segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Crônicas Classificadas: 26) Gritaria

No primeiro dia ela chegou assustada, assim como um bicho acuado que entra pela primeira vez numa jaula do zoológico, os olhos procurando pr'onde olhar (ou onde se esconder). Possuía uma qualidade rara de timidez, dessas de quem já tomou porrada da vida, mas não perdeu a pureza, pelo menos foi isso o que imaginei ver em seus olhos (e eu confio muito mais no que dizem olhos que bocas). Parecia tudo menos revisora minha nova colega de trabalho.

Fiquei contente, pois com os dias reparei que ela não fazia parte do extenso grupo de profissionais que fizeram curso pro sucesso, leem autoajuda e tratam o colega como rival. Enfim, eu teria paz pra trabalhar. Formamos mesmo uma boa equipe, e ela tirou de meus ombros o excesso de peso dos dias anteriores.

Certo dia, a título de aprovação, disse-me, com aquele olhar que não mira, que lia best-sellers. Meio como quem confessa que teve meningite quando criança. Absolvi-a (como se eu tivesse o poder de), afinal não era lá um crime tão grave. Disse-lhe que ler best-sellers fazia parte do processo, que era uma fase. Quando subisse dois degraus estaria curada (ou trocaria aquela doença por enfermidade maior).

Só que aí ela me disse que escrevia contos. Isso foi demais! O preconceito que mora em mim deu sinal de alerta. Afinal, que contos esperar de uma leitora de best-sellers? Contudo, minha genteboíce a incentivou, disse-lhe mesmo pra fazer um blogue, citando meu exemplo. Daí ela se animou. E me enviou um conto pra que eu o lesse... Medo!

E, como sói me acontecer (que chique!), mordi a língua. E senti prazer nisso. O conto era ótimo, todo estiloso, e, melhor ainda, não tinha absolutamente nada de best-seller em sua estrutura. Agora, quando eu voltei à carga e lhe falei a respeito de criar um blogue, era verdade, não apenas coleguismo.

Dias depois ela me enviou o link do Antiácido Floral (foi este o nome que escolheu pra seu blogue). Fui lá dar à tapa a cara. E que tapa, rapaz! Deparei-me com um belo apanhado de contos dos mais variados. E todos escritos com um estilo próprio de quem é do ramo. Depois fiquei sabendo que ela também é dada a leituras mais consistentes, como Lygia Fagundes Telles e o velho Guimarães, por exemplo. Aí estava o x do poema, digo, da questão!



Daí que, pra dar uma força pra moça, resolvi postar um daqueles contos aqui, justamente o primeiro que ela me enviou. Ah, detalhe: o título, que não havia, foi sugestão minha. Modéstia às favas, acho que acertei. E, aproveitando que hoje é seu aniversário, digamos que seja este meu presente, na falta de um melhor. Quanto às críticas, deixo pra dia menos balzaquiano.


Gritaria
Por Liliane Alves


... adentrou no consultório pisando leve feito gatuno, olhando dos lados, meio desconfiado, boné tirou logo na porta, arrumou o cabelo amassado, cabeça estranhando nudez. O doutor o chamou para sentar, ao menos não era mulher, se fosse ia ficar acanhado, pois pensava que essa tal de psicologia, que o compadre dissera ser médico que conversa, era só mulher que estudava, ouvir as desgraças dos outros, bem sabia do que se tratava e achava até que a patroa dava uma boa psicóloga, considerando quanto tempo ficava de conversa no portão com as vizinhas, uma dor de barriga, um filho com febre, um chifre doído, um marido no bar, e era a patroa que as mulheres procuravam pra chorar, e Preta ouvia tudo com calma, com cara de conselheira. Nem ele tinha paciência, que quando chegava do futebol e o almoço atrasado, ou quando o time perdia em casa com roubo de juiz, aí queria era mandar as vizinhas, a mulher, queria mandar era tudo pros ares. Mas Preta tinha culpa não, era mulher inteligente, ele bem sabia, ela iria longe não fosse a falta de recursos financeiros, pois era assim que rico falava, recursos financeiros, porque ele mesmo falava era pindaíba, sem nenhum, dureza, vendendo o almoço pra comprar a janta, é... não fosse por isso sua Preta estava longe, usando roupa de shopping e montando escritório em área nobre.

Foi sentando na poltrona meio sem jeito, logo viu que era material de qualidade, pois, sim, se gabava de reconhecer pelo cheiro, mesmo que fossem poucos os carros que chegavam lá na oficina com banco de couro, assim cheiroso, quis elogiar, mas ficou acanhado, antevendo o que o moço ia pensar, ia pensar que ele estava de olho, que procurava coisa de valor pra voltar com malandro depois, que tinha gente lá na vila que fazia isso, oh, se tinha, pois não, mas como ele ia explicar que era pobre, mas era honesto? Bem certo que na saída do jogo já pegara neguinho de paulada, organizava torcida desde a adolescência, e tinha culpa se subia o sangue de ouvir alguém xingando seu time? A patroa era igual, que ninguém podia falar na hora da novela das nove, era briga na certa, emburrada e virada de costas na hora da cama, que às vezes era até bom, mas só quando a patroa virava de dengo, quando virava de raiva não tinha beijinho nem nada, que a mulher era brava, filha de retirante, dura e teimosa feito mula, e em mulher ele não batia não, era só chamego, era comprar vestido novo e levar pro forró, era sim. Nem quando tomava uma branquinha no bar do Alceu ficava violento, se tomava era porque às vezes tinha gritaria na cabeça, gritava o pai morto no beco, a mãe magrinha cheirando a tabaco, o ronco bonito do carro na avenida principal, o filho morto no ventre da Preta, morto no bucho e ela carregando sem saber, e era tanta gritaria que só a branquinha na goela, o papo camarada no balcão, a vitória no bilhar, e ia ficando tudo mole, turvo, aconchegante.

Sabia não por que estava ali. É que era programa de governo, de graça a gente se anima. Mas dor de corpo tinha não. Nem nó nas lombrigas, nem barriga-d'água, nem dor de dente ele tinha, pois não, que já tinha perdido tudo, oh, seu dentista, a mãe não ensinou que tinha que escovar todo dia, e lá em casa era tudo assim, de janelinha, doía era só arrancar, era assim não? Pois não era, e a Preta um dia chorou vendo o tal do sorriso branco da empregada doméstica da novela. Oh, Pretinha, empregada do morro tem cabelo assim ajeitado, não, nem pele lisa, nem dente branco, empregada de morro morre no morro sem sonho realizado. Mas a Preta chorou tão largado que ele até queria juntar algum pra dentadura branca da Preta, pois não era?

O compadre disse pra começar do começo, e ele estava era com uma vergonha danada de falar, falar o quê? Pois foi no dia do jogo, e olha seu doutor, que o time ganhou de lavada, é que no meio ali da torcida foi lhe dando um sufoco no peito, destoou, desafinou, a mão que segurava a bandeira amoleceu, quê que é, Zé do Breque, tá desmiolando? E não é que estava? O grito do hino morreu na garganta, foi se afastando, fingindo embriaguez, e meio em câmera lenta, entre empurrões, cheiro de suor, bebida, fogos de artifício, foi saindo. Não tinha visto na capa do jornal que o craque do time ganhava era meio milhão? E o Marquinho ajudante dizendo que ganhava também, pois cortava a espiga em duas pra dividir com a patroa. E era carro de luxo, duas loiras no banco de trás, e ele de chinelo de dedo levando paulada da rota, guardando dinheiro de comida para ingresso, bandeira, rojão. E foi voltando desanimado, antes do jogo acabar, a barriga meio vazia, carona no ônibus, chegada à vila. Pensou que tivesse comido lanche estragado no seu Manoel, mas dias passaram e o sufoco no peito só fez aumentar. E caminhava lento pela rua de terra, olhava longo para os meninos sujos, o córrego escuro, o barraco estragado desabando em dia de chuva, era certo? E voltavam os gritos, a mãe velha morrendo na porta do hospital e a Preta fazendo novena para o filho do cantor sair vivo do acidente, e não é que saiu? Moço forte, fosse ele, tinha saído não. E foi um ano assim, de buraco cavando no peito, passou Natal, Ano-Novo com cerveja e churrasco no quintal e Preta de vestido branco não cansava de perguntar o que tinha o Preto, que não comia, braço sumindo nas mangas, era maleita, macumba, amante?

Pois foi quando saiu na estrada, resolvido a fazer perversidade, pé descalço, camisa aberta no peito, pinga amargando na goela, era só esperar, fazer encrenca com a pessoa errada e a Preta vinha chorar seu corpo no dia seguinte. E foi quando encontrou o compadre, chorou sem vergonha de embriaguez, era só desgosto, mais nada. Aí o compadre, que tinha influência em fila de benefício social, encaixou o nome José Frederico Neto, que Breque era só apelido da oficina. E estava ele ali, sentado na poltrona de couro, consultório limpo do doutor de caneta bonita no bolso da camisa branca. Sabia o que dizer, não. 

***

Visitem o blogue da moça e leiam outros contos. Recomendo. O link é este.

6 comentários:

  1. Num sabia nem começar, mas tinha tanta história pra contar

    ResponderExcluir
  2. Respostas
    1. Grato, anônimo! Volte sempre!

      Abraço do
      Léo.

      Excluir
  3. Uauuuu agora entendi seu convite, a moça é das boas mesmo.
    Mesmo se você não tivesse dito que entre Best-Sellers, mil, ela era leitora de Guimarães e de Lygia eu a teria reconhecido entre 250 contos.
    Você sabe da paixão que nutro por eles, em especial por Guimarães, e pude perceber a influencia da linguagem de Rosa em um emaranhados de palavras que formam um delicioso texto.Ao longo da narrativa fui visionalizando o cenário,as vezes, tendo a impressão de estar ouvindo a fala do personagens,ou seria o pensamento dele?
    Liliane poderia vir para o Caiubi e se preparar para fazer parte de nossa próxima (bem próxima) coletânea de contos.
    Beijos e sucesso!
    Adoro ser presenteada por seus convites.


    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sabia que você ia gostar, Lucinda! Liliane é uma pedra preciosa! Vá lá no blog dela e verá!

      Beijos,
      Léo.

      Excluir