domingo, 14 de agosto de 2016

Crônicas Desclassificadas: 177) O traje do defunto

Foi apenas de relance. Mais um pouco e lhe teria passado despercebido. Contudo, a imagem ficou fixada em sua mente e passou a visitá-la com frequência, como um fantasma inofensivo, mas inconveniente. Chegou mesmo a sonhar com ela, que, mais que uma imagem, já era meio que uma visão do além, o que lhe gerava inúmeras indagações. Como o traje do defunto marido tinha ido parar no corpo esquálido daquele mendigo? E logo depois do sacrifício que tinha sido se desfazer de tudo o que pertencera ao esposo pra finalmente tentar viver sua vida em paz, sem tralhas do passado que levar a tiracolo na alma. Sim, amara-o com todas as suas forças e até com a justa abnegação de uma esposa de respeito, mas abrira mão de muitos sonhos, muitos projetos, e ainda era razoavelmente jovem pra ir atrás deles agora.

Por isso se desfizera de todas as coisas do defunto: livros, roupas, pequenos pertences em geral... até as fotografias havia queimado. Doou tudo o que tinha algum mínimo valor pra uma instituição de caridade; o caminhão saíra de sua residência abarrotado. Tanto que, da primeira vez que pisou os pés na casa depois disso, sentiu-a vazia, fria, nua. Mas também nova; agora ela podia enchê-la novamente, mas de coisas suas, apenas suas e de ninguém mais. Os filhos estavam crescidos, casados e bem-encaminhados na vida; seria a primeira vez que ela, que sempre fora uma esposa à moda antiga, zelosa e do lar, teria oportunidade de respirar livremente, sem o menor traço de obrigação com o que quer que fosse. Mas tinha que ver essa cena?


Estava num táxi, voltando de uma consulta médica de rotina. Aliás, o defunto marido tinha sido médico também, e era justamente sua roupa de trabalho que ela vira de passagem sendo usada por aquele mendigo. Inclusive, os sapatos brancos. Como ela tinha tido certeza, visto que roupas de médico são todas iguais? Por um detalhe quase insignificante, mas que lhe chamou a atenção: ela própria bordara no bolso da camisa do esposo as iniciais do nome dele em dourado, e lá estavam elas dourando o peito do mendigo. Não chegara sequer a reparar nele, apenas o traje grudara em sua memória. Teria sido miragem? Efeito dos comprimidos que tomara pela manhã? Precisava resolver isso de uma vez por todas, caso contrário não poderia dar continuidade a sua vida de viúva alforriada.


E foi assim que resolveu voltar ao local onde havia visto a quixotesca figura. Lembrava-se da rua, passava ali com frequência, sempre de táxi; só que dessa vez resolvera voltar ali a pé, conversando consigo mesma enquanto caminhava. Estaria ficando louca? Seria o marido um tirano tão cruel que até mesmo depois de morto vinha se meter em sua vida, atrapalhando seus tão adiados planos pro futuro? Ela não tinha o direito de fazer o que quisesse dessa oportunidade que o destino lhe dava agora pra recomeçar de um modo diferente? Não tinha sido ela a mais fiel das esposas? Claro, como todo mundo tivera seus sonhos e fantasias, mas soubera escondê-los muito bem num baú que guardava fechado a sete chaves no canto mais recôndito do coração.


Virou a esquina e sentiu o coração congelar. Lá estava ele, e com a mesma roupa, embora vários dias houvessem passado desde a primeira vez que o vira. A sujeira acumulada conspurcava o até então imaculado branco do traje. Só então reparou no rosto do mendigo, um jovem magérrimo, alto como o marido, mas de cabelo rastafári e cor indefinida pelo excesso de sol e pela falta de banho. Contudo, com uma vassoura de piaçava banguela varria o metro quadrado da calçada que chamava de lar. Num canto, restavam ainda um papelão aberto em forma de cama, um esmolambado cobertor, uma mochila cor de burro quando foge, alguns livros sebentos e um surrado violão. Ela foi se aproximando devagar, sem saber ao certo se diminuíra a marcha por não querer chegar ou pra prorrogar uma espécie de mórbido prazer que não admitia sentir.


Não conseguiu desviar os olhos daquele penetrante olhar enquanto deixava cair umas tantas moedas num chapéu que havia no chão ao pé dele. Era quase bonito, se é que podia sobreviver alguma beleza naquela precária condição de existência. Sentiu um arrepio cortar-lhe a carne como uma lâmina afiada quando ouviu o som de uma voz gutural lhe perguntar: "A madame está precisando de uma consulta?" Ainda pôde reparar nuns incríveis dentes brancos que se revelaram num sorriso que se abriu num rosto entre malicioso e encantador. Não teve presença de espírito pra fazer outra coisa que não fosse apressar o passo e sair de perto daquele sujeito quase em disparada. Levou consigo a lembrança do par de olhos azuis que davam aparência de quadro àquela pele escura.


Mais tarde, já em casa, deixou-se ficar uma eternidade dentro de uma banheira da qual nem lembrava mais a última vez em que tinha entrado. O calor da água que lhe beijava o exterior do corpo em contraste com o frio do vinho branco que ela sorvia e que penetrava seu interior lhe causaram uma espécie de choque térmico que a deixou tonta. Ou teria sido o álcool fazendo efeito? Permitiu que a dúvida pairasse no ar enquanto um prazeroso estado de torpor não evitou que grossas lágrimas rolassem de uma face que já fora bela e agora lutava numa batalha perdida contra o avanço implacável do tempo. Explorou seu corpo lascivamente, deixando que esquecidas sensações o visitassem. Um gemido intenso e postergado escapou de seus lábios. A fera acuada, vendo a jaula aberta, evadia-se.


Já não restava mais praticamente nada de branco naquele então encardido traje que outrora pertencera ao morto. A vassoura de piaçava banguela interrompera repentinamente seu contínuo movimento, como se a realidade houvesse sido capturada pela lente de uma câmera fotográfica. Até o vento que espalhava as folhas da calçada dera uma trégua, não sem antes ter virado as páginas de um livro que, ao que tudo indicava, era de poesia. Talvez pela tensão do momento, uma corda do violão arrebentou, chicoteando os tímpanos do mundo. Seus dentes brancos não apareceram, escondidos atrás de um sorriso que não deu o ar da graça. Os olhos azuis estavam novamente fixados nos dela, sem piscar, no entanto tinham algo de estupefação. Aquela formosa senhora, com 24 horas de atraso, tinha acabado de responder "sim" a sua pergunta.


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