sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Cançonetas: 3) "A Flor do Meu Amor", por Kléber Albuquerque

Alguns amigos têm me criticado por deixar de lado a música, que é (ou deveria ser) o foco principal deste blogue, pra tratar de assuntos espinhosos (e polêmicos), como a política. A estes eu respondo: ora, meus caros, tudo é política! As relações humanas, sejam elas de foro privado ou público, estão impregnadas de política. Diria mais, viver é um ato político, a não ser que você seja um ermitão (e nesse caso não estará lendo agora as perfumadas abobrinhas expostas nesta feira virtual xispoemística). Portanto, e mais uma vez lembrando grandes bordões políticos, relaxem e gozem, sejam vocês alckmistas, lulistas ou outroístas.

E, querem saber? Fazer música também é um ato político! Quem não acha que One Direction é melhor que os Beatles sabe que arma letal foi a música nos negros tempos da ditadura (não só) brasileira... e continua sendo, embora hoje haja outras infoformas de calá-la. E por isso estamos aqui, num ato político, dando voz (e vez e vazão) aos calados. Afinal, "parceirar" também é um ato político, pois, quando fazemos canção com alguém, mostramos um posicionamento musical perante a classe artística (e, por que não?, a sociedade em geral). Mas parceirar, acima de tudo, é um ato de amor. As grandes parcerias não vingariam sem o amor que nasce da cumplicidade.

A lenga-lenga acima foi apenas um preâmbulo pra dizer que amor e política são como álcool e limão nessa caipirinha que é a música. Hummm, talvez a comparação não tenha sido das mais felizes (nasceu apenas porque justamente agora, enquanto escrevo estas mal-lavadas, sorvo uma), poderíamos dizer arroz com feijão, café com leite, pão com manteiga, pipoca com comédia e mais uma infinidade de duplas batmanrobinísticas que sua mente possa juntar...

Enfim (ic), não nos dispersemos. Falava eu do amor e da política, o que me lembrou uma canção de um parceiro que (embora jure que não sabe falar de amor) sabe tanto dessas coisas (tanto quanto eu, pra que não caiamos na armadilha de ambíguas - e redundantes - dubiedades vãs), que até tratou de ambas numa, esta, que tem o felicíssimo título de Só o Amor Constrói: "Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura/ Porque só o amor constrói, mas depois cobra a fatura/ Com juros das juras que fizeste por mim/ Com multas das muitas loucuras de amor/ Que, eu sei, por você cometi/ Mas por que pagar com mal um bem assim?/ Guarda teu rancor, já não basta o que sofri/ Com o desprezo que me deste em pagamento/ No dia do vencimento do teu amor sem fim?"

O responsável pela canção acima, pra quem não sabe, chama-se Kléber Albuquerque, e não foi à toa que o meti nesse balaio de gato, foi porque ele lança seu mais recente (e recomendável) CD, 10 Coisas que Eu Poderia Dizer no Lugar de Eu te Amo (que tem tudo a ver com o tópico, diga-se de passagem), no próximo e sagitariano dia 6 no Centro Cultural de São Paulo, gratuitamente e em horário nobre: 21h. ... e achei que poderia ser uma forma de amor (e política, já que estamos tratando de ambos), divulgá-lo aqui, justamente (pra quem não percebeu ainda) numa coluna que se chama Cançonetas, que trata de sonetos musicados. E lembrando que soneto é uma composição poética surgida na Itália de séculos atrás (geralmente decassílaba) estruturada em 14 versos e que costumava tratar de... amor!

Assim, quando enviei a Kléber o soneto abaixo, A Flor do Meu Amor, ele, sabedor disso, musicou-o (lindamente, como é de seu feitio) com ares praticamente medievais. Mas agora, que a propaganda já foi feita, já justifiquei (será?) o texto, já acabou a caipirinha, só nos resta ir ao que viemos, no que são todos bem-vindos. Pra terminar, gostaria apenas de enfatizar que todas as vezes que escrevi aqui a palavra "política", fi-lo como sinônimo de, segundo o Houaiss, "cerimônia, cortesia, urbanidade". Sem falar que política também tem significação muito próxima a delicadeza. E é munido de tal delicadeza que lhes presenteio a flor do meu amor:


A FLOR DO MEU AMOR
Kléber Albuquerque - Léo Nogueira


O meu amor é taça de cristal
A um gesto brusco, parte em mil pedaços
Mas vale muito mais que o vil metal
Que veste Armani e despe amores falsos

É que o amor em mim é natural
É sombra andando ao lado dos seus passos
É, no seu colo, um mar gerando sal
É lenha ardendo em brasa nos seus braços

No céu da sua boca, é lua cheia
Pra fome dos seus beijos, santa ceia
Aos pés da sua cruz, é Cirineu

Então, meu bem, você não se distraia
Senão, viro as geleiras do Himalaia
Quem rega a flor do meu amor… é o seu

***


4 comentários:

  1. Que gentileza este texto, parceiro! Fazia um tempo que não ouvia esta nossa cançoneta. Reouvindo-a agora me dei conta de quanto ela é bonita...

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    1. As bonitezas, quando querem existir, existem quase que independentes de nós, não é, mano Kléber? Continuemos assim, enchendo o mundo delas.

      Abração,
      Léo.

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  2. Oi Léo! Belo Texto! Linda canção! Só pra saber como vim parar aqui... O curioso é que não foi pelo seu link. Hj morreu Joelmir Beting, alguem postou um video: Joelmir Beting, a canção de Kleber albuquerque...Gostei muito e procurei o perfil dele. Lá estava a publicação do x do poema: Cançonetas! Mundo pequenooo! Valeu!

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    1. Oi, Anja! O mundo tá cada vez mais pequeno, não? Ó, te passo o site do Kléber, lá dá pra você ouvir outras canções e ter mais informações sobre ele: kleberalbuquerque.com.br

      Beijão do
      Léo.

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