quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Crônicas Desclassificadas: 52) Às palavras, com amor


Às vezes acho que não existo, sou apenas palavras. Eu escapo pelas palavras, escoo pelas palavras (ecoo palavras). Vivo impregnado de palavras. Acho que sou mesmo é um poço de palavras ("aquele poço não tem fundo..."). Palavras vãs, palavras vivas, lavras de palavras, lavas de palavras. Palavrões, palavrinhas, enfim, palavras. Limpas ou sujas, puras ou putas, blasfemas ou bentas, sedentas. Palavras que explicam meus pensamentos, meus questionamentos, fixadas em meu cérebro como cimento, palavras que, por me caírem bem, têm o maior cabimento!

Tudo o que tenho, as palavras que me deram. Quando aprendi que as letras formavam palavras, um mundo novo se abriu ante mim (o chão?) e me engoliu. Nesse mundo novo, virei devorador de livros, que estão cheios de palavras, e fiquei impregnado deles (e delas). As palavras que li me levaram a ser um escrevedor de palavras, um inventador de palavras, "dissecador" de palavras, alfaiate, cozinheiro, montador, mecânico, motorista, médico de palavras. Noivo de palavras. Gigolô de palavras. Quando estava sem ter o que fazer, as palavras vieram em meu socorro pedindo-me que as socorresse, e assim me fiz revisor.

Melodias me procuraram em busca de palavras e me fiz compositor. Ou melhor, letrista (e só depois fiz Letras). Com tal ofício, aprendi a ser maestro de palavras que fazem amor com melodias (sem preservativo!). E palavras que ficam ali, deitadas e desnudas, à espera de uma melodia. Fiz ramos de palavras, remos de palavras, rimas com palavras, mudei o rumo de palavras, palavras me levaram a Roma! Minha mulher veio até mim em busca de letras pra suas melodias e acabei lhe dando as letras de meu nome.

Emano palavras (hermanas palabras, hermosas palabras...), transpiro palavras, piro com as palavras, paro o que estou fazendo pra brincar com palavras. As palavras que invento inventam pessoas que por sua vez me reinventam. Minhas veias são um rio onde palavras correm rumo ao mar de meu coração-palavra. O que seria de mim sem as palavras? E o que seria das palavras que não escreveria? Palavras-gametas que não fecundaram páginas em branco ou melodias órfãs? Morro de medo de perder o dom da palavra. E se der branco na hora H?

Mas as palavras não se me deram completamente. Só por escrito. Impressas. Escritas umas, rasuradas outras, todas. Porém... de minha boca elas não fluem assim tão facilmente. Na hora de falar, engasgo com as palavras, penso numas e saem outras, depois uso ainda outras pra consertar as que me saíram e as pioro. Falo palavras gagas (palavras gagás), palavras tronchas, palavras sem sustança, palavras no susto. Palavras que não me representam nem me explicam. Palavras que me complicam. Palavras que não me respeitam e ainda assim só a mim dizem respeito. Palavras pelas quais tenho que arcar com as consequências (lembram-se do "tudo o que você disser pode e será usado contra você?"). Palavras que me traem à medida que nelas confio. Palavras que levam abaixo minha autoestima, palavras que levam o sangue a meu rosto. Palavras que só me dão desgosto!

É uma vergonha como elas fazem isso comigo, eu, que sou seu senhor, que sou seu amor, que vivo em função delas a ponto de delas ser escravo. Daí, na falta de sabão, lavo a boca com álcool. E sou obrigado a me calar, pra não meter os pés-palavras pelas palavras-mãos. E, mudo, volto às que me respeitam, às que, não saindo de minha boca, saem por meus poros quando as escrevo. A elas tudo devo. Não nego. E pago diariamente, embora saiba que vou morrer em dívida com elas. Certa vez, uma amiga, apresentando-me a alguém, traduziu-me: "A gente não dá nada por ele, mas como escreve!"

Mas as palavras não me bastam, e saio a roubar palavras em outras línguas (em outras bocas?), daí traduzo palavras, confusas palavras, palavras com outro fuso, palavras com um parafuso a menos, palavras de mais, palavras anormais, paranormais, psicografadas, ou simplesmente grafadas. Palavras garfadas ao pé da (mesa-)letra. As palavras me fizeram insone. E quando, finalmente, durmo, sonho com elas, que me despertam pra escrevê-las. As palavras me melhoram. As palavras me salvaram de pôr um ponto final no livro de minha vida quando se deixaram seduzir por mim e me entregaram o que têm de mais precioso. E com todas as letras!

Olho-me no espelho e não me reconheço. Faltam as palavras. Elas não estão ali (embora estejam em mim). Miro meus traços, meus braços, o membro flácido (esperando, por sua vez, também escrever), os cabelos que não decidem se vão ou se ficam, a carne em excesso que esconde o abdômen... Homem, como não me reconheço! As canelas finas, a unha encravada, a pele asquerosamente branca, os olhos míopes e astigmáticos por ousarem ver o mundo com outros olhos. Eu não sou aquele. Eu não sou aquilo. Um monte de carne e ossos em excessivos quilos. O cara que vejo não merece palavras! E ainda assim elas se entregaram a mim e não àquele bando de galãzinhos (que, no mais, não saberiam o que fazer com elas...). Isso me deixa tão emocionado, que não quero nem saber se elas se entregaram a mim por amor ou por pena. Foi por isso que resolvi dedicar estas palavras a elas, as palavras. A quem juro fidelidade eterna. Até que o último suspiro me leve de mala e cuia a morar com meu derradeiro amor, a pálida dama cujo nome prefiro calar...

... e fim.

***

12 comentários:

  1. Estou ficando repetitiva de tanto falar bem de ti he he
    Dessa vez vou fazer mais do que simples palavras.Vou postar na minha página do Caiubi. Uma homenagem a suas palavras que sempre me fazem tão bem.

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    1. Valeu, queridona! Mas ponha o link, pro povo visitar aqui também!

      Beijos do
      Léo.

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  2. Muito bom, maluco!
    Prista

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  3. Parceirinho, acho que minhas palavras se perderam no ciberespaço... Então, repito: lindo!!! Posso fazer minhas suas palavras?
    Beijão de outra apaixonada por elas!

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    1. Dannoca, as palavras são que nem o primeiro samba: estão no ar, são de quem pegar. Hahaha!

      Beijos,
      Léo.

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  4. Posso colocar no Bom Dia ? Muito bom.

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    1. Inclusive no Boa Tarde e no Boa Noite!

      Abraços,
      Léo.

      P.S. Faltou se identificar.

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  5. Nunca pude navegar em um mar de palavras,mas dessa vez...a viagem foi longa e emocionalmente cheia de gratidão, pela sensação de experimentá-las em meu interior...Quanta beleza!!!...

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    1. Oi, anônima(o)!

      Grato pelas palavras. Qual é a sua graça?

      Abraços,
      Léo.

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  6. Que a Natureza sempre lhe abençoe com sopros de beleza indiscritíveis tais como as palavras que você reuniu acima...
    Primo, morro de orgulho e de saudades de você, viu!
    Beijos,
    Aurinha.

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    1. Primorosa, que saudades!

      Que bom te saber por perto, ainda que virtualmente! Espero que nos encontremos em breve.

      Beijãoão,
      Léo.

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