segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Ninguém me Conhece: 82) Folk na Kombi – nos levando em frente

Existem sujeitos que parecem ter nascido com o, digamos, traseiro virado pra lua. Tudo em que se metem acaba dando o maior pé. Meu querido parceiro Bezão sem dúvida nenhuma é um dos mais bem acabados exemplos desse tipo de sujeitos. Conheci-o há muitos anos numa das noites autorais do Clube Caiubi, quando ainda funcionava em seu primeiro endereço, na rua homônima. Nessa época, Bezão era um dos integrantes do Rossa Nova (que contava ainda com Juka e Xamã), um trio que fazia um som que poderia ser classificado como uma renovação do rock rural. Não à toa, era apadrinhado pelo saudoso Zé Rodrix, um dos expoentes (juntamente com Sá & Guarabyra) desse movimento musical que explodiu na década de 1970.


Na época, o Rossa Nova era apenas mais uma das tantas bandas que se apresentavam (ou se formaram) nas noites autorais caiubistas. Só que, ao contrário das demais, o Rossa possuía um profissionalismo e uma dedicação que faziam toda a diferença. Aqui, é bom acrescentar que não estou entrando no mérito da qualidade artística. Em geral, as bandas caiubistas eram muito boas (eu mesmo fiz parte de uma delas, o extinto 4+1), mas, apesar de as canções serem excelentes e seus membros talentosos, pairava sobre elas certo amadorismo que sempre foi a marca do clube como um todo, ou seja, a questão do gerenciamento das carreiras. Já o Rossa Nova se encontrava num patamar acima e naturalmente colheu os frutos do que plantou.

Em pouco tempo, o trio já havia conquistado uma legião de fãs, tocava em algumas emissoras de rádio, aparecia vez em quando em programas de tevê e lotava casas de espetáculo não exatamente pequenas. No entanto, como tudo na vida tem um ciclo, o do Rossa cumpriu o seu justamente quando se encontrava ainda numa escala ascendente, o trio se desfez e cada um foi cuidar de sua vida. Reflitamos: se já não é fácil a manutenção de um casamento, que conta com apenas duas pessoas, imaginem a dificuldade que uma banda encontra pra enfrentar a barra dos anos. O desgaste é natural, cada membro idealiza projetos próprios e, quando o consenso deixa de existir, o encerramento dos trabalhos coletivos passa a ser questão de tempo.


Pelo menos, o Rossa terminou pacificamente. Tanto que os três são amigos até hoje. Eu acompanhava razoavelmente de perto o trabalho dos rapazes, que eram meus colegas de clube, mas, apesar de flertar com eles em direção a uma parceria, esta nunca havia vingado. Com o fim do grupo, aproximei-me de Bezão, que ensaiava um voo solo, e finalmente a parceria nasceu, e de modo tão natural que pareceu até que compúnhamos desde sempre. Nesse período, Bezão estava em estúdio gravando seu primeiro trabalho solo. Só que ele tem nas veias, assim como eu, o germe da coletividade. Daí que esse hiato durou pouco, e, quando soube notícias suas, lá estava ele arregaçando as mangas e apostando as fichas numa nova banda. O tal disco solo teria que esperar.


Surgiu então o Folk na Kombi. Não sei se o novo trio nasceu já com esse nome, o que posso dizer é que, mesmo se o trabalho dos rapazes da kombi fosse uma droga (o que não é nem de longe o caso), só o achado desse nome, marqueteiramente falando, já lhes teria garantido uma bela de uma exposição. No entanto, mais que um acertado projeto de marketing, as experiências reais costumam gerar boas ideias. Afinal, marketing pode render alguns frutos, mas quando não há um conteúdo pra além da prancheta de um marqueteiro, a coisa não costuma ir longe. E longe foi justamente aonde foi o Folk, pois a rapaziada resolveu encarar a experiência de cair na estrada com a kombi (que era do pai de um dos membros) e, mais que isso, transformar o veículo praticamente num quarto integrante.


De lá pra cá, muitos anos – e quilômetros – depois, a quantidade de realizações desses três artistas (que são, além de Bezão, Felipe Camara e Fernando Jonavo) é de tirar o chapéu. O auê que os caras armaram no cenário musical brasuca não encontra paralelo nos dias atuais. De quebra, depararam-se com outros malucos que surfavam na mesma onda e acabaram fazendo parte de um grande movimento que extrapolou as fronteiras de Sampa e encontrou eco num sem-número de palcos, como eles gostam, estrada afora. Inclusive, durante um tempo organizaram encontros semanais no pequeno, mas charmoso, Brazileria, espaço musical e gastronômico localizado no bairro paulistano da Pompeia.


Só que a bola de neve cresceu, o público foi aumentando, e a trupe resolveu aportar num espaço maior, o Piratininga Bar, que fica no boêmio bairro paulistano da Vila Madalena. Lá, todos os domingos rola o Sunday Folk. Mas, voltando ao grupo, sei que não existe fórmula pro sucesso, mas obviamente alguns elementos ajudam bastante, e no caso deles posso enumerar muitos. Vamulá: são três rapazes bonitos e talentosos que possuem um repertório vibrante capaz de animar até os dias plúmbeos que vivemos; são, mais que bem-humorados, engraçados mesmo, qualidade que é um espetáculo à parte; contam com uma banda de apoio formada por instrumentistas que são grandes feras; segundo algumas fãs com quem conversei, eles são de uma simpatia ímpar no trato com o público; e por último, mas não menos importante, são amigos mesmo e possuem uma baita química no palco. Tá bom pra você?



Pra finalizar, resta dizer que seu primeiro trabalho, o DVD Um Filme de Músicaé de um capricho de encher os olhos (e ouvidos), o que acaba sendo quase um problema pra eles, pois quando se começa com o pé direito a responsabilidade aumenta em relação ao trabalho seguinte. E então chegamos à sexta-feira do dia 7 de outubro do ano da graça de 2016, mais exatamente no Auditório Ibirapuera, onde estive pra assistir à gravação de um DVD ao vivo, nova empreitada dos rapazes da simpática kombi vermelha, e, como testemunha ocular, posso tranquilizá-los, pois eles estão no caminho (e com o veículo) certo. Não por acaso, um dos convidados, Zé Geraldo, uma lenda viva de nosso cancioneiro, rasgou o verbo e afirmou que, após anos de solitária carreira, finalmente encontrou nos moços sua turma. É pouco?


Falando em turma, deixo registrado aqui que se a kombi enguiçar e precisarem de um empurrãozinho, podem contar com este humilde escriba e sincero admirador. E, roubando um verso do mestre, "evoé, jovens à vista"!



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Presentinho – Bezão no Na Minha Casa, de Adolar Marin:


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6 comentários:

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    1. E você é nossa camisa 12, Vanessinha! rs

      Beijo,
      Léo.

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  2. Brother Léo, parabéns pelo seu lapidado texto!
    E, da mesma forma, muitos parabéns aos rapazes do "Folk na Kombi".
    Àqueles que buscam na Arte a maneira mais sincera de ser, merecem todo tipo de apoio e incentivo!

    Abraços gerais,
    Busta

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    1. Grande Busta!

      Fecho contigo e não abro!

      Abração,
      Léo.

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  3. Muito legal teu texto, Léo. E as canções são lindas!
    Beijo.

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    1. Valeu, Soninha Santista! E dá-lhe Porco!!! rs

      Beijos,
      Léo.

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