sexta-feira, 29 de maio de 2015

A Palavra É: 6) Bicicleta

Eu acho que a bicicleta só existe pra humilhar quem não sabe andar nela. O cidadão vê aquelas pessoas pra lá e pra cá bicicletando tão facilmente como se estivessem respirando... Quer dizer, elas estão respirando. Até porque, se não estivessem, não poderiam estar andando de bicicleta; o que quis foi fazer uma relação entre a naturalidade de respirar e a de andar de bicicleta, traçar um paralelo, manja? Pois bem, voltemos. Um terráqueo que não sabe andar de bicicleta cresce com sérios problemas psicológicos (se sente um ET), porque ele não aprende a fazer um troço do qual outros não se esquecem. Aí, quando ele ouve que isso ou aquilo é igual a andar de bicicleta, "a gente nunca esquece", ele sente deverasmente uma profunda vontade de cair no choro.

A bicicleta é tão humilhante, que, quando uma criança ganha uma, esta vem com rodinhas sobressalentes, que é pra que essa criança não caia pra esquerda ou pra direita quando estiver tendo seus primeiros contatos físicos com ela. Uma vez, Jô Soares falou algo se referindo à motocicleta que bem pode ser aplicado à bicicleta. Ele disse que algo que foi pensado pra ter duas rodas foi feito exatamente pra gente cair dela. Falou isso porque fora motoqueiro, mas, depois da segunda ou terceira vez que caiu da moto, desistiu do hábito. E com moto é até pior, porque ela ganha maior velocidade, mas cair da bicicleta também pode ser grave (e causar uma dor aguda). Eu, particularmente, tenho péssimas lembranças de quedas bicicletais.

Há certas coisas que traumatizam o ser humano. Cair da bicicleta quando você acha que já a dominou é uma delas. Deve ser quase como cair do cavalo, só que é mais chato ainda, porque o cavalo é um animal e às vezes pode ser temperamental, já a bicicleta é uma coisa, e coisas existem pra gente usá-las, daí o cara vai e cai, aí não pode nem botar a culpa no cavalo, porque nesse caso se trata de uma bicicleta (caiu do cavalo!). Antes de mais nada, preciso dizer que eu aprendi a andar de bicicleta, meu problema tem mais a ver com falta de coordenação motora, visto que até quando caminho costumo dar topada nas pedras imaginárias que aparecem no meio de meu caminho. Drummond fez disso um poema, já eu, que sou mais humilde, me contentei em ralar o joelho não poucas vezes.

Na visão que eu tenho de mundo, andar de bicicleta é algo semelhante a nadar, com a diferença de que o mar, apesar de não ser um cavalo, também parece ter vontade própria, não sossega o facho, fica o tempo todo em ondas "num indo e vindo infinito", como na canção, daí que, se você não presta atenção quando está dando suas braçadas, quando pensa que não vê a praia lá na casa do carvalho e tem que dar braçadas outras, ainda mais nervosas, pra voltar ao ponto de partida. Agora, mais humilhante ainda é a piscina, porque aí não tem desculpa, se fulano nada mal é porque é bração mesmo. De modo que acho que o mar está pro cavalo como a piscina está pra bicicleta. A vantagem da bicicleta é que nela você não corre o risco de se afogar. A não ser que você invente de entrar no mar pedalando uma...

Ferreira Gullar certa vez disse que a crase não foi feita pra humilhar ninguém, mas se esqueceu de dizer que o mesmo não ocorre com a bicicleta, que, sim, foi. Vou dar um exemplo: em minhas viagens ao Japão sempre aproveito pra conferir se não esqueci como andar de bicicleta, e sou prova viva de que essa afirmação é falsa, pois sempre esqueço. E a coisa fica mais cômica (pra não dizer dramática) quando estou indo por uma calçada e vejo que vem alguém (igualmente de bicicleta) em minha direção. Você acredita que às vezes paro pra outra pessoa passar por medo da colisão? Quando estou sozinho, costumo andar em linha reta, mas, quando se aproxima alguém, já começo a ziguezaguear. Será que Freud explicaria?

Por falar em bicicleta, aqui em Sampa estamos vivendo tempos de crise ciclística, e tudo porque nosso prefeito Haddad inventou de criar umas ciclovias por aí e a turma do contra exerceu seu direito de ser do contra. Eu sou a favor, embora acredite que não vá me aproveitar delas... pra não atropelar ninguém – nem ser atropelado por alguém. Vide o caso do cara que atropelou um ciclista e, como de tal atropelamento resultou que o braço da vítima acabou parando dentro de seu veículo, não pensou duas vezes antes de jogar o tal braço na Marginal Pinheiros (este parágrafo era pra eu falar de alguma canção sobre bicicleta, mas, como os ventos rumaram pra outro lado, vou terminar este texto com A Bicicleta, canção de Toquinho – e Mutinho – gravada por Simone).

Além da bicicleta, existem o atleta, o alfa e o beta, a coleta, a discreta (e a espalhafatosa, que não rima, mas chama a atenção), a espinha ereta (e outras ereções), o cara que freta, a canção de Álvaro Cueva que fala que "a gaveta que abri me abriu a ferida", cujo "e" da gaveta se pronuncia "ê", mas não podemos descriminar a rima por isso, além do mais ela entra no mesmo caso da historieta, mas não no de quem injeta, mas também tem a jaqueta, a luneta, o maneta (que deve ter mais dificuldades que eu pra andar de bicicleta – que eu sempre insisto em digitar bicileta), a neta, a opereta, o pateta (mas não o Mickey), a moça que fica quieta, a reta, a seta (e o alvo), a teta, quem veta (e quem faz vendeta), o xereta, o zureta e tantas outras palavras que rimam, mas não se classificaram pra esta crônica. Ah, sem falar num dos apelidos do órgão sexual feminino.

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PS1: Minha amiga Eliane (aquela da "cabeça", lembram?) gostou da brincadeira e resolveu repetir a dose. De supetão, virou pra mim e falou pra eu escrever um texto sobre bicicleta. Acho que vou começar a cobrar...

PS2: Trilha sonora — Simone, A Bicicleta (ToquinhoMutinho)



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6 comentários:

  1. Hahahaha! Léo, e eu, que nunca aprendi a andar sobre duas rodas? Nunquinha! Eu andava numa bicicleta com as tais rodinhas sobressalentes, e meu pai até tirou uma delas, e eu tinha bastante desenvoltura. Mas algo aconteceu que eu parei. E, ao contrário do que dizem, eu esqueci!
    Quando resolvi pegar numa magrela pra aprender de uma vez por todas, via sempre algum vizinho e morria de vergonha!
    Conclusão: nunca aprendi! Bicicletas foram mesmo feitas para humilhar a gente. Fato!
    Beijos,
    Danny.

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    1. Hahaha! Né não, Danny? Eu, particularmente, me dou melhor com as crases. rsrs

      Beijos,
      Léo.

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  2. A bicicleta, tb, me humilha, assim como o mar, não Omar, esse nem sei quem é. Piscina, então! Tem a pele o cabelo...enfim...essa prisões femininas.
    Cavalo????? Sou moça da cidade. Gostava daquele que ficava girando. Ainda gosto. Mas o povo estranha gente do meu tamanho...mentira...gente da minha idade em cima de carrossel.
    Mas na verdade, vou aprender. Sim! Pelo menos a bicicleta. Os outros deixo pra próxima encarnação, ou o próximo prefeito, né! Vai saber....

    Leozinho! Beijão e sucesso!

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    1. Vanessinha, como disse, sou totalmente a favor da bicicleta e, consequentemente, das ciclovias. E sou tão favorável que me furto ao desejo de usá-las, em respeito à integridade física dos outros ciclistas. Hahaha!

      Beijos,
      Léo.

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  3. Bicicleta! Humilhação pura. Não tive uma. Meu irmão ganhou uma... usada.... que ficava cadeada nos fundos da casa... onde eu fingia que andava bicicletando por infinitos lugares, no período em que ele estava na aula. Era proibida de me aproximar dela. Tive só uma experiência bicicletística na vida, mas foi adrenalina pura. Num passeio na casa uns parentes de uma amiga... bem longe da família (UFA) A brincadeira era ir a pé ao topo da lomba, que parecia ser o pico do Everest pra mim e esperar o próximo amigo com a unica bicicleta.. subir nela e descer ao Deus Dará... feito carrinho de lomba... Vida loka! Mas não caí. Só que tinha que vir alguém pra buscar a bike, pois não me arriscava a subir ... só descer. :)

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    1. Hahaha! Talvez por isso você tenha virado poeta, Anja. Das palavras a gente não cai, né? rsrs

      Beijos ciclísticos,
      Léo.

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