproveitando a oportunidade, Júnior resolveu acabar com a censura ao belo sexo, o que se mostrou providencial, pois, após tanta divulgação na imprensa, a curiosidade pelo estabelecimento passou a ultrapassar as fronteiras da feiura masculina habitual. E, acreditem se quiserem: o Clube dos Feios acabou virando um point de paquera. Mulheres de todas as idades e classes sociais começaram a frequentar o local à procura dos "famosos" feios.

Alguns frequentadores antigos, mais turrões e antissociais, reclamaram, mas, como notaram que os novos ventos que sopravam não davam margem a saudosismos, acabaram nunca mais aparecendo por ali. Quanto aos demais, passaram a aproveitar seus 15 minutos de fama. Batista, que após a falência nunca mais havia "pego" ninguém, voltava enfim a seus tempos de glória. Até Peixoto – quem diria? – virou "pegador". O Clube dos Feios, da noite pro dia, se converteu num verdadeiro sucesso. E a maior prova disso foi que, como a casa vivia cheia, Júnior teve a excelente ideia de comprar o estabelecimento vizinho e expandir o negócio. Manteve os tradicionais tira-gostos e cachaças, mas transformou o bar num requisitado restaurante, com direito até a uma generosa carta de vinhos.

Diz o senso comum que tudo o que é bom dura pouco. Esse tipo de senso costuma errar, porém, pra infelicidade de nossos feiosos anti-heróis, dessa vez não errou. Aconteceu o que sói acontecer nessas ocasiões. O boca a boca fez excelente trabalho, e a garotada que costuma sair pra balada com a intenção de se enroscar com um rabo de saia findou por descobrir o pico. E, como não havia mais censura quanto à entrada do sexo feminino, tampouco restara motivo pra que se censurasse a entrada de quem quer que fosse que chegasse ali com grana ou cartão de crédito. Em pouco tempo, a rapaziada bonita e cheia de amor pra dar já competia de igual pra igual com os feiosos de sempre; no entanto, como o mundo é injusto, não durou muito pra que só eles passassem a "pegar" mulher e deixassem nossos tristes amigos novamente à míngua.

Sei dessas coisas porque fui testemunha ocular dos fatos, na condição de frequentador assíduo do bar. Inclusive, travei amizade com alguns de seus frequentadores, entre eles Batista e Peixoto, que me contaram suas malogradas histórias. Durante o tempo das vacas gordas, cheguei a sair com uma quantidade razoável de donas que tinham entre 20 e 50 anos. Hoje? Hoje, quando passo em frente ao estabelecimento e o vejo cheio de gente jovem e bonita, preciso me controlar pra não cair num pranto convulso. O nome do bar continua o mesmo, mas já não se encontra um só feio ali. Quanto a Batista e Peixoto, sumiram do mapa. Dizem uns que seu escritório mudou pro bairro da Pompeia; já outros dizem que encontraram na Mooca um novo bar com as mesmas características do antigo – de quando Neves estava vivo –, mas acho que isso não passa de intriga de gente bonita.

***

8 comentários:

  1. kkkkkkk.....ótimo, Léo!
    Ó, aqui na Mooca, ainda não vi esse bar, não.
    Mas se eu encontrar eu te falo, vai que o Batista e o Peixoto estão aqui.

    Sucesso, tá!
    bjbj

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    1. Hahaha! Valeu, Vanessa! Quem sabe eu não dou um pulo nesse bar. rs

      Beijos,
      Léo.

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  2. Que legal! Salve, os feios e os bonitos também!

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    1. Salve, Valéria! Valeu pela visita e pelo comentário!

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  3. Fantástico!Parabéns por escrever para nós do "Clube dos Feios"
    Beijocas queridão!

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    1. Lucinda, você não entra nesse clube. A não ser que esteja procurando um feio pra paquerar. Hahaha!

      Beijos,
      Léo.

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