terça-feira, 18 de setembro de 2012

Crônicas Desclassificadas: 51) Neologismos, blogues e outras blogagens

Divulgando o texto sobre Ayrton Mugnaini Jr., grafei a palavra blogue, assim, aportuguesada, como tenho o hábito de fazer já há algum tempo. Meu camarada Carlos Lindberg, abismado com tal impropério, escreveu-me um espirituoso e-mail de resposta, no qual grafava shopingue, marquetingue, rot-dogue, entre outros neomonstrengos, pra me fazer ver meu disparate. Pois bem, achei que era chegada a hora de filosofar um pouco sobre essa deliciosa questão. Como a maioria sabe, trabalho como compositor, mas, como o salário dos direitos autorais não basta pra pagar meus excessos, tenho como hobby (passatempo, lembram?) ser revisor ortográfico nas horas livres. Assim, é do alto de minha "patente" que redigo, digo, redijo as desalinhadas linhas abaixo.
Sou cearense, e, embora Celso Viáfora afirme que "cearense não é tudo humorista", tenho, sim, as quatro patas no humor, com bastante farinha na acidez e rapadurada ironia. Sim, conheço alguns cearenses sem nenhuma graça, mas não sou exceção à regra. Nem poderia, pois basta olhar no espelho pra ter que conter o ataque de riso. Ademais, como já farolei, sou compositor, gosto de criar, e, como a galera que veio antes de mim já escarafunchou bastante, restou-me usar e abusar das palavras que aí estão, que, aliás, aceitam tudo caladas, mesmo quando as violamos (ou violonizamos).

Nunca fui, entretanto, amante da Linguística, apesar de ter tido uma maravilhosa professora cearense, apaixonada, intelectual, que falava várias línguas em cearensês (ô, Vivi, quede tu?). Sem embargo (ou com), o que não aprendi de um jeito, esqueci de outro, daí que tudo multiplicado pelo quadrado da hipotenusa deu uma rima com Vanusa. Falando sério, antes de me tornar um universotário, sempre achei que, em se tratando de língua, existiam o certo e o errado. Os professores deram um nó em minha mal-ajambrada, jurando de pé junto (mas com figuinhas) que, não, eles não existem. O que existe é a ocasião, que, pelo que aprendi, faz bem mais que o ladrão.

Assim que, desde aquela fatídica noite em que me tiraram o véu... Ui! Melhor trocar isso aqui! ... viseira! Isso! Retrocedendo (rendendo-me nunca), desde aquela fatídica noite em que me tiraram a viseira, escoiceei, mas tive que admitir que a língua também está sujeita a chuvas e trovoadas (a porradas, então, ni hablar). Muito do que hoje parece estranho amanhã vai soar perfeitamente natural, do mesmo modo como hoje dizemos/grafamos restaurante, abajur, bangalô, muçarela, chope, uísque, conhaque, champanhe... Ops, esses exemplos estão ficando um tanto etílicos...

Mudemos, pois! Um exemplo imbatível e bem mens sana in corpore sano é uma pentelha palavrinha de três letras: gol. É, gol. É, sei que ela antes já atendeu por goal, mas acabou driblando todo mundo e virou gol mesmo. Essa danada é tão ímpar, que deu um nó nos gramáticos, dicionarizou-se e hoje pode se autoproclamar a única de sua espécie que, em língua portuguesa, não possui o "o" aberto. Ou seja, é a única oxítona terminada em "ol" que não se pronuncia "óu" (ou "ól", como prefiram). Tá muito complicado? Exemplifiquemos: sol, girassol, anzol, cachecol, farol, lençol, formol, espanhol, futebol e blablablá (eu sei, tem hífen, mas aqui mando eu!)... e o dandado do gol lá, golaço (mas em breve terá a companhia do roquenrol)!

Pois bem, assim que a teta assus... digo, os ouvidos assustados de hoje serão amanhã tão receptivos quanto se estivessem recebendo, em lugar de palavras, beijos. E os verdadeiros responsáveis por tudo isso não são os linguistas (meros arquivistas), é o povo, a massa, a plebe, a ralé, a patuleia, a turba, o vulgo, o populacho, a súcia, a escória, a gentalha, a malta, a matula, a patuscada, o povaréu, a comezaina, a escumalha, a cáfila, a caterva, a bagaceira, a manada, a pândega, a falange, a canalha, a cambada, a galera, a tchurma, a rapeize, eu, tu, eles... é nóis, mano!!! 

Daí que não adianta espernear. Em duzentos anos (se o mundo não acabar em dezembro) Machado terá que ser traduzido ao português corrente. Afinal, se a parada tá irada, relaxa e goza, tu perdeu, pleibói! Mas sugiro que não somatize nem maximize, afinal, mesmo um camarada linkado no lance de vez em quando precisa deletar tudo, descontinuar, becapear a memória, reinicializar-se e, mais que se acostumar, customizar-se! E nem adianta blogar com o futuro, há que se resumir um Joyce a uma tuitada, objetivando a metrossexuabilidade do ser enquanto pessoa, capíxi?

Portanto, meu caro Lindberg errou em seus neologismos, afinal, mesmo o caos tem alguma regra, e, no caso, muito vem da sonoridade, assim que não será shopingue, mas xópim; não será marquetingue, mas márquetim; você bateu na trave com o rot-dogue, mas eu ainda optaria por um delicioso rotidogue, pois já temos problemas demais com o hífen. De modos que meu blogue pode fazer mal pra vista, mas, sonoramente, não é nenhuma poluição sonora. E, embora Aurélio esteja em cima do muro, Houaiss tá dominado! 

***

Por falar em dominado, e pra descontrair um pouco (mais?), emendo de bonus track uma sinopse sui generis de A Cartomante, do velho Machado:

"Vilson e Maicon eram brous. Vilson vazou, caiu no mundo, fez facul, meteu canudo nas ideias, repaginou, casou com Boniclaide e voltou pra city. Vilson vivia no miserê, mas descolou um trampo concursado e se fez. Bico doce, enquadrou Boniclaide, pôs a mina no bolso e alugou pra eles um apê na ZL, pras horas de tchun e tchá. Boniclaide era meio bíblia e botava fé em mãe de santo, vidente, cartomante, baú da felicidade, atendente de telemárquetim e o escambau. Maicon era metido a nerd e ria da loirice dela, embora achasse a mina o seu número. Vilson andava meio sem prosa repetida pra trocar, até que deu cagaço em Maicon e este esqueceu no frízer o CEP do ex-brou. Tempos depois, recebeu um emeio dele, que dizia: "Pinta em casa acelerado, preciso levar um papo reto contigo". Entrou no boteco, passou a régua numa branquinha e foi como quem diz phodeu. No meio do caminho tinha uma blitz, tinha uma blitz no meio do caminho, assim que ele muquifou o carro de quebrada e continuou a pé (já tava na área). Passou em frente da casa de uma cartomante, vacilou... Entrou. Comprou a ideia que tava procurando, pagou em queche e saiu, cheio de love pra guive. Chegou na casa de Vilson, "satisfação", o outro nem tchuns, pegou-o pelo braço e levou até a sala onde Boniclaide jazia finalizada. Maicon nem teve tempo de soltar um PQP, tomou dois pipocos nas ideias e já era."

rsrs, vlw, blz, t+, bjs e xau.

;)

10 comentários:

  1. Leo, depois de ler teus escritos, o meu bróder Ontõe Çoaris colou com o amigo Uóxitu Jéquinçon e o lero terminou em discussão sobre se maizena seria grafado com "s" (maisena) ou com "z" (maizena)... a pendenga só foi resolvida pelo oportuno palpite etimológico de um terceiro mano de nome Uinston Xúchio, o qual esclareceu que o nome provem do hispânico "maiz", fato que legitima o maizena com "z". Isso torna a manjadíssima (nos dois sentidos) "maizena" irmã siamesa da nossa "milharina". E fim de papo.

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    1. Lindberg, meu velho! Pela lógica devia ser assim, mas vária palavras mudam do espanhol pro português, não sei por quê. Agora quanto aos nomes, não mudam, né? Ô Lindibergue! Hahaha!

      Abração do
      Léo.

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  2. OI Léo!
    Assinalando que adorei seu texto( novidade) e estou encaminhando o link para uma amiga coordenadora de uma escola. Ela ama trabalhar seus textos e contentos com os alunos.
    E eu sou "Doida por você" ..."Doida,eu?(nem tanto)

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    1. Ô, Lucinda, que notícia boa! Valeuzaço!

      Beijão do
      Léo.

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  3. Muito bom, intrigante e esclarecedor rsss!

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  4. "Golzaço!" :))
    Gostei tanto da sinopse da cartomante!
    :)

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  5. oi, leo, andei futucano a neti e deparei com essa page. e mais,axo q essa urtima frô dos lassos=tíbios percisa duma revisão mais ampra e que considere as novas ferramentas digitau de escrevê, cuma us com puta dor. isprico: é muito xato ece negoço de fica apertano shift pra iscreve as maiuscula e pra batê acento, dai que pisoteio a norma curta sem com pro meter a semantica em bora isteje mandano a sintaxe pra home do carai. é o futuro chegano, meu rei, us minino tudo ta nessa. abra ção, meu amigo, oce inscreve bem pra k7. auf der sehen.

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