quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Crônicas Desclassificadas: 182) Os pintinhos e as xoxotas de Clarice Falcão

Pouca coisa me abala. Não tenho a hipocrisia de me dar ares de constrangimento ou afetação ante qualquer coisa que me digam ou mostrem. Se eu estiver encarando, por exemplo, um delicioso filé e algum desavisado vier me contar uma piada escatológica, vou gargalhar (se a piada for boa) ou mostrar meu riso amarelo (se não for) e, na sequência, continuar concentrado no que realmente importa: meu filé. O pé que tenho no conservadorismo talvez resida em minha declarada inveja da geração atual. Mas não me refiro a nada que ela tenha de melhor que a minha – nem de pior, deixemos claro. Aliás, não vou cair novamente na armadilha de entrar numas de guerra geracional; quando digo inveja, é em relação às liberdades que a geração atual tem que a minha não teve. Assim, é hora de dizer que o vídeo de Clarice nem me abalou. Voltarei a ele alguns parágrafos abaixo, por ora só quero dizer que ele me motivou a escrever sobre um tema que foi quase tabu pra galera de minha geração: o sexo.

Simbora! Em primeiro lugar, o sexo em si. Eu quebrei o cabação (Kana adora essa expressão) já entrado nos... nos... X anos!!! Naquela época, isso era um perrengue! A maioria de nós tinha que recorrer a profissionais do ramo (só adianto que não foi meu caso). E isso depois de três ou quatro visitas ao estabelecimento, que era quando já podíamos sentir certo ar de familiaridade. O simples beijo na boca, por exemplo, não era esse troco de bala que é hoje. Pra vocês terem uma ideia (e quem tiver minha idade ou for um pouco mais velho que eu há de recordar), quando eu estava no ginásio era costume chamar de vagabunda uma garota que beijasse mais de um cara durante o ano letivo. Sim, leitores! Um simples beijo! E nem precisava ser de língua, bastava que fosse um selinho! Hoje em dia, selinho é que nem aperto de mão. Durante uma noite de balada, neguinho beija mais na boca que os maiores pegadores de minha época... durante um ano inteiro!

E, se entrarmos num um assunto mais complexo, que é o da homossexualidade, então, aí era um verdadeiro trauma! Atualmente, o homossexual já ganhou alguns direitos; claro, a batalha ainda está longe de ser completamente vencida, mas são raros os casos em que alguém é despedido (ou não consegue emprego) pelo simples fato de sua opção sexual não ser a da maioria (maioria?). Mas nem sempre foi assim. Hoje, a expressão "sair do armário" pode não ter sentido algum, mas já houve época em que isso era uma batalha de tons épicos, com direito a deserdação, bullying (então, esse nome não era moda, mas o bicho pegava em trocentos tons de vermelho!) e o escambau. Vou contar um pequeno caso a respeito: tive um chefe que diziam ser homossexual. Ele negava, mas, certa vez, durante um Carnaval, alguns fulanos que trabalhavam comigo o viram travestido, trouxeram o assunto à baila, e o coitado teve que pedir demissão pra não ser demitido por justa causa.

Eu tive uma severa educação católica, e ser católico então era algo mais cheio de regras (não pode isso, não pode aquilo...) que ser evangélico atualmente. Acredito que até hoje ruborizo por bobagens devido a algum trauma de infância. Nudez era coisa do outro mundo. O primeiro nu frontal feminino com o qual me deparei acho que sucedeu quando tinha uns 12 ou 13 anos... E pra mim foi um choque! Ver aquela perereca cabeluda (sim, leitores, sou dessa época...) numa Playboy da vida me deu muito mais medo que tesão, tal era o rigor de minha criação. Fomos educados a enxergar a nudez como algo abominável. Tive até um amigo (cujo nome não revelarei, por discrição) que me confessou depois de alguns meses de casado que tinha verdadeiro nojo de sexo oral – quando ele era o ativo, acrescentemos. Porque, quando ele ficava olhando pro teto enquanto a esposa mandava ver, aí tudo bem...

E quanto à masturbação? Diziam que causava espinhas no rosto e fazia crescer pelo na palma da mão entre outras coisas. Era pecado gravíssimo! A coisa era tão séria, que, quando eu acordava "melado" após uma condenável polução noturna (o que era frequente, dado o grau de minha pureza), era normal ajoelhar e pedir perdão pra Deus por algo com o qual eu, na impossibilidade de pensar, sonhara. Lembro que a primeira vez que brinquei com o bigolau e cheguei a um orgasmo, sozinho no banheiro durante um demorado banho, nem pensava em garotas, simplesmente tomava contato com o próprio corpo; e a ejaculação me deixou horrorizado, como se eu vertesse um pus de alguma ferida. E, vejam só, quando acabei, corri pra contar a meus pais que meu bilau tava dodói. Imagino que, se fosse hoje, eles teriam pensado: "Inocente, sabe nada..." Recentemente, li que a masturbação até faz bem pra saúde, além de ser remédio certeiro contra o câncer de próstata.

Veem, caros leitores, como não foi fácil ser adolescente em minha época? O acesso a filmes pornográficos, por exemplo, dependia da (pouca) generosidade da programação da tevê aberta na madrugada. Nossa maior amiga era a Rede Record (hoje, pertencente a pastores evangélicos!!!), que passava umas pornochachadas bem chinfrins em algumas madrugadas frias. Peitos e bundas então eram uma escassa visão do paraíso pra uma geração de jovens impúberes. Só algum tempo depois viria o videocassete, que traria com ele novo constrangimento: o de ir até as videolocadoras e esconder os pornôs alugados ensanduichados entre um filme de ação e um de terror. Ainda agora, enquanto escrevo, lembro-me do riso sarcástico de algumas balconistas, que nos olhavam como se fôssemos aberrações. E nós éramos apenas virgens querendo bater uminha sem fazer mal a outrem...

Já a galerinha de hoje se acaba na internet sem dar satisfação a seu ninguém! E ainda me vêm ter a cara de pau de criticar a pobre da Clarice Falcão? Tá, convenhamos, se tem uma coisa que ela não é é ingênua. Quando pensou no clipe, sabia exatamente que a boiada ia mugir (ato do qual eu também faço parte por meio desta ana-crônica). E sabia que é boa propaganda inclusive quando falam mal de nós – ou mandam aquele papinho de "Quem é Clarice Falcão?". Que é melhor que quando não falam nada. Em meu caso, ainda sigo frustrado por meu livro não ter ganho na imprensa nenhuma crítica negativa (nem positiva). Particularmente falando, gosto dela, acho-a boa atriz (sobretudo humorista), letrista interessante de suas despretensiosas canções que, se não são "a nata da MPB", ao menos não ofendem nossos neurônios. E, mais, o fato de as canções serem falsamente bobinhas as torna melhores.

Por essas e outras, não venho aqui defendê-la nem absolvê-la. Ela é adulta, vacinada, e é culpada, sim, de ter feito o tal clipe; mas quando digo culpada quero dizer antes responsável (ou irresponsável) no sentido mais brejeiro da coisa. Teve feeling marqueteiro, usou-o, falaram dela, e bem ou mal isso lhe vai trazer dividendos. E o mais engraçado é que talvez futuramente venham a se lembrar dela pelo revolucionário que foi esse lance de ter tido a ousadia de realizar um clipe praticamente infantil com nus frontais (né, Lúcia?). E, pra finalizar, venho pedir desculpas gerais em nome de minha geração, pois, sim, deve ser ela que anda escandalizada com esse clipe fofinho, mas por puro despeito ou, pior, inveja. Inveja por não ter tido a sorte de ser jovem nos dias de hoje. E tudo o que escrevi acima a corrobora. Quanto a mim, embora admitindo minha parcela de culpa, defendo cada vez mais pirulitos e pererecas e menos ódio e intolerância... e, por que não?, inveja.

***

PS: Pensei em trazer o clipe pra cá, mas ia ser inútil, pois ele vem sendo banido de todos os sites que abrigam vídeos. Mas não há de ser nada; sei que, se vocês quiserem com força, vão encontrá-lo. Ah, e quase ia esquecendo: Feliz Natal a todos, conservadores e progressistas; petralhas e coxinhas; pintinhos e xoxotas; etc e tal...

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8 comentários:

  1. Achei legal elogiar os dotes de compositora dela, eu tambem e nao me acho uma aberraçao por isso :))) o clipe é tecnico até na tosqueira

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    1. Né, Sonk? Nem só de Guingas vive a canção brasileira. Se o que de pior tivéssemos fosse a Clarice, isso aqui seria um paraíso musical.

      Abraço,
      Léo.

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  2. Corajosa a sua declaração, Leozito, de ter iniciado sua vida sexual "entrado nos anos"... :-P Quanto às composições "falsamente bobinhas", eu devo ter perdido alguma coisa nos últimos tempos que não me torna capaz de reconhecer a genialidade intrínseca da "compositora" medíocre que precisou - e fez uso - desse manjado ardil, como cortina de fumaça pra encobrir a puerilidade e esterilidade - musical e literariamente falando - de sua "obra". AH!! Texto de leitura deleitosa, como sempre!

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    1. Colo a resposta que te dei no face:

      Cavinha, cê anda muito sério. Nem toda música precisa ser "cabeça". A proposta musical da moça é essa, com sinceridade, aproveitando a veia humorística. Acho seu "puerilidade e esterilidade" um carimbo pesado demais pra ela, com tantos por aí merecendo. E, por último, não desvirtue minhas palavras! Escrevi "entrado em X anos". Nesse caso, o X da questão (pra não dizer do poema. rs) faz toda a diferença na equação. Bom Natal aí, mano, daqueles que fazem a paz penetrar (ui!) nos corações. rs

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  3. Bom ler seu texto e constatar que você não se assustou com tantas perecas e pintos se balançando ao som de uma canção "ouvível". Confesso que achei tão bobinho (o vídeo) que não entendi tanta gritaria. O que me surpreendeu vou ver a Clarice Falcão tão destemida, certeira e marqueteira.Beijos e feliz natal!

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    1. Né, queridona? Num ano de tantas aberrações, esse clipe foi, como disse alguém, marolinha. rs

      Beijos e feliz ano-novo!
      Léo.

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